PETISCOS DE ANTIMATÉRIA

Dous padrões para a mesma língua: Noruega e Galiza.



Desde há mais de cem anos a Noruega tem duas normas escritas oficiais: a que se chamou língua do estado ou riksmål, e a que se conheceu como língua da nação ou landsmål. Dado que o país é uma nação-estado desde há mais de 200 anos, estes dous termos não eram demasiado jeitosos e decidiram, a princípios do século XX, utilizar o termo bokmål para a primeira (língua dos livros) e nynorsk (novo norueguês) para a segunda. O bokmål é uma criação do linguista Knud Knudsen no sećulo XIX. Trata-se de um standard inspirado no dinamarquês escrito que o próprio linguista descreveu como um norueguês dinamarquizado (danks-norsk). Pouco depois, um outro linguista dialectólogo, Ivar Aasen, inventou um novo padrão, o nynorsk, uma abstração que sintetizava as diferentes variantes orais faladas no oeste do país em âmbitos rurais e pesqueiros, mais afastadas do dinamarquês. Este linguista considerava o bokmål um dinamarquês norueguizado (norsk-danks), é dizer um dialeto do dinamarquês associado às elites socio-económicas do país ainda colonizadas culturalmente pola Dinamarca, o reino que submeteu a Noruega durante mais de 400 anos. Para Aasen, o padrão da língua nacional não podia basear-se no crioulo falado polas classes média-altas de Olso, mas nas variedades rurais, mais arcaicas e próximas do antigo norueguês medieval, o Old Norsk, a língua nacional antes da submissão política e cultural a Dinamarca. O nynorsk é uma das revoluções sociolínguisticas mais interessantes da Europa contemporânea: a padronização das variantes orais das classes baixas. A língua do povo frente à língua das elites. Sem dúvida, algo pouco frequente.

O ecossistema linguístico norueguês é bem complexo: não existem padrões orais claros mas dúzias de variedades dialetais que se utilizam em contextos tanto coloquiais como formais. Na escrita, os dous standards principais fracionaram-se em média dúzia de sub-códigos organizados arredor dos dous sistemas principais. Por exemplo, o bokmål tem hoje três variantes claras: o conservador, o moderado e o radical. O nynorsk tamém se reorganizou em sub-códigos formando um grupo de normas que chamaremos nynorskianas. As variedades orais, a sua vez, dividem-se em dous grupos: aquelas que se assemelham aos padrões escritos nynorskianos e as próximas das normas bokmålianas. Porém, o uso linguístico não é linear: existem falantes de variedades nynorskianas que escrevem nalguma das normas bokmålianas e vice versa, falantes de variedades próximas das normas bokmålianas que escrevem nalguma norma nysnorskiana. Um freudiano ortodoxo concluiria que os quase 6 milhões de noruegueses são um feixe descontrolado de esquizoides linguísticos. A prova: há 20 maneiras diferentes de pronunciar o pronome “eu” e cada falante nem sempre utiliza a norma escrita que mais se aproxima da forma pronunciada na sua variante oral. Por exemplo, uma falante pode pronunciar [ig] (“eu”) na sua variante oral ninorskiana e escrevê-lo em norma bokmål, “jeg”, em vez de utilizar a norma escrita do nynorsk, “eg”, que é uma forma bem mais próxima, em termos fonéticos, do que ela pronuncia realmente.

A política linguística do estado norueguês pode dividir-se em dous grandes períodos: antes da segunda guerra mundial houvo um processo de confluência cujo objectivo último era unificar os dous standards num único código: samnorsk. Para atingir este objectivo foram criadas novas normas escritas de transição (os nossos “mínimos”) para os dous sistemas escritos, que continham muitas formas opcionais, nomeadamente formas próximas do bokmål no nynorsk e formas próximas do nynorsk no bokmål. Além disso, foram incorporadas no novo bokmål confluente elementos das falas operárias urbanas. Esta política linguística foi apoiada e fomentada por governos de esquerdas (laboristas) e tinham o apoio maioritário da população: 79% nessa altura. No entanto, após a guerra, um movimento conservador e defensor do bokmål tradicional (a antigo riksmål) começou a lutar contra as formas rurais e operárias incorporadas no novo bokmål, que foi denominado “bokmål radical”, demonizando ao mesmo tempo o movimento de confluência e o samnorsk. O movimento riskmål, impulsado polo novo governo de direita e os poderes financeiros entrou em oposição com o movimento confluente da esquerda. Os conservadores defendiam que cada indivíduo pudesse escolher a sua variedade e o seu standard, um direito que, segundo eles, o estado privara ao cidadão. Estes defensores da liberdade de escolha consideravam inaceitável os seus filhos e filhas aprenderem palavras da classe social baixa na escola, palavras e pronúncias que eles consideravam vulgares e que, portanto, não deviam pradronizar-se. Este movimento estava em contra da planificação governamental dos usos linguísticos e defendiam a liberdade linguística. Sem dúvida, são os precursores (sem eles sabê-lo) do nosso Galicia Bilingüe. O movimento pro-riksmål e anti bokmål radical ganhou a batalha e, finalmente, o processo de confluência parou oficialmente em 2002. Curiosamente, na Galiza, a tentativa de confluência que nascera com a norma de “mínimos” parou um ano depois, em 2003, com a nova normativa de “consenso”.

Atualmente, usam as normas bokmålianas o 88-90% da população norueguesa, frentre ao 10-12% que utilizam habitualmente o nynorsk e os seus sub-códigos. Em 1944, no entanto, a percentagem de escolas que usavam o nynorsk como língua ambiental chegava ao 34%. Hoje baixou ao 17%. Mesmo assim, uma regulação governamental vigente desde há mais de um século (1907) obriga o estudantado a aprender os dous padrões escritos incluindo um exame ao final da secundária no que se exige a redação de um texto nos dous standards. Este sistema educativo, muito criticado polo movimento conservador pro-riksmål, permite a sobrevivência da norma minorizada: por um lado, toda a população conhece o nynorsk embora não o use e, por outro, há mais crianças do que adultos que usam como primeira língua este standard. Porém, na universidade e no ambiente laboral muitos jovens trocam para o bokmål por razões obvias. A perda no uso do nynorsk é o resultado da mudança socio-económica que se efetuou apôs a segunda guerra mundial e que acarretou a marginalização dos setores agrários e pesqueiros face à industrialização e ao auge da tecnologia. Um clássico da sociolinguísica. Dentro dos setores conservadores, o nynorsk é percebido como uma língua poética com raízes históricas apropriada para os registo lírico mas com pouco peso comunicativo, e que não deve ser utilizada na instrução das crianças. Aceita-se a sua oficialidade por motivos sentimentais e históricos. Tudo isto tamém nos resulta muito familiar na Galiza.

Após o fracasso da confluência, e esta é a minha opinião, o nynorsk semelha estar em processo de extinção. É provável que deixe de ser norma oficial em todo o estado para sê-lo só no noroeste rural e pesqueiro antes de desaparecer, sem fusão. As ameaças são muitas e esmagadoras: desprezo de pais e estudantes que consideram inútil aprender um outro standard pouco usado e com conotações rurais; o standard que se ensina aos estudantes estrangeiros é o bokmål; as novas tecnologias e localizações de software estão em bokmål; os poucos padrões orais que começam a emergir nalgumas televisões e no ensino do norueguês para estrangeiros tamém se baseiam no bokmål; e por último, o estado cada vez regula menos os usos linguísticos, o que favorece sempre o mais forte. Os defensores do movimento conservador riskmål sabem que, num contexto com cada vez menos regulação política e com maior liberdade para pais e famílias, o standard das elites acabará por vencer a batalha. É só uma questão de tempo.

Existem, no entanto, algumas fortalezas do nynorsk: além de ser um padrão histórico com prestígio literário e o vestígio, embora ténue, do esplendor medieval do Old Norsk, que era a língua dos viquingues e um dos orgulhos nacionais, detetei nas redes grupos de atitivistas defensores deste standard, a maior parte gente nova muito ideologizada. Provavelmente são poucos, mas o seu ativismo de confrontação tenta travar a inercia aparentemente irreversível que arrasta o bokmål a ser a norma maioritária. Algo que tamém nos soa bem familiar.

Mesmo se o nynorsk deixasse de usar-se a médio prazo, a sua pegada ficará no outro standard, pois serviu e serve para norueguizar o bokmål moderado e afastá-lo um bocadinho do dinamarquês.

Para rematar, fagamos um exercício de conceptualização. Pensemos num cenário abstracto com duas forças lutando por definir uma norma escrita para uma língua minorizada em contato com uma língua tecto muito semelhante. Uma das forças procura afastar-se e diferenciar-se da língua tecto (nynorsk) e a outra busca construir-se a partir duma norma culta já existente (bokmål). Se ajustamos este cenário ao contexto galego e considerarmos a equação “castelhano = dinamarquês”, é óbvio que a única força que vai permitir a sobrevivência da língua minorizada é a primeira. A segunda força leva a diluir o galego no castelhano. No entanto, se partimos da equação “português = dinamarquês”, as duas forças empurram no mesmo sentido, é dizer, levam à elaboração duma normativa afastada da língua tecto (o castelhano) e baseada numa norma culta já existente. Em termos linguísticos, a situação do galego é muito mais favorável para a criação dum standard estável do que o norueguês. A nossa vantagem competitiva é que nós temos o português como catalisador das duas forças. Em termos políticos, a situação é bem diferente. O norueguês tem um Estado por trás. O galego, não.

Tal e como acontece na Noruega, teria sentido que as administrações e instituições galegas permitissem viver juntas em igualdade às duas normas, o galego-castelhano e o galego-português, no nosso ecossistema sociolinguístico. Isso não vai impedir que a seleção natural atue e modifique a correlação de forças. Talvez as duas normas sobrevivam muito tempo, ou que uma se imponha em poucos anos, ou que as duas desapareçam. Mas deixemo-las conviver e interagir em igualdade de condições. Formemos parte, ainda que só temporariamente, desse exclusivo grupo de nações com dous padrões oficiais para a mesma língua.

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho nasceu em Freixeiro (Vigo) em 1969. É licenciado em Filologia Hispânica pola USC e Doutor em Linguística pola Université Blaise Pascal, França. É docente-investigador especializado em linguística computacional.
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  • Alfredo Ferreiro

    Parabéns, gostei muito.

  • José Ramom Pichel

    Paulo, era isso, era isto 🙂 parabéns!

  • Paulo Lamas

    Em relação ao exercício final de conceptualização queria referir que a equação é a seguinte: galego + português = galego; galego + castelhano = castelhano. ou em palavras: o português puxa pelo galego e o castelhano expulsa o galego.

    A experiência é quase sempre: um galego que fala habitualmente castelhano mas se encontra com um falante de Português recorrerá ao galego para comunicar, um galego falante em frente a um falante de Português continuará a falar em galego. Portanto as situações de contexto lusófono potenciam o uso – e o conhecimento mas essa é outra conversa – do galego.

    Já os contextos em que o galego falante se encontra perante um castelhano falante acabam na esmagadora maioria dos casos no abandono do galego.

    Adorei o artigo, obrigado.

  • Ângelo Cristóvão

    Informações necessárias e ilustrativas. Obrigado.

  • Venâncio

    Caro Paulo: compreendo a mensagem, subliminar… ou nem por isso.

    Só que a sua equação “castelhano = dinamarquês” manqueja grandemente. Na Noruega, o dinamarquês não é língua oficial, como o castelhano o é na Galiza, onde em princípio toda a população o fala. A disputa norueguesa dá-se, pois, entre dois padrões, enquanto na Galiza a disputa implicaria três. Faz toda a diferença do mundo.

    E já nem pergunto de qual dos dois padrões gramaticais do Português está a falar. Mas suponho o europeu.

  • Paulo Gamalho

    Obrigado polos comentários! Paulo, gostei das duas equações: uma aproximação aritmética da famosa cita do Carvalho Calero ;).
    Caro Venâncio, as equações propostas no artigo são só modelos abstratos que buscam reforçar semelhanças deixando num segundo plano as diferenças. O uso de modelos permite generalizar e, portanto, raciocinar. Se construíssemos modelos com muitos pormenores não conseguiríamos encontrar regras genéricas e padrões repetitivos. O ecossistema linguístico galego não é idêntico a nenhum outro no mundo, mas é bem parecido com muitos. Eu só fui lá buscar os elementos comuns com o norueguês. Obrigado e um abraço.

    • Venâncio

      Não leve a mal, Paulo, mas, na Galiza, o castelhano, longe ser ser um “pormenor”, é um elefante na sala. 😉

  • http://www.notas.gal Eliseu Mera

    Excelente texto. Um bi-normativismo na linha do que se pratica na Noruega pode ser uma boa solução para o caso galego.

  • Joám Lopes Facal

    Excelente discurso. Efectivamente, a antinomia [galego-castelhano galego-português] é um espaço homotético com o norueguês. De te fabula narratur, sem por isso esquecer as diferenças.

    O tom equilibrado e desapaixonado, próprio do discurso científico, é também óptimo , afastado das paixons particulares incontroladas que tanto interferem nos debates.

    Fico com o comentário: “o português puxa polo galego, o castelhano expulsa-o” (Paulo Lamas), sem esquecer que “o expulsor é um elefante” (Venâncio) nem a conclusom: “o bi-normativismo pode ser a via de soluçom” (Eliseu Mera).

    Parabens ao excelente orador e aos agudos coloquiantes. Um prazer.

  • Celso Alvarez Cáccamo

    Muito bem explicado, obrigado. Só que, na minha opinião e polo que sei, a analogia dinamarquês = castelhano não dá, nem estruturalmente nem politicamente.

    De resto, o binormativismo é também proposta teimosa do Fagim há tempo. Eu, sinceramente, não concordo, porque não concordo com a oficialização de nenhuma norma. Trata-se de desmontar a lógica da relação entre formas das línguas, valores e formas de dominação, não de corrigi-la. Não há qualquer “seleção natural” 😉 entre línguas, como dizes no final. Há é processos e fenómenos socio-económicos e simbólicos interligados. Por exemplo: ao mesmo tempo que as elites não querem que formas linguísticas “inferiores” “contaminem” as “suas” variedades de poder, também não querem que essas formas desapareçam, para o processo da distinção social continuar a operar. Opinas que o nynorsk está condenado a desaparecer porque está a desaparecer, mas não há nada que nos indique que o processo de desaparecimento não possa se deter, porque para não se deter precisariam-se uma de duas cousas: (a) ora, que a distinção desaparecesse (=outro tipo de sociedade); (b) ora, que os diacríticos de distinção do nynorsk (=signos sociais) fossem substituídos por outros. Aplique-se o mesmo ao galego: não desaparecerá enquanto seja necessário para as formas de distinção de classe na sociedade de classes.

    • Paulo Gamalho

      Obrigadinho Celso, Joám e Eliseu.
      Celso, ao respeito do tema do binormativismo ou duas normas oficiais, eu também não gosto do conceito “norma oficial”, embora não sei muito bem o
      que significa. Desconheço o âmbito das regulações, leis e decretos. O meu cérebro é algebraico :), e só funciona com álgebras básicas que operam com objectos e propriedades/relações entre eles. Por exemplo, tenho um objeto, a norma portuguesa (ou agálica), e quero para ela propriedades que já se associam à norma do ilga, nomeadamente, quero que se estude nas escolas e que haja um exame para todo o alunado no fim da secundária em português ou agálico, do mesmo jeito que há um exame para todo o alunado norueguês em nynorsk. Não sei se isto se consegue oficializando, normativizando, impondo… essa é a parte que desconheço. Só tenho claro o objectivo: associar propriedades desse tipo ao meu objeto alvo: a norma agálica/portuguesa.
      O da ‘seleção natural’ era uma metáfora. O que acontece é o que ti apontas.
      Ao respeito dos signos sociais e formas de distinção de classe, é interessante o que ti diz: o galego (ou o nynorsk) não desaparecerá enquanto seja necessário para as formas de distinção de classe na sociedade de classes. Ora bem, nas sociedades galega e norueguesa intervêm outros fatores (espírito nacional, história, sub-culturas de prestígio…) que tendem a mudar a correlação de forças em certos contextos.

      • Ernesto V. Souza

        Mas por que vão desaparecer as línguas para além da fase histórica em que se achava necessária a desaparição das Línguas como parte de processos políticos de unificação Nacional?

        É dizer… E se aconteceu (acho que já aconteceu) que saltamos de fase a uma fase post-nacional…Mas o Estado Espanhol – dado a sua dinámica histórica) ainda não compreendeu e por isso vai / imos com atraso… no debate e na estratégia.

        E se agora entramos com a internet num ciclo de Internacionalização de grandes códigos (que arrastarão processos de internacionalização/simplificação/recodificação) e apenas se precisa o domínio (mais escrito que oral) de algum dos grandes padrões… sem que importe/preocupe/seja necessário formalizar mais o uso oral, local?

        Isto não implicaria um duplo processo de unificação/simplificação dos códigos padrões paralelo ao seu nível de globalização e de reconstrução, de revival dos dialetos orais, grupais e locais?

        Eu cada dia contemplo diria um cenário mais próprio do Latim Imperial. Com línguas internacionalizadas para uso formal mas cada dia mais desligadas das realidades orais/populares/regionais/nacionais.

        O que penso é na desligação do concepto língua do concepto nação, numa desligação das Línguas (ou numa desaparição dos padrões nacionais?) com dous planos: um formal/escrito internacional e simplificado e o informal/oral… com todas as implicações que tem isso.

        • Ernesto V. Souza

          P.s. e a contrário claro… por que aquelas comunidades/realidades linguísticas que não tiveram Estados/projetos de Estado com processos de nacionalização plenos ou bastante completos durante a fase histórica do nacionalismo… poderiam/deveriam desenvolver padrões nacionais hoje???

          Por vezes penso que pensamos de mais com códigos culturais e históricos de uma fase que está a terminar ou terminou… é como se continuáramos a analisar a realidade com a terminologia, crenças, quadros mentais e conceitos do Antigo Regime em pleno 1900…

          • abanhos

            Certíssimo, infelizmente na Galiza, como passa quasse sempre esse debate chega tarde, podia fazer sentido nos finais dos 70 começo dos 80 (isso eram os mínimos de Carvalho), mas o avanço da normalizazion, faz que o elefante castelhano, seja pouco a pouco o único que vai ocupar a sala, já o está sendo entre os mais novos, esses que segundo alguns (podia pôr aí uma boa mada de nomes), são ha geração mais preparada da nossa história e a que melhor domina um “galego normalizado” pois foi isso o que a escola lhes achegou…

            O nynorsk também retrocede na Noruega com velocidade de cruzeiro, a língua dos livros o bokmal come-a sem paragem.

          • abanhos

            Poderia haver uma Galiza em português e que a vez fosse totalmente tolerante com qualquer outro uso de escrita da nossa língua, e lhe ACEITARA A VALIDEZ PLENA, mas isso só se poderia dar num estado independente.

            Sob castela/espanha o nosso banimento e apagamento está garantido, não cumpre fazer muito para isso, só deixarem as águas correr, os falantes terão(mos) uma morte tranquila a medida que vaiam morrendo um a um. A língua imposta é a que se usa maioritariamente já com as crianças no berço e não te digo nada dos berçários, das creches, das escolas infantis….e a mudança está chegando até as aldeias mais perdidas…já não se tem língua, as pessoas já não estão seguros de possuí-la nem nos falantes mas…

        • Celso Alvarez Cáccamo

          Ernesto, é que as línguas não “têm porque” desaparecer, mas tampouco “têm porque” manter-se, embora estejamos na fase pós-nacional que tu descreves (que em parte sim, concordo). Porque esta fase está ligada a uma dada fase de internacionalização do capital, ou seja, nem mais nem menos que o Imperialismo como descrito por Lenine. E é ainda impredizível onde vai desembocar (ou desbocar) isto, em termos das relações entre: (1) elementos e produtos simbólicos (línguas) com as suas partes de manifestações materiais e os seus papéis na estrutura de classes; (2) estados (nacionais ou não) e outras estruturas jurídicas; e (3) e formas dominantes de produção.

          Para mim é um pouco arriscado aventurar o que vai acontecer. Acho que há um pouco de mito no do revival do local que descreves, porque é revival consentido enquanto não ameace as lógicas globais.

          • Ernesto V. Souza

            O que vai acontecer eu não sei… o que digo é que prefiro analisar em termos de fases históricas (que têm a ver com maneiras de estruturar o poder e efetivamente gropos de poder valores (capital)… acho que realmente dá para falarmos de uma fase da Globalização como evolução (muito para além do aventurado por Lenine) do Capitalismo…

      • Venâncio

        Paulo: é muito raro achar por estas paragens o vocábulo (e o conceito) «o objectivo». Pois Vc usa-o, o que, já de si, abre interessantes perspectivas.

        Devo dizer que nunca se me tornou claro qual é o objectivo do movimento reintegracionista. Não falo de ideologia, e sim de idioma. Concretizando: nunca percebi que paisagem linguística galega futura o Reintegracionismo tem em vista.

        Por descoroçoante que seja lembrá-lo, tem de dizer-se que o idioma é algo material. Sim, ele subsiste de pura materialidade. Tem formas, tem usos, tem frequências, tem conotações, tem tabus, enfim, tudo isso que juntamos debaixo do guarda-chuva de “Norma”. E tem também outra coisa: tem história, essa que cada comunidade (mesmo sem disso se dar conta) carrega e depois passa aos vindouros. Tudo isso tem uma dimensão social, que pode ser, e é, fascinante. E veja-se: o seu artigo mostra como é impossível esconder um deles: o social e o material.

        Por isso, para nós que estamos fora e tentamos entender alguma coisa a vosso respeito, seria mais que tempo de os reintegracionistas galegos conseguirem desenhar, ainda que em borrão, que imagem linguística futura para a Galiza os orienta.

        Um abraço.

        • Ernesto V. Souza

          A questão seria saber se há um reintegracionismo que não dá definido uma proposta, ou vários movimentos que vão desde uma variação do isolacionismo passado e atual, um isolacionismo-reintegracionista, vários anti-isolacionismos, vários reintegracionismos, convergindo mas que fazem impossível o desenho de uns objetivos…

          • Venâncio

            Ernesto: o diagnóstico (acho eu) está perfeito. Só não se percebem sinais dessa «convergência». Bem pelo contrário, como concordarás.

            Quem observa de fora poderia imaginar, algum dia, um entendimento mínimo…, um começo de entendimento mínimo. O preço de não havê-lo vai ser muito alto. Quando tudo tiver acabado no desastre, ides culpar-vos eternamente uns aos outros de não vos terdes permitido um instante de aproximação.

          • Ernesto V. Souza

            Não concordo… agora eu, desde logo não culpo a ninguém de nada… Não vejo as cousas tão dramáticas, nem grupais… Simplesmente a estas alturas da vida há gente com a que não quero debater, trabalhar, nem simplesmente estar no mesmo espaço físico… e suponho que eles também não queiram nada comigo. Cousas da vida…

          • Venâncio

            Quem sou eu para dizer-vos o que deveis fazer… Por mim, continuo a estudar este incrível idioma, mais o que os portugueses fizeram dele. Há-de haver alguém interessado. 😉

          • Ernesto V. Souza

            Seguramente. Eu estou. Mas são muitos os estudos possíveis… o tema é multiplo como longa e a história… 😉

      • Celso Alvarez Cáccamo

        Paulo,
        Na minha opinião (também um pouco algebraica 😉 , mas não só), essas “propriedades” das línguas são sociais, e, em qualquer caso, são de dous tipos, que podemos chamar hoje “sociais formais” e “simbólicas”. Por exemplo:
        – O ensino da língua e ou duma dada norma: em si, é uma função (propriedade, uso, tanto me tem) nesse sentido formal. Mas
        – Os valores que se derivam do seu conhecimento pola aprendizagem: isso é o “capital” bourdieuano, uma propriedade simbólica que até atinge o jurídico, ou codificação das relações materiais entre as pessoas. Por exemplo, com esse conhecimento eu consigo um trabalho, e tu, sem esse conhecimento, não o consegues.

        Sobre o primeiro, sem dúvida: as línguas e normas devem ser ensinadas polos poderes públicos porque são bens comuns da sociedade. Mas aí ainda não entramos na sua mercantilização, ainda não são intercambiáveis. E nessa segunda dimensão do funcionamento da troca simbólica que se precisa doutra política linguística e posição ativista, porque, se não, também não se estará contribuindo nada à superação do funcionamento do valor de troca no capitalismo.

    • Luis Trigo

      Caro Celso
      O que eu acho que este texto tem implícito é que os mecanismos percebidos como associados à mobilidade social, como os de mimetização das elites, podem ser mais fortes do que os mecanismos de distinção social. Se a consciência de classe das classes mais baixas estiver diluída, no que toca à língua por exemplo, as elites usarão outros mecanismos de distinção, claro. Por isso em termos de preservação da língua, como Paulo Gamalho respondeu, será necessário que esta esteja associada ao poder e às suas manifestações, o que por sua vez poderá reforçar o seu prestigio – prestígio esse que está naturalmente associado às classes com poder. O facto da pujança nynorsk estar historicamente associada ao predomínio trabalhista é disto revelador.

      • Celso Alvarez Cáccamo

        Caro Luis,
        Sim, distinção e mobilidade ascendente entrecruzam-se, sim (em função, magicamente 😉 , das formas de entrecruzamento de campos e classes; mas isto é algo a analisar empiricamente, não a dar por feito). E sim, nas sociedades de classes preservam-se os elementos culturais ligados àquilo que se chama poder (mas também os ligados a culturas oposicionais, etc.). Mas preservar esses elementos (língua) com esses valores associados à própria sociedade de classes a mim (já) não me vale, porque vai contra o alvo geral de nos emancipar da lógica da dominação. É mais, não só é contraditório com o ideal social (leva a disciplinamento, distribuição diferencial de capitais, fractura de classe, etc.), mas é que pode não ser “efetivo” enquanto se continuar na mesma lógica; porque, de igual maneira que surgem as borbulhas de investimento e especulação (no capitalismo, qualquer objeto com valor de uso pode se constituir em fonte de capital), estas podem pinchar. E na Galiza a borbulha da língua está a pinchar, porque cresceu pola lógica de qualquer (bi)normativismo, que é a mesma. Isso mais ou menos é o que procurei dizer.

        • Luis Trigo

          Eu percebo o que o Celso quer dizer, o que para mim não é claro é qual a visão que tira a língua da lógica da sociedade classista – se a sua utilização como emancipadora, se a sua não utilização como emancipadora… talvez as duas 😀