Raul Rios entrevistou Eduardo Maragoto no ‘Novas da Galiza’, 154 / Março 2017, reproduzimos, com a sua permissão a interessante entrevista, nela o presidente da AGAL, resposta, explica e giza as principais linhas estratégicas e de debate na AGAL e no espaço reintegracionista na atualidade.
A Junta nom fijo praticamente nada para aplicar a Lei Paz-Andrade”

Unificar as duas tradiçons gráficas existentes no reintegracionismo, como via para facilitar a aterragem de novas pessoas no galego-português. Esta era umha das principais propostas do programa com o que a candidatura encabeçada por Eduardo S. Maragoto ganhou as eleiçons ao Conselho da Associaçom Galega da Língua (AGAL) em Outubro de 2015. Apesar de obter umha imensa maioria de votos favoráveis, poucos meses depois começou a andar a Associaçom de Estudos Galegos, umha nova entidade reintegracionista que tem entre os seus objetivos normativizar o galego seguindo a tradiçom da até agora conhecida como normal AGAL. Pola sua parte, em Dezembro a AGAL aprovou em assembleia o texto que dá corpo à confluência normativa, levando como título provisório ‘Ortografia Galega Moderna convergente com o português no mundo’.
As estatísticas mostram que o galego nom deixa de perder falantes, sobretudo entre a populaçom mais nova. Pode-se mudar esta tendência?
O galego nom passa polo seu melhor momento, sobretudo tendo em conta a vitalidade que tem e se prevê que venha a ter nos mais jovens. Deveriam aplicar-se políticas para corrigir esta situaçom. Mas nom é umha situaçom de que nom estivéssemos à espera, era fácil de prever. É umha situaçom que afeta qualquer língua do mundo que nom possua um Estado…
Mas no País Basco e na Catalunha sim aumenta o número de falantes da língua própria entre as crianças.
Mesmo em casos em que existem políticas mais decididas a favor da normalizaçom isto nom significa que os índices de uso da língua aumentem em toda a sociedade. Nom digo que a situaçom no País Basco e na Catalunha nom melhorasse. Nessas sociedades as pessoas estám mais capacitadas para falar em basco ou catalám do que antes. Mas nom temos a certeza de que isso repercutisse em que o uso social dessas línguas fosse em aumento. Tenho as minhas dúvidas.
Na Galiza o âmbito do ensino é a nossa tarefa pendente. Nom estamos em disposiçom de corrigir as percentagens de uso do galego nos próximos anos porque nom figemos boas políticas.
Que erros tivérom os movimentos sociais nos últimos anos? O que se pode melhorar?
Acho que é criticável que a normalizaçom linguística se politizasse em excesso. Nas primeiras décadas a partir da Transiçom, a normalizaçom linguística vinculou-se demasiado a determinados projetos políticos e nom se pujo o acento de forma suficiente em que o galego era parte do nosso património coletivo e em que na sua normalizaçom deviam participar todos os setores da sociedade, tivessem a ideologia que tivessem…
Mas de quem é esse erro, dos partidos que figérom sua essa demanda ou dos que a deixárom de lado? Ou talvez há um pouco das duas cousas…
Há um pouco de todo. As pessoas preocupadas pola normalizaçom linguística figérom-na depender muito da cor do partido que estivesse a governar em cada momento, ou de projetos de administraçom ou projetos emancipatórios futuros. Havia quem pensava: “O galego nom se pode normalizar até a Galiza nom contar com outras instituiçons ou outras forças políticas a gerirem o governo”, e penso que é um erro. Deve-se tentar atingir consensos que atinjam todos os partidos políticos e todos os setores da sociedade. Nom tem que haver umha única razom para estar vinculados à língua: pode ser senti-la como língua nacional, podem ser razons utilitárias, de carácter económico… Temos que integrá-las todas.
Voltando à pergunta, acho que outro erro foi nom termos em conta outras experiências de línguas em processo de normalizaçom, como as que havia no próprio Estado, nomeadamente no âmbito do ensino. Nom pensamos bem que aconteceria se chegasse um momento em que o castelhano fosse a única língua ambiental da maior parte dos centros educativos, como está a acontecer.
Que diagnose fás do reintegracionismo na atualidade?
É um movimento em expansom, que ganhou muito em compreensom social. Passou de ter umha proposta completamente afastada das aspiraçons que tinha a maior parte do movimento normalizador e do conjunto da sociedade galega a, numha década, ter umha postura bastante compreendida. Nom apenas pola própria evoluçom do reintegracionismo, senom porque se derom elementos externos que facilitárom essa evoluçom. Por exemplo, a comunicaçom da sociedade galega com o resto do mundo evoluiu mais rápido do que se pensava com as telecomunicaçons. E o galego na sociedade fragilizou-se também mais rápido do que se pensava.
Todo isto nom quer dizer que deixasse de ser um movimento mui modesto. E vai continuar a sê-lo porque é um movimento cultural, nom fai propostas gerais para a sociedade…
Mas pode ser mais hegemónico e ampliar a sua influência. Neste sentido, em 2014 é aprovada no Parlamento a conhecida como Lei Valentín Paz-Andrade, que entre outras questons procura oferecer aulas de português no ensino. Que frutos está a dar na prática?
Esta lei é mui aproveitável, nom apenas por ter muitas possibilidades de aplicaçom prática, senom também polo facto de ser aprovada por unanimidade. O reintegracionismo vai fazer muitos esforços para que seja aproveitável e para manter a unanimidade; preferimos que avance mais lenta, mas sem afastar-se dessa unanimidade.
Em relaçom à aplicaçom, no ensino passamos de ter entre 700 e 800 alunos de português antes da aprovaçom da lei a mais de 1.700 na atualidade. Só pola existência da lei, nom porque as administraçons figessem política para aplicá-la. A Junta nom fijo praticamente nada. Todo o que se avançou no ensino dependeu da iniciativa individual de pessoas nos centros educativos ou de organismos alheios às administraçons. Mas esse abrigo que deu a lei animou muita gente a avançar. Porém, agora mesmo na Galiza só há presença do português em 10 por cento dos centros de ensino, enquanto na Estremadura a presença é em 80 por cento dos centros.
CONFLUÊNCIA NORMATIVA
“O debate da forma definitiva do galego pode ser adiado”
Em que consiste a confluência normativa?
Para as pessoas entenderem… No reintegracionismo havia duas tradiçons gráficas convivendo, umha mais próxima às outras formas de galego-português no mundo e outra mais próxima das falas populares. O que se chamava português padrom e norma AGAL. As diferenças entre estas propostas fôrom-se reduzindo até ficar em dous ou três traços morfológicos, como a escolha entre a terminaçom –om e –ão ou a conjugaçom de verbos irregulares. Pensamos que se podiam incluir estas diferenças numha única normativa, de maneira a facilitar a compreensom das nossas propostas polo conjunto da sociedade, de maneira a integrar diferentes ritmos de aproximaçom ao reintegracionismo que tem a sociedade. Umha proposta completamente diferente do português padrom dificultava que as pessoas que aprendiam o português nas escolas de idiomas ou noutros países lusófonos fossem inseridas no reintegracionismo, tinham que reaprender umha norma ortográfica.
É entom umha proposta dirigida antes bem cara as pessoas que ainda nom estám no reintegracionismo mais do que para a que já era reintegraciosnista? Nom muda a forma de escrever de ninguém…
Claro. As pessoas que utilizaram o –om vam poder seguir usando-o, esses traços estám recolhidos. É umha norma mais dirigida a facilitar o contacto do reintegracionismo com o conjunto da sociedade que ao interior do movimento, onde as pessoas já partem dumha tradiçom de uso dumhas formas ou outras.
Após a assembleia em que vence a proposta de confluência normativa constituiu-se a Associaçom de Estudos Galegos tendo como um dos objetivos normativizar o galego seguindo a tradiçom da norma AGAL. Umha opiniom que saiu no debate prévio a respeito da confluência era que essa estratégia buscava mais bem trazer o português para Galiza, nom potenciar o galego no seu próprio modelo. Que se trata de substituir as formas galegas por outras portuguesas ou estrangeiras que nom som familiares na Galiza.
Umha cousa é o que se aspira a fazer e outra o que se pode fazer. Nom fai sentido que no ponto em que estamos, sem força social nem institucional para aplicar umha determinada normativa na administraçom ou no ensino, prescrevamos umha norma ortográfica muito definida. Nom podes levá-la praticamente a nengum lado. Achamos que o debate sobre a forma definitiva que deve ter o galego pode ser adiado, e que o lógico neste momento é descrever os usos que fam os diferentes reintegracionistas do galego. Integrar as duas tendências numha única norma em que as pessoas podam fazer escolhas.

