José Paz Rodrigues (*) – Estamos às portas de celebrar um ano mais o Dia mundial da Paz, que desde há tempo se comemora no dia 30 de janeiro, pois foi nesta data quando Gandhi, um dos maiores pacifistas da história, fora vilmente assassinado quando passeava por um jardim de Nova Deli no ano 1948, a mãos de um fanático hindu.
Com grande acerto, o pedagogo balear Llorenç Vidal, criou no ano de 1964 o chamado “Dia Escolar da Não violência e da Paz (DENIP)”, e desde esse ano todos os 30 de janeiro se veio celebrando, cada vez com mais entusiasmo, em todas as nossas escolas. No entanto, não se deve perder de vista que a melhor maneira de fomentar entre os estudantes o apreço pela paz e o espírito pacifista, é promover dia a dia e em cada momento e lugar esse espírito, nas relações humanas quotidianas. Embora, para sensibilizar mais sobre o tema, não esteja por demais, desenvolver com um atrativo programa de atividades, uma jornada sobre a paz, nos estabelecimentos de ensino de todos os níveis e nas suas aulas. Dedicarei os seguintes dous artigos ao tema da Paz e da não-violência, tecendo os meus comentários à volta de dous importantes filmes, muito adequados para tratar a temática pacifista. O primeiro, Vozes inocentes, foi realizado em 2004 pelo diretor mexicano Luis Mandoki. O segundo, O Grande Ditador, é uma obra-mestra do cinema, que foi realizada e interpretada pelo genial Charlie Chaplin em 1940. No nosso país esteve proibida a sua exibição durante décadas e pola primeira vez a sua estreia teve lugar no ano 1976, uma vez desaparecido fisicamente outro ditador similar chamado Francisco Franco.
Os norte-americanos, quando abordam a guerra, geralmente retratam o universo masculino adulto. Voluntários ou não, são os homens que se encolhem ou descobrem bravura no campo de batalha. Esta é a visão do conquistador. A visão dos EUA é a de quem olha de cima para o resto do mundo.
Porém, se dermos uma bisbilhotada nas produções do género em outros países, particularmente em países subdesenvolvidos (ou, para ser politicamente correto, “em desenvolvimento”), constataremos que não raras vezes vemos o mundo através dos olhos das crianças. Porquê? Lembremo-nos dos tempos em que éramos crianças. O mundo parecia muito mais assustador e deslumbrante do que é hoje, não era? Muitas cousas sem explicação, e muito a ser conhecido. O tempo não passava e mal podíamos esperar para nos tornarmos adultos. A guerra sob a ótica de crianças é comovente por causa disto, pela ingenuidade que há, mesmo em meio a tamanhas atrocidades, no modo como elas lidam com a situação. Em “Vozes Inocentes”, acompanhamos a história de Chava e seus amigos durante a guerra civil em El Salvador. Como toda guerra total, em que os adultos se digladiam até a exaustão das forças e, quando não resta mais homens sobreviventes, faz-se necessário recorrer ao recrutamento infantil, a guerra em El Salvador também não poupou seus rebentos. Aos 12 anos, as crianças eram obrigadas a integrar as fileiras do exército. Quem não queria seguir esta opção, tinha uma segunda, e igualmente belicosa, alternativa, unir-se aos guerrilheiros rebeldes. Este é um dos dilemas de Chava. A produção é inacreditável, bela fotografia, diálogo singelos e cenas comoventes. Porém, “Vozes Inocentes” comete um erro, o de não levar até as últimas consequências o desenvolvimento lógico do enredo. Embora estejamos diante de um belo filme, que centra o comentário deste meu artigo.
Ficha técnica do filme:
Título original: Voces inocentes (Vozes inocentes).
Diretor: Luis Mandoki (México-EUA-Puerto Rico, 2004, 106 min., a cores).
Roteiro: Óscar Orlando Torres e Luis Mandoki, baseado na história do primeiro.
Montagem: Aleshka Ferrero. Fotografia: Juan Ruiz-Anchia. Música: André Abujamra.
Estúdio: Lawrence Bender Productions / A Band Apart / Altavista Films / MUVI Films / Organización Santo Domingo.
Distribuição: 20th Century Fox . Desenho de produção: Antonio Muño-Hierro.
Atores: Leonor Varela (Kella), Daniel Giménez Cacho ( 0 Padre), Ofelia Medina (Mamá Toya), Gustavo Muñoz (Ancha),Carlos Padilla (Chava), Ignacio Retes (Don Chico), José Maria Yazpik (Tio Beto), Jesús Ochoa (Motorista de ônibus) e Adrián Alonso.
Prémios: Melhor filme com o Urso de Cristal no Festival de Cinema Internacional de Berlim e Prémio do Júri e do público pela Sociedade de Críticos de Cinema de S. Diego.
Argumento: Anos 80. Chava é um garoto de 11 anos que, após seu pai abandonar a família em meio à guerra civil de El Salvador, se torna o “homem da casa”. Por causa da guerra as forças armadas do governo recrutam rapazes de 12 anos, retirando-os das salas de aula. Chava ainda tem um ano até ser também recrutado, sendo que neste período precisa conseguir um emprego para ajudar sua mãe a pagar as contas e também escapar da violência diária causada pela guerra civil. Baseado na história verdadeira da difícil infância do roteirista Oscar Torres, este filme é a comovente história de Chava um menino de onze anos que de repente se torna o indispensável para a sua casa, depois que seu pai abandona a sua família no meio de uma guerra civil. A vida de Chava torna-se um jogo pela sobrevivência, não só das balas da crescente guerra, mas também dos temores surgidos da violência diária. Armado somente com o amor de sua mãe e um pequeno rádio que transmite um hino proibido de amor e paz, e tendo de fazer a escolha impossível entre se unir ao exército ou aos rebeldes, Chava encontra a coragem para manter o seu coração aberto e o seu espírito vivo na sua corrida contra o tempo.
Jovens na guerra, soldados e sem escola:
A guerra é assunto de adultos insensíveis, como o cinema latino-americano parece ressaltar cada vez mais. Quando tratam das suas respetivas ditaduras, argentinos (Kamchatka) e chilenos (Machuca) guardam as crianças como reservas de pureza, enquanto brasileiros (Ação entre amigos, Cabra-Cega, Benjamim) preferem acreditar que o amor é a última trincheira da salvação. O filme mexicano Vozes inocentes também parte dessa ideia de que a guerra deve ser mantida longe das crianças, do contrário contamina o seu espírito, no bom sentido, primitivo. Aqui, não apenas a infância, como também a alienação, simboliza a paz: corre alegre o tempo todo, de um lado ao outro, o deficiente mental que brinca com os meninos. Mas boa parte da pureza de Chava já se perdeu quando o pai fugiu de El Salvador para os EUA, deixando-o como precoce chefe da casa, ao lado da mãe, uma heroína. O pior virá quando o menino completar doze anos. O exército salvadorenho logo o converterá em soldado contra os rebeldes da guerrilha FMLN, que igualmente querem cooptá-lo para o seu lado. O roteiro baseia-se na própria história do protagonista durante a Guerra Civil que tomou o país entre 1981 e 1992. Milhares de crianças que mal conseguiam segurar um fuzil foram arrancadas da sua inocência. As cicatrizes ainda ardentes podem explicar parte do sensacionalismo que o diretor imprime ao filme.
O filme de Mandoki trata sobre os sequestros que realizavam as forças armadas salvadorenhas durante os anos 80, nos quais rapazes de 12 anos eram obrigados a enrolar-se no exército para combater o Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN). A história do protagonista infelizmente continua de atualidade, por repetir-se em outros cenários e conflitos, como os do Afeganistão, Iraque, Síria, Líbano, Colômbia e diversos países africanos. Não se fala do tema, mas ainda hoje existem conflitos bélicos (como os larvados da Palestina e Israel), nos quais, embora muito não se saiba, de todos é conhecida a utilização de crianças e rapazes em guerras e conflitos de caráter bélico. Nos últimos anos, o número de mortes civis em conflitos armados aumentou de forma espetacular, podendo ascender a 90 %. Mais de metade das vítimas são crianças, nenos e nenas. Estima-se que uns 20 milhões de crianças tiveram que abandonar os seus lares por causa destes conflitos armados e a violação dos direitos humanos. Tendo que viver como refugiados em países vizinhos ou deslocados internamente dentro das fronteiras dos seus países. Nos últimos dez anos, dous milhões de crianças faleceram como consequência direta de conflitos bélicos. E ainda maior é o número dos que ficaram incapacitados de por vida ou que sofreram graves danos, por volta de não menos de seis milhões. Mais de um milhão de crianças ficaram órfãos ou foram separados das suas famílias de origem. Cada ano, as minas terrestres matam e mutilam entre oito mil e dez mil menores de idade.
Continuamos no nosso comentário a Carlos Mario Pineda, que escreveu na revista Nexos da Universidade de Medellín um atinado artigo sobre este filme. Que se inicia com uma voz infantil em off, uma imagem a contraluz no meio da chuva e um plano geral que mostra homens armados, custodiando várias crianças, entre as que vai Chava o protagonista. O que lhe dá força e dramatismo (nem espetacularismo nem sentimentalismo) à cena, é a atmosfera que cria: a chuva, o contraluz, a câmara lenta e o relato da voz em off: “tenho muito frio, doem-me os pés, tenho pedras nos sapatos, estou muito canso…”, com isso, o espetador situa-se de imediato. Não tem que dar-lhe explicações para demonstrar que estamos no quadro de uma guerra, a de El Salvador de 1980. O desenvolvimento anacrónico do relato imprime maior eficácia narrativa. Sabemos em que vai dar: na detenção ou captura de umas crianças por parte de homens armados, mas não sabemos como vão chegar a isso nem quem são os captores. Continua-se com a descrição tanto sonora como visual do local em que mora a criança protagonista: uma aldeia de casas de lata, com precárias paredes de madeira, andar de terra batida com portas e janelas estragadas. O doce rosto do rapaz e a delicada fortaleza da jovem mãe, junto com a presença da irmã grossa e o irmãozinho menor, completam a apresentação. O realizador mexicano escolhe enquadramentos muito precisos, primeiros planos, que são mais dramáticos que descritivos. A cor verde, predominante no ambiente, junto com a chuva constante, anunciam a melancolia dos indígenas centro-americanos. O som realista vê-se complementado com a mesura musical, ao não ser nem melosa nem lastimosa. Tal melancolia não é apenas do povo, transmitida pela narração, como também resultado da situação: a gente do comum está aterrorizada, as crianças brincam no meio da devastação ou sofrem os horrores do combate. A sugestão do combate, por meio dos tiros, as explosões, os impactos que abrem orifícios nas paredes ou os colchões que servem de precária proteção, são outro acerto. O protagonista é o rapaz e com ele a sua família, não a cruenta guerra.
O valioso no filme é que a profundidade do seu argumento não radica só no paralelismo entre a guerra e a infância, como nas múltiplas vertentes dessa infância. Como exemplo temos os factos da posição que Chava tem que assumir como pai substituto, o estudante que ele é, o despertar da ternura amorosa, o desejo de ajudar a mãe na esfera económica, a testemunha das barbaridades do exército, a criança brincalhona… A multiplicidade de visões dessa criança diversificam e enriquecem o argumento que se vê à sua vez, apresentado na tela com elementos cinematográficos: o manejo da câmara, o dinamismo na montagem, a riqueza dos diálogos que não são forçados nem correspondem aos já vistos no cinema ou na televisão, mas à linguagem tanto de uma criança como de um labrego, a iluminação, o vestuário que recria o ambiente da zona e a encenação nos espaços abertos que se consegue com naturalidade. O filme foca ademais a experiência da guerra vivida da perspetiva de uma criança de classe baixa. Prestes a fazer os 12 anos, idade a que o exército começa a recrutar crianças, este rapaz é testemunha de como os seus amigos, vizinhos e familiares se convertem em vítimas ou vitimários de uma guerra fratricida, que não respeita o seu direito de continuar a ser criança. É uma guerra que constantemente viola a ordem e a paz dos espaços domésticos, educativos e/ou espirituais. Em 1980 explodiu em El Salvador um conflito agrário que terminou por converter-se numa guerra civil que não cessou até doze anos mais tarde. Como todas as guerras, esta está cheia de injustiças. Uma das que se atribui ao governo salvadorenho é o recrutamento de centenares de crianças para lutarem na contenda contra a guerrilha do FLMN. Devido à oposição do governo salvadorenho, o filme teve que ser rodado finalmente no México, pois o seu exército nunca quis reconhecer a utilização de crianças à força como soldados. Os distribuidores americanos do filme sugeriram ao realizador eliminar aquelas frases onde se diz que os americanos apoiaram no seu dia o governo salvadorenho.
Os que vemos este filme ficamos cativados e seguimos passo a passo, com alegria, indignação, tristeza e ansiedade, o sofrimento e o declive da vida de Chava, da sua família e do seu povo. O realizador controlou com precisão a narração e o percurso do roteiro, sem cair no maniqueísmo, para que o espetador fique por emitir o seu próprio juízo sobre o que se observa. Não explora o pior da guerra nem da humanidade, senão que propõe visões diversas. Embora no final se mostre que no mundo se recrutam centos de milhares de crianças para as guerras, não induz a tomar uma posição determinada. As cenas de abuso do exército poderiam ser interpretadas como um juízo explícito à instituição militar, mas, sendo justos, as poucas cenas (algumas muito cruéis), supõe a versão dolorosamente privilegiada desse protagonista. Os guerrilheiros não são exonerados da sua responsabilidade, mas quem exerce o controlo e abusa da sua autoridade são os militares. Certamente, não aparecem no filme violações, nem torturas, nem pancadas impiedosas a homens adultos, nem nada similar. O olho do rapaz protagonista é o olho dum habitante. O cineasta fica com esse olho, o demais fica para a elaboração de cada espetador. “Estamos, como assinala o realizador, perante um filme que mostra o lado da guerra que não se vê na televisão. Quis compreender a guerra, o que se passa com a gente que está lá, dentro das paredes das escolas, das casas. Embora seja muito difícil compreender algo tão monstruoso”. “Trata-se de cousas que te envergonhas de contar, embora as tenhas vivido, porque te deixam um sentimento de que são culpa tua”, acrescentou o roteirista Óscar Torres.
Temas para refletir e elaborar:
Depois de ver o filme, utilizando a técnica de dinâmica de grupos do “cinema-fórum”, debater sobre os aspetos fílmicos do mesmo, o roteiro e a linguagem cinematográfica utilizada pelo diretor mexicano, os planos, os movimentos de câmara, o uso do tempo e do espaço e outros recursos fílmicos que aparecem na fita. Refletir sobre os papéis dos protagonistas e a problemática social que na mesma aparece, assim como o triste papel dos militares e dos guerrilheiros.
Em grupos ou por aulas dos diferentes estabelecimentos de ensino, elaborar um mapa-mural em que se recolham aqueles países do mundo onde existem conflitos bélicos, explícitos ou latentes. Completar com legendas, desenhos e fotos sobre dados relacionados com o uso de crianças nos diferentes conflitos resenhados.
Elaborar um plano de atividades educativo-didáticas ao redor do tema da paz e da não-violência para desenvolver nos nossos estabelecimentos de ensino de todos os níveis. As atividades artísticas e lúdicas a desenvolver hão de ser atrativas, motivadoras e criadoras de sensibilidade positiva entre os estudantes, a favor do bem prezado que é a paz.
(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.


