Carlos Quiroga– Nas semana de 9 a 14 na Póvoa, com prolongamentos 17 e 18 em Lisboa, decorrem as Correntes d’Escritas, um encontro de escritores que veio tornar-se para Portugal –e mesmo para a Lusofonia– em O Encontro.
Está de aniversário, o 10º, e comemora com 127 convidados/as, mais do que nunca. Mesas no Auditório, sessões nas escolas, lançamentos, feira do livro, exposições, espectáculos, cinema, homenagens, recitais, um Prémio Literário, a Revista… [Descarregar programa em PDF]
Para a Revista deste ano pediram a alguns veteranos a evocação do evento e de um ano concreto, e a mim do 2003. É o texto que achei oportuno adiantar aqui e vai seguir, em resposta ao convite do PGL para comentar o acontecimento –uma olhada ao passado que explica este presente.
essa droga
Os manuais de medicina explicam que o metabolismo humano se rege segundo padrões temporais. Que forças cósmicas sincronizam com os nossos ritmos circadianos e condicionam oscilaçõs endógenas por períodos de 24 horas, arrancando a funcionar cada dia, com a luz. Explicam que, no meio disso, o ser humano experimenta uma suspensão normal e periódica da consciência e vida de relação, durante a qual o organismo se repara e se prepara para a vida activa. É o período do sono. É o tempo em que dormimos para, reparados e preparados, afrontar a vida activa. A vida aparentemente real.
O assunto é mais complexo. E há vários períodos durante a noite segundo a profundidade do sono. Mas o fascinante é que se produzem ciclos bifásicos em que aparece a chamada fase REM. Nela, a actividade eléctrica do cérebro muda, emite ondas a. Os olhos realizam movimentos espectaculares por trás das pálpebras ocluídas. E o ser humano sonha. E sonha durante boa parte do sono.
Conto isto porque tem a ver com as Correntes 2003.
Nesse ano arrancava o novo governo Lula, uma lançadeira espacial explodia no Texas, e Portugal estreava o concurso televisivo Operação Triunfo. Também se iniciava a Guerra contra Saddam, Rubém Fonseca recebia o Camões, Marte passava pela primeira vez em 60.000 anos pela menor distância à Terra. E eu estava pela primeira vez nas Correntes. Experimentava essa droga.
Era também Fevereiro, 12-15, e existe testemunho gravado do Ondjaki. Durante esses dias passeou uma cámara de vídeo entre as pessoas convidadas. A algumas perguntava o quê era para elas a palavra ‘sonho’. Eis. Escolheu bem o angolano. Há muitas palavras belas, mas essa é boa para âmago da fita. Boa para resumir a essência do que estava a acontecer. Até os de língua espanhola, onde os étimos de ‘sono’ e ‘sonho’ vieram confundir-se em ‘sueño’, até eles percebiam. Para todo o mundo houve momentos de uma doce fase REM. Para mim também.
Em termos literários, Portugal sempre me tratou melhor que a minha própria terra (Brasil, Itália, qualquer terra até). Mas vir aqui nesse ano, apesar de seguido por uma sombra que me amargurou alguma fase do sono, foi sonho soante. Era um lusista na Galiza de Fraga, ex–ministro franquista que chefiava os galegos em 2003, escritor solitário e invisível como tal. As coisas não mudaram muito em seis anos. E no que mudaram tem a ver com as Correntes. Antes delas só estava em encontros de porte quando eu organizava desde a universidade ou doutras instâncias. Mas organizar é viver de modo diferente, estar pendente do como e não do quê. Vigiar o sono onde acontece o sonho. O Germano Almeida estivera na capitalidade cultural compostelana em 2000, mas eu mal ouvira que contava na sua mesa, pendente talvez do seu hotel. Em 2003 estávamos no mesmo hotel, e até na mesma mesa de palestra. A Lídia Jorge estivera no Trasatlântico de 98, agora falava comigo com simpatia. E eu não estava pendente do seu transporte.
Vejo agora a montagem do Ondjaki, Essa palavra sonho, e coloca-se um sorriso na minha boca. O Aurelino levita a recitar as lanchas de olhos fechados. O Onésimo conta o diálogo mais curto entre brasileiros. O Ivo encaverna uma frase. Enfim, não tinha que ver para recordar. Algumas vozes, gestos, caras, são as próprias Correntes. Ao Onésimo, por exemplo, que ilumina qualquer platéia com seu humor inteligente, julgo imprescindível nelas. Ao igual que a firmeza nobilitante do Vasconcelos, ou a chispa eléctrica do Rui Zink. E lógicas prolíficas como as do Marmelo, fenômenos recentes –naquele momento– como os do Peixoto, para além do Ondjaki, para além de nomes badalados que lá etavam, sem esquecer os da terra. Ora, para quê uma presença prescindível como a minha…? Com o tempo iria vendo que na Póvoa se arrisca assim. Mistura-se assim. Consegue-se assim.
Da minha primeira edição ficaram-me abraços para as outras e para sempre. Além da Manuela e do Chico e da equipa, e até mesmo do Diamantino, conheci os já mencionados, e o Vergílio, partilhei cumplicidades e cigarros com o Michael, descobri o Patraquim, o Taba e a Lígia, pactuei projectos com a Rosário, vi finalmente ao vivo a Ana Paula. E até falou galego para mim a Susana Fortes. Nunca esqueci aqueles dias mesmo sem vídeo.
Todas as pessoas que passaram nas Correntes 03, ao igual que nas outras, ficaram de algum modo presas. Até as que já morreram, como Ray-Güde Mertin –que naquele Fevereiro falou de agentes como necessidade essencial. Todas continuam tendo lugar aqui. De certeza os manuais de Encontros literários logo virão explicar que o metabolismo da escrita também se rege segundo padrões temporais. Que forças cósmicas sincronizam com os ritmos circadianos dos escritores e condicionam oscilaçõs endógenas por períodos de 1 ano, arrancando a funcionar em Fevereiro. Deverão explicar que o escritor experimenta um especial acordar periódico da consciência e vida de relação, durante a qual o organismo se repara e se prepara para a vida da escrita. E que esse período coincide com as Correntes. Coincide com o tempo em que mais jubilosamente vivemos para, reparados e preparados, afrontar a inconsciência da vida e da escrita do resto do ano. Porque durante as Correntes acontecem muitas fases em que a actividade eléctrica dos cérebros que participam muda, emite ondas de todo tipo. E os olhos realizam movimentos espectaculares por trás das pálpebras abertas como nunca, às vezes durante as mesas, às vezes no bar do hotel. Nas escolas. E todo o mundo sonha.
Para além do lírico, já procurei explicar-me a frio qual era a marca diferencial deste encontro. E vou plagiar-me a mim próprio resumindo aquela explicação complexa. A começar pelas suas 3 generalidades. A 1ª, ser um encontro ou congresso dos inúmeros que há. Apoiados porque facilitam relações não só comerciais, industriais, mas até doutorais, sociais, intestinais, mesmo sexuais, e daí culturais. No caso de línguas contíguas, nada melhor que ver-se a cara nestes rituais cordiais, fraternais, para existir verdadeiro relacionamento. A 2ª, ser do tipo Ibérico, de que também há muito –de Enfermeiros, do Ensino da Física, de Paleomagnetismo, da Toxicodependência, de Ciências Hortícolas; até existe um específico Congresso Ibérico do Castanheiro. E é que, como já descobriram os anarquistas portugueses no século XIX, quando tentaram promover «um Congresso Ibérico para dar carácter definitivo» à sua Federação, trata-se de um valorizado carimbo que transforma os encontros em internacionais. Não por isso mais originais. Mas acrescentam-se assim maiores brilhos cerimoniais, formais, oficiais. Falam os jornais e até há editoriais. Enfim, para os poderes temporais são eventos mais florais.
E 3ª, ser de escritores, que mesmo não tendo prioridade para tais poderes, ficam bem. Até porque da gente de letras procede muitas vezes as própria formulação ou refundação da etiqueta –como prova o caso de Saramago, quem em tempos recentes conseguiu divulgar o conceito ‘ibérico’ para alargar a denominação de origem do ‘presunto’ espanhol. Os escritores têm por isso utilidade, tanto num Encontro Internacional de Coros como num Forum Ibérico de Animação Sócio Cultural de Chaves, pois sempre se pode esperar deles algum atractivo em base aos contributos verbais. Que nem sempre chega.
Finalmente, as 3 especificidades: 1ª, inserir-se na área de encontros plurais que usam o relacionamento entre espanhol e português como cenário de referência (ficam de fora aqueles em que os escritores participam episodicamente, e os muito específicos, como os de género literário, parcela x, e tal). 2ª, conseguir que as pessoas que passam pelas Correntes riam, comam, sonhem e voltem para casa falando de afectos e guardando amizades às vezes permanentes. E 3ª, criar nessas pessoas, em consequência, uma dependência como a que criam as drogas.
Nenhum encontro consegue isso, a não ser as Correntes. Mas como se faz? Por quê é assim? Por quê todos falamos bem dele? Paga-nos para tal o Sr. Diamantino? Não. Quando eu cheguei em 2003, acanhado e perseguido por uma sombra, o Sr. Diamantino e os demais trataram-me como a todos. Com um abraço. O Onésimo contou-me uma história. Várias. Ri. Deixei-me levar. Sonhar. Tive esperanças. E assim noutras edições. Fui vendo como isso sempre é assim. E a melhor. O peso está nas pessoas, consolidando desde princípios de século. As relações recobram as dimensões mais vitais, chegaram a pessoais, e não negaria que corporais (portanto sensuais, passionais, carnais), pois já sairam casais –Fajardo e Karla, entre outros. O peso também está na estrura afinada e crescendo, reforçada pelo público, pela ligação ao ensino Básico e Secundário, por críticos e agentes literários, editores e jornalistas, lançamento de Livros. E nas centenas de escritores dos vários espaços ibéricos e não apenas ibéricos. E no ir-se acrescentando uma Revista, um prémio Literário para adultos, um prémio para jovens. E acompanhar com iniciativas paralelas, Cinema, Teatro, Exposições.
O segredo é ter uma estratégia sábia em construir a informalidade –neste Portugal ainda teso e tenso– e fazer cúmplices dela todos os poderes (até o Porto e Lisboa chegar a concordar e frequentar sem ciúmes). É contar para essa estratégia com pessoas-alicerce, moradores distantes que comparecem sem falta e desde o princípio para levantar o prédio cada ano, como o Onésimo ou o Vasconcelos, já disse. E as glórias locais para o trabalho de perto. E um vereador da cultura que percebeu desde o princípio. E coordenadores cada vez mais experientes, Manuela Ribeiro, Francisco Guedes, e a equipa entregada durante meses. E a inovação e abertura a outras áreas relacionadas.
Mas as Correntes funcionaram, em 03 e sempre, acima de tudo porque se soube criar uma grande cama. Nela se deita gente que escreve e gente que lê. Todo o mundo que sonha. E todos necessitamos sonhar, se estamos vivos. Escrevemos para sonhar, os escritores. Guiamos um sonho na escrita, os escritores. Mas o sonho é para todos. Vamos ao encontro da mesma necessidade também nos leitores, essa que também justifica a existência da música, dos perfumes. Necessidades que dançam na mesma dimensão que os sonhos.
E dizem que o ser humano morre se deixa de sonhar. Que morre mesmo se o acordas insistentemente quando vai sonhar. Por isso as fotos, a literatura, a arte da escrita e as outras artes, são tão imprescindíveis para estarmos vivos, para a felicidade dessa vida como a comida e a bebida. Porque esse é o único sentido da vida, o da felicidade. Achar esse sentido, fazer-nos sonhar num abraço durante alguns dias, é o que tem conseguido muitas vezes as Correntes, em 03 e nas outras edições. Por isso se tornou uma droga.
