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Celebrar nas escolas a Semana das Letras Galegas (I) com os filmes sobre Castelão

José Paz Rodrigues (*) – Dentro da série “As Aulas no Cinema” este ano quero comentar em dous artigos sucessivos os filmes dedicados a Castelão, em primeiro lugar, e em segundo lugar, na semana próxima, o mais famoso filme galego “Sempre Xonxa”, realizado por Chano Pinheiro. Estes filmes podem perfeitamente ser utilizados para comemorar a semana das letras galegas do mês de maio nos diferentes estabelecimentos do ensino.

Castelão, o vulto mais importante da Galiza:

Nascido na localidade marítima de Rianjo no dia 30 de janeiro de 1886, e falecido no exílio na capital argentina de Buenos Aires no dia 7 de janeiro de 1950, está considerado como o vulto mais importante da história da Galiza. Para galegas e galegos, que amam a sua Terra, Castelão foi tão importante como para Bengala e os bengalis (da oriental e ocidental) Robindronath Tagore. Reconhecemos todos nele a personalidade cultural mais importante da Terra Galega. A que lhe dedicou toda a sua vida como escritor em todos os géneros literários, nomeadamente contos, teatro, romance e ensaio. Também foi um grande artista, desenhador, pensador e bom político, no senso em que queria Platão.

O seu Sempre em Galiza, do que temos uma estupenda edição em português padrão culto, realizada pela AGAL há pouco tempo, é um livro fundamental para galegas e galegos. Tanto, que é popularmente conhecido como a “Bíblia dos galegos”. Outros dos seus livros destacados são os de desenhos, nos quais refletiu a verdadeira alma dos galegos, dos problemas sociais, culturais e políticos da sua Terra, alguns universais, da terrível guerra civil (que ele denominou “incivil”), da qual ainda, infelizmente, existem hoje muitas sequelas negativas. Entre eles quero destacar: o Álbum Nós (1920), 1ª edição em 1931, Galiza Mártir (1937), Atila na Galiza (1937), Desenhos de negros, Cinquenta homens por dez reais (1925) e Cousas da vida, série sobre crianças, velhos, animais, mulheres, homens e caciques (1925). Em teatro é muito linda a sua peça Os velhos não devem de namorar-se (1941), editada em 1953. São muito lindos os seus relatos, contos e romances, como Um olho de vidro (1922), Os dous de sempre (1934), Retrincos (1934) e Cousas (1926-1929). O seu formoso conto O pai de Miguelinho foi levado ao cinema, na curta-metragem do mesmo título, por Miguel Castelo em 1975.

 

 

Como ensaísta Castelão foi excecional e o Sempre em Galiza, antes citado, em que há três textos muito formosos, que parecem poemas, com caráter e senso hinduísta (a cultura primitiva da Galiza é celta e, portanto, com um profundo senso hindu), dedicados à vaca, ao peixe e à árvore. Também As cruzes de pedra na Bretanha (1930), e As cruzes de pedra na Galiza (1950), ambos livros com desenhos seus, e o Diário (escrito em 1921 e publicado em 1977), em que se recolhe o seu roteiro, com lindos comentários, realizado no ano 1921 pela Europa, para visitar e conhecer os museus de arte mais importantes (França, Alemanha, Bélgica e Holanda). Este roteiro pôde realizá-lo graças à ajuda e bolsa que lhe concedera a Junta de Ampliação de Estudos da ILE. Através do Diário podemos comprovar os profundos conhecimentos e a sensibilidade artística do rianjeiro, que também foi um grande artista, desenhador e pintor. Também gostou muito da música, e, em especial, da folclórica da sua Terra.

No campo político, com um labor muito digno, na defesa dos interesses da Galiza, foi um dos criadores do Partido Galeguista (PG), e parlamentário durante a 2ª República no Parlamento de Madrid. Quando se produz o levantamento militar e fascista do ditador Franco, no dia 18 de julho de 1936, encontrava-se em Madrid. Por isso salvou-se de ser assassinado. Ao final, com o triunfo fascista, teve que exilar-se na Argentina, onde chegou a ser, de 1944 a 1950, Presidente do Conselho da Galiza no exílio. Sempre esteve a favor do governo republicano legítimo. Em 1984, foram trazidos os seus restos mortais, do cemitério da Chacarita de Buenos Aires, para o Panteão de Galegos Ilustres de santiago de Compostela, já com a democracia. Em 1964, (17 de maio), foi-lhe dedicado na Galiza a Castelão, o “Dia das Letras Galegas”, que se vem celebrando desde o ano 1963, todos os anos. Dedicando o dia cada vez a um escritor, ou escritora, galego destacado.

 

 

Para mim Castelão é o autêntico Pedagogo Cívico da Galiza. Um verdadeiro educador do povo, por meio de toda a sua obra gráfica, artística, política e literária. Sempre preocupado pelo nosso formoso idioma, da sua promoção e ensino e de aproximá-lo à lusofonia. E também pelo ensino, demonstrado nos seus formosos desenhos em que aparecem crianças no caminho da escola, os mestres ou os jogos dos rapazes. Na procura sempre de um ensino e uma escola autenticamente galegos. E com grande amor a Portugal, país com que nos une o idioma, a história e a cultura comum. Por isso Castelão dizia entre outras muitas lindas cousas: “A nossa língua floresce em Portugal” e “Quando vou a Portugal mais galego me sinto”.

 

Fichas técnicas dos filmes:

1.-Título original: Castelao (Biografía de un ilustre gallego) (Castelão, biografia de um ilustre galego).

Diretor: Jorge Prelorán (Argentina, 1980, 126 min., branco e preto, documentário).

Codiretor: Manolo Ferrol. Colaboração: Roberto Rodríguez, Carmen de las Cuevas, Mabel Prelorán, Liliana Bagaglia, Luis Medina Castro (voz em off) e Alfredo Baltar (voz de Castelão).

Roteiro: António Pérez Prado, segundo uma ideia de Valentín Fernández.

Animação: Simón Feldman. Produtora: Ediciones Nós de B. Aires.

Argumento: Embora editado em 1980, este documentário foi realizado num período que vai de 1973 a 1976. Em 1972 o galego António Pérez Prado (1926-2009), residente na capital da Argentina, sugeriu ao cineasta Prelorán que realizasse um filme dedicado a Castelão, que ele lhe forneceria o material procedente da biblioteca do Centro Galego. Assim durante uns três anos foram filmadas as imagens, que foram completadas com as dos noticieiros argentinos dos anos 40. O filme abrange toda a vida de Castelão, desde que nasceu até que faleceu. Um narrador e um ator leem os seus textos, e numerosos galegos exilados puseram as suas vozes para gravar os diálogos de uma antologia de desenhos de vários livros de Castelão.

Realizado antes de falecer Franco, o documentário foi uma proposta dos republicanos exilados e, desde Galiza, de Isaac Diaz Pardo. Quando no 2000 foi projetado no Teatro Principal de Ponte Vedra, com a presença do seu diretor, este chegou a dizer: “Acho que este filme vai tocar os galegos de forma profunda. A magia da imagem, a música, a narração… Desde 1983 não a vi, mas tenho um grande desejo de olhá-la com a presença de galegos como espetadores, que é a quem vai dirigido o meu documentário, realizado com poucos meios e de forma muito artesanal”.

 


2.-Título original: Castelao y los hermanos de la libertad (Castelão e os irmãos da liberdade).

Diretor: João Carlos Pérez Leira, “Xan Leira” (Galiza, 2001, 77 min., branco e preto e cor, documentário).

Roteiro: J. C. Pérez Leira. Ajudantes do diretor: Chino Collado e Francisco Vila.

Documentação e investigação: Mª Susana Pérez Leira, Carlos Fernández, Sónia Campos, José Soto Campos, Óscar Broulhóm, Elsa Di Serio, Diana Reiter Bruschtein e J. C. Pérez Leira.

Produtora: Acuarela Comunicación, S. L. (Meira-Moanha-Ponte Vedra).

Rodagem: Galiza, Argentina, Uruguai, México e Cuba. Montagem: Sónia Campos e J. C. P. Leira.

Diretora de Arte: Marcela Santorum. Música: Jorge Olivera. Estudo de gravação: Casa de tolos.

Ajudantes de produção: Chino Collado, Montserrat Varela Trigo, Raúl Héctor Indarte e Natasha Vázquez.

Vestiário e cenografia: Montserrat Varela Trigo. Fotografia fixa: José Luis Abalo.

Câmaras: Chino Collado, Xavier Bar Núnhez, Sónia Campos e Rigoberto Sinarega Madruga.

Locutor: Luís Iglésia. Desenho gráfico: Armando Lago e Diana Reiter Bruschtein.

Canções: J. C. Pérez Leira e Jorge Olivera. Grupo de dança : Doble “Xiro”.

Músicos: J. Olivera, Marcos Outeirinho Glez. (flauta), Leandro Deltell Izquierdo (percussão), Carlos Calvinho (guitarra) e Piotr Grudzien (violino).

Recriação de jornais: Manuel Fonseca Santomé. Imprensa: Ana Santorum.

Intérpretes: Begonha Pazos Carrero, A. Manuel Olivera Real e as Cantadeiras do Berbés (9 mulheres).

Imagens de arquivo: Archivo Histórico de la Nación Argentina, Museo Histórico y Ciencias Naturales de Bahía Blanca, Elígio González (Castelão em B. Aires), Ismael González e CGAI.

Entrevistados:

Argentina: Bernardo Souto, Ricardo Flores, Clotilde Iglesias, Rosa Puente, José C. Calvinho, Fernando Vecino, Juan Manuel Pérez, Mª Elvira Fdez. Pérez, Mariví Villaverde e José Neira Vilas.

Galiza: Teresa R. Castelão, Raimundo Garcia Rguez (“Borobó”), José Luis Bóveda, Francisco Fdez. del Riego, Eugénio Granell, António Fraguas, Avelino Pousa Antelo, Jaime Ilha Couto e Isaac Diaz Pardo.

Uruguai: Toni de Searez, Manuela Somoza e Manuel Canabal.

México: Elígio Rodríguez e Ramóm Esturao Calvo.

Cuba: Soledad Figueral, Ramóm Rei Balbís (“Moncho”), Anísia Miranda e Ángel Augier.

Espanha: Santiago Carrillo.

Entidades colaboradoras: Concelhos de Vigo e Ferrol, Universidades de Vigo, B. Aires e Nacional da República do Uruguai, Conselho da Cultura Galega, Arquivo Histórico da Argentina, Secretaria da Cultura da embaixada da Argentina em Madrid, Consulado da Argentina na Galiza, Instituto Argentino da Cultura Galega em B. Aires, Municipalidade da Cidade de Montevideu, Padroado da Cultura Galega de Montevideu, Faculdade de Letras de Havana, União Nacional de Artistas e Escritores de Cuba e Fundação Castelão da Galiza.

Prémios: Especial do júri e do público à melhor longa-metragem galega nas “Jornadas de Cinema e Vídeo da Galiza” em 2001. Melhor filme e melhor documentário nos “Chano Pinheiro” de 2002.

 

 

Argumento:

Este filme documentário recolhe a vida e labor cultural, social e político de Castelão, desde o seu nascimento em 1886, até o seu falecimento em 7 de janeiro de 1950. No mesmo realizam-se interessantes entrevistas a mais de 30 personalidades, vinculadas de uma ou outra maneira ao rianjeiro, alguns ainda felizmente vivos e outros já desaparecidos. Castelão foi o paradigma do homem galego comprometido com a transformação da Galiza. O mesmo que Gandhi na Índia, ou Nelson Mandela na África do Sul. Ele sintetiza e expressa em si mesmo a vontade maioritária de um povo por mudar para sempre a sua realidade social, cultural e económica secularmente adversa, crescendo e madurando muito próximo à realidade da sua Terra.

Com a emigração da sua família à Pampa argentina, a finais do século XIX, e a observação das injustiças sociais que se sucedem nos diferentes cenários vitais pelos que transita, o levam com o tempo, a madurar um conceito de nacionalismo galego, arraigado no mais profundo universalismo e humanismo social. Primeiro com a arte, e depois com a ação política e a sua palavra, converte-se mesmo desde o início da 2ª República, no líder indiscutível do povo galego no seu desejo de mudar para sempre a injusta ordem social reinante. A sua entusiasta e comprometida participação popular forçam a unidade dos partidos políticos republicanos e de esquerda, constituindo a primeira Frente Popular do Estado Espanhol. O terrorismo de Estado instaurado já na Galiza em 1936 impede de forma selvagem que todas as esperanças de mudança e transformação com que sonhava o povo galego, na sua procura de liberdade, progresso e democracia social, sejam realidade.

Castelão encontra-se em Madrid, por ser parlamentário, quando surge o golpe de estado franquista. Desde ali denuncia as barbaridades que estão a fazer na Galiza os golpistas, promove a juntança dos antifascistas galegos da diáspora e cria e organiza o “Batalhão galego”. Escreve em numerosos jornais e revistas, ilustrando os seus trabalhos com os seus formosos desenhos de denúncia. Para apoiar a República mesmo faz de embaixador itinerante do governo por vários países da América para acadar apoios para o governo legítimo. O que infelizmente de pouco valeu, ao triunfarem os franquistas, também pela indiferença das potências democráticas europeias. Castelão, já exilado, decide morar na chamada “quinta província galega”, a cidade de B. Aires. Onde trabalha sem descanso por juntar os muitíssimos galegos exilados, os emigrantes e os antifranquistas.

Em 1946, pelo Partido Galeguista, Castelão é designado ministro sem pasta do governo republicano no exílio, presidido por José Giral. Com a esperança de devolver ao seu povo a liberdade perdida e reestabelecer a ordem constitucional e democrática. Que não se consegue, por causa das ambíguas atitudes das democracias ocidentais, que ao final mesmo mantêm o franquismo e provocam no rianjeiro uma enorme deceção, ao saber que já nada se pode fazer. Castelão, o homem que sentiu em carne própria a tragédia da sua nação, enfraquece e aparece nele a doença. A dor invade a sua existência e nos últimos momentos é operado de urgência, falecendo aos dous dias, no Centro Galego de B. Aires. A repercussão internacional da sua perda física, e a multitudinária demonstração de dor, na despedida de seus restos, contrasta com o vergonhoso silêncio da imprensa franquista. Silêncio que perdurou e ocultou, até 50 anos depois do seu falecimento, uma das figuras mais significativas da Segunda República, e o maior vulto cultural da Nossa Terra.

 

 

Proposta de atividades educativo-didáticas sobre Castelão:

Muitas são as atividades artísticas, literárias e lúdicas, de caráter educativo-didático, que se podem e devem organizar nas aulas dos diferentes níveis educativos, arredor do grande vulto que para a nossa Galiza foi Castelão. De forma sintética exponho a continuação a minha proposta didática.

1.- Depois de ver os dous documentários sobre Castelão, organizar um cinema-fórum para analisar a vida e obra do rianjeiro e debater sobre as diferentes opiniões de destacadas personalidades que saem nos filmes.

Analisar também os desenhos e textos de Castelão que se recolhem especialmente no filme de Prelorán. Refletir igualmente sobre o contexto em que, nas diferentes etapas históricas, se desenvolve a vida de Castelão: a emigração em criança com a sua família na Pampa argentina, os seus estudos primeiro em Rianjo e depois em Compostela, a participação política antes e durante a República dentro do Partido Galeguista, o seu labor durante a guerra em território republicano, o período do seu exílio na Argentina e o seu labor cultural e político dentro do mesmo e o seu profundo amor pela Galiza e também por Portugal.

2.- Organizar, seguindo alguma técnica de dinâmica de grupos (mesa redonda, “philips 66”, discussão guiada e/ou dirigida, diálogos simultâneos, etc.), um debate entre os participantes sobre a personalidade de Castelão e a importância que teve o seu labor nas diferentes facetas para a Galiza.

3.- Realizar nos estabelecimentos de ensino uma amostra monográfica sobre Castelão, a sua obra e labor, com livros (dele e sobre ele), cartazes, cópias dos seus desenhos, depois de realizar uma escolha dos mais significativos, fotografias, capas de livros e textos destacados da sua autoria.

4.- Elaborar por parte dos estudantes um grande mural monográfico dedicado ao rianjeiro, em que se recolham desenhos, textos, fotos, caricaturas, retalhos da imprensa, desenhos dos alunos, textos livres dedicados à sua figura, frases célebres de Castelão, opiniões sobre ele e um esquema da sua biografia e obra, nas suas diferentes facetas.

5.- Representar nos estabelecimentos de ensino, depois dos ensaios pertinentes e a elaboração das máscaras oportunas e dos trajos, a sua obra teatral “Os velhos não devem de namorar-se”. Também, depois de ver a curta-metragem “O pai de Miguelinho”, baseado num texto do rianjeiro, se pode organizar com os alunos um jogo dramático e/ou uma dramatização do formoso relato. E de outros dos seus relatos a escolher.

6.- Elaborar uma monografia ou revista com textos, poemas e artigos dos alunos, sobre a vida e obra de Castelão. Na mesma seria muito interessante recolher fragmentos sobre o que pensava sobre o nosso idioma, sobre o amor que tinha por Portugal e textos destacados recolhidos da sua magna obra Sempre em Galiza, entre eles aqueles tão formosos dedicados à vaca, à árvore e ao peixe. Ilustrar a mesma com vários desenhos do seu Álbum Nós.

7.- Promover a escrita de redações livres por parte dos alunos, em que comentem, entre outras, as famosas suas frases: “A nossa língua floresce em Portugal”, “A nossa língua é extensa e útil porque com pequenas variantes fala-se em Portugal, Brasil e países africanos de expressão portuguesa” e “Cada vez que viajo a Portugal, ao voltar à Galiza mais galego venho”. Também o seu famoso desenho em que na beira do Minho aparece um velho e uma criança, e esta pergunta “E os da beira de lá são mais estrangeiros que os de Madrid? (não se soube o que lhe respostou o velho)”. Igualmente os seus desenhos relacionados com as crianças e seus jogos, as escolas, os mestres e as mães, pais e avós.

 

 

(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.

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