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CoraSons a boiar…

Xurxo F. Martins – Na cidade líquida e ‘noutras texturas’ como diria a Filipa Leal. Encontro tripeiro onde bateu a calimba com os seus sons oceânicos, no coração de Quiné e as suas mãos de verde ramo compassado. Bons momentos de emoções alcatifadas de flores selvagens e de afetos destilados por este alquimista dos sentimentos, entre tantas e tantos que compartiram brigada a noite do 17 de fevereiro.

Começamos a pulsar o nosso Tique-taque adubado com sal, pimenta e salsa de Inês Salselas que pegou no Rui David e levou-nos até a Terra dos sonhos partilhados. Vozes que vogavam forte e deitavam fora as suas redes de Amor que não engana. Beleza nossa e lusa.

A singradura embalou-nos pelos mares de Palestina, Cuba, Angola, Brasil, Galiza, Portugal… os sussurros de chá e hortelã de Najla convertiam-se em gritos de liberdade, os seus sorrisos sem usura em prendinhas de amizade. Mostrou-nos que, apesar de estarmos em tempos de entrudo ou carnaval, a máscara que usa é uma só, feita de várias cores: as da alegria, as da paixão, as do talento. Adorei a Forma do seu coração.

África falou pela boca de Aline Frazão. As fronteiras dos mapas pareceram então aguarelas a dançar nas avenidas de Luanda, de Grécia, do Porto… ou na querida rua de San Pedro em Compostela. A noite começava a arder na solidariedade invicta, na irmandade da sístole e a diástole. Quem fosse camarão a dormir na onda…

Sérgio Tannus disse que disse que o samba com ela não chora, que os chorinhos afagam e beliscam a alma e o corpo, com o jeitinho do seu Nikity natal, da saudade da baía de Guanabara, que mesmo os fados mexem o pé em companhia ‘tão grata assim’. Artérias e veias cheias de arte brasilego.

Pablo Vidal Mendoza com o seu baixo sempre inspirado ajudou a manter o rumo e o ritmo do nosso latejar. Seriedade no palco e simpatia na vida, eis o vento que enche as suas velas. Bruno Cardoso e o seu adufe lembraram-nos as origens, imprescindíveis também para seguir o caminho certo e encontrar as pegadas que nos achegam ao fogar. Obrigado, manos.

Mas a magia apareceu com Magin Blanco, com o seu sotaque sincero e profundo, com as suas canções de esperança e o seu olhar de gato vadio, de criança revoltada, de camarada que sempre está pronto a dar uma mão no meio da tormenta.

Xoán Curiel enfeitiçou-nos com a sua cadência magnética, com a policromia das confissões e o sol nascente na madrugada. Najla subiu com ele a um tapete voador e ajudou-nos a viajar à China e a perdermo-nos entre dragões e campos de papoulas vermelhas. O público acompanhava as suas pulsações com um assobio improvisado e cúmplice. O trabalho e a honestidade dão frutos saborosos que petiscar nas travessias mais intensas.

Tatán e Andrés Giráldez trouxeram o frescor das tangerinas, o verbo salgado dos piratas, o abraço lento, o teatro da vida e as músicas dos mil e um cais que ficam atrás.

Belén Cid, fez-nos uma cirurgia a coração partido, mas dessas que gostaríamos sempre de repetir sem anestesia.

De Ana Senlle e Uxía poderia fazer uma outra crónica. Ter a sorte de conhecer através de Uxía à sua família e entender de onde vinham a generosidade, a valentia, a intuição, a capacidade… foi a porta que deu a um universo único que só elas são quem de abrir com tanta delicadeza e tanto virtuosismo. A Lua tornou-se mais bonita. Não adoro mais ninguém que vocês, rosas de tão linda roseira.

Uxía deixou-nos arrepiados. O silêncio perante este formoso coração independente foi o de um público entregado a algo único, irrepetível. Que sorte ser testemunha, mais uma vez.

Carlos Blanco, é perito em tanger as cordas da comunhão, em percutir os ventrículos da festa inteligente, em ser o mestre-de-cerimónias da alegria. O doente imaginario quase chega ao orgasmo apesar de aqueles que teimam em privatizar a saúde, a vida, os corações. Os recortes nos sorrisos não têm a ver com ele. Compromisso e pândega fazem do humor a melhor arma subversiva.

Quico Cadaval presenteou-nos com os morangos mais cheirosos e gostosos da cidade. Junto a ele a matança do porco nunca foi tão exótica e tão divertida. Certeza que no além, os bichinhos ainda riram às gargalhadas. Homem do eterno navegar, desapareceu o domingo ameaçando com voltar um dia de nevoeiro…

Não quero esquecer-me de Miguel R. Penas, a sua conversa e as suas filhoas (grande!); da preciosíssima companhia e crónica de Montserrat Dopico; de Ania Piñeiro, que é tudo coração e inteligência emocional (e das outras); de Adina Ioana que tanto gosta da goiabada e do queijo de tetilla; de Sapoconcho, mestre do bom feeling e da ubiquidade; de Violeta Suárez Araúxo e a sua sensibilidade; de Martiño e o seu chapéu, em perigo de ser atropelados por um autocarro, grande prazer conhecer-vos =) ; de Dani Juncal e a sua retranca; de Edígio Santos e as suas fotos…

A Isabel Leal, que nos congregou no Porto ao redor da lareira das suas fotografias só tenho sentimentos de gratidão e carinho. Além de organizar tudo transportou-nos aos países celtas e a suas lendas, fez-nos sentir em casa. Teimosia no amor e em mostrar o coração! Obrigadissimo e avante com o projeto!

A Rui, Chus e Manuel que desta volta não puderam vir, porém como diz Uxía, estiveram muito presentes nas músicas e nas palavras, envio uma garrafa com mensagem: o mapa do tesouro da sua amizade.

O povo é quem mais ordena… cantou-se no camarim. Seja! Um grande abraço a Daniel Pires por abrir a sua casa e remar com a tripulação/troupe (trupulação do coração?) enquanto partilhávamos cantigas e iscas de bacalhau, e a Paula Oliveira, essa galega do sul entre portugueses do norte (galeg@s diz que…) por não descuidar nem o mais pequenino detalhe. Continuaremos com os nossos Maus Hábitos…

Os marujos, piratas, marinhas e kiandas hão de voltar o próximo ano… com disco baixo as escamas. A ango-luso-brasilego-fonia fará girar a agulha de marear de novo. Até breve!

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