Darwin, de Quioto a Copenhaga

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Por Adela Figueroa Panisse

Neste ano cumprem-se 150 anos da publicação da Origem das Espécies por Charles Darwin. Darwin enunciou a teoria da evolução dos seres vivos por seleção natural para dar lugar às inúmeras espécies que hoje colonizam a terra. Esta teoria diz que, entre todos os descendentes de uma geração dada, hão de sobreviver aqueles que mostrarem a maior aptidão para enfrentar as condições ambientais em que se desenvolve a sua vida.

Aqueles indivíduos que sejam mas aptos para escapar dos seus predadores, para encontrar e assimilar os alimentos, para superar as condições de luz temperatura humidade… terão mais probabilidades de chegarem à idade adulta, de se reproduzirem e, como consequência, de transmitirem a um maior número de descendentes as características que os fizeram tão bem sucedidos. Desta maneira, devagar, devagarinho os seres vivos ir-se-ão adaptando ao meio em que vivem e irão aparecendo novas espécies que acabarão colonizando todos os ambientes da Terra.

A Evolução deveu aparecer desde o primeiro momento em que apareceu a vida sobre a Terra, por essa peculiar combinação de reprodução (tirar cópias fiéis de si mesmos) e diversificação entre os descendentes (“falhos” na replicação). A luta pela sobrevivência, pelo espaço, pelos alimentos e pelo acasalamento para perpetuar a espécie, são características gerais da vida e motores da evolução. Competência e cooperação combinam na determinação de sistemas cada vez mas eficazes na obtenção de matéria, energia e transmissão genética, que chamamos seres vivos.

A vida afirma-se, sobre a Terra quando as cadeias formadas entre predadores, autótrofos (fotossintéticos, quimiossintéticos, etc.) e desintegradores cooperam permitindo a circulação de matéria e energia entre todos os grupos. Quer dizer, quando se constroem as cadeias tróficas que enlaçam uns seres com os outros por relação da sua alimentação. A evolução caminha para aperfeiçoar mais estas redes da vida que chamamos Ecossistemas.

Toda a vida acontece no Ecossistema. Todos os seres vivos, e nós próprios, fazemos parte de um TODO que chamamos Biosfera. Essa Biosfera foi desenvolvendo-se ao longo dos 4500 milhares de anos neste Planeta. A atmosfera terrestre é um produto dessa biosfera. Milhares de seres aquáticos foram construindo os seus estojos calcários a partir do CO2 que foi retirado da atmosfera por toneladas, enquanto as plantas iam deitando oxigénio e retirando também dióxido de Carbono. Os seres respiradores foram contribuindo também restituindo à atmosfera parte desse CO2. Deste modo a composição atmosférica acabou por se equilibrar entre limites estreitos mantidos pelos contributos e extrações feitas pela Biosfera.

A atmosfera da Terra é um produto da VIDA, e é regulada pelo conjunto dos seres vivos: A BIOSFERA, através do mecanismo da Evolução conjunta dos seres vivos e o seu meio. Através da Evolução dos Ecossistemas. Entre todos os seres viventes a nossa espécie conseguiu um sucesso sem precedentes, adaptando-se ao meio e também criando contornos artificiais, mais favoráveis aos seus interesses.

Se Darwin afirmou que o sucesso de uma espécie se amostra na sua capacidade para fazer sobreviver o máximo dos seus descendentes, a espécie humana é a de mais sucesso de todas as que tem havido no Planeta Terra. Colonizámos todos os ambientes e temo-nos reproduzido mais do que nenhuma outra.

O instrumento evolutivo que nos destaca das outras espécies é a nossa capacidade para gerar cultura, normas éticas de comportamento e transmissão de conhecimentos: Capacidade de dedução, de previsão, criatividade e arte, solidariedade e empatia são características humanas sem as que não teríamos superado o nível da manada de macacos, os nossos parentes evolutivos mas próximos.

Que foi, então, o que nos deu tamanho sucesso? A nossa capacidade para nos associarmos, fazendo do grupo o agente colonizador mas eficaz jamais conhecido? A nossa capacidade para renunciarmos aos nossos instintos mas primários em benefício da comunidade? A nossa capacidade para transmitirmos aos nossos descendentes o aprendido pelo indivíduo e pelo grupo? Será, enfim, a nossa capacidade de sacrifício em favor dos outros, a nossa necessidade de normas morais e éticas que reprimam o natural egoísmo individual? O nosso sentido sincrónico e diacrónico? Ou teria sido, unicamente, a nossa enorme capacidade predadora, que muda o ambiente e consome todos os recurso ao alcance sem prever o futuro?

Aumento do CO2 na atmostera

Desde a revolução industrial, na atmosfera começou a aumentar o CO2 por um duplo efeito: Emissões por combustão de carvão e petróleo, e a redução das massas arbóreas encarregadas de deitar Oxigénio à atmosfera retirando desta o CO2. É uma conta simples: Se a atividade da fotossíntese (de retirada) diminui e aumenta a emissão, a percentagem deste gás na atmosfera irá aumentar.

A progressiva acidez dos oceanos e a sua poluição faz com que os corais e outros animais de concha calcária estejam em franca diminuição, pelo que a sua ação estabilizadora vê-se reduzida enormemente. Tudo isso faz com que este gás tenha aumentado a sua proporção na atmosfera em muito pouco tempo. E este aumento é de tipo exponencial. O CO2 e outros gases como o metano (CH4) são responsáveis pelo efeito de estufa da atmosfera. A energia do sol que chega à Terra é absorvida por eles como se de um sobretudo se tratasse. Guardam parte da radiação que bate sobre a superfície terrestre aquecendo as partes inferiores da atmosfera evitando que, neste Planeta, as temperaturas oscilem demasiado de dia para a noite.

Como explicamos mas acima, a evolução é um facto que acontece devagar. As espécies que existem hoje na terra são o produto da adaptação a um meio. Quando as condições deste mudam as suas características deixam de ser favoráveis e muitas encontram-se em situações difíceis. Diminuem o seu número ou desaparecem. A mudança ambiental que está a acontecer agora é muito rápida. Neste momento estamos assistindo à maior extinção de espécies ocorrida na longa história da Terra.

A revolução industrial, antes mencionada, trouxe um modelo social, para os seus países, com muitos bens de consumo, sociais, económicos e culturais que se estenderam ao conjunto da população. Mas esta mudança, também produziu um tremendo desequilíbrio ambiental: As cidades cada vez maiores funcionam como “ilhas de calor” e de luminosidade. Produzem uma quantidade cada vez maior de refugalhos que não podem desintegrar e incorporar ao ambiente. Consomem enormes quantidades de energia que provoca uma demanda cada vez maior. Isto obriga a procurar fontes de energia mais sofisticadas.

Consumo energético

A extração de petróleo é cada vez mais cara e difícil. As fontes não se encontram nos lugares onde se consomem, pelo que têm que ser transportadas, gastando nisso uma parte importante dessa energia. Os países produtores de petróleo são presa apetecida para os que são consumidores e isso gerou um grande desequilíbrio a nível planetário que se traduz em guerras de todo o tipo.

O Planeta está dividido entre os países que consomem grandes quantidades de energia e de outras coisas como oxigénio da atmosfera expelindo CO2, e os que não consomem quase nada, e que não têm instrumentos técnicos, económicos ou sociais para competir com aqueles. O Planeta dos pobres é cada vez mais pobre e o dos ricos é cada vez mais consumidor. A sociedade capitalista que está agora instaurada baseia-se no consumo de bens, que na sua imensa maioria não são necessários para a sobrevivência. Produz-se todo o tipo de coisas que irão incrementar os montes de lixo que medram sem parar.

Em 1987, criou-se na União Europeia a comissão Brundtland, para analisar e corrigir o forte impacto que a Sociedade humana tinha sobre o ambiente, considerando que esse impacto podia pôr em causa o bem-estar das gerações futuras e o da Biodiversidade, que a evolução dos Ecossistemas terrestres tinha assegurado ao longo de milhares de anos. Assinalo alguns dos objetivos que se fixou esta Comissão dirigida por Gro Harlem Brundland, ministra Norueguesa do Ambiente:
População e recursos humanos:

  • Reduzir os níveis da pobreza.
  • Melhorar o nível da educação.
  • Alimentação: Produzem-se alimentos, mas são mal distribuídos. Conseguir uma repartição mais equitativa dos alimentos a nível mundial.
  • Espécies e ecossistemas são recursos indispensáveis para o desenvolvimento. É imprescindível proteger a sua diversidade e a sua saúde.
  • Energia: sabe-se que a demanda de energia vai em rápido aumento, se a satisfação da mesma fosse sustentar-se no consumo de recursos não renováveis o ecossistema não o poderia suportar. A produção energética do século XXI deve ser sustentada por fontes renováveis.
  • Indústria: Os níveis de poluição produzidos pela indústria atual não são sustentáveis pelo Ecossistema Terra que não tem a capacidade de os reciclar, pelo que se acumulam produzindo danos nos ecossistemas.
  • O Desafio Urbano: As grandes urbes são despendedoras de energia e grandes produtoras de resíduos e incapazes de os reciclar.
  • O Gravíssimo problema dos resíduos.

Para tratar de corrigir o desfase ambiental definiu-se, na altura, um modelo de Desenvolvimento Sustentável:

Sustentável é o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender as suas próprias necessidades. (1987)

Dez anos mais tarde, em 1997, abre-se o acordo de Quioto. Este é o resultado coercitivo da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas e a Cimeira do Rio92 (Cimeira da Terra) acerca do Ambiente. Entrou em vigor em 2005, só depois da entrada da Rússia. Para que isto pudesse acontecer teria que ser ratificado por 55 países representando até 55% das emissões dos gases de efeito de estufa no ano 1990. Só em 2007 entrou a Austrália depois de uma forte pressão popular que mudou o Governo Conservador para outro de signo progressista e os EUA só o ratificaram em 2008.

Segundo o acordo de Quioto, os países signatários tinham que ter reduzido as suas emissões de gases de efeito de estufa aos de antes de 1990 para o ano 2012. Mas isto não aconteceu. Os EUA são um dos maiores responsáveis (junto com Austrália) pela mudança de composição atmosférica e só ratificaram recentemente. Agora incorporam-se ao elenco de países poluentes a China e a Índia. O problema agrava-se.

No dia 7 de Dezembro de 2009 começou a Cimeira do Clima em Copenhaga para preparar o vazio que se irá produzir quando o Quioto acabe.

Tanto a China como os EUA estão a tentar rebaixar as exigências de Copenhaga e a Austrália recua nos seus bons intuitos redutores de Emissão. Tudo faz pensar que a cimeira de Copenhaga não seja mais do que outra tentativa falhada de pôr em valor aquelas características que definiam a nossa espécie e que a fizeram tão sucedida: Cooperação, capacidade de sacrifício, etc. assinaladas mais acima.

É de temer que a nossa teimosia, egoísmo, e medo aos outros mas não a nós mesmos vá fazer de Copenhaga um grande insucesso. Relembrando Carl Sagan: vão ser os Dragões do Éden (o nosso passado reptiliano) que irão comandar as nossas decisões? Será o insucesso da humanidade.


Compromisso mínimo para Copenhaga

– Garantir que o aquecimento global ficará bem abaixo dos 2Cº em relação à média histórica, estabelecendo metas e mecanismos para que, antes de 2020, comecem a decrescer as emissões globais de gases do efeito de estufa.

– Reduzir as emissões dos países desenvolvidos em pelo menos 45% até 2020, frente aos níveis de 1990.

– Estabelecer objetivos mensuráveis, verificáveis e reportáveis para redução substancial das emissões de países em desenvolvimento emergentes e em rápido crescimento económico, viabilizados por medidas apropriadas a cada país.

– Apresentar medidas concretas de mecanismos e compromissos de contributos financeiros, para apoiar países em desenvolvimento na estabilização e posterior redução de emissões, e na sua adaptação às alterações climáticas.

– Aprovar a criação de soluções e mecanismos de REDD (Reduções de Emissões Associadas à Destruição e à Degradação Florestal), justos e aplicáveis em curto prazo.

– Promover a sustentabilidade e dignidade do desenvolvimento humano e a integridade dos processos ecológicos, mediante a transformação da economia e o fortalecimento da democracia.