Junto com Tolstoi, e mesmo Neill, Ferrer foi um dos maiores educadores representante da pedagogia libertária. Ao qual agora dedico um dos depoimentos da série iniciada com Pestalozzi. O grande mérito de Francesc Ferrer i Guàrdia (1859-1909) foi plasmar na sua Escola Moderna as ideias educativas básicas do pensamento livre-pensador e libertário de princípios do século XX. Na sua pedagogia apostou decididamente por um ensino científico e racional não supeditado aos imperativos da religião (no nosso caso católica) nem do estado, e pela coeducação de classes e sexos. O seu projeto emancipador, que trata de formar seres mais livres, responsáveis, solidários e ativos, foi objeto no seu momento de múltiplos ataques e falsas acusações, que desembocaram no célebre processo Ferrer. A Escola Moderna de Barcelona foi fechada, embora nascessem outros centros racionalistas em distintos pontos de Espanha, América Latina e EUA.
Filho de uma família numerosa, quando muito jovem emigrou da localidade de Alella para Barcelona, cidade em que exerceu diversos ofícios, e de Barcelona a Paris, em 1885, onde, graças à ajuda da maçonaria gala, começou a ensinar castelhano nas escolas dependentes do Grande Oriente francês. Uma das suas alunas, Ernestina Meunier, deixou-lhe ao falecer uma pequena fortuna, com a qual Ferrer voltou para Barcelona em 1901, e criou uma escola chamada “Escola Moderna”, para pouco mais de um cento de crianças (meninos e meninas). Numa primeira olhada esta escola era uma mais entre as seiscentas escolas públicas e privadas existentes a princípios de século na capital da Catalunha, cidade em que podiam encontrar-se tantas escolas como grupos ideológicos e opções políticas: laicas, espiritistas, evangélicas, anarquistas ou internacionais, católicas, de operários, burguesas, catalanistas e republicanas, mantidas e controladas pelos respetivos grupos grandes e pequenos. Ferrer tentou capitalizar ao redor seu a herança das forças acratas e livres-pensadoras, imprimindo-lhe uma notável radicalidade.
Placa da praça dedicada a Ferrer i Guàrdia. Na inscrição pode-se ler, em catalão, «fundador da Escola Moderna. Fuzilado a 13-10-1909 pela causa da liberdade»
Cinco anos esteve aberta a sua escola e ao seu redor organizou um próspero negócio editorial, subministrando a muitas destas escolas privadas material escolar, financiando a fundação de algumas novas e controlando o professorado de outras. A maioria destes estabelecimentos dependia de instituições e sociedades operárias, leigas em questão de ensino, embora interessadas em oferecer aos seus afiliados e sócios uns quantos lugares escolares difíceis de encontrar sem grandes dispêndios económicos. Algumas destas escolas dependiam do Partido Republicano Radical de Alexandre Lerroux, amigo e aliado de Ferrer na política de escolas existentes naquela altura. As obras da editorial de Ferrer eram lançadas publicitariamente com o reclamo da modernidade, da boa apresentação tipográfica e do carácter científico do seu conteúdo. Do ponto de vista pedagógico possuem um valor muito desigual, já que, pelo geral, estavam dirigidas indistintamente ao público infantil e ao adulto. Os melhores livros de texto foram os escritos e redigidos por Odón de Buen, catedrático da Universidade de Barcelona, referidos ao ensino das Ciências Naturais, e a série O homem e a Terra, de Eliseu Reclus, lançada em fascículos.

A fama da Escola Moderna deve-se, mais que à sua organização pedagógica (duas salas de aula pequenas com crianças entre os seis e os doze anos, sob um par de professores, excursões escolares frequentes, manuais escolares com uma importante carga antirreligiosa e social, trabalhos manuais, desenho, música, observação da natureza, etc.), a razões extrínsecas às conceções educativas da escola. Especialmente naquela altura os problemas fundamentais eram a situação cultural dos operários, a urgência da emancipação feminina, o trabalho infantil e a sua exploração, a significação educativa da família e o debate sobre a instrução integral. Sobre o particular é digno de menção o depoimento que Trinidad Soriano apresenta em Saragoça em 1872 no congresso de trabalhadores, sob o tema de “A Instrução integral”. Segundo Anselmo Lorenzo, este vai ser o trabalho precursor mais importante do ensino racionalista que promove anos mais tarde Ferrer na sua “Escola Moderna”. A partir de 1875, aproveitando algumas liberdades, sempre limitadas, do governo, aparecem algumas experiências educativas novas, e entre elas, com mais força, a de Ferrer, que vai ultrapassar mesmo as do movimento das escolas racionalistas.
FICHA TÉCNICA DO DOCUMENTÁRIO:
- Título original: Francesc Ferrer i Guàrdia, una vida per la llibertat (F. Ferrer, uma vida pela liberdade).
- Diretor: Agustí Corominas i Casals (Catalunha, 2004, 51 min., a cores).
- Roteiro: Agustí Corominas i Casals. Produtoras: Metrópoli e Video-Films s.c.p.
- Música original: Santi Molas. Documentarista: Rosa Murtra.
- Nota: Pode ver-se entrando aqui.
- Narrador: Arseni Corsellas. Intervenientes entrevistados: Pere Gabriel (prof. UAB), Jordi Serrano (diretor Fundació Ferrer i Guàrdia), Pere Solà (prof. UAB), Marta Mata (pedagoga), Freddy Thielemans (autarca de Bruxelas), Jaume Carbonell (diretor revista Cuadernos de Pedagogía).
- Argumento: O documentário narra a vida do pedagogo e livre-pensador Francesc Ferrer i Guàrdia e a posta em marcha do seu projeto de Escola Moderna. Um ambicioso sonho que tinha como objetivo apartar as crianças de ambos os sexos da omnipresente “educação” religiosa e oferecer-lhes um ensino baseado na pedagogia libertária. Para dar impulso a este movimento reformador, foi criada em 1906 a Liga Internacional para a Instrução Racional da Infância, cujos princípios estatutários estabeleciam que:
- A educação da infância deve fundamentar-se sobre uma base científica e racional; em consequência, é preciso separar de ela toda noção mística o sobrenatural.
- A instrução é parte desta educação. A instrução deve compreender também, junto à formação da inteligência, o desenvolvimento do carácter, a cultura da vontade, a preparação de um ser moral e físico bem equilibrado, cujas faculdades estejam associadas e elevadas à sua máxima potência.
- A educação moral, muito menos teórica que prática, deve resultar principalmente do exemplo e apoiar-se sobre a grande lei natural da solidariedade.
- É necessário, sobretudo no ensino da primeira infância, que os programas e os métodos estejam adaptados o mais possível à psicologia da criança, o que quase não sucede em nenhuma parte, nem no ensino público nem no privado.
MODELO PEDAGÓGICO LIBERTÁRIO DA ESCOLA MODERNA:
Da Escola Moderna deve resenhar-se o valor revolucionário da experiência como fator de transformação social, o papel que concede às ciências naturais e à razão, o igualitarismo social e a coeducação das classes sociais e dos sexos, a formação politécnica integral, o respeito à personalidade do aluno, o carácter internacional e antiautoritário da escola, a importância do jogo no processo educativo e a ausência de prémios e castigos. As suas tarefas educativas não se limitam à escola-instituição, senão que, como já comentei, se projetam ao campo editorial, publicando boletins e livros, e à organização de conferências e palestras abertas e associações pedagógicas.
Em 1898, por sugestão de P. Kropotkin, criou-se um Comitê pró-ensino anarquista, com o propósito de fazer frente ao que este grupo considerava o ensino religioso e burguês dominante. A iniciativa pró-ensino libertário de 1898 adoitava o princípio de uma educação verdadeiramente integral, racional, mista e libertária, quer dizer, escrupulosamente respeitosa com a liberdade, e portanto contrária a uma disciplina baseada no dissimulo e na mentira, contrária aos programas escolares anuladores da originalidade e da iniciativa. Nos meios avançados, não só anarquistas, o tema da educação (libertadora) de mulheres e homens era uma peça central do debate público. A educação, como a arte e a ciência, não podia ser cousa de minorias e para minorias. É neste contexto de pensamento libertário, republicano e progressista europeu de fim de século onde temos de situar as ideias pedagógicas de Ferrer. Que ele soube levar à prática de forma muito original e criativa, constituindo um verdadeiro marco da pedagogia progressista radical. Ferrer considerava a educação popular como um problema político crucial: tinha consciência de que as classes dirigentes foram compreendendo progressivamente que a chave de seu poder hegemónico estava no controlo da escola. Em consonância com a tradição socialista libertária, Ferrer reveste a sua conceção educativa de uma decidida orientação antiestatal, e não só a-estatal. A educação não há poder basear-se nos preconceitos militaristas e chauvinistas nem em dogmas religiosos, senão que deverá tomar como guia os desenvolvimentos da ciência positiva. Por isto, aposta por um ensino “científico e racional”. A ciência positiva, coluna vertebral de uma educação emancipadora, deverá estar ao serviço das verdadeiras necessidades humanas do indivíduo e da sociedade. Ferrer opõe a razão natural, a que se deduz das verdadeiras necessidades humanas, à razão artificial do capital e da burguesia. A razão artificial aplicada à pedagogia propicia a alienação e a submissão. Frente à violência física e mental, há que reivindicar a ausência de prémios e castigos na escola, assim como a supressão de exames e concursos.
Frente a esta burguesia que se contradiz quando diz defender uma escola para todos (obrigatória e universal) e uma educação não supeditada a uma confissão religiosa de Estado (escola laica), Ferrer aposta por uma educação em regime de coeducação de classes sociais, onde ricos e pobres, “postos uns com os outros em contacto na inocente igualdade da infância”, alcancem o supremo objetivo de uma escola “boa, necessária e reparadora”. A coeducação de classes constitui a solução ótima, porque pela força mesma das cousas a escola paga há ensinar “a conservação do privilégio e o aproveitamento das suas vantagens”. No seu lugar, uma escola para crianças pobres, planejada honestamente, terá que forçosamente ensinar a rebeldia e o ódio de classe. É por isto, pelo que Ferrer termina por apresentar a solução da coeducação de classes frente à alternativa escola reprodutora do privilégio – escola do ódio e da luita de classes.
HOMENAGEM A FERRER DA BIBLIOTECA TERRA LIVRE DO BRASIL:
Em agosto de 2014 a Biblioteca Terra Livre do Brasil fez uma homenagem ao educador Ferrer. Esta biblioteca há muitos anos que se vem dedicando à difusão das teorias e experiências anarquistas em educação, tanto pelo resgate histórico, como pela prática cotidiana de uma educação livre. Boa parte da sua atuação é, sem dúvida, inspirada nas propostas e ações de Francisco Ferrer i Guàrdia. O projeto da Escola Moderna é, para os responsáveis da biblioteca citada, uma espécie de lanterna que ilumina, com sua incandescência rebelde, as trevas em que vivemos atualmente.
A educação orientada pelos interesses da classe dominante e regulada pelas leis do Estado, ontem e hoje, segue sendo a grande castradora da liberdade das crianças. Contra isso muitos se insurgiram: alguns denunciaram tal liberticídio e levantaram suas vozes e cérebros contra essa terrível realidade; outros foram além, arregaçaram as mangas e se colocaram em marcha, criando novas escolas. Ferrer i Guàrdia foi um dos que optou pela ação direta e viu seu sonho concretizado. Em sua escola as relações entre mestres e estudantes eram baseadas no apoio mútuo e os novos conhecimentos partiam de uma perceção anarquista do mundo e da natureza.
A Escola Moderna de Barcelona, fundada em 1901, mesmo contando com poucas crianças, teve sua pedagogia racionalista-libertária multiplicada e semeada ao redor do mundo em alguns anos, inspirando a fundação de mais de uma centena de novas escolas. Seu impacto é visível e percetível até hoje tanto nos meios libertários como nos meios universitários que não cansam de estudá-la como exemplo máximo do sucesso de uma educação livre e libertadora dos preconceitos religiosos e estatais. Essa irradiação atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil e aqui fincou raízes sólidas plantadas pelas mãos de militantes que dedicaram, assim como Ferrer, suas vidas à educação e formação de uma nova humanidade.

O Estado Espanhol, em conluio com a “santa” igreja, assassinou Ferrer em 1909, mas seu sonho não tombou com seu corpo, reverberou e hoje, a Biblioteca Terra Livre, ainda escuta suas palavras e se inspira em suas ações. Cada vez mais temos que acreditar que é importante difundir o pensamento de Ferrer e a educação colocada em prática em Barcelona, construída com o apoio de diversos educadores libertários, grupos anarquistas, sindicatos revolucionários e, acima de tudo, pais e mães que apostavam na construção de um mundo justo e igualitário para suas filhas e filhos.
A Escola Moderna obteve sucesso porque Ferrer, além de educador, foi um grande articulador e propagandista de suas ideias, criando uma ampla rede de contatos e abrindo diferentes frentes de atuação. A verdadeira transformação no sistema de ensino dependia da difusão e da prática de uma nova educação. Para isso Ferrer desenvolveu uma estratégia invejável: fundou a sua escola na rua de Bailén em Barcelona; estabeleceu contatos com cientistas, pensadores, pedagogos e militantes de diferentes partes do mundo e conectados a múltiplas redes – anarquistas, republicanos, sindicalistas, maçons, etc.; criou a editora Publicaciones de la Escuela Moderna para fazer circular os novos materiais didáticos utilizados em sala de aula, tanto por estudantes como por professores; publicou jornais sobre a pedagogia racionalista e o cotidiano da escola, ganhando assinantes e angariando apoio político e financeiro. O projeto da Escola Moderna ancorava-se sobre o tripé: escola, editora, jornais (revista e boletim). Tudo isso sem perder a relação com os meios mais progressistas à sua época e o envolvimento com o sindicalismo revolucionário catalão.
Ferrer buscou aplicar seus princípios integralmente. Ele acreditava que a educação devia ser voltada para as crianças, pais, mães e para toda a sociedade, pois a atuação política de cada indivíduo acontece, principalmente, para além dos muros da escola. Compreender a importância da luita, levada adiante em várias frentes, abrindo sempre novas trincheiras para se avançar na constituição de um pensamento político-pedagógico libertário foi, talvez, uma das grandes qualidades do projeto da Escola Moderna.
A Escola Moderna não foi somente uma “experiência”, foi a fundação da escola científica, racional e libertária que teríamos que ter. Ela é possível ainda hoje como o foi outrora. É por isso que desde 2010 a Biblioteca Terra Livre mantém o Grupo de Estudos “Anarquismo e Educação” e, recentemente, fundou o Laboratório de Educação Anarquista (LEA). Há anos que foi estudada a vida e a obra de Ferrer e a cada outubro se realizam eventos em memória ao seu brutal assassinato, sempre com o intuito de fazer presente e atual seu pensamento entre educadores, professores e estudantes.
Pensando em amplificar as palavras de Ferrer e fazer chegá-las a um maior número de leitores decidiu-se publicar sua essencial obra póstuma. Depois de 107 anos de sua morte esse livro, finalmente, ganhou sua merecida tradução e edição em português. Com muito orgulho a Biblioteca Terra Livre cumpriu com o seu dever. Para a edição brasileira de A Escola Moderna traduziu-se o belíssimo prefácio original de Anselmo Lorenzo, anarquista espanhol, amigo de Ferrer e grande impulsionador da Escola Moderna e convidou-se ao professor Sílvio Gallo, que há tantos anos vem estudando e difundindo a pedagogia libertária no Brasil, para escrever uma introdução refletindo sobre a atualidade do pensamento de Ferrer i Guàrdia. Contou-se também com a colaboração do companheiro Vitor Ciosaki que produziu uma linda ilustração exclusiva para a capa do livro, inspirada na obra de Ferrer. Os responsáveis da biblioteca esperamos que estas palavras inspirem aos nossos docentes a semear novos grãos em solo árido com a esperança de alcançarmos definitivamente nosso sonho: a Humanidade Livre numa Terra Livre!
TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:
Depois de ver o documentário, organizar um debate-papo ou tertúlia, sobre os diferentes aspetos que sobre a figura de Ferrer aparecem no mesmo. Refletir sobre o seu pensamento educativo e comentar, dando alternativas concretas, sobre como se poderia pôr em prática hoje nas nossas escolas a sua didática prática. Poderia pesquisar-se também na Internet sobre as experiências realizadas pelo grande pedagogo libertário, assim como sobre as suas interessantes publicações.
Elaborar uma monografia, procurando informações em livros e na internet, sobre Ferrer i Guàrdia, as suas ideias pedagógicas e os seus métodos e recursos didáticos. Também o vergonhoso processo que teve que sofrer, que terminou com o seu infame fuzilamento. Com desenhos, textos, cartazes e materiais elaborados, poderia organizar-se nas escolas uma magna exposição dedicada a ele, a sua pedagogia, a sua didática, as suas obras e as suas propostas de educação para a liberdade.
Escolher uma, para lê-la entre todos, das obras básicas, e de maior aplicação à Didática nas aulas, escritas por Ferrer, especialmente A Escola Moderna publicada por Terra Livre no Brasil e na nossa língua. Também o Boletín de la Escuela Moderna, do que existe edição por Tusquets de Barcelona em 1977. Podemos optar também por ler algum livro dedicado a estudar a sua pedagogia. Entre eles temos La Escuela Moderna de Ferrer i Guàrdia, por Buenaventura Delgado, Ferrer y la pedagogia libertaria, por A. Capelletti, e a edição portuguesa da obra Francisco Ferrer escrita por Blasco Diaz, publicada em Lisboa no ano 1914. Depois de lida a obra eleita, organizar um “Livro-fórum” para comentá-la e debater sobre as palavras, ideias educativas e propostas práticas que o grande pedagogo, pacifista, libertário e humanista faz na mesma.

