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Comênio, o pai da didática moderna (documentário da série ‘Grandes Educadores’)

comenio-no-seu-estudioContinuando com a série sobre grandes educadores, esta vez o depoimento vai dedicado ao excelente e muito importante educador checo João Amós Comênio [Jan Amos Komenský – Iohannes Amos Comenius] (1592-1670), um dos maiores educadores da história, que nasceu na Morávia checa, dentro de uma família pertencente à comunidade religiosa protestante dos “Irmãos Morávios”. Estudou na escola latina de Perau e nas universidades de Helborn e Heidelberg, nas quais conheceu as ideias empiristas de Ratke e de Bacon. A sua vida foi sumamente acidentada pelas guerras e as circunstâncias políticas da sua época, que o obrigaram a peregrinar de um lugar a outro, fundando escolas e difundindo as suas ideias. Assim esteve na Polônia, Alemanha, Suécia, Inglaterra e Holanda, sendo na realidade mais que nada um europeu. As suas ideias estavam inspiradas numa profunda convicção religiosa, num grande senso filantrópico, um ideal universalista e uma doutrina didática realista. Para ele a educação dirige-se antes de mais nada à salvação, à felicidade eterna. Tem ainda por objetivo o aperfeiçoamento e o bem-estar da humanidade, o qual é igual em toda a parte. Na sua opinião, o ser humano não pode chegar a ser pessoa se não é educado. “Ninguém pode acreditar que é um verdadeiro homem – diz – a não ser que tenha aprendido a formar o seu homem”. Comênio é além disso o criador da Didática, elaborando pela primeira vez de um modo sistemático as suas ideias pedagógicas. E também o fundador, ou ao menos o precursor, da educação unificada, ao pedir que nas escolas se admitam todos os procedentes das diversas classes sociais e não só “os filhos dos ricos ou dos príncipes, mas todos por igual, nobres e plebeus, ricos e pobres, meninos e meninas”, chamando à escola “educatório comum” da juventude. Também é o precursor ao organizar as escolas numa forma unitária e graduada. Neste sentido, divide o desenvolvimento do ser juvenil em quatro períodos ou etapas: infância, puerícia, adolescência e juventude, aos quais correspondem outros tantos tipos de educação: a materna na família e no lar, a escola comum em todos os lugares, os ginásios ou liceus nas cidades e as academias ou estabelecimentos superiores em cada província. Nestas instituições, o ensino há de ser o mesmo, embora acomodado ou adaptado às condições da idade e o momento evolutivo. Neste aspeto pedagógico, Comênio foi o criador da didática e o fundador ou precursor da intuição como método de ensino. Escreveu várias obras pedagógicas, que tiveram grande repercussão universal, e entre elas, especialmente, a Janua Linguarum Reserata (Porta aberta das línguas), o Orbis Sensualium Pictus (O mundo das cousas sensíveis em imagens) e a Didática Magna. Nas duas primeiras unia as representações dos objetos às palavras, constituindo uma verdadeira enciclopédia dos conhecimentos humanos. Na terceira apresenta o primeiro grande projeto de metodologia do ensino e organização escolar da história mundial da educação.

Estátua de Comênio em Naarden
Estátua de Comênio em Naarden

Como reformador teve uma atividade muito valiosa nas diferentes escolas que fundou na Polônia e na Hungria, e com o seu projeto de criar um Colégio Pansófico, em que se reuniram e unificaram todos os conhecimentos existentes. Finalmente, foi um reformador humanitário no senso de aspirar ao entendimento e a paz entre todos os seres humanos por cima das suas diferenças políticas, sociais e religiosas. “Deve garantir-se – comentava – a harmonia e a paz universais para toda a raça humana. Por paz e harmonia não entendo no entanto uma paz externa entre os governantes e os povos, mas uma paz interna de espíritos inspirada por um sistema de ideias e sentimentos. Se isto se pudesse alcançar, a raça humana encontraria-se na possessão de uma grande promessa”. Palavras generosas que já gostaríamos que se cumprissem nos tempos atuais em que estamos a viver, com demasiados conflitos em numerosos lugares do planeta. Por isto, com este depoimento sobre tão insigne figura educativa e pacifista, também podemos comemorar os Dias Internacionais da Paz e o de Contra a exploração sexual, que se celebram respetivamente em vários países nos dias 21 e 23 de setembro.

Hoje em dia temos nas Nações Unidas uma base para a paz. Embora estejamos ainda muito longe do sonho de Comênio, que reclamava uma verdadeira unidade mundial. Ele compreendia qua a educação vê-se sempre ameaçada pelo provincialismo e o fanatismo, e que a violência e a ignorância põem em risco, por todas a parte, o progresso da humanidade. Podemos formar-nos na violência ou na paz. A violência cria geralmente, mais conflitos, como Comênio comprovou durante a sua vida. Para a verdadeira educação, a paz não é um luxo, mas uma estrita necessidade. Só numa atmosfera de paz pode triunfar o saber; só em tempos de paz pode realmente cultivar-se a razão. Pode objetar-se que a guerra fomenta a tecnologia, embora, pelo geral, só progridem as armas destrutivas, e o resultado final pode ser a extinção da humanidade. Comênio exortava a unir-se a todos os homens e mulheres de boa vontade. Mestres, ministros, estadistas e comerciantes deviam criar uma sociedade baseada no amor e na caridade. Eis um sonho utópico, embora maravilhoso, do grande génio pedagógico que foi Comênio. Um pensamento pacifista, o seu, que enlaça especialmente com o de Gandhi, Tagore, Freinet e Montessori. E com o de outros muitos grandes educadores do mundo.

FICHA TÉCNICA DO DOCUMENTÁRIO:

  • comenio-j-a-capa-dvd-grandes-educadoresTítulo original: Comênio.
  • Produtora: Atta Mídia e Educação (Brasil, 2011, 24 min., a cores).
  • Editora: Paulus Editora. Coleção: Grandes Educadores.
  • Roteiro e Apresentação: João Luiz Gasparin. Possui graduação em Filosofia pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (1966), graduação em
  • Letras Português-Inglês pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Paranavaí (1970), especialização em Métodos e Técnicas do Ensino pela Universidade de Brasília (1974), mestrado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1976)
  • e doutorado em Educação: História e Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1992). Atualmente é Professor Associado da Universidade Estadual de Maringá. Tem experiência na área de Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: Método de ensino, Didática, Educação.
  • Argumento: Religioso cristão, Jan Amos Komenský (em latim, Comenius; em português, Comênio) foi um professor, cientista e escritor tcheco e é conhecido como o pai da didática moderna. Em a Didática Magna, sua obra mais importante, o modelo da nova didática é a natureza, ou seja, está fora dos muros da escola. Para Comênio, o bom professor lê a vida externa e a leva para a sala de aula, acreditando que os conhecimentos científicos deveriam ser transmitidos aos alunos não pela imposição, mas com satisfação e alegria. Comênio propõe que a didática parta sempre da vivência do educando, do conhecimento que ele já possui e de sua realidade. Para ele, educação, religião e piedade eram os grandes instrumentos para a salvação do homem. No DVD, a apresentação de toda a sua teoria é feita pelo professor João Luiz Gasparin, mestre em Educação pela PUC-RS e doutor pela PUC-SP.
  • Conteúdos do Documentário: Biografia e contexto. Didática Magna. Quatro planos. Quatro princípios. Três modelos. Leitura de mundo. Ensinar tudo a todos. Pampédia. Fontes. Experimentar a ciência. Professor. Necessidades sociais. Escolas comenianas.

COMÊNIO, EDUCADOR, DIDATA, ORGANIZADOR ESCOLAR E PACIFISTA:

Autor, como comentei antes, da obra Didática Magna, é o primeiro educador, no mundo ocidental, a interessar-se na relação ensino-aprendizagem, levando em conta haver diferença entre o ensinar e o aprender. É, pois, o iniciador da didática moderna.

Nascido na região da Morávia, na atual República Tcheca, Europa, em 28 de março de 1592, era de família eslava e praticante do protestantismo. Sua família seguia a seita dos Irmãos Morávios, grupo religioso inspirado nas ideias do reformista Jan Huss, da Bohemia e estreitamente ligado às Sagradas Escrituras e defensores de uma vida humilde, simples e sem ostentações. Essa educação rígida e piedosa exerceu grande influência sobre o espírito de Comênio, influenciando sua vocação para os estudos teológicos. Tendo perdido seus pais e irmãs aos 12 anos, foi cuidado sem muito carinho por uma família de seguidores da seita dos Morávios e sua educação básica não fugiu aos padrões da época: saber ler, escrever e contar, ensinamentos aprendidos num ambiente escolar rígido, sombrio, onde a figura do professor imperava e as crianças tratadas como pequenos adultos e os conteúdos escolares infalíveis e inquestionáveis. A rigidez no trato e a prática da palmatória eram elementos básicos da “didática” escolar vigente. O rigor da escola e a falta de carinho familiar marcaram a vida do órfão Comênio a ponto de inspirar, certamente, os princípios de uma didática que pode ser considerada revolucionária para a época, o século XVII.

Do livro 'O Mundo Ilustrado'
Do livro ‘O Mundo Ilustrado’

Ao terminar os seus estudos secundários, ingressa na Universidade Calvinista de Herbron, região da Alemanha, onde estuda Teologia. Adquire boa formação cultural, e uma vasta cultura enciclopédica; estreita seus laços com a religião e torna-se pastor, tendo ainda, enquanto estudante, iniciado a produção de suas primeiras obras, Problemata Miscelânea e Syloge Questiorum Controversum. Segue para Heidelberg, região da Alemanha, onde aprimora seus estudos de astronomia e matemática, retornando à Morávia, sua região natal, e se estabelece em Prerov atuando no magistério, ansioso em colocar em prática as ideias pedagógicas trazidas da Universidade. Modifica radicalmente a forma de ensinar artes e ciências em sua escola, destacando-se rapidamente como professor.

Ordenado pastor da seita dos Morávios em 1616, aos 26 anos, muda-se para Fulnek, capital da Morávia, onde se casa, vive e tem filhos. Região conturbada politicamente, uma rebelião motivada por disputas entre católicos e protestantes da Boémia-Morávia é o estopim do início da Guerra dos Trinta anos. Os exércitos espanhóis, em 1621, invadem e incendeiam Fulnek dizimando quase toda a população. Comênio perde a família – mulher e 2 filhos – na epidemia de peste que se seguiu. Perde, também, a sua biblioteca e seus escritos. Muda-se para Polônia em 1628, como a maioria dos Irmãos Morávios, fugindo da perseguição religiosa. Estabelece-se em Lezno, onde retoma suas atividades de pastor e professor. Dedica-se a escritos religiosos, como forma de ajudar a levantar o ânimo de seus irmãos de seita ainda não recuperados da perseguição religiosa.

Nessa época sua fama como educador já começa a se espalhar, ganhando simpatizantes na Inglaterra, para onde vai, convidado, e onde permanece durante um ano. Visita o reino da Suécia, contratado para promover a reforma do ensino e onde permanece, entre idas e vindas, durante seis anos, após o que retorna para a Polônia. Na Suécia, é famoso seu encontro com René Descartes, filósofo e matemático francês que lá vive sob a proteção da monarquia local.

Preocupado com um dos grandes problemas epistemológicos de seu tempo – o método – publica em 1627 a Didactica Tcheca, traduzida em 1631 para o latim como Didática Magna, considerada sua maior obra.

Em 1648, viúvo, doente e desprestigiado em sua comunidade, abandona a Polônia, estabelecendo-se em Amsterdã, cidade da Holanda, onde se casa novamente em 1649. Lá se restabelece e retorna o seu trabalho de educador e reformador social. Prestigiado pelas autoridades holandesas, estas publicam todas as suas obras pedagógicas, muitas delas já famosas. Termina seus dias na Holanda, famoso, prestigiado e luitando, até a morte, pela fraternidade entre os povos e as igrejas. Morre em 15 de novembro de 1670, tendo sido enterrado em Naarden, Holanda, onde foi construído um mausoléu em sua homenagem.

Em 1956, a Conferência Internacional da UNESCO em Nova Delhi (India) delibera a publicação de todas as suas obras pelo organismo e aponta João Comênio como um dos primeiros propagadores das ideias que inspiraram – quase trezentos anos depois – a UNESCO e sua fundação. Segundo ele a raça humana devia vigorizar-se e se devia estabelecer um conceito da vida realmente criativo. Com toda a razão sustinha que se devia gastar mais dinheiro em escolas, que o melhor investimento da sociedade eram os grandes Mestres e que os complementos da instrução, especialmente os livros e outros recursos didáticos, deviam proporcionar-se com liberalidade. O pensamento religioso positivo devia governar o sistema escolar, embora para seguir a Jesus e não aos ditados da ortodoxia. Ele, como grande mestre que era, tinha como sonho ambicioso e profundo, com um vivo senso de atualidade, lograr reformar a sociedade, e compreendia que a educação criativa é o supremo bem do ser humano.

A sua Pedagogia:

Defendia a sua pedagogia com a máxima: “Ensinar tudo a todos” sintetizando os princípios e fundamentos que permitiriam ao homem colocar-se no mundo, não apenas como um expectador, mas como um ator.

Do livro 'O Mundo Ilustrado'
Do livro ‘O Mundo Ilustrado’

Objetivando a aproximação do homem a Deus, o objetivo central da educação para ele era tornar os homens bons cristãos – sábios no pensamento, dotados de verdadeira fé, capazes de praticar ações virtuosas estendendo-se a todos: ricos, pobres, mulheres, portadores de deficiências. Para ele, a didática é, ao mesmo tempo, processo e tratado: é tanto o ato de ensinar quanto a arte de ensinar.

Salientava a importância da educação formal de crianças pequenas e preconizou a criação de escolas maternais, pois assim as crianças teriam, desde muito cedo, a oportunidade de adquirir as noções elementares do que deveriam aprender mais tarde, com profundidade. Defendia a tese de que a educação deve começar pelos sentidos, pois as experiências sensoriais obtidas através dos objetos seriam internalizadas e, mais tarde, interpretadas pela razão. Compreensão, retenção e práticas consistiam a base de seu método didático e, por meio desses elementos, chegar-se-ia às três qualidades: erudição, virtude e religião, correspondendo às três faculdades que é preciso ter: intelecto, vontade e memória.

Segundo ele o método de ensino deve seguir os seguintes preceitos:

– Tudo o que se deve saber deve ser ensinado;

– Qualquer cousa que se ensine deverá ser ensinada em sua aplicação prática, no seu uso definido;

– Deve ensinar-se de maneira direta e clara;

– Ensinar a verdadeira natureza das cousas, partindo de suas causas;

– Explicar primeiro os princípios gerais;

– Ensinar as cousas em seu devido tempo.

A sua obra é um paradigma do saber sobre a educação da infância e juventude, utilizando, para isso, um local privilegiado: a escola.

A sua obra Didática Magna apresenta as características fundamentais da escola moderna. Entre elas, podemos distinguir:

– A construção da infância moderna como forma de pedagogização dessa infância por meio da escolaridade formal (até então, as crianças eram tratadas como pequenos adultos);

– Uma aliança entre a família e a escola, por meio da qual a criança vai se soltando da influência da órbita familiar para a órbita escolar;

– Uma forma de organização da transmissão dos saberes, baseada no método de instrução simultânea, agrupando-se os alunos; e

– A construção de um lugar de educador, de mestre, reservado aos adultos portadores de saberes legítimos.

Os fundamentos naturais de seu método:

– O fim é o mesmo: sabedoria, moral e perfeição;

– Todos são dotados da mesma natureza humana, apesar de terem inteligências diversas;

– A diversidade das inteligências é tão somente um excesso ou deficiência da harmonia natural;

– O melhor momento para remediar excessos e deficiências acontece quando as inteligências são novas.

As Suas obras:

Escritor prolífico, deixou mais de 200 títulos, entre os quais se destacam:

– O Labirinto do Mundo (1623)

– Didática Tcheca (1627)

– Guia da Escola Materna (1630)

– Porta Aberta das Línguas (1631)

– Didática Magna (versão latina de Didática Tcheca) (1631)

– Novíssimo Método das Línguas (1647)

– O Mundo Ilustrado (1651)

– Opera Didactica Omnia Ab Anno (1627 a 1657)

– Consulta Universal Sobre o Melhoramento dos Negócios Humanos (1657)

– O anjo da Paz (1667)

– A única Coisa Necessária (1668).

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

comenio-imagem-coloridaDepois de ver o documentário, organizar um debate-papo ou tertúlia, sobre os diferentes aspetos que sobre a figura de Comênio aparecem no mesmo. Refletir sobre o seu pensamento educativo e comentar, dando alternativas concretas, sobre como se poderia pôr em prática hoje nas nossas escolas a sua didática prática. Poderia pesquisar-se também na Internet sobre as experiências realizadas pelo grande pedagogo checo, assim como sobre as suas interessantes publicações.

Elaborar uma monografia, procurando informações em livros e na internet, sobre João Amós Comênio, as suas ideias pedagógicas e os seus métodos e recursos didáticos. Com desenhos, textos, cartazes e materiais elaborados, poderia organizar-se nas escolas uma magna exposição dedicada a ele, a sua pedagogia, a sua didática, as suas obras e as suas propostas de educação para a paz.

Escolher uma, para lê-la entre todos, das obras básicas, e de maior aplicação à Didática nas aulas, escritas por Comênio, publicadas na nossa língua, e que podem escolher-se entre as sinaladas na listagem anterior. Podemos optar também por ler algum livro dedicado a estudar a sua pedagogia. Entre eles temos Comenius e a Educação, por Mariano Narodowski. Depois de lida a obra eleita, organizar um “Livro-fórum” para comentá-la e debater sobre as palavras, ideias educativas e propostas práticas que o grande pedagogo, pacifista e humanista faz na mesma.

 

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