José Paz Rodrigues (*) – Nas últimas edições do Festival Internacional de Cinema de Ourense, com grande acerto e muito sucesso, incorporou-se ao programa do festival ourensano uma secção em que se apresentam trabalhos cinematográficos, documentários e de ficção, realizados em escolas primárias e estabelecimentos de ensino secundário, por estudantes, coordenados polos seus docentes.
Com o nome de “OUFF Escola” eu fiz parte do júri na edição de 2009, para escolher os filmes que seriam premiados, e que no seu momento foram apresentados a este certame. Atualmente ainda está pendente, pese a ter o nosso festival dezassete anos de vida, a programação ao longo do ano escolar de um obradoiro de cinema a levar de forma itinerante polos diferentes estabelecimentos educativos de todos os níveis, da nossa cidade e província e mesmo da comunidade autónoma.
No que os estudantes pudessem aprender o “ABC do cinema”, a linguagem fílmica e icónica, os movimentos de câmara de rotação e traslação, os tipos de planos, a utilização do tempo e do espaço, e o uso de recursos e truques cinematográficos. Algo que, nos tempos atuais em que vivemos, seria importantíssimo, para desfrutarem os jovens da chamada sétima arte e dos filmes de qualidade. De forma desinteressada, eu gostaria de colaborar neste projeto pendente de levar para a frente. Algo assim é o que põe em prática, com rapazes dum povoado marginal chileno, a professora Alícia Vega, protagonista do filme que hoje foca o nosso comentário.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Cien niños esperando un tren (Cem nenos esperando um trem).
Diretor: Ignácio Agüero (1987, Chile, 60 min., a cores).
Fotografia: Jaime Reyes e Jorge Roth.
Música: J. S. Bach, Maurice Jaubert e temas de “Zero em conduta” de Jean Vigó.
Intérpretes: Alícia Vega (professora de cinema) e crianças, pais e mães da colónia de povoadores Lo Hermida do bairro de Peñalolén em Santiago de Chile.
Argumento: Num povoado marginal da capital do Chile, a professora Alícia Vega, diretora da Agência Nacional Chilena Episcopal de Cinema, realiza um Obradoiro de Cinema para rapazes durante 20 sábados. Os rapazes (nenos e nenas) que nunca foram ao cinema e quase que não conhecem o centro da cidade, vivem uma experiência inesquecível, onde construem os brinquedos óticos que levaram à invenção da arte cinematográfica, como o zootrópio e o taumatrópio.
Também aprendem o “travelling” com um carrinho, o fenómeno da persistência das imagens na retina, os elementos da linguagem fílmica, e realizam um filme desenhando fotogramas de papel. Através do obradoiro conhece-se a realidade social dos rapazes que participam nas atividades práticas, que, apesar da sua situação de pobreza económica, são capazes de viver com alegria.
Prémios: Este filme conseguiu mais de dez prémios em festivais importantes do Chile, Colômbia e EUA .
Análise do Film:
Trata-se dum filme sobre o ensino e o rito. Sobre o aprender. Sobre o resgate da figura dum docente, da mão do seu discípulo, pois o diretor foi aluno da coordenadora do obradoiro na Universidade Católica do Chile. Realizado com carinho e austeridade, é um filme com grande fundo social, entranhável e comovedor. A capela Espírito Santo dá passagem, logo da liturgia e culto, às sessões do obradoiro de cinema para rapazes de poucos recursos. Aquele lugar de refúgio e encontro em tempos de repressão militar, há-se transformar numa grande sala de aulas onde as crianças, em base a jogos e brinquedos óticos artesanais e exibições de filmes (Disney, O bucha e estica, Charlot, os Irmãos Taviani…), conheceram parte da história do cinema, enquanto construem a sua própria história.
O diretor entrevista as crianças e as suas famílias, dando conta de sonhos e da situação política do país. A entrevista à mestra, que durante mais de vinte anos, polo seu amor ao cinema, dirigiu obradoiros deste tipo polos quatro cantos do Chile em numerosos povoados com moradores de escassos recursos, foi mestra universitária, demonstra a sua paixão e o seu ensino prático e profundo, transformando-se numa sorte de evangelizadora do cinema, cujo conhecimento transmite aos seus alunos e estes aos seus pais. Esta mestra responde ao modelo tagoreano de docente, pois ama o que faz e o que ensina. A ideia do filme era aparentemente simples, e consistiu em filmar o desenvolvimento real dum obradoiro de cinema para crianças.
A mestra coordenadora do obradoiro, abnegada e apaixonada educadora, ensina-lhes aos rapazes a fazer cinema e também a vê-lo e desfrutar com as imagens. De forma prática, lúdica, dinâmica e atrativa. Nos fotogramas que elaboram, recortando, desenhando e colando, as crianças refletem as suas vivências do momento: os golpes, o fogo, as bombas… em plena época de protestos contra a ditadura de Pinochet. Assim vemos como a violência do momento penetra no imaginário infantil. Diante dos nossos olhos aparecem os rostos infantis iluminados de assombro, perante algo totalmente novo para eles. A maioria nunca antes fora a um cinema. Por isso ao final, de autocarro, vão todos contentes ver cinema ao centro da cidade. Ademais é o seu próprio filme.
Temas para refletir:
Tomar consciência do importante que é a imagem no mundo atual. Polo que é necessário e urgente ensinar os fundamentos do cinema a crianças e jovens nos nossos estabelecimentos de ensino.
Comentar as estratégias didáticas que a mestra do obradoiro desenvolve com os rapazes que participam nas atividades e na filmação.
Lembrar, depois de ver o filme, que as crianças são sempre crianças naturais e espontâneas, com a sua própria psicologia, não importa a época, o país ou as circunstâncias. E que sempre é bom ensinar-lhes a magia, ali onde se encontre. E o obradoiro foi uma janela aberta para eles, num contexto crítico do seu país.
Analisar a intuição didática da mestra, que, com ternura e alegria, sabe aproximar-se a crianças de lugares marginais e baixo nível cultural, utilizando jogos, fazendo atividades muito práticas, manualidades e brinquedos, conseguindo a superação dos seus discípulos. Fomentando o seu interesse, o seu entusiasmo, a sua participação. Em definitivo: sabe como motivar a crianças desfavorecidas, num programa muito inovador para eles e sem manipular tanto os rapazes, como as famílias. Que são eles os que refletem sobre a sua situação social e a do país em que moram.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



