José Paz Rodrigues (*) – No dia 14 de abril cumpriram-se os 81 anos da proclamação da Segunda República em Espanha. Por isso quero, porque é de justiça, lembrar, na minha série, alguns dos seus projetos e conquistas mais importantes. Em especial aqueles relacionados com a educação e a cultura. Campos que eram prioritários para os seus governantes. Nomeadamente para aquele excelente ministro de educação que foi Marcelino Domingo.
Uma das mais lindas realizações republicanas foram as Missões Pedagógicas. Nas quais a Galiza, no ano 1933, e em especial Ourense, teve uma presença importante, com a missão que se desenvolveu no ano citado de 11 de agosto a 17 de dezembro. Muito pouco depois de ser proclamada a República, em 14 de abril de 1931, por Decreto de 29 de maio e por Portaria de 6 de agosto, em que são nomeados os seus vogais, foi criado o Padroado das Missões Pedagógicas. Em 19 desse mesmo mês é constituído, sob a presidência do grande pedagogo da ILE Manuel B. Cossío, e no mesmo também figurava o excelente poeta António Machado.
A ligação de Ourense com este formoso projeto educativo-cultural foi bastante importante. O pintor Cándido Fernández Mazas foi o desenhador do cartaz do teatro de títeres. O cineasta Carlos Velo integrou-se já desde um princípio no projeto que Cossío concebera décadas antes. Otero Pedraio pronunciou várias conferências sobre a nossa cultura. Os inspetores Maria Cid e Couceiro Freixomil organizaram uma missão em Entrimo e uma semana pedagógica em Riba d´Ávia, respetivamente. O escritor António Ramos Varela colaborou nas atividades. Do que Cossío considerava, como realmente era, uma escola ambulante que ia de aldeia em aldeia. Para desenvolver o que ele chamava uma educação “difusa”, nas comarcas rurais mais afastadas e esquecidas. Formando profundamente no lazer, sem os sujeitos das atividades serem conscientes disso. O que mais tarde interpretou MacLuhan como o “meio é a mensagem”.
Ficha Técnica do Filme :
Título original: Misiones Pedagógicas (Missões Pedagógicas). Documentário.
Diretor: Gonzalo Tapia (Espanha, 2006, 60 min., A cores e a preto e branco)
Roteiro: Adela Batalla e G. Tapia.
Produtoras: Acácia Films, Malvarrosa Média, SECC e TVE.
Intervenientes: os missionários Carmem Caamanho, Carmem Munhoz, Gonzalo Menéndez-Pidal e Leopoldo Fabra. São entrevistados Eugénio Otero, Cristóbal Simancas, Enrique Satué, Júlio Ruiz Berrio, Ramón Salaberria e Eduardo Capa.
Argumento: Este lindo documentário recupera, através de filmes rodados por eles, especialmente Val del Omar, assim como da palavra de alguns missionários e a lembrança dos que naquela altura eram crianças, o labor altruísta dos membros do Padroado de Missões e o dos numerosos monitores, educadores e mestres que se envolveram na nobre tarefa de levar a cultura às aldeias mais abandonadas.
Educar de forma divertida e espontânea:
Como uma escola ambulante, que ia de aldeia em aldeia do meio rural, as atividades fundamentais consistiam em audições musicais de cantigas populares próprias das comunidades onde se celebravam, e outros cantos de outras zonas e música clássica bem escolheita. Também conta-contos, leituras públicas, teatro, títeres e fantoches, canto coral, cinema (documentários e filmes de humor de Chaplin), projeções fixas, museu circulante com reproduções das grandes obras plásticas do Museu do Prado, leituras ao ar livre, recitais, cursos para mestres, exposições e amostras, jogos populares e tradicionais, palestras culturais e criação de bibliotecas em estabelecimentos de ensino e outros locais e organismos.
É muito lindo e significativo o texto do discurso que em cada aldeia pronunciavam, antes do início das atividades, os missionários. “É natural que queirais saber, antes de começar, quem somos e a que vimos. Não tenhais medo. Não vimos pedir-vos nada. Ao contrário; vimos dar-vos de balde algumas cousas. Somos uma escola ambulante que quer ir de aldeia em aldeia. Mas uma escola onde não há livros de matrícula, onde não há que aprender com lágrimas, onde não se vai pôr ninguém de joelhos, onde não se necessita fazer gazeta. Porque o governo da República que nos envia, disse-nos que venhamos antes de nada às aldeias, às mais pobres, às mais escondidas, às mais abandonadas, e que venhamos para vos ensinar algo, algo do que não sabeis por estardes sempre tão sós e tão longe de onde outros o aprendem, e porque ninguém, até agora, veio ensinar-vo-lo; mas que venhamos também, e o primeiro, para vos divertir. E nós quiséramos alegrar-vos, divertir-vos quase que tanto como vos alegram e divertem os cómicos e os titeriteiros”.
O objetivo fundamental era difundir a cultura geral, a moderna orientação docente e a educação para a cidadania em aldeias, vilas e lugares, com especial atenção aos interesses espirituais da povoação rural. Por isso, a ação das Missões abarcava três aspetos:
1.- O fomento da cultura geral por meio da criação de bibliotecas fixas e circulantes, projeções cinematográficas, representações teatrais onde não havia um teatro construído, concertos e museu circulante.
2.- A orientação pedagógica aos mestres das escolas rurais.
3.- A educação cidadã necessária para fazer compreender os princípios dum regime democrático, por meio de palestras e juntanças e assembleias públicas.
Temas para Refletir:
Ver o documentário e organizar um bate-papo sobre o mesmo.
Entrando na Internet procurar documentação sobre as Missões.
Organizar nas nossas escolas e centros de ensino atividades circum-escolares e culturais similares: teatro, cinema-fórum, audições, conta-contos, leituras públicas ao ar livre, recitais, exposições, excursões, jogos populares, títeres e cantos populares. Em todas as quais os estudantes se formam sem se darem conta e de maneira lúdica, divertida e atrativa.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



