Alexandre Anhel Cuquejo – O Brasil é um desses muitos países onde a imagem que há em geral de Espanha e dos espanhóis não é muito boa. Devia dizer-se que a despesa do ministério dos negócios estrangeiros (“exteriores” eles chamam em Madrid) serve de pouco, e além disso os investimentos latino-americanos criaram uma imagem de prepotência e chuleriai que não ajudam a arranjar o assunto.
No Brasil, ao lado disso convive a imagem popular do estado espanhol como um dos países mais atrasados da Europa, o que faz ainda mais insuportável a “chuleria”, como se dissessem: “estes joão-ninguém vêm-nos com estas, se ao menos fossem educados e com a finura e senhorio de cavalheiros que têm os portugueses.”
Na península essas cousas não se percebem, e isso conta ao final no saldo real de perdas e ganhos dos estados, e numa época de grave crise e necessidade, isso ainda tem mais valor económico.
O ano de 2012 não foi um ano bom para o estado espanhol, e o relacionamento com o Brasil é muito importante. Está-se perante uma das potências emergentes do mundo, a sexta economia do planeta (será a quinta no primeiro semestre de 2013), com um PIB que em termos reais quase triplica o espanhol.
A pouco que se leia a imprensa brasileira, percebe-se que nos meios brasileiros as notícias de Espanha têm sempre conotação negativaii.
Para arranjarem um bocado estas cousas, depois de um primeiro semestre em que o valor económico da marca Espanha continuava em forte queda nos mercados, e a correr para os esgotos, o governo Rajoi enviou alargada delegação ao Brasil encabeçada polo Rei e o MNE senhor Garcia-Margalloiii a fazerem gestão no Brasil e sobretudo a fazerem declaração de humildade e pedirem desculpas.
Todos os discursos da delegação espanhola eram de desculpas, a pedirem perdão e dizerem, saibam brasileiros que vamos ser bons a partir de agora, pois a Espanha ama muito o Brasil e os brasileiros…
A imprensa espanhola, unânime, apresentou essa viagem como um grande exemplo da nova diplomacia do governo do premiê Rajoi. Porém, no Brasil a cousa foi tratada dum jeito muito distinto e com sátira e sarcasmo. No Brasil, além disso, é-se muito sensível – como é lógico – ao maltrato alfandegário espanhol aos brasileiros, e mais num Brasil que se encontra que é o primeiro país latino-americano para o qual os EUA flexibilizaram e agora retiram o visto, e “esses joão-ninguém” dos espanhóis andam com melindres e desrespeito.
Para perceberem o alcance da perceção do ridículo que se fez no Brasil, vou colocar a ligação do que dizia o jornal de referência brasileiro, o grande jornal dos negócios do Brasil A Folha de São Paulo do dia 6 de junho de 2012, no artigo O VEXAME DA DIPLOMACIA ESPANHOLA sob a chancela de um dos editorialistas e nas páginas de opinião editorial.
Os discursos do Rei e do ministro de N.E. diziam: perdoem-nos, a culpa do que se tem passado é da polícia, não do governo. A folha editorializava: Quando a polícia influencia a política externa, é melhor economizar salários da diplomacia e reis.
http://acervo.folha.com.br/resultados/?page=2&periodo=ano&q=o+rei+de+espanha&site=fsp
Notas:
i Sacanagem, sacana
iiÉ algo assim como as notícias lusófonas no La Voz de Galicia, sempre apresentando-as negativamente e vendendo a superioridade hispana, e com o corolário vai subliminarmente no cesto a grande sorte que têm os galegos de serem espanhóis e não lusófonos
iiiO Sr. Ministro, ao chegar ao governo a equipa do Premiê Rajoi, colocou como uma das metas de 2012 o sucesso que iam ter na XXII cimeira ibero-americana que ia decorrer em novembro em Cádis – Andaluzia –. Pola sua boca saíram caritativas palavras para as cimeiras de “Zapatero”, e de como a deles ia ser as de um novo rumo e um grande jeito da inclusão espanhola na Ibero-América. Porém, o resultado final foi o da cimeira com mais ausências, a de menos transcendência nos seus acordos e resoluções, e a mais pobre segundo as análises e comentários da imprensa e líderes ibero-americanos.
Não se pode vender o peixe antes de o pescar, ainda que aqui a imprensa não informa tanto a regional como a central do regime (é dizer toda mesnos algum jornal dos países catalães e do vasco), e mesmo parece que há sempre peixe na rede.
