PETISCOS DE ANTIMATÉRIA

Dous padrões para a mesma língua: Noruega e Galiza.



Desde há mais de cem anos a Noruega tem duas normas escritas oficiais: a que se chamou língua do estado ou riksmål, e a que se conheceu como língua da nação ou landsmål. Dado que o país é uma nação-estado desde há mais de 200 anos, estes dous termos não eram demasiado jeitosos e decidiram, a princípios do século XX, utilizar o termo bokmål para a primeira (língua dos livros) e nynorsk (novo norueguês) para a segunda. O bokmål é uma criação do linguista Knud Knudsen no sećulo XIX. Trata-se de um standard inspirado no dinamarquês escrito que o próprio linguista descreveu como um norueguês dinamarquizado (danks-norsk). Pouco depois, um outro linguista dialectólogo, Ivar Aasen, inventou um novo padrão, o nynorsk, uma abstração que sintetizava as diferentes variantes orais faladas no oeste do país em âmbitos rurais e pesqueiros, mais afastadas do dinamarquês. Este linguista considerava o bokmål um dinamarquês norueguizado (norsk-danks), é dizer um dialeto do dinamarquês associado às elites socio-económicas do país ainda colonizadas culturalmente pola Dinamarca, o reino que submeteu a Noruega durante mais de 400 anos. Para Aasen, o padrão da língua nacional não podia basear-se no crioulo falado polas classes média-altas de Olso, mas nas variedades rurais, mais arcaicas e próximas do antigo norueguês medieval, o Old Norsk, a língua nacional antes da submissão política e cultural a Dinamarca. O nynorsk é uma das revoluções sociolínguisticas mais interessantes da Europa contemporânea: a padronização das variantes orais das classes baixas. A língua do povo frente à língua das elites. Sem dúvida, algo pouco frequente.

O ecossistema linguístico norueguês é bem complexo: não existem padrões orais claros mas dúzias de variedades dialetais que se utilizam em contextos tanto coloquiais como formais. Na escrita, os dous standards principais fracionaram-se em média dúzia de sub-códigos organizados arredor dos dous sistemas principais. Por exemplo, o bokmål tem hoje três variantes claras: o conservador, o moderado e o radical. O nynorsk tamém se reorganizou em sub-códigos formando um grupo de normas que chamaremos nynorskianas. As variedades orais, a sua vez, dividem-se em dous grupos: aquelas que se assemelham aos padrões escritos nynorskianos e as próximas das normas bokmålianas. Porém, o uso linguístico não é linear: existem falantes de variedades nynorskianas que escrevem nalguma das normas bokmålianas e vice versa, falantes de variedades próximas das normas bokmålianas que escrevem nalguma norma nysnorskiana. Um freudiano ortodoxo concluiria que os quase 6 milhões de noruegueses são um feixe descontrolado de esquizoides linguísticos. A prova: há 20 maneiras diferentes de pronunciar o pronome “eu” e cada falante nem sempre utiliza a norma escrita que mais se aproxima da forma pronunciada na sua variante oral. Por exemplo, uma falante pode pronunciar [ig] (“eu”) na sua variante oral ninorskiana e escrevê-lo em norma bokmål, “jeg”, em vez de utilizar a norma escrita do nynorsk, “eg”, que é uma forma bem mais próxima, em termos fonéticos, do que ela pronuncia realmente.

A política linguística do estado norueguês pode dividir-se em dous grandes períodos: antes da segunda guerra mundial houvo um processo de confluência cujo objectivo último era unificar os dous standards num único código: samnorsk. Para atingir este objectivo foram criadas novas normas escritas de transição (os nossos “mínimos”) para os dous sistemas escritos, que continham muitas formas opcionais, nomeadamente formas próximas do bokmål no nynorsk e formas próximas do nynorsk no bokmål. Além disso, foram incorporadas no novo bokmål confluente elementos das falas operárias urbanas. Esta política linguística foi apoiada e fomentada por governos de esquerdas (laboristas) e tinham o apoio maioritário da população: 79% nessa altura. No entanto, após a guerra, um movimento conservador e defensor do bokmål tradicional (a antigo riksmål) começou a lutar contra as formas rurais e operárias incorporadas no novo bokmål, que foi denominado “bokmål radical”, demonizando ao mesmo tempo o movimento de confluência e o samnorsk. O movimento riskmål, impulsado polo novo governo de direita e os poderes financeiros entrou em oposição com o movimento confluente da esquerda. Os conservadores defendiam que cada indivíduo pudesse escolher a sua variedade e o seu standard, um direito que, segundo eles, o estado privara ao cidadão. Estes defensores da liberdade de escolha consideravam inaceitável os seus filhos e filhas aprenderem palavras da classe social baixa na escola, palavras e pronúncias que eles consideravam vulgares e que, portanto, não deviam pradronizar-se. Este movimento estava em contra da planificação governamental dos usos linguísticos e defendiam a liberdade linguística. Sem dúvida, são os precursores (sem eles sabê-lo) do nosso Galicia Bilingüe. O movimento pro-riksmål e anti bokmål radical ganhou a batalha e, finalmente, o processo de confluência parou oficialmente em 2002. Curiosamente, na Galiza, a tentativa de confluência que nascera com a norma de “mínimos” parou um ano depois, em 2003, com a nova normativa de “consenso”.

Atualmente, usam as normas bokmålianas o 88-90% da população norueguesa, frentre ao 10-12% que utilizam habitualmente o nynorsk e os seus sub-códigos. Em 1944, no entanto, a percentagem de escolas que usavam o nynorsk como língua ambiental chegava ao 34%. Hoje baixou ao 17%. Mesmo assim, uma regulação governamental vigente desde há mais de um século (1907) obriga o estudantado a aprender os dous padrões escritos incluindo um exame ao final da secundária no que se exige a redação de um texto nos dous standards. Este sistema educativo, muito criticado polo movimento conservador pro-riksmål, permite a sobrevivência da norma minorizada: por um lado, toda a população conhece o nynorsk embora não o use e, por outro, há mais crianças do que adultos que usam como primeira língua este standard. Porém, na universidade e no ambiente laboral muitos jovens trocam para o bokmål por razões obvias. A perda no uso do nynorsk é o resultado da mudança socio-económica que se efetuou apôs a segunda guerra mundial e que acarretou a marginalização dos setores agrários e pesqueiros face à industrialização e ao auge da tecnologia. Um clássico da sociolinguísica. Dentro dos setores conservadores, o nynorsk é percebido como uma língua poética com raízes históricas apropriada para os registo lírico mas com pouco peso comunicativo, e que não deve ser utilizada na instrução das crianças. Aceita-se a sua oficialidade por motivos sentimentais e históricos. Tudo isto tamém nos resulta muito familiar na Galiza.

Após o fracasso da confluência, e esta é a minha opinião, o nynorsk semelha estar em processo de extinção. É provável que deixe de ser norma oficial em todo o estado para sê-lo só no noroeste rural e pesqueiro antes de desaparecer, sem fusão. As ameaças são muitas e esmagadoras: desprezo de pais e estudantes que consideram inútil aprender um outro standard pouco usado e com conotações rurais; o standard que se ensina aos estudantes estrangeiros é o bokmål; as novas tecnologias e localizações de software estão em bokmål; os poucos padrões orais que começam a emergir nalgumas televisões e no ensino do norueguês para estrangeiros tamém se baseiam no bokmål; e por último, o estado cada vez regula menos os usos linguísticos, o que favorece sempre o mais forte. Os defensores do movimento conservador riskmål sabem que, num contexto com cada vez menos regulação política e com maior liberdade para pais e famílias, o standard das elites acabará por vencer a batalha. É só uma questão de tempo.

Existem, no entanto, algumas fortalezas do nynorsk: além de ser um padrão histórico com prestígio literário e o vestígio, embora ténue, do esplendor medieval do Old Norsk, que era a língua dos viquingues e um dos orgulhos nacionais, detetei nas redes grupos de atitivistas defensores deste standard, a maior parte gente nova muito ideologizada. Provavelmente são poucos, mas o seu ativismo de confrontação tenta travar a inercia aparentemente irreversível que arrasta o bokmål a ser a norma maioritária. Algo que tamém nos soa bem familiar.

Mesmo se o nynorsk deixasse de usar-se a médio prazo, a sua pegada ficará no outro standard, pois serviu e serve para norueguizar o bokmål moderado e afastá-lo um bocadinho do dinamarquês.

Para rematar, fagamos um exercício de conceptualização. Pensemos num cenário abstracto com duas forças lutando por definir uma norma escrita para uma língua minorizada em contato com uma língua tecto muito semelhante. Uma das forças procura afastar-se e diferenciar-se da língua tecto (nynorsk) e a outra busca construir-se a partir duma norma culta já existente (bokmål). Se ajustamos este cenário ao contexto galego e considerarmos a equação “castelhano = dinamarquês”, é óbvio que a única força que vai permitir a sobrevivência da língua minorizada é a primeira. A segunda força leva a diluir o galego no castelhano. No entanto, se partimos da equação “português = dinamarquês”, as duas forças empurram no mesmo sentido, é dizer, levam à elaboração duma normativa afastada da língua tecto (o castelhano) e baseada numa norma culta já existente. Em termos linguísticos, a situação do galego é muito mais favorável para a criação dum standard estável do que o norueguês. A nossa vantagem competitiva é que nós temos o português como catalisador das duas forças. Em termos políticos, a situação é bem diferente. O norueguês tem um Estado por trás. O galego, não.

Tal e como acontece na Noruega, teria sentido que as administrações e instituições galegas permitissem viver juntas em igualdade às duas normas, o galego-castelhano e o galego-português, no nosso ecossistema sociolinguístico. Isso não vai impedir que a seleção natural atue e modifique a correlação de forças. Talvez as duas normas sobrevivam muito tempo, ou que uma se imponha em poucos anos, ou que as duas desapareçam. Mas deixemo-las conviver e interagir em igualdade de condições. Formemos parte, ainda que só temporariamente, desse exclusivo grupo de nações com dous padrões oficiais para a mesma língua.

Paulo Gamalho
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