José Paz Rodrigues – O dia 21 de março não só é o dia da entrada na estação da Primavera, e o Dia da Árvore. Também é o Dia Mundial da Poesia, por proposta da UNESCO, realizada no ano 2001. Com tal motivo eu quero lembrar o tema dentro da série sobre as aulas no cinema. Acho que escolhi bem ao selecionar o filme dedicado ao grande poeta chileno Pablo Neruda e o seu carteiro no exílio siciliano.
Baseado no romance do escritor António Skarmeta, é uma verdadeira obra de arte, com uma interpretação magistral de todos os protagonistas. Um canto à poesia e ao amor, em que o mestre genial é o Nobel chileno, e o seu aluno o que lhe leva as cartas que vão chegando ao seu refúgio. Ao qual ensina a poesia, como criá-la e recriá-la, como elaborar metáforas, e como a poesia está na vida, no mar, no firmamento, na natureza, na beleza das pessoas, numa simples flor, nos cantos dos pássaros, no sorriso de uma moça, no trabalho dos operários do mar ou da terra, na lua nova ou na lua cheia…
Que importante é utilizar nas aulas com as crianças de todas as idades a poesia e as poesias! Para criar nelas sensibilidade, pola vida, polas cousas, polos seres humanos, pola natureza… Ensinando-os a elaborar poemas com rima e sem rima, a brincar com as palavras, a construir coplas, a inventar metáforas, a recitar em público, e a conhecer os grandes poetas e poetisas. Não existe melhor forma que jogar com a poesia nas aulas, para conseguir sensibilidade, apreço pola vida, vontade de viver e ter alegria, nos rapazes. Sem pensar nos odiosos exames, o pior método para os estudantes se afeiçoarem pelas diversas aprendizagens.
Neruda é o autor do livro de poesia mais editado no mundo, em quase todos os idiomas, Vinte poemas de amor e uma canção desesperada. Mas nas aulas temos que utilizar os poemas de outros muitos: Machado, Bécquer, Alberti, Jiménez, Rosalia de Castro, Celso Emílio, Manuel Maria, Tagore, Gabriela Mistral, Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Pessoa, Nobre, Teixeira de Pascoaes, Aquilino Ribeiro, José Afonso, Pura e Dora Vázquez, Avilês de Taramancos, Rubén Dario, Gastón Figueira, Camões, Cabanilhas, Pondal, Curros, Novoneyra, Miguel Hernández, e mesmo os poetas populares das nossas cantigas, tanto medievais, como do rico folclore galego-português.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Il Postino (O carteiro de Neruda)
Diretor: Michael Radford (Itália-França, 1994, 115 min., a cores)
Roteiro: Baseado no romance de A. Skármeta Ardente paciência.
Música: Luis Enríquez Bacalov. Fotografia: Franci di Giacomo.
Intérpretes: Philippe Noiret, Massimo Troisi e Maria Grazia Cucinotta.
Argumento: Por razões políticas o grande poeta Pablo Neruda exila-se numa ilha de Itália. Ali, um desempregado quase analfabeto é contratado como “carteiro” extra, encarregado de cuidar da correspondência do poeta. Com o tempo vai-se formando entre os dous uma sólida amizade. O carteiro Mário, aos poucos, aprende a escrever seus sentimentos por Beatrice, e Neruda ganha, em troca, um ouvinte compreensivo para suas lembranças saudosas do Chile.
Prémios: Óscar à banda musical. David de Donatello à melhor montagem. Ano 1995.
Levar a Poesia às Nossas Aulas:
O filme que serve de apoio ao nosso comentário e às nossas propostas de conseguir que os estudantes amem e desfrutem com a poesia, é uma obra-mestra cinematográfica, de sentimentos, de belas palavras, de muito formosas paisagens e de música entranhável. Uma história cheia de metáforas e de poesia, amostrando-nos a força do amor, da amizade e das palavras. Muito mais que uma bela história de amor, traz-nos à tona o papel da arte, neste caso a poesia, na sociedade e romper com os absurdos da história, libertar-se da opressão, sabendo que a poesia, muito além das metáforas, pode abrir caminhos nunca antes navegados.
Com exótico cenário de fundo, o filme retrata a vida de um humilde “pescador” em busca de seu destino: a realização amorosa, mas sobretudo, ao encontrar Neruda, o pequeno mostra-se grande, um poeta no sentido de buscar meios de reivindicar seus direitos. Uma imagem poética única. Neruda, sem querer, de forma ocasional, termina por ser um grande mestre para o carteiro ocasional Mário Ruópolo, que se sente muito atraído pola fama do poeta e das suas muitas namoradas. No filme vemos a importância da afetividade para a aprendizagem. Ao sentir-se valorado, o jovem acolhe, verdadeiramente estimulado, com entusiasmo, a arte poética. E não só para criar e re-criar poemas, também para amar a leitura. Que tão importante é para os avanços nos estudos e na vida. No filme também olhamos como as pessoas aprendem com muita facilidade aquilo que a elas lhes interessa.
Por isto temos que tornar as nossas aulas interessantes para os nossos alunos, amenas, agradáveis, atrativas, em que os alunos se encontrem à vontade e como peixes na água. Uma das mais lindas estratégias para isto conseguir, é introduzir nas aulas a poesia. De todos os pontos de vista: para recitar e organizar festas poéticas, para cantar aqueles poemas que estão musicados, para que os rapazes inventem as suas, para, em audições, escutar em CDs poemas recitados polos próprios poetas ou por recitadores profissionais. Mesmo Neruda, num importante CD, recita os seus vinte poemas de amor, na sua própria voz. Também aprendendo a elaborar as coplas para os maios, para o Entrudo e para outras festas populares. Para publicar no jornal escolar e para colocar no jornal de parede. Há um momento lindo em que Neruda diz uma grande verdade: “Quando a poesia é explicada, torna-se banal”. Afinal, mestre e aluno aprendem ambos, se o relacionamento educativo é positivo e sem traumas.
Propostas para os nossos mestres/as:
– Visionar o filme e refletir sobre tudo o que nele acontece: factos, palavras, discursos, comentários, imagens…
– Organizar nos nossos centros e nas nossas aulas festivais de poesia, recitais, exposições dos poemas dos rapazes, jornal escolar com os mesmos. Elaborar coplas populares das diferentes festas populares galegas.
– Idem, audições musicais e de recitais poéticos, de gravações sonoras de diversos poetas e poetisas. Levar às aulas poetas vivos da localidade onde fica a escola.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.
Ficha Técnica do Filme

