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Comemorar o Dia Mundial da Criança com o filme “Pequenas Flores Vermelhas”

José Paz Rodriguez (*) – Embora a ONU tenha recomendado celebrar no dia 20 de novembro em todo o mundo o Dia Internacional das Crianças, quase todos os países têm estabelecido um dia próprio para celebrá-lo. No Brasil o “Dia Mundial da Criança” tem lugar em 12 de outubro, e em Portugal, igual que em muitos países, a data de celebração é o primeiro de junho.

Junto com o desemprego juvenil, a falta de nenos, pela baixa natalidade dos últimos anos, é para mim um dos maiores e mais preocupantes problemas da nossa sociedade. Não há cousa mais triste que ver como em muitas das localidades galegas das províncias do interior, Ourense e Lugo, cada ano que passa, fecham mais escolas por falta de nenos e nenas. Os casos das povoações de Lobeira e Chandrexa de Queija são paradigmáticos. Se não fosse pelas crianças filhas de imigrantes de nacionalidades variadas, o problema seria ainda maior. Nos próximos anos experimentaremos mais casos tristes de encerramentos de escolas. O nosso rural fica deserto por falta de crianças e jovens. Já temos um alto número de aldeias abandonadas. E tudo isto acontece porque ninguém se preocupa com este tema tão grave. Os políticos parece só estarem preocupados em que tenhamos o AVE o antes possível. Um tema só importante para uma minoria que o vai usar. Mas sem nenhum interesse para a maioria dos cidadãos. E com um custo elevadíssimo. O dinheiro que se dedica ao AVE, quanto melhor não iria para promover a natalidade em comarcas, vilas e aldeias. Para fixar população no rural. Para fazer produtivo o nosso campo. Para que os labregos não emigrem às cidades. Para que os jovens tenham o seu trabalho seguro e não eventual e assim possam ter filhos. Porquê, quando se trata de distribuir o dinheiro público, não se estabelecem prioridades? Se não há nenos não há vida nem futuro. Nem progresso, nem alegria, nem desenvolvimento. Os países emergentes que existem hoje no mundo, com aumento anual do seu produto interno bruto, é devido em grande parte a que têm uma população jovem elevada. Tanto crianças como jovens. Essa população jovem bem preparada, é altamente produtiva. Eu, que todos os anos viajo a esse país emergente que é a Índia, disfruto ali vendo que há crianças. Tanto nas aldeias como nas cidades. Que no rural é um prazer arrodear-se em menos de cinco minutos dum cento de rapazes cheios de alegria, entusiasmo e educação.

Quando no seu dia estive em Bruxelas, comprovei como os casais muçulmanos levavam pelas ruas, no colo, da mão e no carrinho, três filhos em média. Os belgas, como outros muitos europeus, por egoísmo e comodidade, não trazem crianças a este mundo. Em pouco tempo Bruxelas será de maioria muçulmana. Embora seja pouco correto politicamente assertá-lo, achamos que um dos melhores projetos seria contemplar quanto antes o poder estabelecer um bom salário para as mães. Para as que deem à luz filhos, os cuidem e os eduquem na primeira escola maternal que é a casa.

Ver, por exemplo, na minha cidade de Ourense, casais jovens que não têm filhos, mas que levam dum pequeno cordel um ou dous canzinhos, é, para além de chocante, enormemente preocupante.

Um país rico é aquele que tem nenos, que são a vida mais importante. Só podem progredir os países que têm crianças. Naturalmente, depois de ter nenos, também é muito importante a sua educação. Realizada de forma adequada e harmónica. De forma motivadora e com didática ajeitada. Mas, antes temos que ter nenos. Ainda que tenhamos que trazê-los da Bengala. Com as suas famílias, para cultivar os nossos campos que temos a ermo em grande quantidade. É pena ver na Nossa Terra as aldeias que cada ano que passa vão ficando abandonadas, sem vida, sem cultivar seus campos, com casas totalmente vazias. Perante panorama tão triste e devastador, tudo o que façamos para sensibilizar sobre este preocupante tema as autoridades, políticos responsáveis e todos os cidadãos há ser sempre pouco. É um dos lugares pelos que há que começar a sensibilizar sobre o particular são as aulas dos nossos estabelecimentos de ensino, para que pais e mães possam refletir, junto com os docentes, não só sobre a desgraçada falta de nascimento de crianças, como também do importante que é a educação das mesmas, feita com a maior das atenções. Começando por ter uma escola infantil com qualidade educativa e com docentes bem preparados e possuidores de qualidades humanas. Para comemorar nas escolas o Dia Mundial da Criança, escolhi desta vez um interessante filme, rodado na China, em que as protagonistas fundamentais são as crianças, intitulado “Pequenas Flores Vermelhas”. Flores dessa cor que só recebem ao final da jornada escolar as crianças com bom comportamento, na opinião da sua mestra.

 

Ficha técnica do filme:

Título original: Kan shang qu hen mei (Pequenas Flores Vermelhas).

Diretor: Zhang Yuan (China/Itália, 2006, 92 min., a cores).

Roteiro: Dai Ning e Zhang Yuan, baseado no livro de Wang Shuo.

Música: Carlo Crivelli. Fotografia: Yang Tao. Editora do DVD: Lusomundo.

Prémios: Grande Prémio do Júri “Cinema do Mundo” no Sundance Film Festival do ano 2006. Prémio “Panorama” ao diretor no 56º Festival Internacional de Berlim (2006).

Atores: Bowen Dong (Fang Qiangqiang), Chen Li (Principal Kong), Manyuan Chen (Yang Beiyan), Huacheng Li (Long ), Jiaheng Zhao (Hai), Yuanyuan Ning (Yang Nanyan), Rui Zhao (Sra. Li), Xiaofeng Li (Sra. Tang).

Argumento: Qiang é um pequeno rebelde de 4 anos, com uns olhos luminosos e uma vontade precocemente indominável. Uma vez que os seus pais estão frequentemente ausentes, o pai de Qiang deixa-o num infantário residencial bem provido na Pequim pós-1949. Individualista feroz, Qiang tenta conformar-se com o modelo imposto pelos professores. Embora continue a desejar o prémio que os outros estudantes ganham: as pequenas flores vermelhas premiadas todos os dias como símbolo de bom comportamento, Qiang não ganha nenhuma flor pois nem sequer consegue vestir-se e nem brinca com as outras crianças. Gradualmente, o carisma e a fanfarronice dele começam a ganhar magnetismo perante os colegas: as pequenas dissimuladas rebeliões deles ganham força quando ele é bem sucedido em convencer todos que a Professora Li é um monstro disfarçado que come crianças. Será que ele irá render-se ao regime adulto imposto em volta dele, ou será que insistirá em crescer á maneira dele, e pelas regras dele?

 

 

Importância da educação individualizada e da socializada em plano de igualdade:

Pequenas flores vermelhas (Kan shang qu hen mei) conta a história de Fang Qiang (Dong Bowen), um rapaz de 4 anos que é matriculado interno num infantário porque o seu pai não tem tempo para ficar com ele. O local é uma enorme mansão utilizada como Escola Infantil. Dezenas de crianças estudam lá. O internato é coordenado pela reitora Kong (Chen Li), que tem na sua equipa a rígida professora Sra. Li, a jovem e bondosa Sra. Tang (Li Xiaofeng) e mais duas assistentes. Pois bem, esse filme, se visto apenas como um filme qualquer, parece e é muito bonitinho. Só que tem um lado meio sombrio: O facto de as educadoras e professoras do internato simplesmente matarem a individualidade das crianças! Vejam bem: as crianças vestem-se iguais, comem a mesma comida, gostando dela ou não, dormem, acordam, brincam e até fazem as suas necessidades exatamente na mesma hora e do mesmo jeito. Não há lugar ali para uma pessoa que queira simplesmente ser ela mesma e que queira agir, comer, brincar ou falar como gosta. Por isso, o protagonista do filme, o pequeno Qiang não se adapta ao lugar. Ele é um menino rebelde que não aceita cumprir ordens. Ele chora demais, não dorme na hora que deve dormir, não vai à casa de banho na hora permitida e as suas brincadeiras são sempre para irritar os coleguinhas. O menino chega a inventar para as outras crianças que a Sra. Li é um monstro que gosta de comer criancinhas. A sua desobediência acaba atraindo a antipatia da Sra. Li. A sua punição é ficar trancado numa espécie de quarto escuro que lhe provoca ainda mais traumas. Esse filme magnífico é quase um documentário político sobre o regime comunista na China. Um regime que condiciona os seus cidadãos a agir, falar e pensar como se todos fossem iguais. Qiang é a antítese comportamental dessa caraterística. Ele não consegue encaixar-se no padrão e por isso acaba tornando-se um pária dentro do internato. Também não consegue ganhar as Flores Vermelhas que dão título ao filme. Essas florzinhas de papel vermelho são um sistema de pontuação das educadoras da escola, dadas aos melhores e mais bem comportados alunos. A questão é: Será a individualidade algo inato do indivíduo que não pode ser destruído? Um sistema opressor poderia fazê-lo? Olhando “Pequenas Flores Vermelhas” podem tirar-se as suas várias conclusões.

Estamos no ano 1949, em que um colégio interno de Pequim recebe o seu mais novo morador, Qiang, rapaz de quatro anos que encara com relutância o futuro no seu novo lar. Obrigado a adaptar-se a um novo quotidiano que impõe regras e hábitos diferentes dos que conhece, o protagonista deste filme sofre dificuldades na adaptação a um novo sistema, adotando uma conduta que destoa da da maioria dos companheiros e não sendo, por isso, premiada pelas professoras, com as tais flores vermelhas que dão título ao filme. Ambientado na China maoísta, este filme de Zhang Yuan é um drama que parte das experiências do pequeno Qiang para relatar como funcionam os sistemas de controlo e os contrastes que reforçam ou diluem entre a esfera individual e coletiva. Ao conviver com outras crianças educadas de forma distinta da sua, Qiang terá de aderir aos códigos que as orientam sob pena de – e é o que ocorre – ser marginalizado e ignorado, seja por não ter autonomia suficiente ou por ter comportamentos considerados desadequados a certas situações. O filme começa por arrancar de forma promissora, já que Yuan consegue delinear uma credível atmosfera realista, com suporte determinante nas convincentes interpretações de todo o elenco, e em especial do rapaz protagonista, o que é um feito notável tendo em conta que este é constituído maioritariamente por crianças. Seguindo uma estrutura episódica, a narrativa vai seguindo peripécias do dia-a-dia do infantário, de onde sobressai uma rígida rotina que se verifica em todos os momentos, das refeições à higiene pessoal. Embora foque um universo infantil, o filme evita cenas fáceis e aposta numa saudável atitude emocional, ganhando ainda pela caraterização tridimensional das crianças, que nunca são reduzidas a estereótipos. De “Pequenas Flores Vermelhas” podemos guardar o impacto de algumas cenas, de onde sobressai um sóbrio e perspicaz olhar de cineasta.

Um dos mais interessantes aspetos do filme é perceber o sistema metódico e rígido chinês, começando pelo vestuário: padronizado, largo, em cores sóbrias, passando pelo controle gestual e comportamental. O filme mostra ainda, como a sociedade chinesa molda o indivíduo desde a infância para contribuir como uma engrenagem na sociedade, cada um é apenas uma peça, o tratamento individualizado e diferenciado não é recomendado como justificativa de não “mimar” o sujeito. Na atualidade corriqueiramente vemos exemplos dessa recomendação, indivíduos que sobressaem ou que chamam a atenção de forma negativa são acusados de “mimados”. O principal aspeto que o filme nos deixa para análise é a relação individualidade versus coletividade. Por indivíduo entendemos um ser singular. O individualismo é um conceito teórico recente que data do início do século XX, na França pós-revolucionária, significando a dissolução dos laços sociais e abandono das obrigações coletivas, com o grupo. A sociedade que se organiza valorizando pouco a individualidade, apoia-se nas ciências naturais, onde cada ser cumpre o seu papel analogicamente. Para o sociólogo Norbert Elias, o processo de diferenciação individual, ou de individualização, é como um processo civilizador, onde o indivíduo aos poucos vai libertando-se das exigências da sociedade e adquirindo maior autonomia em relação ao todo, como uma criança que vai se desenvolvendo até se transformar em adulto. Embora um indivíduo jamais consiga ser um ser isolado, jamais conseguirá desvencilhar totalmente das tramas da sociedade.

Embora as mazelas não sejam só exclusivas dos sistemas comunistas, mas de qualquer instituição educacional que não seja atenta para as individualidades. Não é por ser criança que um ser deve deixar de se expressar ou, na pior das hipóteses, não achar no professor um elo para a realidade. A criança não tem as ferramentas “adultas” para se expressar, então ela usa a pirraça, a briga, etc., quando não está de acordo com uma situação ou mesmo quando está propondo algo. O professor é um grande responsável no sentido de não deixar essa criança sozinha: não colocá-la numa camisa de força (regras, regras e regras, mesmo sabendo que elas também são importantes), mas instrumentalizá-la para que ela se expresse, por mais que seja diferente das outras crianças. A fala de um pai que vai buscar o seu filho e vê que Quiag não tem flor diz muito bem aos professores: “Vocês têm de ajudá-los!”.

O tema de conseguir uma educação harmónica das crianças esteve sempre presente nos diferentes movimentos pedagógicos que se foram produzindo ao longo da história, e especialmente naqueles que colocaram no centro da escola o aluno em vez do docente. No grande movimento educativo que foi o da Escola Nova, iniciado pelo pedagogo escocês Cecil Reddie em 1889 com a sua escola de Abbotsholme, e já antes em 1876 por Giner de los Ríos e os seus colaboradores com a sua ILE, tão importante era a formação do indivíduo, desenvolvendo as suas capacidades, a sua originalidade e expressividade, como a sua formação social, fomentando o trabalho em grupos, a cooperação, a solidariedade e a tolerância e o respeito entre todos. A educação individualizada era tão importante como a educação socializada, os trabalhos individuais (redações, textos livres, desenhos livres) e os trabalhos em equipa ou grupais. E quem isto tinha muito claro, de maneira acertada, era o meu professor de pedagogia Víctor Garcia Hoz, que em 1970, com o seu livro Educação personalizada, deu à luz um excelente modelo educativo com esse nome. Em tal modelo, baseado nos três princípios básicos de singularidade-criatividade, autonomia-liberdade e abertura-comunicação, propunha que uma verdadeira educação das crianças tinha que contemplar a cinquenta por cento em aulas e escolas a realização de atividades de tipo individual, para desenvolver a criatividade dos alunos, respeitando o seu peculiar ritmo de aprendizagem, e atividades em grupo, para fomentar a convivência e desenvolver a sociabilidade entre os estudantes, por meio de trabalhos livres por grupos, desportos, jogos dramáticos e dinâmicas de grupos. E isto se entende como que é muito importante utilizar nas aulas métodos individualizados em harmonia com métodos didáticos socializados. Para desenvolver ao mesmo tempo a individualização e a socialização, a partes iguais, ao que o meu professor chamava métodos personalizados. Que contemplam o aluno de forma integral, como uma pessoa que possui uma vertente individual, mas também outra social, e ambas têm que funcionar harmonicamente. O que é mais fácil atingir em sociedades que sejam verdadeiramente democráticas. E não quero esquecer tão-pouco que o meu admirado Tagore, na sua escola de Santiniketon, procurou sempre desenvolver nos seus alunos ambos aspetos das suas pessoas, o individual e o social. Sistema que ele denominou poeticamente como “educação em harmonia”. Em harmonia com um mesmo e em harmonia com a natureza e os semelhantes. Tagore tinha muito claro que a melhoria da sociedade só vem se antes conseguirmos a melhoria do individuo, por meio de uma educação elevada, nobre e autêntica.

 

 

Temas para refletir e realizar:

Depois de ver o filme, utilizando a técnica de dinâmica de grupos do “cinema-fórum”, debater sobre os aspetos fílmicos do mesmo, o roteiro e a linguagem cinematográfica utilizada pelo realizador chinês. Fazer o mesmo sobre a conduta do neno protagonista, as causas psicológicas e sociológicas da mesma, a atitude dos restantes pequenos alunos e o sistema condutista dos prémios e castigos. Refletir também sobre a atuação didática das mestras e ajudantes, e sobre o momento histórico do sistema maoista chinês e a sua influência na educação, olhando os aspetos positivos e os negativos.

Elaborar um projeto didático para desenvolver nas nossas aulas e escolas, em que se contemple a 50 % a realização de atividades didáticas individualizadoras e socializadoras. O projeto deve contemplar em cada caso atividades concretas de ambos os tipos a realizar. Pode tomar-se como tema um centro de interesse, que neste caso o mais adequado seria o das crianças na Nossa Terra e no mundo, ao redor do Dia Mundial da Criança.

Organizar no centro de ensino uma Mostra ao redor do Dia Mundial da Criança. Na mesma teriam que incluir-se fotos, textos e desenhos dos alunos, poemas, canções, livros, revistas, retalhos de imprensa, jogos e brinquedos, murais coletivos, autocolantes, cartazes, selos de correios, mapas, etc.

 

(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.

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