Partilhar

Educar pessoas com N.E.E. variadas no filme “O Milagre de Anna Sullivan”

José Paz Rodrigues – Foi a partir da década de 60 quando nos países nórdicos europeus se apostou pela escolarização das crianças em situação de deficiência sensorial no sistema regular de ensino, iniciando-se assim o movimento da integração escolar. Os países que assumiram isto colocaram as suas crianças e jovens em situação de deficiência nas aulas regulares das suas escolas, acompanhados por professores de ensino especial, previamente formados para isso.

Em 1978 Warnock ajudou a introduzir o conceito de Necessidades Educativas Especiais (NEE), substituindo a categorização médica das crianças e jovens em situações de deficiência. São critérios pedagógicos que passam a ser desencadeadores da ação educativa, a educação especial ou pedagogia terapêutica, e não critérios exclusivamente médicos. Em 1981, por meio de uma Ata educativa emitida no Reino Unido, o conceito foi oficialmente definido: “uma criança tem necessidades educativas especiais (NEE) se tem dificuldades de aprendizagem que obrigam a uma intervenção educativa especial, concebida especificamente para ela”.

A rutura formal com a educação especial dá-se na Conferência Mundial sobre Educação para Todos celebrada em 1990 em Jomtien. Na Declaração de Salamanca de 1994, dentro da Conferência Mundial sobre Necessidades educativas especiais, assinada por 92 países e 25 organizações internacionais, a ideia viu-se reforçada, acordando-se uns princípios fundamentais para a escola e a educação inclusivas. Ademais, os direitos das crianças e jovens com NEE foram incluídos no contexto dos direitos da criança e do homem, fazendo referência à Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948), à Convenção relativa aos Direitos da Criança (1989), à Declaração Mundial sobre Educação para Todos (1990) e às Normas das Nações Unidas sobre a Igualdade de Oportunidades para as Pessoas com Deficiência (1993). Outros documentos foram produzidos para apoiar e ajudar a implementar as ideias expressas, entre os que se podem destacar a Carta do Luxemburgo (1996), com a proclamação europeia do princípio da não-discriminação, consagrada ademais no artigo 13 do Tratado de Amesterdão (1997), o Enquadramento de Ação de Dakar (2000), cujo objetivo principal era atingir a Educação para Todos até ao ano 2015, e a Declaração de Madrid (2002), com o princípio de “Não discriminação mais Ação positiva fazem a Inclusão social”. Todo isto do que antes escrevi provocou uma grande produção de documentos sobre o tema a nível mundial e numerosas investigações e experiências educativas.

Para este novo artigo da série “As Aulas no Cinema” escolhi o filme “O Milagre de Anna Sullivan”, dirigido em 1962 por Arthur Penn, para refletir sobre o importante que é integrar a crianças com NEE nas aulas normais, feito acontecido recentemente, ao iniciar-se o modelo nos anos 60 e nos países nórdicos e estender-se nos 70 por países da nossa área. Antes estas crianças estavam segregadas no seu ensino. Mas, devo assinalar que escolhi este filme também por outros motivos. Porque é uma fita excelentemente realizada, do ponto de vista fílmico, na qual se mostra o importante valor que tem o esforço dos docentes no ensino de crianças problemáticas, e a necessidade de harmonizar exigência, compreensão, paciência e disciplina. Também porque no dia 15 de outubro se comemora o “Dia Internacional do Bastão Branco”, para sensibilizar sobre a vida e a educação das pessoas com deficiência de visão. O presente filme abunda ainda mais noutras necessidades, pois a criança protagonista além de invisual é surda-muda, e têm bastantes conflitos na sua personalidade. Educação de pessoas como a do filme entende-se como educação de crianças com NEE complexas. O trabalho docente da professora Sullivan com esta criança teve no seu momento projeção mundial. O resultado do mesmo foi uma Helen Keller também com muita repercussão social e universal. Mesmo chegou a entrevistar-se (existem fotos onde aparecem ambos juntos) com o meu admirado Robindronath Tagore, numa das suas viagens aos EUA.

 

Ficha técnica do filme:

Título original: The Miracle Worker (O Milagre de Anna Sullivan)

Diretor: Arthur Penn (EUA, 1962, 106 min., Preto e Branco).

Roteiro: William Gibson, segundo a sua peça teatral adaptada da autobiografia de Helen Keller.

Produtor: Fred Coe. Produtora: United Artists.

Diretores artísticos: George Jenkins e Mel Bourne. Montagem : Aram Avakian.

Fotografia: Ernest Caparros. Música: Laurence Rosenthal.

Atores: Anne Bancroft (Anna Sullivan), Patty Duke (Helen Keller), Victor Jory (Capitão Keller), Inga Swenson (Kate Keller, mãe), Andrew Prine (James Keller), Behah Richard (Viney), Kathleen Comegys (Tia Eva), Jack Hollamder (Mr. Anagnos).

Prémios: Óscar à melhor atriz em 1962 para Anne Bancroft e melhor atriz secundária para Patty Duke. No mesmo ano o filme levou o prémio da OCIC no Festival de Donostia.

Argumento: O filme relata a história de uma menina cega. Não só cega, mas muda. E como se não fosse demais, era uma menina surda, muda e cega. O nome dela era Helen Keller, de sete anos, filha de proprietários de terras. Keller não sabia o que era o mundo e não sabia como interpretá-lo, e apesar disso tudo, ela precisava muito de se expressar. A menina não conhece o mundo à sua volta, mas sabe do que precisa para viver e acaba por se tornar uma tirana na sua casa, já que a sua família lhe dava todas as liberdades como uma “inválida”, como achavam que Helen era. A menina tinha o total domínio na sua casa, então, portanto controlava o comportamento de seus familiares; ela não entende como é ser educada e muito menos como ouvir um não. A Helen recebe uma orientação de uma pessoa com suma importância, que é Anna Sullivan, uma professora especialista. Ela é uma mulher que era cega (fez nove cirurgias nos olhos) e usa óculos escuros para proteger-se do sol, acostumada a conviver com cegas e cegos, mas ao se deparar com Helen, entende que ali está o maior desafio da sua vida: o desafio de explicar a uma menina como viver no mundo e como entendê-lo, e seu maior objetivo era que todos a tratassem como uma pessoa normal. Para isto entra em confronto com os pais da menina, que sempre sentiram pena da filha e a mimaram, sem nunca lhe terem ensinado algo nem a tratado como qualquer criança. Ao conhecer Anna, o pai de Helen transpareceu um enorme preconceito dizendo: “eles esperam que uma cega ensine outra”

Como explicar a uma menina que terra é a terra? Que fame é vontade de comer? Como mostrar a árvore para uma menina, que não consegue vê-la? Como ensinar a menina a comer com garfos e facas, se a menina não sabe nem o que é educação? Como ensinar a menina o que é o amor? São essas as perguntas que Anna se faz durante o filme todo. A pesar de alguns desencontros, a precetora Anna Sullivan termina por impor-se a Helen com métodos e estratégias didáticas bastante rígidos, entre pelejas fenomenais e a desconfiança do pai da menina. O resto do filme é a história de “um milagre”; a descoberta de uma linguagem como chave secreta para a comunicação de Helen com o mundo.

 

 

Vontade, vocação e fé de uma professora de educação especial:

O filme conta a história de Helen Keller, uma jovem que nasceu surda-cega devido à escarlatina. Sua mãe descobriu a sua deficiência quando ela era bebé, pois ela não respondia aos estímulos como uma criança sem deficiência. Helen cresceu sem estímulo nenhum mesmo nascendo numa família rica, pois as pessoas que com ela conviviam achavam que por ser assim era incapaz de interagir em sociedade e para fazer com que ela fosse uma pessoa “normal’ contaram com a ajuda da professora Anna Sullivan. Esta professora, porém, tinha métodos um tanto diferentes para trabalhar com Helen, que começou o acompanhamento ainda criança aos sete anos de idade. Ela não tratava a menina como incapaz nem selvagem. A convivência das duas foi um tanto difícil no começo. Helen não respeitava a professora que a desafiava (algo a que ela não estava acostumada, a sua família não fazia isso), porém Anna persistiu com o seu objetivo e os seus métodos não eram bem vistos pela família de Helen, principalmente por sua mãe que achava que ela era muito rígida com a menina. Anna pediu à família de Helen para passar uma semana com a menina. No começo ficaram receosos em deixar as duas sozinhas numa casa sem ninguém para dar palpites – mas acabaram aceitando –, o que fez com que o relacionamento das duas melhorasse. O filme termina com ela a dizer uma palavra, “água”, e ela aprende muitas cousas com a professora que devido aos seus métodos fez com que ela só evoluísse, todos ficando satisfeitos com os resultados. Helen estudou e tornou-se uma escritora de sucesso e as suas obras muito contribuíram para as pessoas com deficiência e mostrou que mesmo tendo nascido surda e cega foi capaz de vencer todos os obstáculos que a vida lhe dava. Assim como neste filme, em “O enigma de Kaspar Hauser” ocorreu o mesmo, o que foi determinante para o seu processo de ensino-aprendizagem foi o estímulo que ele recebeu das pessoas. Todos nós temos capacidade de aprender e estas porém só precisam ser desenvolvidas e os educadores têm que trabalhar para que isso aconteça na vida dos educandos, principalmente se eles forem portadores de alguma deficiência.

A força de vontade, vocação e fé de Sullivan é tanta que nada parece ser obstáculo para ela, nem mesmo os próprios pais de Helen, com quem vive entrando em conflito. O estímulo da comunicação através de um dos sentidos como o tato com o qual Anna a incentiva a utilizá-lo como o elo entre ela e o mundo; desenha palavras na mão da menina a fim de que ela compreenda a relação entre as palavras e os seus significados. O tato passa a ser a via pela qual a menina “enxerga” o mundo, até que, num momento, compreende realmente a linguagem. A partir daí, aprende o alfabeto Braille e aos dez anos começa a falar.

As cenas são definitivamente emocionantes, como por exemplo, quando Helen começa a correr e encostar-se às cousas, perguntando para Anna como era o nome delas, árvore, chão, degrau e professor. Esta é uma das cenas mais lindas do filme. O primeiro contacto de Helen com o alfabeto no tato em livros foi no momento em que encontra uma boneca na mala de Anna e descobre que ela possui a mesma forma do seu rosto. A professora conseguiu com o seu esforço, paciência e entusiasmo ir vencendo a agressividade da menina. Para ensinar-lhe rapidamente o alfabeto manual, pondo-a em contacto com os objetos e soletrando na mão as palavras. Esta estratégia motivadora provocava ânimo na aluna e cada cousa que encontrava pegava nela perguntando como se chamava. Pouco a pouco foi aprendendo novas palavras e ideias que necessitaria para a docente ensiná-la a falar. O resultado mais imediato e importante foi conseguir uma menina cada vez mais civilizada e amável, aprendendo muito rapidamente a ler e escrever no sistema Braille. Também aprendeu a ler dos lábios das pessoas tocando-os com os seus dedos e sentindo o movimento e vibrações. Mais tarde a professora ajudou a menina em várias instituições trabalhando com outros textos e recursos, ensinando-lhe distintas lições e atuando como a sua intérprete. Anna interpretava nas mãos de Helen o que os professores diziam na aula, e transcrevia nos livros utilizando o método Braille.

Se analisarmos o labor didático que a professora Sullivan desenvolve com Helen Keller encontramo-nos com os seguintes aspetos a destacar: em primeiro lugar, o ter uma atitude firme, sem desfalecer, pois é consciente de que educar sempre é um desafio, sempre complicado e nunca se deve desistir, porque não há casos perdidos. Em segundo lugar, planeia muito bem as suas estratégias didáticas, não deixando lugar a improvisações, sem buscar resultados imediatos, e sabendo que os problemas não se resolvem sós. Em terceiro lugar, desenvolve uma atitude criativa, com flexibilidade, originalidade, redefinição e não parando-se perante as dificuldades, pensando sempre em variadas alternativas (uma delas deslocando-se com a menina para uma casa de campo). Em quarto lugar, tem sempre disponibilidade e pensamento positivo, pelo que se dá conta que a menina possui uma grande capacidade para aprender.

 

 

Aluna especial educada com grande sucesso:

Existem vários fatores que dificultam a aprendizagem desta menina possuidora de múltiplas deficiências. Entre elas destacam as seguintes: ser uma criança muito consentida, à qual tudo lhe permitem e se compadecem dela. Veem-na como inútil, com uma certa falsidade de razoamentos emotivos. Também porque, tendo medo a que algo lhe passe, a sobreprotegem. Esta é a principal dificuldade detetada pela educadora Anna. Na casa a permissividade dos seus pais não facilita a educação posterior de Helen. Permitem-lhe todos os antolhos e nada fazem porque tenha exigências pessoais e graduais, embora com afeto paterno e materno. Naturalmente, depois estão as suas carências físicas como obstáculo, mas sem serem conscientes os seus pais de que a menina tem uma grande inteligência. Fazem uma abstração seletiva, pois só se dão conta dos defeitos da sua filha, pensando que é uma doente sem cura, com muito fatalismo pela sua parte. A exigência só ganha sentido quando nasce do carinho verdadeiro e a vontade forja-se com vencimentos e motivações positivas. Nalgum momento a mãe comete o erro de utilizar um reforço negativo, premiando a conduta negativa da menina. Os caprichos consentidos fazem medrar as necessidades. Os pais não identificam o problema real da sua filha, e muitas vezes este é precisamente o maior problema. Por momentos é mais o problema a atitude dos pais com a menina, ao não saberem como comportar-se com ela, que os próprios problemas que a filha tem. Mesmo assim Anna Sullivan, com muita paciência e compreensão, acaba por fazer o “milagre”. Utilizando estratégias didáticas adequadas, como ativar a curiosidade da menina, trabalhar com ela em equipa e conjuntamente, sendo consequente e por vezes mesmo teimosa, e nalgum caso avaliando bem as metas e objetivos a conseguir, possivelmente abusando um pouco dos prémios e castigos, mais próprios de um sistema educativo comportamentalista.

O resultado do labor da professora Sullivan, com todas as dificuldades antes resenhadas, foi realmente de grande sucesso. Helen, em 1904, chegou a graduar-se com o título de honra na Radeliffe College. Teve um poder de concentração extraordinário, muito boa memória e muitos bons recursos pessoais para continuar melhorando cada vez. Enquanto esteve nesta escola escreveu uma formosa autobiografia intitulada História da minha vida. O seu livro teve um rápido sucesso e com ele ganhou muito dinheiro para comprar a sua própria casa. Helen colaborou também na criação da Fundação Americana para Cegos, com o objetivo de oferecer serviços a outras pessoas cegas. Chegou a ser famosa, convidada por muitos países e recebeu títulos de Honra de diferentes universidades estrangeiras. Em dezembro de 1954, para a revista Metropolitan, o jornalista Bradley Smith fez a Helen Keller uma entrevista histórica, que a 1 de novembro de 1998 foi reproduzida na sua íntegra pelo País Semanal de Madrid. Na mesma, muito interessante, comenta como foi passo a passo a sua educação por parte da educadora Sullivan, pondo exemplos, e também o sucessivo progresso nas suas distintas aprendizagens, até chegar ao que chegou a ser como pessoa, apreciada em grande parte do mundo.

 

 

Temas para refletir e realizar:

Depois de ver o filme, utilizando a técnica de dinâmica de grupos do “cinema-fórum”, debater sobre os aspetos fílmicos do mesmo, o roteiro e a linguagem cinematográfica utilizada pelo realizador americano. Fazer o mesmo sobre as condutas da mestra e aluna protagonistas, as causas psicológicas e sociológicas das mesmas, as atitudes dos pais da menina e o sistema ou modelo educativo empregado por Anna Sullivan, por vezes algo comportamentalista. Refletir também sobre os resultados pedagógicos do labor didático-pedagógico da mestra, reparando nos aspetos positivos e nalguns talvez negativos.

Comprometer-se entre todos a ler a autobiografia de Helen Keller História da minha vida. Depois de lida, organizar um “Livro-fórum” para a comentar e debater sobre as experiências vitais da autora. E, também, sobre o papel da educadora especial Anna Sullivan na promoção das aprendizagens variadas de uma menina com necessidades educativas muito complexas. Pode ademais aproveitar-se para a comentar e refletir sobre a mesma, depois de lida em grupo, a entrevista antes citada, feita em 1954 a Helen Keller, quando tinha 74 anos, por Bradley Smith.

Organizar nos estabelecimentos de ensino uma amostra ao redor do tema da educação de cegos, surdos e surdos-mudos, e da sua problemática social. Na mesma teriam que incluir-se fotos, textos e desenhos dos alunos, poemas, canções, livros, revistas, retalhos de imprensa, murais coletivos, autocolantes, cartazes, selos de correios, etc. Tudo para sensibilizar sobre o importante que é integrar de forma inclusiva nas aulas “normais” crianças com necessidades educativas variadas e mesmo complexas, como é o caso da aluna do filme. Poderia colaborar na mesma a “Fundação ONCE”.

 

(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Juan Luis Fernández apresenta o livro Futebol Gaélico em Celanova

Colóquio sobre Tourists, go home? na Semana do Livro de Compostela (SELIC)

Lançamento do livro, Tourists, go home? em Pontedeume

Lançamento do livro Begonha Caamanho, na Corunha

Henrique Marques Samyn visita Compostela para falar sobre literatura negra brasileira

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Juan Luis Fernández apresenta o livro Futebol Gaélico em Celanova

Colóquio sobre Tourists, go home? na Semana do Livro de Compostela (SELIC)

Lançamento do livro, Tourists, go home? em Pontedeume