José Paz Rodrigues (*) – O ano 1975 foi designado pela ONU como Ano Internacional da Mulher e, em dezembro de 1977, o Dia Internacional da Mulher foi adotado pelas Nações Unidas, para lembrar as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres.
Desde os inícios do século XX, com a segunda revolução industrial e a primeira Grande Guerra, quando se produz a incorporação da mulher ao mundo laboral, nomeadamente na indústria, as condições de trabalho das mesmas, muitas das vezes perigosas e insalubres, provocavam frequentes protestos por parte das que as sofriam e suportavam. A seguir houve numerosas manifestações em várias cidades do mundo como Berlim, Nova Iorque e Viena, no ano 1911 e em 1913 em São Petersburgo. O primeiro Dia Internacional da Mulher teve lugar nos Estados Unidos a 28 de fevereiro de 1909, protestando contra as nefastas condições de trabalho das operárias do têxtil na cidade de Nova Iorque. Dous anos mais tarde, em concreto no dia 25 de março de 1911, na mesma cidade, faleceram no incêndio de uma fábrica 146 mulheres, a maioria costureiras. Em 1910 teve lugar a primeira conferência internacional de mulheres na cidade de Copenhaga. Na mesma, por proposta da alemã Clara Zetkin, foi aprovada a instituição de um dia internacional dedicado anualmente às mulheres, sem especificar a data. Em 19 de março de 1911 mais de um milhão de pessoas, especialmente da Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça, celebraram este dia dedicado à mulher. Nas décadas de 1910 e 1920 a data foi comemorada em muitos lugares com grande sucesso. Nas seguintes décadas caiu bastante no esquecimento, voltando a ser recuperada pelo movimento feminista, já na década de 60, ficando como data definitiva a de 8 de março.
Acho que, no momento atual em que vivemos, em pleno século XXI, infelizmente esta data tem que continuar a ser reivindicativa, pois são muitos ainda os países do mundo em que a mulher continua a ser discriminada e marginalizada. Estou a pensar na Índia, país no qual no momento em que isto escrevo me encontro, onde são muitas as meninas que não assistem à escola, terminando por serem analfabetas, e as mulheres que não têm qualquer casta ou pertencem à religião muçulmana, são tratadas quase como escravas. Mas, temos outros países como o Bangladesh, Paquistão, Afeganistão, Nepal, Irão ou muitos países islâmicos, onde a situação da mulher é pior. Por tudo isto considero fundamental que o tema da mulher seja trabalhado, de forma adequada e contextualizada em espaços e tempos, nos nossos estabelecimentos de ensino. Com a seriedade e prudência precisas. Um bom filme para organizar atividades arredor do tema, depois de projetá-lo, é O sorriso de Mona Lisa, realizado em 2003 por Mike Newell.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Mona Lisa Smile (O Sorriso de Mona Lisa).
Diretor: Mike Newell (Estados Unidos, 2003, 117 min., a Cores).
Roteiro: Lawrence Konner e Mark Rosenthal.
Produtora: Columbia Pictures e Revolution Studios.
Música: Rachel Portman. Fotografia : Anastas N. Michos.
Atores: Júlia Roberts (Katherine Watson), Kirsten Dunst (Betty Warren), Júlia Stiles (Joan Brandwyn), Maggie Gyllenhaal (Giselle Levy), Ginnifer Goodwin (Connie Baker), Dominic West (Bill Dunbar), Julie Stevenson (Amanda Armstrong), Johgn Slattery (Paul Moore), Marcia Gay Harden (Nancy Abbey), Laura Allen (Susan Delacorte), Marian Seldes (Jocelyn Carr, presidenta), Donna Mitchell (Sra. Warren), Topher Grace (Tommy Donegal), Terence Rigby (Edward Staunton, doutor) e outros.
Argumento: Estamos na década de 1950, tempo em que o papel das mulheres estava definido de maneira rígida. A professora de História da Arte, Katherine Watson, muito bem interpretada por Júlia Roberts, viaja da Berkeley californiana ao campus da prestigiosa e estrita universidade de Wellesley na Nova Inglaterra, para exercer como docente de um grupo só para mulheres estudantes. Apesar da reputação académica da instituição, não sem um extremado conservadorismo, o sucesso das jovens é medido pelo bom casamento que ao final dos estudos possam conseguir. Perante este panorama, a professora Watson desafia a administração do colégio, inspirando as suas alunas para olharem além da imagem de aquilo que é considerado como destino ótimo pela sociedade em que vivem, provocando o seu esforço para um futuro mais brilhante e considerando as possibilidades do que poderiam ser. Saltando-se o grande objetivo «pedagógico» do Estabelecimento de mandar as suas brilhantes alunas direto das salas de aula para um bem-sucedido casamento.
Este filme é quase uma versão feminina de «Sociedade dos Poetas Mortos», comentado no seu dia já na nossa série sobre as aulas no cinema. A estupenda professora de Arte, indignada com a limitação desse destino sonhado por todas as suas alunas, tenta mostrar-lhes que existem muitas cousas além dos padrões pré-definidos socialmente. Com o seu proceder enfrenta o olho torto de muita gente e vai também aprendendo conforme ensina. Na fita aparecem todos os estereótipos de uma sociedade puritana. De forma muito original, mesmo para tomar como modelo didático para ensinar História da Arte, a professora amostra o labor artístico dos grandes pintores como Picasso, Van Gogh, Pollock e Leonardo da Vinci (neste caso com o seu famoso quadro da Mona Lisa), convertendo-o em símbolo das aspirações de liberdade e amor, tanto para ela como para as suas jovens alunas. A professora Watson apresenta o modelo de uma docente desperta, sem as sofisticadas atitudes burguesas que apresentam as suas estudantes, que antes de comparecerem diariamente às aulas parece que passam primeiro por um serviço de penteado e maquilhagem. A nova professora, pela sua maneira de dar aulas e filosofia da vida, é acusada de liberal e de afastar as suas alunas da prioridade absoluta do matrimónio e a procriação, a sua forma de vestir e a sua vida amorosa, e é logo alvo de invejas e comentários depreciativos.
Um filme muito adequado para analisar didaticamente:
O filme que comentamos hoje é uma estupenda oportunidade para que os docentes dos diferentes níveis educativos, incluído o superior, nomeadamente dos estudos de Educação, Arte, Letras, História e Cinema, possam analisar, criticar e refletir com os seus estudantes sobre diferentes temas. Preferentemente sobre o tema do papel da mulher na sociedade, o seu papel ao longo de épocas e tempos, e sobre o lugar que ocupa na atualidade nas diferentes culturas e países do mundo. Mas também sobre o desenvolvimento da Arte Moderna, podendo refletir de forma dinâmica a respeito das correntes estéticas de vanguarda na Europa, como o futurismo, expressionismo, cubismo, dadaísmo, fauvismo, abstracionismo e surrealismo, tão caraterísticos das primeiras décadas do século XX. Assim mesmo sobre os factos históricos das duas grandes guerras mundiais.
No primeiro caso, que é o que agora nos interessa, a meta da professora Watson está dirigida para gerar um pensamento e uma ação independente nas alunas e levá-las a se interessarem vivamente pela arte e, por meio de essa motivação, construírem-se a si própria enquanto cidadãs críticas e que se posicionam sobre o que está ao seu redor, em vez de seguir padrões estabelecidos. Incomodada pelo conservadorismo da sociedade e do próprio colégio em que ensina, e preocupada com a posição social que as jovens ocupam nessa sociedade, Katherine Watson decide lutar contra as normas e em prol de uma reflexão por parte das suas mulheres alunas. Dessa maneira, a professora termina por inspirar as suas alunas para enfrentarem os desafios da vida. Nesse contexto, na interação com elas, esta docente inovadora e progressista vai-se descobrindo e redefinindo também ela. Estamos perante um estupendo filme sobre a mulher e as mulheres, em que elas desempenham papéis fundamentais na trama. Nancy Abbey sintetiza o papel social da mulher da época dos anos 50, representando uma personagem socialmente adaptada e perfeita, preocupada em parecer uma figura muito correta do ponto de vista dos valores sociais. Contudo a sua personagem cai por terra e se mostra incapaz de tomar para si um sentido para o momento. A enfermeira Amanda, protagonista da história, é uma mulher forte, firme e objetiva, trazendo à tona dous temas muito polémicos, como são o uso da pílula e o homossexualismo. A temática da contraceção, aliás, será um dos temas discutidos durante o filme, que pode servir perfeitamente para ser analisado com os alunos dos nossos estabelecimentos de ensino, nas salas de aula, por meio de debates-papo. Temos que lembrar que o uso da pílula contracetiva foi aprovado de maneira formal pela FDA, órgão norte-americano controlador de medicamentos, em 1957, gerando numerosas polémicas nos EUA e em todo o mundo ocidental.
A personagem de Joan Brandwyn representa a possibilidade de a mulher de sair do seu papel de agente passivo para agente ativo de uma sociedade tão conservadora. No filme consegue sair da sua posição e tomar a sua própria decisão: faz a inscrição e é aceite pela faculdade de Direito, entretanto, abre mão da sua carreira para viver a sua própria vida conjugal. Mas o importante é que ela faz uma escolha com total liberdade. Pelo contrário, Betty Warren, por pressão de sua família e pressão social, casa-se e termina por dar-se conta que o casamento não é garantia de segurança social e muito menos de felicidade. Por sua parte, Giselle, é uma moça liberal que se apaixona por homens mais maduros, representando uma personagem forte que foge dos padrões da época. Facilmente pode perceber-se uma simbologia feita pelo filme, quando Giselle, através da cena que aparece em frente do espelho, tenta comparar-se com a sua professora. Neste sentido, o espelho refere-se à função reprodutiva e refletora do pensamento, além de representar o símbolo da feminidade.
O filme inicia-se quando começa o ano letivo, com o ritual seguinte de boas vindas: «Quem bate à porta do saber? Eu sou todas as mulheres. O que você busca? Despertar o meu espírito por meio de muito trabalho e dedicar minha vida ao conhecimento…». Esse começo nos conduz a uma ótima reflexão servindo como sugestão para ser discutida na sala de aula com os nossos alunos e alunas. O professor ou professora pode questionar seus alunos nos seguintes pontos: será verdadeiro esse diálogo? A escola tradicionalista como é apresentada no filme, permite a escolha da mulher em optar pela busca do seu autodesenvolvimento ou do matrimónio?
Temas para debater e refletir:
– Depois de ver o filme, organizar um debate-papo ou fórum com os alunos, para analisar a fita nos seus aspetos formais fílmicos e de conteúdos, os papéis das mulheres protagonistas, docente e alunas, a influência da sociedade nas condutas das pessoas e a contextualização dos factos.
– Organizar nos estabelecimentos de ensino atividades artísticas e lúdicas adequadas, arredor da comemoração do Dia Internacional da Mulher: murais, certames, leituras, recitais, dramatizações oportunas, dinâmicas de grupos, audições musicais, etc.
– Procurar na Internet informações sobre os pensamentos feministas de grandes vultos da cultura mundial. Entre eles os dos grandes feministas Gandhi e Robindronath Tagore.
– Idem sobre os problemas de marginalização que sofrem na atualidade as mulheres nos diferentes países do mundo, fazendo propostas criativas e realistas. Analisar os casos da situação das mulheres nos continentes asiático e africano. Também os problemas de violência de género nos países ocidentais.
– Elaborar uma monografia, com imagens e ilustrações, sobre a educação da mulher ao longo da história, desde as culturas antigas, e a falta da sua escolarização em muitos países, mesmo na atualidade, analisando as propostas que fez a UNESCO sobre o assunto.
(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.



