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Estou canso, mas se quadra mesmo é bom

 

Contam que o Alfredo di Stefano, sendo treinador do Valência, indicou um dia ao seu guarda-redes: “Arquero, vale que las que van dentro no las saqués, pero las que van fuera no las metás”. Isso parece que é o que estivemos a fazer com a língua galega nos últimos quarenta anos: utilizarmos todas as ferramentas que tínhamos para ganhar (língua internacional, falada e compreendida pola maioria da população, importante tradição literária…) para perder (língua local e minorizada, perda de falantes, desprestígio social…). Tudo isto não é consequência do infortúnio nem da posição dos planetas, senão de luitas absurdas entre pessoas que nos dedicamos a acentuar as mínimas diferenças existentes entre as nossas visões em vez de as ignorarmos e centrarmo-nos no que realmente é essencial (e compartilhado).

Isolacionistas vs. reintegracionistas

Estou canso desta luita entre isolacionistas e reintegracionistas. Todas as pessoas que defendemos a existência dum padrão culto para o galego que o libere dos castrapos vários deveríamos ter mais cousas em comum que antagonismos. Convivemos a diário nos centros de trabalho, em atos sociais, em escolas e atividades das nossas filhas, nos bares… E debatemos -utilizando argumentos similares- com a mesma gente defensora desse ghalhegho do pueblo que pretende universalizar a fala dos seus trinta ou quarenta vizinhos como modelo único para toda a Galiza.

A solução natural a esta tensão é um modelo binormativo como o norueguês, de que falo mais adiante. Ambos sistemas ortográficos têm os seus pontos fortes, como sinalava recentemente o Eduardo Maragoto num vídeo para o Nós Televisión. Somemos então em vez de dividir.

Reintegracionistas vs. reintegracionistas

Estou canso também de debates entre reintegracionistas que acham grafar uma como uma submissão ao poder lisboeta, e outros que veem na escrita de umha uma fase ultrapassada no século XXI. Quanto mais ridícula é a diferença entre dous pontos de vista, mais transcendência se dá a detalhes que não deveriam ter importância alguma. A Ortografia Galega Moderna mostra o escassas que são as diferenças entre estas duas visões e a naturalidade com que podem conviver num único texto. Isto é mui comum em línguas extensas como o inglês, onde convivem as formas britânicas/americanas colour/color, centre/center, analyse/analyze, travelled/traveled, leukaemia/leukemia, defence/defense (entre outras muitas) sem necessidade de fazer duas gramáticas diferentes.

Não conheço nenhuma pessoa de prática reintegracionista cuja escrita não esteja amparada por esta publicação. Só entendo que alguém se poda opor de uma perspetiva totalitária de imposição de um modelo, o qual não parece a melhor atitude para conseguir acordos, pois eu não gosto de perder o tempo em barricadas que têm mais vontade de se tornarem em bunker do que de saírem a ganhar. Também pode existir uma oposição puramente lúdica que procura mais a satisfação inteletual do que a obtenção de resultados reais.

Em resumo: não é razoável manter um combate sem ter a perspetiva de chegar a alguma vitória, e não tem sentido propor como alternativa ao galego ILG-RAG dous ou três modelos reintegracionistas, sobretudo quando as diferenças entre eles não vão além de uma dúzia de duplicidades genéricas perfeitamente registáveis num só texto, como demonstrou a Ortografia Galega Moderna. Quero ganhar na sociedade, não nos comentários dos debates do PGL.

Galego vs. castelhano

Estou canso da dicotomia galego-castelhano. Enfrontarmos-nos corpo a corpo é um autêntico suicídio, e também diria que uma insensatez. Comentava o Carlos Padín numa entrevista no PGL que “o marketing na defesa do galego deve-se fazer em soma com o castelhano, jamais de oposição”. Um dos erros recentes do galeguismo foi permitir luzir a bandeira do bilinguismo a pessoas que não o são, pois não podemos aceitar um modelo bilíngue em que umas pessoas falem uma língua e outras outra, senão um que permita que cada cidadã tenha ferramentas para se exprimir corretamente nas duas. Esta fragmentação social é a que logrou evitar o modelo de imersão catalão. Mas, se o queremos aplicar aqui, cumpre explicá-lo com lógica, e não a pedradas.

A cousa é bem simples: só as pessoas galego-falantes têm um domínio pleno das duas línguas à conclusão do ensino obrigatório, enquanto as pessoas que têm o castelhano como primeiro idioma não vão conseguir um domínio similar do galego, exceto erros estatísticos. Portanto, a imersão em galego é o único sistema compatível com os princípios duma das poucas leis aprovadas por unanimidade no Parlamento: a Lei 3/1983, do 15 de junho, de normalização linguística.

Ninguém questiona a utilidade de ter um bom domínio do castelhano. Quanto ao galego, mesmo que fosse uma pequena língua local como o euskara, o letão ou eslovaco, eu continuaria a defendê-lo. No entanto, devemos ser conscientes de que boa parte da população não concorda com isto mas, com a perspetiva lusófona, ninguém poderá alegar questões de utilidade se se tratar duma língua falada por duzentos e cinquenta milhões de pessoas.

Binormativismo ou barbárie

As novas gerações não nos perdoariam estas absurdas luitas entre nós. Chegamos a um ponto em que devemos ter a humildade de deixar de luitar por quem tem mais razão, só nos fai perder um temos que já não temos pois, com esta trajetória as nossas filhas vão ser relíquias linguísticas (caso consigamos que elas próprias continuem a utilizar a nossa língua). De que serve o orgulho de “ter a razão” quando se fracassou na conquista dos objetivos fixados? O importante agora deve ser: que é mais útil? Que nos permite avançar? Como podemos unir esforços? Olho, o facto de manifestar o valor relativo de ter razão não implica que deixe de estar convencido do meu ponto de vista nem que o tenha que fazer quem estiver noutra posição diferente.

A novas gerações não nos perdoariam termos jogado a perder quando tínhamos todas as ferramentas para ganhar, porque o galego-português, além de todas as conotações emotivas, históricas e identitárias, melhora a qualificação profissional de qualquer utente, aumenta a competitividade das nossas empresas e, consequentemente aumenta o PIB do nosso país. O que a Junta de Extremadura está a procurar com um importante esforço económico, poderíamo-lo ter praticamente grátis, apenas adicionando um par de temas de ortografia e fonética galego-portuguesa às programações de Língua e Literatura Galega. Simples e barato. Aliás, vendo as dificuldades que o Lopetegui ou o Camacho têm para se expressarem em português, frente à facilidade do Gustavo Veloso ou do Moncho López, sem fazerem praticamente nenhum esforço, deveria-nos levar a fazer uma profunda reflexão.

Uma vez que a língua galega desapareça da Galiza, pouca importância vai ter quem tivesse razão: estamos no tempo de unirmos estratégias e de permitirmos que alguém poda acertar. O bi-normativismo é uma solução moderna e realista. Funciona na Noruega de hoje desde cem anos atrás -como nos lembra o Paulo Gamalho neste artigo-, e apesar de não ter uma língua nem tão extensa nem útil como a nossa. Para este fim, logramos essa magnífica ferramenta que é a Ortografia Galega Moderna, que nos permitiu aglutinar todas as práticas reintegracionistas num singelo texto.

Estou também farto de expressões como “temos o país que temos”, “que vergonha de gente”, “se tivéssemos a consciência da Catalunha isto não aconteceria”… O povo galego é como é, devido também a como somos nós. Se não percebemos isto, podemos desenhar num escritório o modelo linguístico mais maravilhoso num Estado paradisíaco, mas não teria o mais mínimo valor.

Concluo com outra referência futebolística (apesar de não ser eu um adepto deste desporto). Quando perguntaram ao treinador espanhol Luis Aragonés qual era a chave do sucesso respondeu firmemente: “ganar, ganar y ganar y volver a ganar”. Para a questão da língua, concordo totalmente, pois não tenho interesse na épica nem na estética da derrota. Temos a responsabilidade moral de ganhar, já que somos a última geração que tem a opção de o fazer. E não quero perder.

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