José Paz Rodrigues (*) – Arredor da data do Dia escolar da Paz e da não-violência, não por acaso escolho, para o meu comentário da série, o filme “Adeus rapazes” do francês Louis Malle. Considerado como uma obra-mestra do cinema, foi o que ajudou a consagrar internacionalmente o seu diretor.
Essencialmente apresenta, com uma sensibilidade fora do comum, em belas imagens, a dignidade e compromisso da equipa de mestres, com o seu diretor à cabeça, dum centro de ensino francês em plena ocupação nazi. O seu compromisso é tal, que mesmo estão dispostos a oferecer a sua vida pola defesa dos seus alunos. Sendo precisamente este o segundo tema importante do filme: o relacionamento de amizade no grupo de adolescentes discípulos, nomeadamente entre um católico (que de algum modo é uma personagem autobiográfica de Malle), e outro judeu.
Paralelamente, em lindas imagens e sequências, rodadas com verdadeira arte, desfrutamos da vida escolar deste colégio. Os jogos dos rapazes, muitos deles populares. Os seus roteiros polo campo, a jeito também de brincadeira. As diferentes aulas e docentes que os atendem e lhes ensinam. O despertar ao amor e o prazer por ler. A curiosidade dos rapazes protagonistas e o seu amor pola música e a literatura. A relação com os pais e mães, ou a triste ausência, por razões políticas, dos mesmos. As traições ou a solidariedade em épocas bélicas, com tudo o que isso acarreta aos seres humanos envolvidos em situações limite.
O título do filme é um eufemismo revelador: a crueldade da guerra e a ocupação são apenas sugeridas, o que paradoxalmente, as torna muito mais omnipresentes.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Au revoir les enfants (Adeus rapazes (pt), Adeus meninos (br) )
Diretor: Louis Malle (França-Alemanha, 1987, 104 min., a cores)
Intérpretes: Gaspard Manesse (Julien), Raphaël Fejto (Bonnet), Francine Racette (Sra. Quentin), Philipe Morier-Genoud (padre Jean, director), Stanislas Carré (François Quentin), François Berléand (padre Michel) e François Négret (Joseph).
Argumento: Baseado numa experiência íntima da infância de Malle, este filme relata episódios que viveu numa escola francesa católica carmelita perto de Fontainebleau, no inverno de 1943-44, durante a 2ª Guerra Mundial. Julien Quentin, aluno popular da escola, trava amizade com Jean Bonnet (o seu apelido real era Kippeinstein), circunspeto aluno novo de origem judaica. O destino dos rapazes, sob a égide do Padre Jean, o diretor, é incerto.
Desta maneira o filme retrata o drama vivido polos judeus durante a ocupação nazi da França. Em “Adeus Rapazes” tudo é visto através da inocência da infância, uma condição que vai sendo perdida enquanto se avoluma a tragédia da guerra. Essa inocência pode ser resumida no diálogo de uma cena, quando um rapaz não-judeu pergunta ao irmão mais velho de que é que os judeus estão sendo acusados e este responde: “De serem mais inteligentes do que nós e de terem crucificado Jesus”.
Análise do Filme:
Julien, o protagonista, filho de uma família rica do norte galo, é enviado para o colégio Sainte-Croix. Ele volta entristecido das festas do Natal, para a tediosa rotina no internato. As aulas semelham continuar como sempre, até que o diretor, o padre Jean, aceita quatro novos alunos. Um deles, Jean Bonnet, é da mesma idade e classe que Julien. Quem fica intrigado com o novo companheiro, polo facto de ser um rapaz introspetivo e ficar marginalizado polo resto da turma. Passado um tempo, eles aproximam-se e criam um vínculo muito próximo de amizade. Mas, uma noite descobre que o raro rapaz tem na cabeça um solidéu ou barrete e reza em língua hebraica.
Malle desenvolve filmicamente um belíssimo retrato não só da adolescência, como também dos conceitos universais de fidelidade, amizade e traição. Esta fidelidade e respeito também a expõe nos mestres do colégio e no seu digno diretor, que, ao final, por ter dado asilo a uns alunos judeus, é detido pola Gestapo e intui-se que conduzido a um campo de concentração, que podia ser o de Auschwitz. Os estudantes, que valoram seu compromisso, despedem-no com respeito, apreço e admiração. E ele pronuncia as palavras que dão título ao filme. Este é tão magnífico que a narração não contém juízos de valor explícitos e intencionados, não contém nem elogios nem condenações. Os factos falam por si mesmos e é o espetador quem tem que refletir.
Porém, não se podem evitar, nem o contraste entre os uniformes, visualmente perturbadores, dos soldados hitlerianos, e os hábitos sóbrios e austeros dos padres carmelitas, nem as diferenças entre a amabilidade verbal destes e os ásperos berros do chefe da Gestapo. Não se oculta o colaboracionismo de compatriotas, com as suas sequelas de delações, traições e vinganças interessadas. Além disso a música do filme é muito bela, com solos de piano muito lindos tomados do momento musical nº 2 de Schubert e do Rondó caprichoso de Saint-Saëns. Do ponto de vista cinematográfico o filme é perfeito, no qual se lhe imprimiu à ação um ritmo atenuado e equilibrado, que faz destacar a emotividade do relato numa progressão magistral.
Temas para refletir:
Analisar o importante que é que os mestres, se quiserem ser dignos, respeitem os estudantes, as suas ideias, os seus costumes, os seus credos religiosos, a sua autonomia e liberdade e a sua etnia e cultura, não sendo sectários e dando-se conta de que educar é libertar e libertar é educar. Isto só o podem fazer os docentes que amam a vida acima de tudo, que têm um profundo respeito polo aluno e gostam de ensinar e ajudar aos demais. Em situações limite como as do filme é onde se pode encontrar o verdadeiro compromisso com tudo isto, de docentes dignos, que amam a paz, a infância e o seu ofício. Por isto, como os mestres do filme, houve autênticos mestres cristãos: o primeiro Jesus, depois Manjón, La Salle, Calasanz, Don Bosco, Flanagan, Américo, Milani, Newman, Froebel, Pestalozzi…
Comentar os momentos pedagógico-didáticos mais importantes que se podem ver e desfrutar no filme: o ambiente nas aulas e os modelos de mestres, as atividades fora da aula por meio de jogos e roteiros didáticos, as relações dos alunos entre si, a importância das artes (música e literatura) no ensino e a influência da política (e da guerra) na escola e na vida.
Ser capazes de refletir e de respeitar as atuações humanas diversas em momentos difíceis e em conflitos graves. Não manter preconceitos e compreender, depois de refletir, os comportamentos das pessoas e as causas dos mesmos.
Adeus Rapazes – Malle e elenco 1987
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



