Partilhar

Despertar nas crianças o gosto pela leitura com os filmes de ‘O Bosque Animado’

José Paz Rodrigues (*) – A literatura infantil surgiu no século XVII, no intuito de educar as crianças moralmente. Em homenagem ao escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, foi criado o dia internacional do livro infantil, que é comemorado na data de seu nascimento, 2 de abril, em virtude das inúmeras histórias criadas por ele. Dentre as mais conhecidas mundialmente estão O Patinho Feio, O Soldadinho de Chumbo, A Pequena Sereia e As Roupas Novas do Imperador.

A data é conhecida e comemorada mundialmente, em mais de sessenta países, como forma de incentivar e despertar nas crianças o gosto pela leitura. Tanto os clássicos da literatura infantil quanto os livros somente ilustrados, proporcionaram o desenvolvimento do imaginário das crianças, bem como o aspeto cognitivo, desenvolvendo o seu aprendizado em várias áreas da vida. As histórias reportam valores morais e éticos, que levam o sujeito a repensar as suas atitudes do quotidiano, numa reflexão que pode modificar a sua ação, tornando-a melhor enquanto pessoa. Segundo Umberto Eco, escritor, filósofo e linguista italiano, a literatura infantil traz sentido aos factos que acontecem na vida, envolvendo as crianças. Dessa forma, “qualquer passeio pelos mundos ficcionais tem a mesma função de um brinquedo infantil. As crianças brincam com a boneca, cavalinho de madeira ou pipa a fim de se familiarizar com as leis físicas do universo e com os atos que realizarão um dia”. Todos os anos a Internacional Board on Books for Young People, oferece o troféu “Hans Christian”, como sendo o prémio Nobel desse género de literatura para crianças.

Desde 1967, no dia 2 de abril, celebra-se o Dia Internacional do Livro Infantil, por proposta do IBBY, com a finalidade de promover os bons livros infantis e juvenis e a leitura entre os mais jovens. No presente ano de 2014, a escritora, editora e tradutora Siobhán Parkinson, deu a conhecer a presente Carta às Crianças do Mundo, na qual diz:

“Os leitores muitas vezes perguntam aos escritores como é que escrevem as suas histórias, de onde saem as ideias? Provêm da minha imaginação, responde o escritor… Ah, claro, costuma dizer o leitor. Mas, onde está a tua imaginação, de que está feita e é certo que todo o mundo têm uma? Bom, responde o escritor, está na minha cabeça, é claro, e está composta de imagens e palavras e lembranças e rastos de outras histórias e palavras e fragmentos de cousas e melodias e pensamentos e rostos e monstros e formas e palavras e movimentos e palavras e ondas e arabescos e paisagens e palavras e perfumes e sentimentos e cores e rimas e pequenos ruídos e assobios e sabores e explosões de energia e charadas e brisas e palavras. Tudo isto girando aí dentro e cantando e comportando-se como um caleidoscópio e flutuando e sentando-se e pensando e coçando a cabeça. É claro que toda a gente tem imaginação: sem ela, não seríamos capazes de sonhar. No entanto, nem toda a imaginação tem as mesmas cousas dentro dela. De certo, a dos cozinheiros há conter a maioria de sabores, da mesma forma que a dos artistas há conter sobre de tudo cores e formas. A dos escritores está principalmente cheia de palavras. Para os leitores e ouvintes de histórias, as suas imaginações também se nutrem de palavras. A de um escritor trabalha e dá voltas e dá forma às ideias, aos sons, às vozes, às personagens e aos acontecimentos até os converter numa história. Esta história não está composta de outra cousa que não sejam palavras, numerosos rabiscos a desfilar pelas páginas. Então acontece que, de repente, chega um leitor e esses rabiscos ganham vida. Continuam a estar na página, continuam a parecer rabiscos mas também estão a dançar na imaginação do leitor, e este dá forma e enfia as palavras para que a história agora tenha lugar na sua cabeça, como teve lugar na do escritor. Este é o motivo pelo que o leitor é tão importante para a história como o é o escritor. Só há um escritor para cada uma de elas, mas há centos ou milhares e inclusive milhões de leitores de histórias, que leem no mesmo idioma que o do escritor ou que se calhar até leiam traduções em muitos outros idiomas diferentes. Sem o escritor, não nasce o conto; sem todos os milhares de leitores à volta do mundo, o conto não há chegar nunca a viver todas as vidas que pode viver. Todo o leitor de uma história tem algo em comum com os outros leitores dessa mesma história. Separadamente, embora também de alguma maneira juntos, eles recriaram a história na sua própria imaginação: uma ação que é tanto privada quanto pública, individual quanto comum, íntima quanto internacional. É possivelmente o que os seres humanos fazem melhor. Continuem a ler!”

Considero de grande interesse desenvolver entre os estudantes o prazer por ler, e aproveitando a data, organizar em salas de aula e escolas atividades para dinamizar a leitura. Como apoio da minha proposta, escolhi o filme O Bosque Animado, nas suas duas versões em desenhos animados, e a versão de José Luis Cuerda de 1987, com atores protagonistas, baseando-se no famoso livro do mesmo título do galego Wenceslao Fernández Flórez.

 

Ficha técnica do filme:

Título original: El bosque animado (O bosque animado).

Diretor: José Luis Cuerda (Espanha, 1987, 108 min., a cores).

Roteiro: Rafael Azcona, baseado no livro do mesmo título de W. Fdez. Flórez.

Produtora: Classic Films Producción, S.A.

Fotografia: Javier Aguirresarobe. Música: José Nieto.

Atores: Alfredo Landa (Malvis / O bandido Fendetestas), Tito Valverde (Geraldo), Alejandra Grepi (Hermelinda), Miguel Rellán (Fiz de Cotovelo), Alicia Hermida (Glória Roade), Amparo Baró (Amélia Roade), Fernando Rey (Sr. D´Abondo), Manuel Alexandre (Roque Freire), Francisco Cambres (O Cura), Encarna Paso (Juanita Arrualho), Maria Isbert (Moucha), Antonio Gamero (Cabo da Guarda Civil), Paca Gabaldón (Sra. D´Abondo), Marisa Porcel (Criada do Cura), Mabel Rivera (Sra. Gundim), Luis Ciges (Louco de Vós), Alicia Sánchez (Mulher da aldeia), Alicia Agut (Pelona) e outros.

Prémios: Na segunda edição dos Prémios Goya recebeu o de melhor filme, melhor ator protagonista para Landa, melhor roteiro para Azcona, melhor música e melhor desenho de vestiário.

Argumento: No fantástico mundo do bosque animado conhece-se a gente que se deslocou a esse lugar por uma força mágica. Um bandido, um poceiro, uma menina que trabalha, um rapaz que não quer trabalhar, uma moça que emigra, um fantasma que procura companhia… Estas, e muitíssimas mais personagens, constituem o diverso panorama que imos descobrindo entre as árvores do bosque animado, que não é outro que a nossa famosa fraga de Cecebre. As suas pequenas histórias compõem um tecido ao mesmo tempo humano e vegetal, cruzam-se, entrelaçam-se, e é difícil chegar até as suas raízes, saber quando começam e onde terminam.

 

 

Ficha técnica do filme:

Título original: O bosque animado (El bosque animado). Filme em Desenhos Animados.

Diretores: Ángel de la Cruz e Manuel Gómez (Galiza, 2001, 85 min., a cores).

Roteiro: Manuel Cristóbal e Ángel de la Cruz, segundo o livro de W. Fdez. Flórez.

Produtora: Dygra Films, S.L. e José Frade.

Fotografia: Alejandro Bálsamo. Música: Tito Barbeito e Arturo Kress.

Montagem: Mercedes Arcones, Á. de la Cruz e David López.

Prémios: Este filme teve um grande sucesso e recebeu infinidade de prémios em numerosos festivais (Chicago, Porto, Québec, República Checa, sete prémios Chano Pinheiro na Galiza, dous prémios Goya, prémio Galiza de Comunicação em 2001, prémio AGAPI 2000 e prémio Rosa do Deserto no I Festival Internacional de Cinema do Saara, Tinduf, Argélia em 2003).

Argumento: No bosque convivem em paz animais e árvores quando aparece um novo e estranho vizinho: o poste da luz. Quando a harmonia do entorno é alterada pela mão do homem, os moradores do monte lutarão para a recuperar. Foi esta a primeira longa-metragem de animação em 3D realizada na Europa. Foi editada em DVD com áudio em língua galega desde 2002.

Nota: Este filme de D. A. está disponível em DVD no CGAI (Centro Galego das Artes da Imagem), com sede na Corunha.

 

 

Como fomentar a leitura das nossas crianças:

O caminho para a leitura começa na infância, quando as crianças passam a ter um gosto por palavras e por ouvir histórias, além de se animarem ao contar momentos da sua vida para pessoas próximas. Os membros da família podem incentivar o prazer de ler através de atividades que fortaleçam esse interesse. Selecionamos algumas propostas para ajudar a tornar a leitura uma parte importante da vida da criança.

  • Conversar com o bebé. Usa o teu rosto e voz para lhe contar cousas sobre o mundo e sobre ele mesmo. Escolhe uma hora em que ele esteja calmo e alerta e comece a falar. Ele conhece o som e o ritmo da sua voz, já que a ouviu antes de nascer. Agora, ajuda-o a relacionar estes sons com o mundo.
  • Repete o que o bebé diz. Devolve aqueles deliciosos sons que ele emite, pois está a aprender que os sons podem fazer o mundo reagir e que as palavras têm poder. Vira um apresentador de notícias. Conta o seu dia-a-dia para o é, o que tu estás a fazer e ler para ele. Desta forma estará a criar conexões entre palavras e eventos e a ensinar os elementos de uma história.
  • Dar nomes às cousas. Durante os cuidados diários com o bebé, chama-o pelo nome, diz os nomes das partes do corpo, das roupas e dos acessórios. Embora essas conexões demorem semanas ou meses para serem feitas, tu estarás a estabelecer os fundamentos para a linguagem e a literatura.
  • Olhar juntos livros de figuras. A partir dos seis meses, apresenta os livros como sendo excitantes e engraçados. Aceita a pouca atenção que ela irá dar: cada pequena interação estará a criar amor pelos livros. Não te preocupes se o bebé morder os livros. Crianças pequenas aprendem sobre o mundo usando as mãos e a boca. Usa primeiro livros de capa dura. Se ela colocar os livros na boca não te preocupes. Logo ela vai perceber que existem cousas mais interessantes para fazer com eles, como olhar para as figuras por exemplo. Esse é o primeiro passo em direção à leitura. Olha, aponta e então diz o nome. Bebés e crianças iniciam as suas vidas literárias aprendendo a virar a página, depois olhando as figuras de uma maneira geral. Em seguida, olhando-as à medida que são nomeadas, apontando-as e finalmente nomeando as figuras. Em que ponto teu filho está? Tu consegues prepará-lo para a próxima etapa? Se ele não estiver pronto tu não deves forçá-lo. Mas se estiver, podes ajudá-lo a seguir em frente.
  • Colocar um livro na mala. Enfia um ou dous livros de história na bolsa do bebé ou no carro para as crianças maiores. O hábito de preencher os espaços da vida com livros e sempre tê-los à mão ajuda a criança a vê-los como parte regular da vida.
  • Aprende rimas e músicas. As crianças experimentam os sons da linguagem com as rimas, que fundamentam o seu interesse por palavras. Faz rimas ligadas a gestos, pois isso ajuda a ligar ações a palavras. Poesia para crianças também constrói conhecimento e amor pela linguagem.
  • Dá livros de presente. Dá livros para as crianças em todas as ocasiões. Depois, é bom olhar o livro juntos. Mantém a sua biblioteca doméstica num local especial, mas acessível.
  • Conta histórias antes de dormir. Torna a história, lida ou contada, parte do ritual noturno desde a infância. Nunca elimines a hora de contar histórias como forma de castigo, ela deve ser sagrada.
    Lê todos os dias. Faz dos livros uma parte da rotina do teu filho. Não deixes passar um dia sem ler um livro, um poema ou uma história.

 

As personagens mágicas de o bosque animado:

Uma boa forma de promover a leitura entre os estudantes é ver os dous filmes que, baseados no famoso livro de Fdez. Flórez, foram realizados, com atores em 1987, e em desenhos animados em 3D em 2001. As numerosas personagens dos filmes e do livro podem ser um recurso apropriado, não só para fomentar atitudes ecológicas, também para ajudar a criar nos estudantes o prazer por ler. Entre elas destacamos as seguintes:

  • João de Malvis: Labrego que farto dos escassos ganhos que dá o campo e o labor da terra, decide botar-se ao monte e converter-se no ladrão da fraga, sob a alcunha de “Fendetestas”.
  • Juanita Arrualho: Tia de Hermelinda. É uma mulher entrada em anos e avara. Tem muito mau feitio. Mestra o seu lado humano no velório de Pilara, a sua criada.
  • Roque Freire: Um dos labregos mais ricos da fraga de Cecebre. É assaltado no bosque por Fendetestas e mantém com ele um diálogo cheio de humor e ironia.
  • Pilara: Filha de Marica da Fame e criada de Juanita Arrualho. Sempre temerosa das reprimendas da sua ama, não se importa de tomar as decisões mais arriscadas contanto que ninguém fique com o dinheiro tirado da venda do leite. Até que uma das suas imprudências lhe custa a vida.
  • Marica da Fame: Mãe de Pilara. Possivelmente a velhinha mais pobre e faminta da fraga, a sua vida é um retrato da sobrevivência perante a falta de recursos.
  • Geraldo: Poceiro coxo apaixonado pela Hermelinda. O seu amor para a jovem é outro dos eixos do livro. Incidentalmente a sua história está cheia de viagens marinheiras: em jovem enrolou-se num baleeiro, onde perdeu uma perna. Vive a sua melancólica existência num alto da fraga até que falece cavando um poço para um vizinho.
  • Hermelinda: Sobrinha de Juanita Arrualho. Depois de ser a criada de sua tia durante muitos anos, farta desta servidão, decide ir-se para a cidade a melhorar de posição. Sabe que Geraldo, o poceiro está apaixonado por ela, mas não lhe corresponde e prefere sair, dançar e divertir-se com o resto de jovens da fraga.
  • Fiz de Cotovelo: Nome do defunto que vai vagando pela fraga. Além de ser o pesadelo de “Fendetestas”, é a alma em pena da história. Acaba por unir-se à Santa Companha.

Apesar de que há uma separação bastante clara entre os argumentos de cada estância, há personagens que aparecem nas distintas histórias, já que o tema de toda a obra é a fraga de Cecebre e as suas diversas gentes.

 

Temas para refletir e realizar:

Depois de ver os filmes, utilizando a técnica de dinâmica de grupos do “cinema-fórum”, debater sobre os aspetos fílmicos dos mesmos, o roteiro e a linguagem cinematográfica utilizada pelos três diretores, os planos, os movimentos de câmara, os “travellings”, os “flashbacks”, o uso do tempo e do espaço e outros recursos fílmicos que aparecem nos mesmos. Também sobre as interpretações dos diferentes protagonistas, femininos e masculinos, as suas atitudes e a psicologia dos mesmos, as cenas mais conseguidas e o uso dos recursos fílmicos em cada momento, no caso do filme de Cuerda. Analisar o filme em desenhos animados, o primeiro na Europa neste género filmado em 3D.

Organizar em salas de aula e escolas, com os estudantes dos diferentes níveis, adaptando-se nas leituras às idades dos rapazes, a técnica do “Livro-fórum”. Para isto, entre todos, alunos e docentes, há que escolher de comum acordo um livro para ler, de literatura infantil e/ou juvenil. Depois de lido podem estabelecer-se debates-papo sobre o mesmo, sobre as personagens do mesmo, sobre com qual se identifica cada aluno e podem organizar-se atividades artísticas e lúdicas. Seguindo as formosas técnicas de Gianni Rodari, os alunos podem recriar a leitura, escrevendo e inventando outras histórias, fazendo dramatizações, criando desenhos, cartazes, frases e aforismos.

Pôr em funcionamento nos estabelecimentos de ensino um “Clube de Teatro Infantil”. Dentro do mesmo, organizar representações teatrais, escolhendo entre as obras mais idóneas de teatro infantil que temos. Por exemplo: Berenguela, uma espinha de tojo de Manuel Maria, as Farsas para títeres de Blanco Amor, obras de Carvalho Calero, Manuel Lourenço, Pilhado Maior, Rafael Dieste, Pura Vázquez, Fernández Mazas (para fantoches), Castelão, Marinhas del Valhe, Valhe Inclán, Varela Buxán, Lauro Olmo, Cecília Meireles, Alejandro Casona, etc. O clube deve ter também uma seção de Teatro de Fantoches, e organizar ademais dramatizações, jogos dramáticos, teatro de rua e ao ar livre e sessões de teatro lido. Um dos melhores recursos para motivar os estudantes para a leitura é desenvolver nas aulas a expressão dramática, o teatro de fantoches e o teatro escolar em geral.

 

(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Juan Luis Fernández apresenta o livro Futebol Gaélico em Celanova

Colóquio sobre Tourists, go home? na Semana do Livro de Compostela (SELIC)

Lançamento do livro, Tourists, go home? em Pontedeume

Lançamento do livro Begonha Caamanho, na Corunha

Henrique Marques Samyn visita Compostela para falar sobre literatura negra brasileira

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Juan Luis Fernández apresenta o livro Futebol Gaélico em Celanova

Colóquio sobre Tourists, go home? na Semana do Livro de Compostela (SELIC)

Lançamento do livro, Tourists, go home? em Pontedeume