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Confissões de um galego desnaturalizado: uma visão de fora do lusismo

Jorge M. de la Calle – Num sábado de um caloroso agosto o acima signatário teve a oportunidade de ir de excursão a uma das zonas mais formosas da Península Ibérica, mesmo da Europa. O parque nacional do Gerês. E sublinho parque nacional porque em Portugal sim atinge esta categoria com a que não cuidamos o nosso na Galiza.

Não era uma excursão qualquer: ia com alguns dos maiores celtólogos da Europa, além de membros da Academia Galega da Língua Portuguesa. Viajava, pois, com autênticos apaixonados da cultura e da língua portuguesas e, portanto, galegas. E digo portanto porque este iniciado ao lusismo descobriu, da mão deles, que Galiza e Portugal constituem uma unidade linguística.

Começámos a nossa andaina na parte galega, em Entrimo, desta beira da raia. E adentramo-nos na parte portuguesa por Portela do Homem, continuando por Castro Laboreiro para rematar em Vila do Gerês degustando autênticos e suculentos pratos da cozinha tradicional lusa.

Pelo caminho, os vestígios celtas do parque, capelas e natureza, muita natureza, mesmo uma das fervenças mais formosas, seica a melhor, que vira endejamais: a da Mata da Albergaria. Umas florestas e uns rios que surpreendem pelo máximo cuidado e estado virginal em que se encontram, e uma gente extremadamente amável, serviçal e civilizada.

O galego desnaturalizado que sou, apátrida por obrigação e cosmopolita por convicção, muito pouco consciente das raízes próprias, deu-se conta no entanto das semelhanças de uma terra e da outra, tanto geofísicas quanto psicológicas e culturais. Ficou abraiado do nível de vida quando tão prepotentemente doestamos os nossos vizinhos do outro lado da fronteira.

Pelo caminho foram surgindo os vestígios celtas do parque, capelas e natureza
[Foto: Jorge M. de la Calle]

Ficou alucinado quando lhe contaram a origem galega de pró-homens hispanos como Cervantes ou Colon, que o pai Sarmento, com uma retranca tipicamente galega, foi uma das maiores autoridades médicas no seu tempo e recomendava a carqueija aos nobres castelhanos em vingança pelos agravos históricos, ou que lendas e crenças populares pervivem idênticas e intatas através do tempo nos países de raiz celta.

Mas já acabou de se maravilhar quando lhe revelaram que o galego e o português eram o mesmo, quando, entre prato e prato, chamavam ao português galego, e ao galego português. Uma única língua dividida por razões sócio-políticas, segundo os chamados reintegracionistas, que defendem esta unidade com a lusofonia. E duas faces da mesma moeda: a limpa e brilhante de uma língua “com Estado”, e a outra desleixada de uma língua “com pouco Estado”, como disse Xesús Alonso Montero, quer dizer, menorizada e submetida a um ordenamento jurídico-político que a limita e não põe em valor.

Precisamente com um grupo de amigos reintegracionistas tive a oportunidade de conviver durante uma maravilhosa jornada de amizade e de lazer, conhecendo os seus valores e os seus interesses. Contra o preconceito generalizado, são do mais moderado, educado e amável. Não são monstros de três olhos, teimosos no cultivo de uma língua inexistente, nem uma seita de radicais politizados obstinados em acompanhar estranhos costumes e ritos, mas cidadãos muito cívicos consciencializados com o valor da língua e da cultura galego-portuguesas.

Corteses e diplomáticos, ao tempo que divertidos e festeiros. Não sectários, nem pertencentes a nenhum partido político, mália ao que possa pensar uma grande parte desinformada da sociedade, e não interessados em impor, antes bem todo o contrário: divulgar e atrair aos seus princípios os que, desgaleguizados como eu, nascemos e crescemos longe do berço originario de todos os galegos.

 

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