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Francisco Abrunhosa: “Com o êxito deste III Encontro, a responsabilidade aumentou, mas estimulou-nos, a mim e à Adriana, a pensar já na quarta edição”

Francisco Abrunhosa
Francisco Abrunhosa

O 1 de abril celebrou-se o III Encontro Minho-Galiza, esta vez do outro lado do Minho, no auditório de Goián, em Tominho. Neste ano 2017 o mote foi a música e o debate girou em torno às “palavras que ela transporta na relação com a interculturalidade e com a identidade da língua”, em palavras da própria organização, e incluiu as atuações de Ses e Pedro Abrunhosa.

O projeto surgiu dois anos há por parte do alunado da Universidade do Minho com o apoio do Centro de Estudos Galegos (CEG) da UMinho.

Teresa Crisanta Vasques Pilhado entrevistou Francisco Abrunhosa, mentor e coorganizador do evento para o PGL

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Quais são as razões que estão na origem deste projeto?

Quando frequentava, em 2015, as aulas1 de Representações Interculturais, com o professor Carlos Pazos, e de Literatura e Cultura Galega, com o leitor Fernando Groba, ambos galegos, tornou-se-me muito mais claro que o Minho e a Galiza são dois territórios que partilham língua, cultura, um imaginário e muitas manifestações artísticas, já que, embora estejam hoje politicamente separados, durante séculos foram uma mesma região. Foi a partir daí que começou a germinar a ideia de provocar o encontro entre pessoas de ambos os territórios, promovendo debates, organizados mas descontraídos, entre especialistas/profissionais/investigadores convidados e um público, dos dois lados do rio Minho, interessado em temas culturais e artísticos, visando o reencontro e procurando perceber como o passar do tempo e as fronteiras mentais, muito mais que as fronteiras políticas, influenciaram ou ainda influenciam a diluição de laços, o desconhecimento e a indiferença entre as nossas gentes, deixando perder-se um valioso património comum: será possível voltarmos o nosso olhar uns para os outros e reconhecermo-nos mutuamente, fazendo cair velhos estereótipos criados para nos separar?

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Qual foi, então, a origem e a história destes Encontros?

No âmbito académico do último ano de licenciatura2 da Universidade do Minho (Uminho), ainda em 2014, foi-nos proposta a elaboração de um trabalho de grupo – um Projeto de Intervenção Cultural. Eu e a Adriana Silvério, juntámo-nos e elaborámos este projeto. Sabendo disso, o Centro de Estudos Galegos (CEG) da Uminho3, na pessoa do referido leitor Fernando Groba, logo nos propôs abraçá-lo, connosco, tornando possível a sua realização. O teatro foi o mote escolhido para esse I Encontro Minho-Galiza, de 2015. Chamou-se Oficina (obradoiro) de Teatro Galego – cuja formadora foi a atriz e dramaturga Vanesa Sotelo, de Vigo –, e decorreu em Braga, no Baixo-Minho de Portugal. Colhida a experiência adquirida nesse I Encontro, em que a presença galega foi pouca, o II Encontro foi, então, já organizado na Casa Museu de Monção4, junto ao rio que nos une, tentando, embora sem o sucesso desejado, atrair mais gente da sua margem direita; teve como temática o cinema, com vários especialistas convidados, galegos e portugueses – Manolo González, documentarista da Academia Galega do Audiovisual, Diana Gonçalves, documentarista luso-galega, e Nelson Zagalo, professor e investigador da UMinho em media interativos. Porém, agora, além da coorganização com o CEG, nós, os dois alunos mentores, já em mestrado, propusemos e passámos a contar, também, com o apoio e a coorganização do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura e do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade (MCAC/CECS)5, através dos professores Helena Pires e Albertino Gonçalves, apoio que veio valorizar o projeto.

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Que balanço fazes desses dois primeiros Encontros?

No caso do primeiro Encontro, que tinha uma componente dupla, de palestra/debate e de formação, e era dirigida a pessoas interessadas ou envolvidas com o teatro, contou com uma adesão que se limitou a nove pessoas, durante dois dias, a quem foi possível perceber e discutir a realidade teatral galega, interagir mutuamente em exercícios performativos e, principalmente, encetar amizades e um novo olhar entre pessoas dos dois territórios que até aí não se conheciam. No segundo Encontro, a interação com o cinema e o audiovisual de ambas as regiões, foi apresentada e discutida entre cerca de sessenta participantes e convidados, parte deles alunas, alunos e professores da UMinho, que se deslocaram propositadamente a Monção para o II Encontro e que, não menos importante, conviveram durante um animado piquenique realizado nos jardins da Casa Museu de Monção e, ao final da tarde, numa visita guiada ao Museu de Cinema de Melgaço Jean Loup Passek, restando, uma vez mais, quer o consolidar, quer o iniciar de novos olhares entre iguais que até aqui se desconheciam. Tratou-se e ainda se trata de um começo, sem intenções demasiado arrojadas ou apressadas quanto ao reencontro entre culturas.

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E este ano, como foi a organização e divulgação do III Encontro Minho-Galiza?

Para o Encontro Minho-Galiza de 2017, contámos com a mesma equipa organizativa: nós, alunos, mais os professores dos Centros de Estudos e do Mestrado, já atrás referidos. Propusemos-nos atravessar o rio, passando do Alto-Minho português para o Baixo-Miño galego, onde fomos aliás recebidos de braços abertos pela Alcaldesa do Concelho de Tomiño, Sandra González, e a Vereadora da Cultura, Cristina Martinez, que nos disponibilizaram, generosamente, o auditório da Parroquia de Goián, um importante apoio logístico e ainda o apoio de dois técnicos do Concelho. Decorreu a 1 de abril, passado, e o mote escolhido para debatermos com o público presente foi a música e as palavras que ela transporta na relação com a interculturalidade e com a identidade da língua. Quisemos aproximar-nos ainda mais, em 2017, para atrair os e as galegas, sem mudarmos de território cultural; resolvemos apostar em trazer ao III Encontro duas pessoas que potenciassem a adesão de participantes: a Ses (Corunha) e o Pedro Abrunhosa (Porto), dois vultos da música contemporânea de ambos os países, que prontamente se disponibilizaram a contribuir com a sua presença para enriquecer o debate. Quanto à divulgação, como nos anos anteriores, colocámos e distribuímos um cartaz e uma folha volante em vários locais da Uminho, enviámo-los também para Tomiño, e publicamo-los nas redes sociais e blogues; demos entrevistas nas rádios locais, nós em Braga (RUM)6 e Fernando Groba em Tui (RMT)7, além da divulgação feita pelo próprio Concello de Tomiño, na sua informação cultural. Esta divulgação teve eco em algumas revistas e jornais online e mesmo na imprensa escrita de ambas as regiões, quer antes, quer, principalmente, após a conferência de imprensa que, essa sim, aconteceu pela primeira vez, convocada pela própria UMinho, decorreu no campus de Gualtar, em Braga: a repercussão pública desse trabalho foi claramente maior do que nos dois anos anteriores.

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Como decorreu o Encontro em Goián-Tomiño?

Sobre o decorrer do III Encontro, começando pelo ponto onde estava, sobre o Pedro Abrunhosa e a Ses, ambos cantores e compositores, partilharam o palco no III Encontro Minho-Galiza da parte da tarde, às 16:00 h, participando de uma animada conversa sobre a cultura e identidade que caracterizam a singularidade das referidas regiões. O papel da língua na afirmação da identidade cultural, na sua relação com a criação musical, as diásporas, a galega e minhota, o recente fenómeno de emigração dos jovens em Portugal, foram algumas das questões levantadas. O debate foi moderado por um professor da UMinho, antigo Jornalista dos jornais Expresso e Público e tocador de acordeón, Joaquim Fidalgo (Porto), e Fernando Pena, um português que vive em Braga e está muito ligado à Galiza pelo lado materno. Pedro Abrunhosa foi intercalando as suas intervenções com atuações musicais, sempre que o tema abordado se identificava com composições suas – caso de para os braços da minha mãe, por exemplo, quando se falava de emigração. Ses, não tendo previsto atuar, foi entretanto surpreendida pelo músico que a desafiou a acompanhá-lo em algumas frases melódicas de canções dele, assim como a cantar, ela mesma, um dos seus próprios temas, conseguindo trazer-nos a Ses que todos desejavam ouvir a expressar-se, também, musicalmente; tudo isto, sempre incentivados e acompanhados por um público entusiasmado. Foram momentos mágicos que empolgaram a assistência, constituída por galegas e galegos, minhotos e minhotas maioritariamente alunas da UMinho, numa sala, de cerca de 200 lugares – se não cheia pelo menos muito bem composta. Ainda durante o debate, os artistas confessaram desconhecer-se e desconhecer a produção musical um do outro, assim como a do outro lado da fronteira. Por isso, manifestaram a sua preocupação em que se discutam as razões políticas, sociais e culturais que poderão explicar uma tal realidade, pautada pela insuficiência de dinâmicas de promoção do intercâmbio musical entre a Galiza e o Minho. “Sou uma resistente social” foi uma das expressões que Ses utilizou no decorrer do debate, ao afirmar a relevância e exclusividade do galego na sua música. Abrunhosa concordou e enfatizou a importância de o artista fazer uso da sua própria língua, única forma de expressar a sua visão do mundo e o seu sistema de pensamento próprio.

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Mas evento já tinha começado às 11:00 h da manhã, com a abertura abrilhantada pela jovem Banda da Escola de Música de Goián, dirigida pelo maestro Pedro Villarroel, seguida pela mesa de inauguração, formada maioritariamente por mulheres, apesar de a alcaldesa de Tominho, Sandra González, ter sido substituída, por estar doente, pelo seu vice Uxío Benitez, que deu as boas-vindas ao Encontro. Este estava ladeado pela aluna Adriana Silvério e pela docente Helena Pires, do MCAC-ICS, pelo leitor do CEG-ILCH, Fernando Groba, que, como representantes da organização, usaram da palavra, e ainda por Rita Ribeiro do CECS-ICS, investigadora na área da cultura e identidade locais, que fez uma singela alocução sobre as questões da identidade ligadas à música, tema do Encontro.

Seguiu-se o painel de debate da manhã, que contou com a presença dos moderadores Henrique Barreto Nunes, Vice-Presidente do Conselho Cultural da UMinho, e Albertino Gonçalves, docente do MCAC-ICS, e os convidados José Font, diretor da Rádio Municipal de Tui, o Maestro da Banda Musical de Monção, José Vicente Simeó e o gaiteiro e professor da UTAD8, Ricardo Almeida. Tratou-se de debater o estado atual e a importância da música popular e da música tradicional para o intercâmbio cultural entre as duas regiões. O tema discutido entre os convidados, com a participação ativa do público, levantou algumas questões que deram para perceber a ausência de interação cultural entre ambas as regiões no âmbito musical, apesar de contactos esporádicos, a que não é alheia a pouca divulgação desses géneros musicais pelos meios audiovisuais de ambos os lados do rio Minho, que se concentram na transmissão de música de estilos e línguas exógenos, em detrimento da música popular e tradicional endógena, que, desse modo, é desvalorizada, considerada menor e, na Galiza, tida, por muitos, como de conteúdo dialetal.

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Houve outros momentos musicais?

A música, propriamente dita, marcou sempre presença, ora através da gaita-de-foles tocada pelo gaiteiro Ricardo Almeida, que abriu e fechou esta mesa redonda, ora ainda, no ato de encerramento, logo após falar à assembleia o dirigente do CEG-ILCH, Pedro Dono e, por fim, eu próprio – ainda com o coração na boca já que a mágica prestação da Ses e do Pedro Abrunhosa terminara há pouco –, Joaquim Fidalgo encerrou o Encontro com o som do seu acordéon, desafiando a plateia a distinguir as diferenças entre várias músicas, de uma rapsódia de modinhas do Minho e da Galiza, com que nos brindou.f-a-2017emg-34

Há um projeto de um IV Encontro? Quais seriam os possíveis motes?

Bom, ao terminar o III Encontro Minho-Galiza, que alguns apelidaram de «inesquecível, com momentos únicos e irrepetíveis», ainda no seu discurso, Pedro Dono disse que, com o êxito deste III Encontro, a responsabilidade aumentou, mas estimulou-nos, a mim e à Adriana, a pensar já na quarta edição, no próximo ano, no que foi secundado por outros representantes dos dois Institutos da UMinho, o ILCH e o ICS, já nomeados acima, que coorganizam o Encontro connosco. Mas ainda é cedo para definir um tema, apesar de já termos ideias a propor aos restantes organizadores.

Qual é a conclusão que tiras deste III Encontro?

Para além da alegria e satisfação que o público presente no III Encontro nos transmitiu, após o final, provando que é possível conciliar «o saber e o prazer [que] dançaram até se cansar», como escreveu o coorganizador Albertino Gonçalves no seu blogue, devo acrescentar que, pessoalmente, se já me bastaria saber que pelo duas pessoas haviam iniciado qualquer tipo de laços em consequência deste III Encontro, o facto de saber, como me transmitiu Fernando Groba, que lhe foi lançada a possibilidade, embora ainda nada esteja garantido, pelo diretor da Radio Municipal de Tui, José Fon, de vir a iniciar com ele um projeto de divulgação de música galega na RMT; que a Ses terá aceitado o convite que Pedro Abrunhosa lhe dirigiu, publicamente, para ela visitar o seu estúdio de gravação, em Vila Nova de Gaia; ou que Vanesa Sotelo, a atriz e dramaturga galega – formadora no I Encontro –, depois de ter estado a ensaiar durante toda a manhã de sábado, no Centro Cultural do Instituto Camões, em Vigo, ainda asssim, fez questão de vir honrar-nos com a sua presença, na parte da tarde, para nos dar um abraço, acho que está tudo dito.

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Uma última questão: cinco convidados e apenas uma é mulher? Quais são os critérios de escolha dos convidados?

A escolha dos convidados é feita por consenso, entre os membros da organização, seguindo critérios científicos, e depende do público alvo, do tema a abordar em cada Encontro e, também, da aceitação ou não dos visados. Porém, o resultado dessa escolha, diria, não reflete mais do que aquilo que são as nossas sociedades atuais. Caso houvesse mais maestrinas e mais diretoras de rádio, por exemplo, natural seria que, sem qualquer esforço nesse sentido, chegássemos há equidade de género entre os convidados. A própria organização, sublinhe-se, é neste momento constituída por duas mulheres e três homens: Albertino Gonçalves, Helena Pires, Fernando Groba, Adriana Silvério e Francisco Abrunhosa.

NOTAS:

1 Licenciatura em Estudos Culturais do Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidado Minho

2 Francisco Abrunhosa e Adriana Silvério

3 Ligado ao Instituto de Línguas e Ciências Humanas (ILCH)

4 www.casamuseumoncao.uminho.pt/

5 Ambos do Instituto de Ciências Sociais (ICS)

6 Rádio Universitária do Minho

7 Rádio Municipal de Tui

8 Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

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