Raimunde Serantes (*) – A insuficiência de vagas de galescolas, nomeadamente nas cidades galegas, está a acarretar certa frustraçom a muitas famílias que no início viram estes centros como a possibilidade de assegurar que a educaçom dos seus filhos e filhas se veiculasse em galego.
Algumhas dessas famílias tinham-se organizado há uns anos para pôr em andamento um projecto de nome idêntico, se bem que tivesse como objectivo principal o de permitir, aos pais e maes que o desejassem, educar as crianças totalmente em galego. A apariçom posterior das galescolas públicas frustrou o projecto cooperativo, umha vez que alguns progenitores consideravam que os objectivos da iniciativa original estavam recolhidos nos novos infantários da Vice-Presidência. Porém, a realidade foi diferente, e muitas das famílias que desejam que os seus filhos nom abandonem a língua da casa ficárom sem a vaga desejada. Entre aquelas que a conseguírom, as queixas polos usos lingüísticos som muitas.
As perto de duas mil vagas actuais, que poderám duplicar em breve, nom permitiu que Vigo obtivesse mais de sete dezenas, distribuídas por 3 unidades. Xiana e Paulo residem nesta cidade, onde nos dias de hoje é já difícil ouvir falar na nossa língua. Com umha filha de menos de um ano que desejariam educar em galego, reconhecem que as dificuldades para consegui-lo som enormes, a começar pola língua de ambientaçom do próprio bairro. A segunda dificuldade chega na hora de escolarizar a meninha. Este ano, a opçom das galescolas parecia umha oportunidade, mas “Marinha ficou sem vaga, como as Ugias e os Breixos; entrárom os Maykons e os Franko Lucianos (e nom é exagero)”. O problema alegado foi a renda familiar, mas o caso deles é o de dous salários ‘mileuristas’.
O exemplo é bem gráfico e pom de manifesto como as galescolas nom ajudarám a resolver o problema de muitas famílias que ambicionam educar a sua descendência em galego. “Na fila das inscriçons já me dei conta de que todas as maes que estavam à espera falavam em espanhol; eu comentei a umha delas que deveria haver algum tipo de tabela que facilitasse a entrada a meninhos de famílias que realmente querem que a educaçom se faga em galego, e ela respondeu ‘eu, para que entre aqui, se fai falta dizer que lhe falo em galego, digo-o’ “, conta Xiana indignada.
Paulo acrescenta: “Fazendo as inscriçons, por exemplo, um pai protestava porque numha das alíneas a preencher com ‘Si’ ou ‘Non’, o ‘Non’ finalizava com um ‘n’ incorrecto.” Mas a perplexidade deste casal viguês nom acabou aí: “a funcionária, umha auxiliar que abriu a Galescola do Calvário para recolher os impressos, atendeu em espanhol. Nós figemos-lhe ver que queríamos que se dirigisse a nós em galego e nada, apesar de que se tratava de umha das eventuais cuidadoras da nossa filha”.
O mais preocupante é que esta situaçom piora à medida que as crianças crescem. Ester, com umha filha de três anos, já nom pode inscrever a sua filha numha galescola e leva-a actualmente a um colégio em que existe umha linha experimental em que só será usado o galego. Depois dos três anos, em Vigo, só existem dous centros em que isto é possível, mas ambos estám longe de assegurar que a língua de ambientaçom seja a do País.
É a opiniom de outro pai que trabalha em Vigo, que decidiu nom inscrever o filho numha dessas duas escolas, já que lhe ficavam longe, e “várias experiências prévias demonstravam-lhe que meninhos que entrárom falando em galego passárom ao espanhol em poucos meses”. Paulo conclui: “O problema temo-lo os pais que queremos que os nossos filhos falem a nossa mesma língua. Eu nom sei de onde saem os que dizem que nom existe liberdade para escolher que a língua de educaçom dos filhos seja o castelhano.”
Campanhas antigalegas
Os divulgadores das informaçons que refere Paulo som alentados polos meios de comunicaçom madrilenos e algum galego. A equipa responsável polas galescolas tem-se esforçado a combater sobretodo estas difamaçons, desconsiderando quem se queixa por exactamente o contrário. “O processo de inscriçom ainda nom acabou, mas anda cerca das 2.000 crianças. Dentre estes dous milhares, só duas famílias protestárom por causa da língua que vai ser usada, umha delas por escrito ao Valedor do Povo e outra, numha reuniom de pais e maes da galescola de Riba d’Ávia que partia mui politizada por um conflito prévio entre o PP e o PSOE locais.
Mas o normal é que o resto de famílias se encarreguem de exigir aos funcionários, alheios ou nom à docência, que se expressem em galego”, afirma umha próxima das galescolas, que acrescenta: “As poucas queixas existentes contra a utilizaçom do galego tenhem origem militante.” As pessoas responsáveis polos centros incidem no respeito escrupuloso que os funcionários vam ter pola cultura das crianças inscritas: “A língua que vamos usar com elas será o galego, mas nunca exigiremos que os meninhos falem umha língua ou outra.” A atençom à diversidade está tam presente que, em centros situados em vilas com forte presença de imigrantes, este facto será tido em conta à mesa: “Em Ginzo de Límia, por exemplo, haverá ementa especial para muçulmanos.”
Pessoal contratado espanhol-falante
A realidade, porém, desmente a ‘imposiçom do galego’ que se esforçam em divulgar meios como El Mundo. A experiência que nos relata um pai da escola infantil Vite pode servir como exemplo, ainda que reconheça que “este ano a situaçom mudou para melhor. No ano passado estivo umha directora a substituir a titular que se expressava sempre em castelhano”. Porém, foi a própria atitude do professorado que estava em contacto com a filha o que o levou a queixar-se à Vice-Presidência com um e-mail que nom obtivo resposta.
“A minha filha tivo várias professoras ao longo do ano e de todas elas só umha falava galego sempre, outras duas tinham como língua habitual o castelhano embora tentassem falar galego às crianças. O resto utilizava sempre o espanhol”. Com a chegada da directora titular parece-lhe que a situaçom vai melhorar, neste e noutros sentidos, mas lembra como no ano passado as actividades, a música ou os contos estavam em espanhol.
Segundo fontes das galescolas consultadas por este jornal, é verdade que existe muito pessoal contratado castelhanófono, especialmente em zonas próximas das cidades, mas no momento de trabalhar, vam usar sempre o galego. Nesse sentido existe certo controlo sobre o professorado, que sabe que isto se deve cumprir, e para isso estám a elaborar-se planos de normalizaçom lingüística através de umha equipa de coordenaçom pedagógica.
Os problemas podem vir do 50% de galescolas reconvertidas das antigas municipais (nom de nova criaçom), pois o pessoal que antes fora contratado pola Cámara Municipal vai continuar. Quanto ao material educativo, o seu conteúdo lingüístico é ainda escasso, quando existir, estará em galego, asseguram-nos. Em qualquer caso, nom será permitido nengum material que nom seja totalmente coerente com o projecto pedagógico, e a língua fai parte desse projecto.
(*) Artigo original publicado no número 70 do Novas da Galiza.
