
Dani Salgado (1974) Criado perto da raia, em Dornelas, aldeia da freguesia de São Lourenço de Fustãs, Gomesende; paleofalante transplantado a Vigo, foi emigrante na Catalunha durante sete anos, onde se formou. Hoje mora de novo em Vigo, faz parte da equipa docente que encaminhou a Escola Superior de Arte Dramática da Galiza. Dedica-se à docência da encenação e, ocasionalmente, participa em peças teatrais.
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Dani, interessam-nos os detalhes, os momentos, as anedotas que aches mais reveladoras ou emblemáticas a respeito ou arredor da língua e do reintegracionismo.
Nascim em 1974. Criei-me perto da raia, em Dornelas, uma aldeia da freguesia de São Lourenço de Fustãs, concelho de Gomesende. Som isso que se chama um ‘paleofalante’. Sempre vivim rodeado de muitas falas diferentes. Na minha família há pessoas com e sem gheada, pessoas com rotacismo e sem ele, pessoas que dim «irmau» e que dim «irmám», pessoas que me ensinárom a falar em galego e pessoas que me ensinárom a não o falar, pessoas que melhorárom o seu galego graças à TVG e outras que o piorárom…
Os meus pais deslocárom-se para Vigo quando eu tinha nove anos. Então passei a empregar muito mais o castelhano até que, aos catorze decidim viver só em galego. Ao concluir a secundária e passar fugazmente pola universidade, saim fora da Galiza para fazer estudos teatrais, primeiro de interpretação nas Astúrias e depois de encenação e dramaturgia em Barcelona.
Os sete anos que passei na Catalunha fôrom intensos e cruciais, tanto a nível profissional como a nível humano. Aprender e viver em língua catalã e trabalhar artisticamente com ela constituiu uma das experiências mais entusiasmantes da minha vida, uma espécie de renascimento interior. Estarei sempre em dívida com a Catalunha por tudo o que lá aprendim.
Este período rematou em 2005, quando voltei a morar em Vigo, ao fazer parte da equipa docente que lançou a Escola Superior de Arte Dramática da Galiza, a ESADG. Desde então dedico-me à docência da encenação e, ocasionalmente, fago peças teatrais.

Paleofalante, emigrante retornado, catalanófilo, ator, docente… interessa-nos a tua visão da língua na Galiza, na sociedade, no teu espaço social, familiar, vital. Por que és reintegrata?
Desde maio de 2015 som insubmisso – chamemos-lhe assim – à “normativa oficial” do galego.
Quando em julho de 2014 a RAG designou Xosé Filgueira Valverde como figura central do Dia das Letras do ano seguinte, fiquei abraiado, como boa parte da cidadania informada e com um certo critério ético. Segundo as minhas convicções, alguém que, desde o mesmo momento em que o ar do País ainda cheirava a pólvora e sangue, exerceu cargos públicos de notoriedade ao serviço duma ditadura, não pode ser objeto de tal celebração.
Sem dúvida, as razões literárias que o figérom merecedor de tal homenagem seriam abondas. Mas se elas som dignas de apreço, há outros foros onde pô-las em valor. O que é discutível é que ele próprio fosse uma “persoa de calidade cultural e humana que mereza propoñerse como exemplo á sociedade galega de hoxe”, condição indispensável consignada nos estatutos da RAG como critério para a seleção da personalidade homenageada. E essa é a questão. Aceitaria uma pessoa de qualidade humana responsabilidades públicas ao serviço dum regime fascista que, aliás, foi tão cruel e repressivo contra os galegofalantes?
Pois bem, a gente da RAG, contravindo os seus estatutos e pondo de parte estes factos, forçárom as galegas e os galegos a realizarem um ato de humilhação pública, uma ignomínia coletiva. Não há ofensa pior que se nos poda fazer aos falantes de galego. Por isso, desde aquela, a Real Academia Galega deixou de ter para mim qualquer autoridade ética. E portanto, linguística. Sem a primeira não pode suster-se a segunda.
A partir daquele momento pugem em questão o meu vínculo com a língua. Nesse processo recebim ajuda, principalmente, da minha companheira, a Susana Ferreiro, filóloga de formação, professora de galego no ensino secundário e, para além disso, uma pessoa inteligente, com conhecimentos bem estruturados e com quem compartilho uma grande variedade de interesses. De todas as nossas conversas e das leituras realizadas, foi-se conformando em mim o meu critério atual a respeito do linguístico, por assim dizer. Também ajudárom nesse tempo as minhas conversas com o Joan Giralt, amigo, companheiro tanto na ESADG como nos cenários e pessoa duma ampla formação. Com ele vim claro o paralelismo existente entre a situação linguística galega e a do País Valenciano, de onde ele é natural. Decatei-me então que o isolacionismo linguístico e ortográfico que promovera um sector da sociedade valenciana a respeito das outras variedades da sua língua – em especial das faladas na Catalunha, que eu conhecera em primeira mão -, era tão absurdo como o isolacionismo do galego a respeito das falas de Portugal, do Brasil e dos PALOP.
Além do mais, naquele tempo, a Susana e mais eu acabávamos de ter uma filha – a Ildara – e um filho – o André – . Por sermos galegofalantes em Vigo, uma cidade absolutamente castelhanizada, associaramo-nos previamente, em 2013, à Semente Vigo, uma iniciativa escolar que nos pareceu necessária. A nós, a sua orientação reintegracionista tanto nos tinha, o que primava naquele momento era apoiar a criação dum projeto educativo de imersão linguística em galego na primeira infância, uma iniciativa tão indispensável como inexistente na nossa cidade. Mas o facto de conhecermos pessoas do movimento reintegracionista conduziria-me também a olhar com curiosidade outras soluções ortográficas diferentes às do ILG-RAG.

Galego falante em Vigo, pai… a Semente, a AGAL, são necessários, sim. Mas há estratégia que confronte a esmagadora realidade? Por onde deve caminhar o reintegracionismo e/ou o movimento normalizador?
Quase todas as grandes decisões sobre a Galiza tomam-se em Santiago de Compostela e arredores. Concretamente, nas suas secretarias e escritórios. Vista de Vigo, Compostela semelha um parque de diversões. É o nosso Disneyland, uma cidade de pura fantasia, afastada também no linguístico da realidade do resto do País.
Mas as mães e pais que decidimos educar em galego em Vigo, na Crunha ou em muitas outras povoações da Galiza, não vivemos nesse mundo jacobeu, nessa exaltação a Mickey Mouse. Nós vivemos, em termos linguísticos, mais perto de Auschwitz-Birkenau; somos como Roberto Benigni em ‘A vida é bela’. Temos de construir permanentemente um mundo de ficção, de ilusão, onde as nossas crianças poidam sentir-se felizes por falarem numa língua marginal no meio duma contorna selvagemente hostil. E não temos gabinetes onde nos refugiarmos. O que em muitos desses gabinetes se fai, não nos acalma nem nos libera.
Tampouco nos redime a exaltação de nenhum filgueiravalverde. E às nossas crianças tampouco. Elas não falarão galego graças ás contribuições à teoria literária, à etimologia ou à fonética de gente coma ele, por muita razão científica, histórica ou social que haja trás delas. Tampouco é realista confiar na nossa ‘resistência’, em contentar-mo-nos com fazer de quando em vez alguma atividade ‘em defesa da língua’, alguma mobilização ‘contra’ tal sentença ou tal agressão, algumas reivindicações estéreis de tal ou qual organismo… Essa estratégia não afeta os mecanismos da opressão, poderosos de mais. Portanto, não queremos passar o que nos resta de vida ensinando às nossas crianças a viverem ‘à defensiva’. As nossas crianças, prisioneiras nesse campo de concentração que é uma grande parte da Galiza de hoje, não tenhem possibilidade alguma de ter um futuro digno sem a ajuda imediata duns ‘aliados’. Não queremos conformar-nos com não perder, com que as cousas não vão para pior. Nós necessitamos uma libertação iminente. De Vigo vê-se mui clarinho. A nossa força aliada não é a Disney Channel. É a lusofonia.
É curioso, nestas entrevistas e biografias linguísticas evidencia-se que para os galegos o conceito de Lusofonia é uma realidade, um conceito particular nomeado como esperança. Que é para ti?
Claro que é uma realidade! Na minha escola temos alunado português, desenvolvemos projetos cénicos com as escolas do Porto e Lisboa e o nosso próprio alunado tem Lisboa ou o Porto como destinos de Erasmus. Eu mesmo, quando quero sentir-me bem vendo teatro prefiro ir antes a Guimarães ou ao Porto do que a qualquer outro lugar. Portugal e a lusofonia fam parte da nossa realidade. É o modo mais evidente de estarmos abertos ao mundo desde o nosso idioma.
A gente galega tem a imensa oportunidade de compartilhar um universo linguístico similar ao de Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Camões, Mia Couto, Sophia de Mello Breyner, Herberto Helder, Pepetela… Mas, de todos estes, quantos se estudam nas escolas, nos liceus? Acaso não estudamos as Cantigas de Afonso X? Ou a Meendinho? E escreviam eles numa língua mais próxima do galego atual que a que cantavam Amália Rodrigues, Vinicius de Moraes ou o Zeca Afonso?
O problema da nossa relação com as falas da lusofonia é ortográfico? Pois, por que não mudar a ortografia? Por que as diferentes variedades do inglês, ponho por exemplo, admitem relações entre o código escrito e o falado tão divergentes e as variedades do galego-português não podem admiti-las? Por que um londrino e um camberrano, um canadense e um indiano, pese a terem no uso do inglês diferenças linguísticas notáveis, podem utilizar uma ortografia similar? E uma pessoa de Tui e outra de Valença, pese a falarem com escassas diferenças, não podem empregar também a mesma ortografia? Acaso os parvos de aqui somos mais parvos que os de qualquer outro lugar do mundo?
Alguém nado na década de 70 já tem visto muita cousa, alguma inesperada, a Galiza e a situação linguística evoluíram, mas não achas que boa parte do movimento normalizador ficou fora do seu tempo?
As normas “oficiais” do galego fôrom concebidas, tanto as de 1982 como a sua atualização de 2003, para um mundo que já não existe. Aquele era um mundo de fronteiras entre estados muito mais nítidas, duma polarização entre a NATO e o Pacto da Varsóvia, de maiores restrições e impostos para o trânsito de mercadorias, duns meios de comunicação mais limitados…
Mas neste mundo de hoje, desmontou-se já a falácia dos estados democráticos – que o poder descansava na cidadania. Quem detém verdadeiramente o poder – o grande capital – sentiu-se tão poderoso que não teve medo em defender abertamente os seus interesses: liberdade sem limites para a circulação e multiplicação do seu dinheiro, das suas mercadorias e da mão de obra autorizada. E nessa selva onde quem já tem muito só deseja ter tudo, as minorias não organizadas e carentes de valor no mercado global, ficárom sem proteção, sendo presas fáceis para os predadores. Neste contexto de predação global, que outra saída restará ao galego além da sua aliança estratégica com as falas do Brasil, de Portugal ou dos PAPOL? Não a vejo.

A internet cambiou o nosso modo de estar no mundo. Temos aceso direto a quase qualquer documento ou imagem gerada pola nossa civilização. Mas pagamos um prezo: o aceso à maioria desta informação fai-se nas línguas dominantes: o inglês, principalmente, e também outras como o espanhol e o português. Delas, só uma reforça o galego.
Um exemplo. A Ildara e o André gostam muito da Peppa Pig. Mas na televisão só a podem escutar em castelhano ou em inglês, não em galego. Por isso vem a Peppa em brasileiro, graças ao Youtube. Esta semana, por exemplo, aprendérom da Peppa brasileira que ela gosta de ‘brincar nas poças de lama‘. Hoje, a função que exerciam em mim no rural os vizinhos ou a família quando deles aprendia o significado de brincar, de poças e de lama, pode ser exercida polos nossos vizinhos da lusofonia, mas não polos nossos vizinhos vigueses. É triste, mas é assim.
Os nossos vizinhos de Vigo ensinam à Ildara e ao André a dizer /jugar/ ou /xogar/, charcos e barro, mas nunca brincar, poça, lama, lameira, todas elas galegas, todas portuguesas. O galego é já, para boa parte da povoação, apenas um modo incómodo de continuar expressando-se em castelhano. Na atualidade, a nossa comunidade não é necessariamente a gente que vive mais perto, senão aquela com a que – mesmo vivendo a milheiros de quilómetros de distância – sentes vínculos mais estreitos. Portanto, não amparar-se dum jeito amplo e sem preconceitos na vitalidade das falas irmãs dos países da lusofonia é uma irresponsabilidade, uma concepção obsoleta do mundo e do futuro. Mas para darmos esse passo temos que manchar-nos, temos que perder o medo de brincar na lama.
Pragmatismo e decisão… algo mais?
Não há muito, perto de Esposende, em Portugal, uma velhinha dirigiu-se a mim dizendo “Senhore…”. Eu estremecim ao ouvir a sua voz. Estava a ouvir uma sonoridade idêntica à da minha avoa, morta anos antes. E isso que à minha avoa nunca lhe ouvim dizer ‘senhore’. Mas havia algo mais na qualidade sonora daquela fala, uma similitude tímbrica, melódica e um modo de articular e de projetar o som que me penetrou na pele como só a voz da minha avoa podia fazer.
Este sucesso impressionou-me muito. Aquilo era uma evidência de que aquela mulher portuguesa e a minha avoa compartilhavam a mesma realidade linguística, vinham do mesmo mundo, dum mundo do que eu também venho e que o meu corpo reconhecia dum modo não racional. É por isso que a força da nossa língua comum é tanta, está tão solidamente instalada em muitos de nós que pode vencer séculos de separação política, de repressão e de preconceitos. E habita em Esposende, em Dornelas e em muitos mais lugares da lusofonia. Que esse vínculo se mantenha e medre depende de decisões que urge tomar hoje.

Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associação? Que podes tu achegar a ela?
Há três anos eu pouco sabia da AGAL. Era um mundo alheio a mim. Não lhe via sentido a grafar a língua dum modo diferente ao que eu assumira. Mas desde então até agora li muito e de mui diversas fontes, desde gente do ILG e da RAG até autores com diferentes visões do reintegracionismo. E, entre eles, com quem achei uma maior afinidade foi com a Teresa Moure e com o Mário Herrero.
Isso levou-me a sentir interesse pola suas trajetórias, a procurar novos autores, a ler livros da Através Editora, a informar-me sobre a história do reintegracionismo… Também fum procurando artigos na Internet de algumas sócias da AGAL e, deste modo, conhecim melhor a Associaçom e as suas iniciativas. Impressionou-me a sua vitalidade e, bom, achei necessário apoiá-la de algum modo. Foi por isso porque me figem sócio. Mas não som um membro ativo. As responsabilidades laborais e familiares não me tenhem deixado tempo para muito mais. Espero sê-lo no futuro, quando as crianças medrarem. Não sei ainda que contribuições poderei fazer então, mas tudo ao seu tempo. Agora tenho de estudar muito mais galego. Não me conformo com aceitar uma norma e aplicá-la. Necessito pôr em questão as alternativas que tenho diante e ir melhorando pouco a pouco.
Ser reintegracionista resulta pouco económico. Mas é um esforço que da muita satisfação. Por isso espero que a AGAL continue muito tempo com a vitalidade destes últimos anos e poda continuar enchendo de satisfação a muitas pessoas que, coma mim, querem um futuro estimulante para o galego.
Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2030?
Em 2030, a Ildara, o André e as crianças que agora estão nas Sementes terão uns 20 anos. As nossas sementinhas estarão na flor da sua vida. Aguardo que então olhem sem medo o seu futuro, que vejam que o mundo está nas suas mãos e que se sintam amadas, orgulhosas e felizes por lhes termos oferecido um modo de viver em galego cheio de alegria e dignidade. Do futuro não espero nada mais. Nem nada menos.
Conhecendo Dani Salgado:
Um sítio web: O Wikipédia
Um invento: Os óculos
Uma música: ‘As variações Goldberg’, de J.S. Bach
Um livro: ‘O livro do desassossego’, de Fernando Pessoa
Um facto histórico: A democracia ateniense
Um prato na mesa: As filhoas
Um desporto: A natação
Um filme: ‘O espelho’, de Andrei Tarkovski
Uma maravilha: Shakespeare
Além de galego/a: Teatrófilo
