Por Adela Figueroa Panisse
Estamos imersas numa crise de dimensões desconhecidas até agora. É uma crise económica, ambiental e moral.
Não se fala noutra coisa, mas ninguém tem a coragem de denunciar a verdadeira causa desta no território espanhol. Aqui tem características diferenciadas com respeito ao resto da Europa. Cá está adubada por um desemprego de mais de 22%, na Espanha, e de 18% na Galiza, e acompanhada duma destruição dos sistemas produtivos. É um caso muito grave.
Desde que o Estado da Espanha foi embarcado na loucura viciante do urbanismo a todo o custo, muitas vozes se têm levantado avisando do perigo social que implicava aquela quentura contagiosa de fazer dinheiro fácil e à base de processos especulativos. (1)
Nada foi capaz de resistir ao seu empurrão imparável. Governos locais reclassificando solo, empreiteiros vendendo a i-alma para usufruir de informação privilegiada, malas com notas fresquinhas a caminhar dos bancos até os gabinetes das câmaras municipais, para aterrar nos bolsos de políticos corruptos e corrompíveis. E os partidos maioritários aproveitados da alternância no poder, (OS DOIS – PP e PSOE) olhando para outro lado e festejando a grande orgia, chamada de boom económico, na altura, em que iam metendo todo o Estado. Impedindo (repito, os dois partidos) queixas em Bruxelas (2). (3) Manifesto. (Denúncia ao Parlamento Europeu) feitas por diferentes coletivos.
Também na Galiza, ecologistas, foram alcunhadas/os de atrasados, de porem atrancos só por serem contra tudo, de irem contra o progresso e o “justo enriquecimento” do pessoal que queria transformar uma leira em solo urbanizável.
Num programa de debate na TVG, em que estive e participava o representante dos empreiteiros da construção de Ponte Vedra, pusera ele este exemplo: Vocês (as/os Ecologistas) querem preservar o território, nomeadamente nas beiras do mar, mas um meu amigo que tem uma leira em Porto Novo que apenas lhe dava para dois limões, mercê a mim tem agora um prédio de apartamentos que lhe da bons rendimentos em alugueres para a verão.
Que caros nos saíram esses limões! Que caros nos estão a resultar as insensatezes dos que tinham a responsabilidade de ministrar o território e o dinheiro da cidadania, mas fechando ouvidos e olhos a todo conselho de prudência que se levantava por toda a sociedade, desvaleram quer um quer o outro. (4).
Conhecemos pela UNICEF (5) que 1 em cada quatro meninos que habitam em Espanha estão sob o limiar da pobreza. Nós que criamos que éramos o primeiro mundo!
Aos despejos de famílias que ficam na rua sem abrigo e sem lar acrescentamos a perda das estruturas económicas e empresariais tradicionais, que a maré da construção maciça levou pela frente. Já não há marceneiros, nem artesãos-carpinteiros/as, desaparecidos entre as máquinas que faziam portas e mobílias em série. E isso fornecia muitos postos de trabalho de especialistas e artistas que se perderam.
Os diferentes nichos laborais baseados na cultura do artesanato foram destruídos e muita gente abandonou os seus estudos, atraída pela tentação do trabalho fácil, a pôr tijolos e levantar prédios. Entretanto, imensas superfícies de solo útil foram-se cobrindo de betão, perdidas já para sempre para o verde, a agricultura ou a natureza.
As ribeiras foram as pior tratadas. ESCÂNDALOS urbanísticos floresceram por toda a costa. O desastre económico do estourado da borbulha imobiliária é agora acompanhado pelo desastre ecológico: As águas não são filtradas através do cimento e os rios e os mares som atingidos pela sua poluição. Em São Genjo, Sada, Cee ou tantas vilas (outrora formosas) a ribeira foi substituída por aterros transformando as antes verdes rias em poças imundas de água choca, (a ria de Sada é o paradigma). Vigo foi multada pela União Europeia com 20 milhões de euros pela contaminação das suas águas, agravada pelos aterros (6).
Para construir a todo o custo foram movimentadas imensas quantidades de terra, quer nas pedreiras (sempre a céu aberto, neste país sem lei que se cumpra), quer nos aterros. Estes movimentos de terra acabam por poluir rios e mares que não podem carregar com os esgotos. Muitos rios foram entubados porque molestavam nas urbanizações. Logo vieram as cheias como as de Vila Garcia de Arouça, Bueu, Cee , provocando inúmeros danos à população e aos bens públicos. As despesas públicas por esta causa foram enormes. Mas os ganhos do urbanismo insensato não as pagaram. Foi o comum da vizinhança. (7)
O caso de Barreiros na costa de Lugo é paradigmático. ADEGA denunciou em várias ocasiões a desfeita urbanística deste concelho que ocupou a chaira da rasa costeira com lotes de prédios, sem terem infraestruturas e que ninguém vai ocupar.
(8) O território ficou perdido para sempre. Os fornecedores arruinados e muita gente foram para o desemprego sem possibilidade de saída.
Ainda por cima os bancos que se lucraram com os empréstimos para a especulação dos solos e as urbanizações ficaram infetados de ativos tóxicos como se as suas caixas-fortes estivessem cheias de bombas fétidas. O estado teve de os “salvar” e já leva injetado milhares de milhões de euros que pertencem a toda a cidadania para evitar a sua bancarrota. As outrora grandes empresas construtoras estão em falência e alastram com elas aos bancos que lhes emprestaram o dinheiro:
As capitalizações de Ferrovial, ACS, Acciona, OHL, FCC e Sacyr sumam 17.300 milhões de euros frente a um endividamento conjunto que se eleva a 46.320 milhões de euros; O Wall Street Journal alerta dos problemas de tentar garantir com fundos públicos a exposição dos bancos espanhóis ao tijolo (338.000 milhões de euros) e acrescenta o dado da dívida privada de famílias e empresas (dous biliões de euros). (9)
Obras faraónicas como a cidade da Cultura, parida da mente febril e megalómana do Fraga Iribarne foram denunciadas na imprensa estrangeira. O seu custo de construção não guarda relação com os nossos pobres rendimentos de galegas/os (sempre menores à média espanhola). Ainda o seu mantimento pode arruinar qualquer governo.
Insensatezes como esta existem por todo o Estado Espanhol, como aeroportos sem aviões ou fatos oferecidos em troca de informações privilegiadas e reclassificações de terrenos. Certamente o Mediterrâneo foi atingido duma maré que alastrou a ética, estrutura social e a moralidade junto com a destruição, para sempre da sua costa. A Caixa de Aforros do Mediterrâneo ficou afogada no tsunami e engolida pola banca de Madrid. Todavia, esta, nomeada agora de Bankia, tem de ser resgatada da falência e vamos ser todos/as com os nossos tributos a pagar o seu desastre. Sabemos, ainda hoje que vão ser necessários mais de 20 milhões de euros para acudir-lhe.
Entretanto temos que sofrer a destruição do estado do bem-estar com cortes em todos os principais campos do bem público: Educação ou sanidade.
Que caro nos sai Madrid! Essa autonomia artificial por excelência. Essa cova de políticas/os….
As/os Ecologistas vimos alertando da destruição do território por causa do urbanismo descontrolado em que estávamos imersos/as. Agora os tempos nos dão a razão. Esperemos que sirva de lição. Mas não sou otimista.
Este escrito destila indignação. Um sentimento justo para todas as pessoas que têm a desgraça de ser Espanhol/ola por lei de nascimento e habitação. É também um sentimento de vergonha, por que os políticos/as que temos são eleitos/as e os eleitores /as não os puniram por corruptos/as.
2.- Informe Auken.-El pleno del Parlamento Europeo aprobó hoy por una amplia mayoría de 349 votos a favor, 110 en contra y 114 abstenciones un informe que pide congelar los fondos comunitarios para España si no se resuelven los abusos urbanísticos denunciados en Bruselas por ciudadanos de varios países de la UE. El informe contaba con la oposición de socialistas y populares españoles, que no lograron convencer al resto de eurodiputados de sus respectivos partidos de otras nacionalidades de que votaran en contra.
Se trata de la tercera vez que el pleno de la Eurocámara denuncia los abusos urbanísticos en España en la actual legislatura. La primera fue en diciembre de 2005 y la segunda en junio de 2007.
3.- http://nosevende.org/MANIFIESTO.pdf
4.- www.adega.info -Urbanismo e território, Adela Figueroa.2007. Matando a galinha dos ovos de ouro, Construindo a toda costa. Etc.)
5.- (3.2010,2012http://www.unicef.es/actualidad-documentacion/noticias/casi-dos-millones-de-ninos-estan-en-riesgo-de-pobreza-relativa-en-)
(6) http://webs.uvigo.es/servicios/biblioteca/bouz/artigos.htm
7.- JORNADAS DE DEBATE : NOVOS CAMINHOS PARA A ESQUERDA NA GALIZA
Data e horário.
Sábado, 18 de setembro de 2010. Das 09h. às 20h.8.-ADEGA denuncia a Hernández por prevaricación e delictos contra a facenda pública no caso Barreiros (29/junho 2011).
9.- Publicada por Na Encrucillada :
Cada día aparecen novos termos que semellan nacer coa idea de confundirnos. E así escóitase que os bancos posúen activos tóxicos, como se as caixas fortes estivesen repletas de bombas fétidas. Logo lanzan o axioma de que hai que salvar bancos. Preséntannos como solución o concepto do banco malo, como se os outros fosen unha especie de ONGs. Cando os estudos de opinión indican que, a pesar do envoltorio co que se vende, hai unha maioría social contraria a pagar cos impostos e recortes de todos os buratos da banca, tenta disfrazarse coas sociedades inmobiliarias de xestión. Deste xeito nace nova terminoloxía como evolución da previamente inventada. Pero non hai que caer no engano, trátase de reproducir a mesma fórmula dende hai séculos. Xa continuaremos lembrando das tretas deses alquimistas que tentan vendernos como ouro aquilo que non deixa de ser papel. Hoxe só deixamos un par de datos para reflexionar entre tanta confusión deseñada con alevosía: 1) As capitalizacións bursátiles de Ferrovial, ACS, Acciona, OHL, FCC e Sacyr suman 17.300 millóns de euros fronte un endebedamento conxunto que se eleva a 46.320 millóns de euros; 2) O editorial do Wall Street Journal alerta dos problemas de tentar garantir con fondos públicos a exposición dos bancos españois ao ladrillo (338.000 millóns de euros) e engade o dato do peso da débeda privada de familias e empresas (dous billóns de euros).
10.- Outros: Urbanismo y Democracia Fundacion AlternativasXXI,2006.Analisa-se a relação entre urbanismo e corrupção.
