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ENSINAR ÀS CRIANÇAS QUE TÊM SEUS DIREITOS

direitos-das-criancas-dia-internacional-cartazO dia 20 de novembro é o dia internacional dedicado às crianças, aos nenos e nenas de todo o mundo. Que serve para sensibilizar os cidadãos sobre a situação da infância nos diferentes países. E lembrar também que, embora não o pareça, existe desde 1989 uma convenção internacional sobre os direitos de meninos e meninas. Que foi promulgada pelas Nações Unidas em Nova Iorque faz aproximadamente agora vinte e sete anos. E que o Parlamento espanhol ratificou em 26 de janeiro de 1990. Adaptada para a italiana Fundação Basso, por, entre outros, o meu amigo Francesco Tonucci, recolhe um total de 42 artigos. Entre os quais quero sublinhar vários, pois num pequeno depoimento é impossível falar da totalidade. No dous já se fala de que há que respeitar os direitos de todas as crianças, sem ter em conta a sua raça, cor, sexo, língua, religião ou opinião política, tanto dela como da família. O artigo seis é fundamental porque se refere ao mais importante de todos: o direito que a criança tem à vida. Tema muito polémico em vários países. Quando é a vida o mais sagrado que temos e ninguém pode atentar contra ela.

O artigo dezassete quase que não se cumpre em lugar algum. De forma meridiana diz: “Os programas da televisão e outros meios são importantes para as crianças, por esta razão faz falta que sejam adequados para elas”. Eu pergunto-me quantos há divertidos e, ao mesmo tempo, educativos? Com valores humanos, sem violência e sem lixo. Noutros artigos, ademais de preservar os direitos das crianças com problemas físicos e mentais, comenta-se, por exemplo, nos números 26 e 28, respetivamente, o direito à segurança social e à educação. E que a escola tem que ser obrigatória e gratuita para todas as crianças. Que o ensino lecionado na mesma desenvolva as suas capacidades, forme na paz, na amizade, na igualdade e no respeito pelo meio natural. Sempre respeitando o seu idioma, a sua cultura e o seu pensamento religioso. No artigo 31, sinala-se que a criança tem direito a brincar, descansar, divertir-se e dedicar-se às atividades de que mais goste. Por isso pergunto: Para quando uma rede de brinquedotecas na Galiza? Outros artigos falam de como a criança não deve de nenhuma forma ser explorada, nem manipulada, nem torturada. E, antes dos quinze anos, não pode ser recrutada para o exército do seu país.

Perante tal declaração-convenção de direitos, eu quero refletir desde o país em que agora me encontro, que não é outro que a Índia. E, em concreto, o estado da Bengala, que tem como capital Kolkata (nome oficial de Calcutá). Há vários anos estive em Cabo Verde, país africano formado por dez formosas ilhas, onde falam a nossa língua, ademais do crioulo. Todas as crianças têm alegria e são educadas e têm entusiasmo por aprender. Igual que as indianas. Mas a maioria sofrem um problema grave: não têm, ou têm pouca, água potável para poder beber. Por isso o maior presente que podemos fazer às crianças cabo-verdianas, em ato solidário, é ajudar o seu país para que tenham abundantes camiões-cisterna, para levar às escolas o bem prezado que é a água. Teríamos que organizar na Galiza uma campanha solidária para arrecadar fundos para a compra dum camião-cisterna para uma associação pedagógica da ilha de Santiago em Assomada.

No grande país que é Índia, todo um subcontinente, ademais dos graves problemas, onde de tudo falta, dos bairros marginais suburbanos das grandes cidades (o mesmo que se passa nos das ocidentais), o maior problema, sem dúvida alguma, no que se refere às crianças, é o facto de que no rural, são poucas as meninas que vão à escola, porque quase não há escola para meninas. E por isso a maioria das mulheres não sabem ler nem escrever. Isto ajuda, entre outras cousas, a que de forma bem injusta, sejam as mulheres os seres humanos mais marginados neste país, que, pese a tudo, eu muito amo. Por ser também o dos grandes feministas Gandhi e Tagore. Tudo o que se faça para ajudar a criar escolas para meninas no rural indiano sempre há ser pouco, embora, nos últimos tempos o governo tenha posto a andar a iniciativa «escola para todos/as». Faria falta também organizar na Galiza uma magna campanha com este nobre objetivo, de apoiar que as meninas indianas assistam todas a uma escola. Sem perder de vista que na Índia rural tão só há escolas para 40 % das crianças. E de que em Ocidente pecamos por excesso. As nossas crianças têm muitas cousas supérfluas, das quais não desfrutam e são pouco felizes. Sobre o que há que também refletir.

Para ilustrar este importante depoimento da série, dedicado à promoção dos Direitos das Crianças entre os escolares dos nossos estabelecimentos de ensino, escolhi um filme clássico e outro mais moderno que teve grande sucesso.

FICHAS TÉCNICAS DOS 2 FILMES:

1. Ladrões de bicicleta (Ladri di biciclette).ladroes-de-bicicleta-capa-dvd2

Diretor: Vittorio de Sica (Itália, 1948, 93 min., preto e branco).

Roteiro: V. de Sica, Cesare Zavattini, Gherardo Gherardi, Suso Cecchi D´Amico, Oreste Biancoli, Adolfo Franci e Gerardo Guerrieri, segundo o romance de Luigi Bartolini.

Fotografia: Carlo Montuori. Música: Alessandro Cicognini. Produtora: Produzioni de Sica (PDS).

Nota: Pode ver-se legendado entrando em: https://gloria.tv/video/79J8wKioXy88DebKZwbW7YsFP

Atores: Lamberto Maggiorani (Antonio Ricci), Enzo Staiola (Bruno, o filho), Lianella Carell (Maria Ricci), Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci, Giulio Chiari, Fausto Guerzoni e Elena Altieri.

Argumento: O filme apresenta a situação de muitos italianos que, depois da guerra, estavam desempregados. Antonio Ricci é um deles, até o dia em que consegue um emprego como colocador de cartazes. Entretanto, para conseguir o trabalho, precisava de uma bicicleta, o que o fez penhorar objetos de casa para conseguir adquirir uma. A trama se desenrola a partir do dia em que a sua bicicleta é roubada e, junto com seu filho Bruno, ele a procura por toda Roma. O drama é capaz de transportar o espectador para a situação vivida por Ricci de maneira tão forte que os sofrimentos são refletidos em quem assiste. Tantos prémios conseguiu, que não há espaço para resenha-los.

Crítica do filme por Rodrigo Cunha (2003):

Ladrões de Bicicleta é um dos filmes integrantes do Neorrealismo, movimento originário na Itália no meio dos anos 40 que contava histórias de consequências da guerra, ou então resistências durante a mesma; movimento que possui alguns dos melhores filmes da história do cinema. Além do filme em questão, Roma, Cidade Aberta (de Roberto Rossellini, com roteiro do gênio Federico Fellini), Obsessão e A Terra Treme (ambos de Luchino Visconti) são outros clássicos inesquecíveis presentes no movimento. Quem dirige Ladrões de Bicicleta é Vittorio de Sica, o mesmo por trás das lentes de Milagre em Milão e O Teto, o poeta do Neo-Realismo, o sentimental do triângulo básico neorrealista. Era o homem das emoções, o que ia direto aos corações italianos. Vale citar que, por causa do medo da imagem que a Itália tinha com o que os filmes mostram, os neorrealistas sofriam diversas repressões, o que levou todos os diretores a abandonar esse estilo de filmar pouco depois. Diversas pessoas são mostradas desesperadas, atrás de emprego, fazendo qualquer cousa. Mostra-se também o mercado negro, representado pelo mercado de bicicletas, e o desespero humano, até onde uma pessoa pode chegar. Aliás, é nisso que o filme se baseia, na degradação humana pela necessidade, em busca do que hoje para muitos pode ser banal. O desespero de forma crua e imprevisível, tudo com o toque sentimental inconfundível que de Sica da à obra.ladroes-de-bicicleta-foto2

A história do filme se passa logo após a segunda grande guerra, com a Itália destruída e o povo passando necessidade. Ricci (interpretado pelo amador Lamberto Maggiorani) consegue um emprego após muita espera. Só que esse emprego (de colar cartazes na rua) lhe pedia como obrigação uma bicicleta, já que ele deveria se locomover muito e andando não seria uma boa opção, por causa do tempo que seria desperdiçado. Sem dinheiro, Ricci e sua mulher Maria (interpretada por Lianella Carell) conseguem dinheiro para uma bicicleta, possibilitando Ricci de realizar o seu trabalho. Na história há também o menino Bruno, interpretado por Enzo Staiola, filho do casal de aparentemente 10 anos, no máximo. Fascinado por bicicletas, o menino cai de cabeça com o pai na busca pela bicicleta que lhe foi roubada, enquanto Ricci trabalhava em seu primeiro dia. Esse roubo é o empurrão para o desenrolar do filme, a busca incansável de Ricci, seu filho e amigos para recuperar o objeto não só de trabalho, mas de esperança de uma vida melhor da família.

A cena em que Ricci consegue sua bicicleta e sai para o primeiro dia de trabalho é antológica. Só de lembrar da música eu me arrepio, a felicidade era completamente expressada na cena, a esperança de um futuro melhor, tudo. E a fotografia tem um papel importantíssimo na obra, além da música. Com o decorrer do filme, ambos vão ficando cada vez mais pessimistas, escuros, fúnebres. O clímax se desfaz com mais uma cena antológica, inesquecível, não há como não sentir pena da personagem. Outro ponto que queria ressaltar é a utilização de atores amadores na obra. Por causa da falta de verbas (e até mesmo do desemprego que rondava a época), muitos filmes neorrealistas eram rodados com 100% do elenco de atores amadores, como aqui em Ladrões de Bicicleta. Alguns casos à parte, como Roma, Cidade Aberta, faziam uma mistura de amadores com profissionais. De Sica sabia sempre como ninguém guiar seus atores, e este filme é um perfeito exemplo disso. Não há como, em nenhum momento do filme, você afirmar que aquelas pessoas em frente à câmara não são convincentes. Quando era necessário, recursos mais pesados eram usados, como na cena em que Bruno tinha que chorar após apanhar o pai. Enzo não conseguia chorar, então o que fizeram? Colocaram cigarros da produção em seu bolso e começaram a acusá-lo de roubo. Ofendido, o menino começou a chorar de verdade. Cena que de Sica captou com perfeição e adaptou de maneira mais magistral ainda à trama. Ah, outra curiosidade interessante (porém, nada feliz) é que muitas das cenas desse tipo de filme eram rodadas em céu aberto. Isso porque os estúdios italianos estavam todos ocupados com pessoas desabrigadas da guerra.ladroes-de-bicicleta-foto5

Ladrões de Bicicleta com certeza é um filme que irá não só lhe entreter, mas também emocionar. Não há como ficar indiferente a esta magnífica obra de De Sica, sentimentalista. Uma triste realidade, mas que é colocada de uma forma toda especial, reflexiva. Quem se considera um cinéfilo de plantão, filme obrigatório para se assistir e ter em sua videoteca caseira.

2. Minha vida de cachorro (Mitt liv som hund).

Diretor: Lasse Hallström (Suécia, 1985, 101 min., colorido).

Roteiro: L. Hallstrom, segundo a autobiografia de Reidar Jonsson.

Fotografia: Jörgen Persson. Música: Bjorn Isfalt. Produtora: Svensk Filmindustri e Film-Teknik.

Atores: Anton Glanzelius (Ingemar), Anki Liden (sua mãe), Tomas von Bronsen (tio Gunnar), Kicki Runderer (tia Ulla), Melinda Kinnaman (Saga), Magnus Rask (Fransson), Didrik Gustavsson (Sr. Arvidsson), Leif Ericson (tio Sandberg) e Manfred Serner.

Argumento: O travesso Ingemar, de 12 anos, tem todos os tipos de problemas, que vão deixando, pouco a pouco, sua mãe louca, sem saber que ela está muito doente, a ponto de morrer. Quando ele e seu irmão tornam-se muito para ela, eles são separados e vão viver com os tios. Ingemar acaba indo para a cidade rural de Smaland, vivendo com o tio Gunnar e com sua tia Ulla. Lá ele encontra muitas pessoas. Saga, uma menina sapeca de sua idade que se veste de menino para poder jogar ao futebol, que gosta dele. Entre os mais excêntricos moradores, estão Fransson, um homem que conserta o telhado de sua casa, e Sr. Arvidsson, um velho homem que faz Ingemar ler para ele um catálogo de lingeries. Depois, Ingemar volta para sua casa, mas sua mãe logo volta a ficar doente e é hospitalizada. Ele e seu irmão ficam com o tio Sandberg na própria cidade, mas sua esposa acha que o menino é louco. Depois de sua mãe morrer, ele volta para Smaland. Sr. Arvidsson morre; Gunnar e Ulla agora dividem a casa com uma família grega. Gunnar recebe-o e consola-o da melhor maneira possível, mas a casa está tão cheia que Ingemar vai viver com a Sra. Arvidsson em outra casa. Por enquanto, Ingemar torna-se objeto de disputa entre Saga e outra garota. Quando elas começam a brigar, literalmente, por ele, ele agarra a perna de Saga e começa a latir como um cachorro. Ela fica preocupada com sua estranha atitude e o chama para uma luita de boxe. Durante a luita, para irritá-lo, ela fala que sua tão amada cadela, Sickan, (que ele havia deixado em um canil) estava morta. Isto, junto da morte de sua mãe, é muito para ele e ele se fecha num quiosque na casa de Gunnar. Este filme conseguiu bastantes prémios na sua estreia.

Crítica do filme por Rafael Lemos (2007):

Por muito tempo, este foi o melhor filme que assisti. Hoje em dia, embora não ocupe essa posição, reconheço nele uma obra de arte além das expectativas e da qualidade artística da grande maioria das produções cinematográficas. O que mais chama atenção no filme, tecnicamente, é a fotografia, feita com a existência de muita luz (parecendo luz solar durante os primeiros raios da manhã) para constatar com a imagem de uma Suécia gélida. A fotografia nesse filme é belíssima e encanta qualquer pessoa que assiste. O filme tem uma história muito bonita e sensível, mostrando o contraste no modo em como Ingemar percebe o mundo ao seu redor: a monotonia da cidade grande, onde tem uma mãe doente, e os tipos diferentes e engraçados do interior sueco, onde passa a levar uma vida bastante divertida. Mostra, também, a descoberta da sexualidade, desde o início do filme, através de três pessoas: uma garota loira que vive consigo na cidade grande, uma menina que se veste como garoto para jogar futebol com os meninos, e uma mulher que posa como modelo para um artista. A sexualidade também é retratada na velhice com um senhor bastante engraçado do interior sueco, que faz Ingemar ler para ele revistas sobre roupas íntimas femininas. As comparações que Ingemar faz de sua vida com a cachorra russa Laika nos remetem a reflexões profundas sobre a nossa existência. Resumindo, o filme é perfeito, tocante, sensível, com toques trágicos, deprimentes mas em alguns momentos se contrastando com cenas engraçadas (um humor sueco, podemos dizer, não norte americano). Assisti muitas vezes, vou continuar vendo-o por muito tempo. Outros filmes do mesmo estilo são: Pelle: o conquistador; A festa de Babete e Desde que Otar partiu. Quem gosta de um desses, gostará de todos, pois seguem a mesma linha cinematográfica, e tem um andamento rítmico em relação ao enredo muito parecido. Um filme excelente.

AINDA FICA MUITO PARA QUE OS DIREITOS DAS CRIANÇAS SEJAM CUMPRIDOS:

direitos-das-criancas-dia-internacional-cartaz0Tal como antes sinalamos, o dia 20 de novembro é o dia internacional da Declaração dos Direitos das Crianças. Nos artigos 18, 19 e 20 da mesma diz-se: «Se um menino não tem pais, tem que haver alguém que se ocupe de ele. Se os pais dum menino trabalham, alguém tem que atende-lo enquanto estão trabalhando. Ninguém pode descuidar, abandonar, maltratar ou explorar um menino, nem atuar com violência sobre ele. Se um menino não pode ficar com a sua família, tem que ir viver com alguém que se ocupe de ele». Estes artigos tão significativos servem para comentar os dous filmes anteriores. Os 42 artigos que integram a Declaração, que foi aceite por muitos países do mundo, recolhem outros muitos temas relacionados com as crianças: a sua saúde, a sua educação, o seu bem-estar…Todos eles são interessantes e muito lindos se se respeitarem na prática, o que infelizmente não acontece em muitos recantos do Planeta Azul. É o mesmo que o evangelho cristão, que é muito mais formoso se se leva à prática na vida de povos e pessoas, pelos diferentes cidadãos. Mas o mundo não está bem repartido, e quando falamos de crianças ainda mais. Em Ocidente, com uma perda de valores galopante, com muita miséria mental (que é a pior das misérias) enorme, os rapazes têm de tudo, mas não valorizam nada, precisamente por ter tanto. São pouco felizes, não sabem brincar nem divertir-se. Como dizia a minha mãe Rosa, o que têm é muita naturria. Por outra parte, há um problema que deveria preocupar-nos a todos: não nascem meninos, porque, por comodidade ou outras razões, os pais não querem ter filhos. Alguns preferem levar um cãozinho puxado dum cordel, no lugar de um menino ou menina no seu colo. A baixa natalidade, por exemplo, nas províncias de Ourense e Lugo, no caso da Galiza, é para mim o maior de todos os problemas que temos. A que, com urgência devemos pôr remédio.

Se compararmos o nosso grave problema de ínfima natalidade com a realidade doutros países noutros continentes, no que se refere ao mundo das crianças, encontramos situações diversas e algumas colocadas em polos opostos. Conheço o Bangladesh, por estar naquele lindo país asiático por três vezes durante um certo tempo. Bangladesh não é, pela sua natureza e as suas matérias-primas, um país pobre. O que se passa é que tem uma grande superpopulação, para a extensão do seu território habitável. Nascem crianças como fungos, não há qualquer controlo da natalidade. Os pais, muito ao seu pesar, têm que abandonar os filhos por não terem para dar-lhes de comer e poder mantê-los. Não os vão matar, como antigamente se fazia com os gatos atirados ao rio metidos num saco. Pelas ruas de Daca há infinidade de meninos e meninas que não conhecem seus pais. Hoje existem muitas ONG que mantêm escolas e casas de acolhida para estas crianças. Eu gostaria de abrir lá uma escola para, com ajuda de nossas ONGs e pessoas particulares, poder colocar o meu grão de areia, para ajudar a algumas crianças bangladeshis que vivem esta grave situação. Crianças que, ademais de muito lindas, e apesar de estar sem pais e sem recursos, são agradáveis, alegres, educadas, bondadosas e muito agradecidas. Com 300 euros ao mês pode manter-se uma escola para mais de cem crianças. Com esta quantia chega para o pagamento do aluguer do local, ordenados dos mestres, comida e alojamento dos rapazes e as despesas correntes (luz, gás, água…). E depois na Europa queixamo-nos!

Noutro país tão lindo e tão próximo, linguisticamente falando, como Cabo Verde, quase todos os rapazes têm um posto escolar. Mas o seu grave problema é não ter água potável ou ter muito pouca. Na ilha de Santiago (em que fica a capital da República cabo-verdiana), estive no mês de outubro de 2009 durante uma semana. Ali comprovei que 17 escolas de primária de toda uma área necessitam com urgência de ajuda para poderem comprar um camião-cisterna para levar-lhes água potável e calmar assim a sua sede e manter a sua higiene. Seria tão difícil organizar uma campanha solidária popular para arrecadar fundos para comprar-lhes um camião de que necessitam urgentemente? Neste momento encontro-me na Bengala indiana, na formosa localidade tagoreana de Santiniketon. Não há muito que pelo Parlamento de Deli se aprovou uma lei geral pela que se estabelece na Índia a escolarização obrigatória e gratuita de todos os meninos e meninas em idade escolar. Mas ainda hão passar muitos anos para que seja efetiva na sua totalidade, embora seja este país o que mais progride economicamente do mundo. Aqui mesmo onde estou há muitas aldeias dos povos primitivos Santales, em que não chegam a ter escola mais de 40 por cento dos meninos e é necessário abrir muitas escolas para escolarizar todos. O que não teria muito custo, pois se poderiam dar as aulas ao ar livre e só haveria as despesas dos ordenados do mestre e materiais escolares fundamentais (livros, cadernos e lápis). Mas, o mais grave é o baixíssimo índice de escolarização das meninas. Tema da maior urgência na Índia, pois as mulheres continuam numa injusta marginação. Imerecida e imoral, sendo como é tão importante que as meninas vão à escola e se alfabetizem. Aspeto tão vital que também é um grande problema na maioria dos países árabes e africanos. Outro dia teríamos que comentar a situação extrema em que vivem os rapazes em países com conflitos bélicos. Crianças que não conhecem, desde que nasceram, outra realidade que não fosse a guerra. Os filmes «O Quadro Negro» e «Buda, caiu de vergonha», que já comentámos no seu dia nesta nossa série de As Aulas, são modelares na apresentação destes problemas. E «Moolaadé» do senegalês Sembene Ousmane, exemplo da barbaridade que se comete com as meninas de alguns países do Centro de África. Onde por desgraça ainda se pratica a ablação. Filme que já comentamos no seu momento também.

Infelizmente, ainda são muitos os países do mundo em que muitos dos direitos das crianças não são cumpridos. A ONU e a Unesco teriam que empenhar-se muito mais para conseguir em todo o Planeta Terra o respeito por tão importantes direitos. Em especial, agora que temos um novo presidente das Nações Unidas, que fala a mesma nossa língua, o português António Guterres.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorâmicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço, truques cinematográficos, etc.) e o fundo dos dous filmes antes resenhados.

Podemos organizar nos estabelecimentos de ensino uma grande amostra, cujo tema central teria que ser a Declaração Internacional dos Direitos das Crianças. Com colaborações dos escolares, deveria conter textos livres, poemas, lendas, cartazes, desenhos, fotos, mapas, aforismos e a listagem de artigos da Declaração. Numa secção incluir-se-iam aqueles países que mais incumprem a declaração, especificando os artigos que mais conculcam. Com todo o material tirado de livros, revistas, jornais e da internet, podemos editar ou policopiar uma monografia, seguindo o modelo da «Biblioteca do Trabalho» de Freinet.

Organizamos, seguindo a técnica do Livro-fórum, atividades lúdico-artísticas com debates-papo, depois de ler todos algum dos seguintes livros (escolhendo antes um da listagem que propomos): Malala, a menina que queria ir para a escola, por Adriana Carranca; A esperança é uma menina que vende frutas, por Amrita Das; O que é a liberdade?, por Renata Bueno; Acompanhando meu pincel, por Dulari Devi; É tudo família!, por Alexandra Maxeiner e Anke Kuhl; O mundo no black power de Tay´o, por Kiusam de Oliveira; Um outro país para Azzi, por Sarah Garland; Crianças como você, por Barnabas e Anabel Kindersley (Unicef) ou Lua do Senegal, do galego Agustim Fdez. Paz.

 

 

 

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