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Especial Galescolas (e II) – Umha Galescola por dentro. Viagem ao centro da polémica

Alonso Vidal (*) – «O trabalho que me encarregou o Conselho de Redacçom do Novas era esta vez fácil; o termo “galescola” foi criado polo reintegracionismo e, sem dúvida nengumha apropriado polo quintanismo ao acceder ao poder […]»

“[…] conseguir autorizaçom para visitar umha galescola era complicadíssimo; há que pedir licença a Santiago -dizia-me umha directora-, vai levar tempo: o controlo sobre a informaçom que os trabalhadores contam à imprensa parece evidente”. Em todo isto ia pensando o autor desta crónica enquanto conduzia para a Galescola de Portas, onde por fim, após várias gestons, seria recebido pola sua directora.

A antiga açucareira, com a sua impressionante chaminé, tinha aspecto de ter sobrevivido a um bombardeamento e fora reabilitada com muito bom gosto (nada difícil dada a sua antiga funçom) para Centro de Dia de Idosos num pólo, e Galescola no outro. Pensei maleficamente: Estes nacionalistas nom tenhem paragem: querem controlar-nos desde a mais terna infáncia até o final da nossa vida. Esbocei um sorriso pensando no adequado do lugar para o “adoutrinamento” das nossas crianças, nas bases do “nacionalismo mais radical e intolerante” que tanto denuncia a imprensa espanhola.

Enquanto me ia chegando à porta, imaginava um recebimento marcial, bandeiras galegas com estrela vermelha ou azul, a directora e educadoras à frente, as crianças atrás formadas de a dous em fundo, batas de desenho em perfeito estado de revista e entoando harmonicamente a segunda parte do hino galego, talvez com alguns pronomes mal colocados à moda de Quintana ou Tourinho, que ainda som muito novinhos. “Esta Galescola foi inaugurada polas vizinhas e os vizinhos de Portas a 17 de Março de 2007.”, punha na placa da entrada. Nada de Exmos. Conselheiros ou “sendo alcaide da vila o Sr…”. Afinal, todo um detalhe nas formas, pensei.

Maria respondeu à chamada da campainha com um sorriso amplo e carinhoso, como se recebesse umha criança desconfiada perante o seu primeiro dia de aulas. “Dará-me um rebuçado envenenado de antiespanholismo e ficarei seduzido”, pensava.

No hall de entrada nom havia nenos formados, mas umha espectacular exibiçom de trabalhos, desenhos e adornos feitos polas crianças, que lhe dava um aspecto de túnel fantástico de acesso ao país de Alice. Durante o passeio polas instalaçons, Maria, a directora, vai-me mostrando as salas e apresentando as educadoras. Fala-me dos meios com que contam. “Somos bem tratados pola Administraçom, estám connosco sem olhar a meios, e apoiam-nos na formaçom permanente dos educadores e das educadoras”. E a verdade é que nom falta de nada, podo comprovar: berços para os mais pequenos, com cobertores com o logótipo da casinha e a bandeira, brinquedos, mudadores, cadeiras para crianças, lugares para a sesta e o descanso, casas de banho adaptadas para os mais novinhos e até umha sala grande, com diversos brinquedos, que utilizam como pátio interior nos dias de chuva.

Damos um passeio polo exterior, mostra-me um anfiteatro, umha piscina municipal que se está a construir na parte posterior da Galescola. “A envolvente rural dá mais vantagens, as uvas estám nas videiras, aqui mesmo, e as castanhas para o magusto, flores… As saídas com as crianças som mais fáceis e interessante que numha cidade.”

Está na hora da merenda e as educadoras atendem as crianças na sala de jantar. Alguns, nas cadeiras infantis, e outros, nas sua mesas anás, acabam os seus iogurtes e parecem felizes. Os rebuçados narcotizantes com radicais livres parecem fazer efeito. “Devias ter vindo de manhá – di-me a Maria -, há muitos mais nenos e o ambiente é ainda mais animado.”

Ponho a orelha e, às educadoras, só se lhes ouve falar em galego. Decido atacar com o assunto da língua, a ver se abalam… “Aqui educa-se em galego”, di-me com firmeza. “Os pais sabem que se trazem aqui os filhos vam ser educados em galego e acabou-se”. Decido teimar: “Mas teredes protestos…”. “Nengum, nunca tivemos nengum. Toda essa polémica é artificial, som filmes que montam a imprensa e os políticos. Os pais sabem que estes som centros de qualidade, dos mais avançados na educaçom infantil e bem atendidos. Isso é o que lhes interessa. Temos famílias sul-americanas que estám encantados com o centro”.

Mas os pais trazem aqui os filhos apesar do que algumha imprensa di? “Nom temos vagas livres – responde -, está superlotado, há listas de espera, venhem crianças de fora da vila, de vilas dos arredores. Mesmo de lugares onde há infantários públicos com vagas. Preferem o nosso centro”, comenta com certo orgulho.

Explica-me que o que os distingue de um infantário clássico, para além dos meios técnicos, é o funcionamento em rede . “Estamos em contacto umhas galescolas com outras, trocando experiências e formando-nos constantemente. No aspecto pedagógico, cada sala está atendida por um “casal educativo”, formado por duas mestras e umha pessoa que sempre se encontra de apoio no centro. Procura-se o contacto constante com os pais, que se integrem na galescola. Eles podem entrar e sair livremente nas salas e acompanhar os seus filhos o tempo que desejarem, participando nas actividades programadas em cada momento. Queremos que sejam partícipes da evoluçom das crianças”. Lembra-se de um pai a que caíam as lágrimas de emoçom quando um dia, ao recolher o seu filho, assistiu ao momento em que dava os primeiros passos cara a ele. Os olhos da Maria também brilham ao contá-lo. Ou é mui boa actriz ou realmente lhe apaixona o trabalho.

Di-me que as percentagens de famílias espanhol-falantes anda polos 70% mas a imersom lingüística na galescola fai com que as crianças saiam dela com certa fluência em galego. “Para além do trabalho que fazemos no tema da igualdade de género e o acesso da mulher ao mundo laboral.”

Falo-lhe das batas da polémica e ri. “Algumha mae de nenos que já deixárom a galescola contam-me que agora, na escola infantil, continuam a usar a mochila e a bata que nós lhes demos”. Algo vos faltará, algumha carência… “Bom, podes pôr que precisaríamos algumhas árvores no jardim exterior, porque no Verao está muito calor.”

Agradecim às trabalhadoras da Galescola a sua amabilidade e tomei o carro de volta para recolher o meu neno da escola em Valença. Ele, de pequeno, para ser educado em galego tivo que cruzar o rio. Mas o que acabava de ver em Portas podia ser a semente da mudança. Será possível por fim umha escola em galego e sem complexos? Tudo me pareceu razoável, natural e cuidado ao detalhe.

“Vou ter difícil atacar o projecto esta noite ao escrever a crónica; Merda de trabalho! aqui queria ver eu um jornalista de “El Mundo” – pensava -, enquanto desenvolvia um dos rebuçados que Maria me oferecera.


(*) Artigo original publicado no número 70 do Novas da Galiza.

 

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