José Paz Rodrigues (*) – Entre os dias 21 e 27 de março de cada ano, por decisão da Assembleia Geral da ONU na década de sessenta, celebra-se em todo o mundo a “Semana Internacional de Solidariedade com os Povos que luitam contra o Racismo e a Discriminação Racial”. Racismo é uma maneira de discriminar as pessoas baseada em motivos raciais, cor da pele ou outras caraterísticas físicas, de tal forma que umas se consideram superiores a outras.
Portanto, o racismo tem como finalidade intencional (ou como resultado) a diminuição ou a anulação dos direitos humanos das pessoas discriminadas. Exemplo disto foi o aparecimento do racismo na Europa, no século XIX, para justificar a superioridade da raça branca sobre o resto da humanidade. Pela sua parte, a discriminação racial é um conceito que normalmente é confundido com racismo (e que o abarca), mas se trata de conceitos que não necessariamente coincidem. Enquanto o racismo é uma ideologia baseada na superioridade de uma raça ou etnia sobre outra, a discriminação racial é um ato que, embora esteja fundado em uma ideologia racista, não sempre o está. Ou seja, é preciso deixar claro que a discriminação racial positiva (quando as discriminações têm como objetivo garantir a igualdade das pessoas afetadas) constitui uma maneira de discriminação cujo objetivo é combater o racismo.
Historicamente, o racismo tem servido para justificar uma série de genocídios e diversas formas de dominação das pessoas. Exemplo disto são a escravidão, a servidão, o colonialismo e o imperialismo, ou seja, uma total afronta a dignidade humana básica de diversos povos ao longo do tempo. O racismo frequentemente é associado à xenofobia, quer dizer, o ódio, repugnância ou hostilidade relacionada a estrangeiros. Cabe, porém, ressaltar que ambos os conceitos são diferentes, visto que o racismo é uma ideologia de superioridade e a xenofobia é um sentimento de rejeição voltado aos estrangeiros, algo diferente do racismo. O racismo também está relacionado com outros conceitos como o etnocentrismo, os sistemas de castas, o colonialismo e até a homofobia. Os atos, valores e sistemas racistas estabelecem, velada ou abertamente, uma ordem hierárquica entre os grupos étnicos para justificar as vantagens ou privilégios gozados pelo grupo que domina. Em 1965, a organização das Nações Unidas (ONU) adotou a convenção internacional sobre a eliminação de todas as formas de discriminação racial. Assim, estabeleceu como Dia Internacional da Eliminação da Discriminação Racial o dia 21 de março.
Infelizmente, apesar do labor desenvolvido por grandes pacifistas e antirracistas como Tagore, Gandhi, Mandela (desaparecido há pouco) e Luther King, ainda temos hoje que promover entre os escolares de todos os níveis educativos, que respeitem todas as raças e etnias do planeta, todas as culturas, todas as línguas e todos os credos religiosos. Em muitos países, e em especial nos EUA, onde ainda existe o infame “Ku klux Klan”, e o Reino Unido, os cidadãos de outras raças não têm na prática os mesmos direitos. Um caso que, por desgraça, também está a acontecer ultimamente na França e na Itália, e em Espanha pouco se faz por integrar socialmente latino-americanos, magrebinos, bangladeshianos e, historicamente, os ciganos. Tudo o que possamos fazer sobre este tema nas aulas sempre há ser pouco. Ademais, não só existe ódio racista entre brancos e pretos, o que evidentemente sempre foi o mais habitual, e para triste exemplo temos os casos da África do Sul e América do Norte, também pode existir ódio racista entre outras etnias. Tal como é o caso do formoso filme que desta vez tomamos como base para o nosso comentário. Realizado em 1992 pela diretora indiana Mira Nair, “Mississípi Masala” apresenta os problemas do racismo mútuo entre indianos e pretos, e como só por meio do amor se pode superar. Existem na filmografia mundial outros interessantes filmes que amostram como, quando há ausência de amor entre os seres humanos, aflora o nefasto racismo. Filmes exemplares que acolhem o tema são: “American History X”, “Gandhi”, “O Velho e a Criança”., “O grande ditador”, “A vida é bela”, “Cadeia perpétua”, “A lista de Schlinder”, “O sangue do condor”, “A Missão” e, entre outros muitos, “O rapaz do Chaâba”. Alguns dos quais já foram comentados nesta minha série de “As Aulas no Cinema”.
Ficha técnica do filme:
Título original: Mississipi Masala.
Diretora: Mira Nair (EUA e Reino Unido, 1992, 118 min., a cores).
Roteiro: Sooni Taraporevala. Montagem: Roberto Silvi.
Música: L. Subramanian. Fotografia: Edward Lachman.
Atores: Sarita Choudhury (Mina), Denzel Washington (Demetrius Willians), Roshan Seth (Joy), Shormila Tagore (Kinnu, esposa de Joy), Joe Séneca (Williben Willians), Ronjit Chowdhury (Anil), Charles S. Dutton (Tyrone Willians), Tico Wells (Dexter Willians), Mohan Gokhale (Pontiac), Mohan Agashe (Kanti Napkin), Yvette Hawkins (Aunt Rose), Anjan Srivastav (Jammubhai) e Joseph Olita (Idi Amin Dadá).
Prémios: Em 1991, Prémio especial da Crítica à diretora na Mostra Internacional de São Paulo, e melhor filme e roteiro no Festival de Veneza. Em 1993, prémio a Denzel Washington, pela sua atuação, no NAACP Image Award dos EUA.
Argumento: Em 1972 o presidente do Uganda, o ditador Idi Amin Dadá, toma o poder, e a situação política do país, que tinha acolhido muitos emigrantes indianos para trabalhar nas obras do caminho-de-ferro, muda por completo. O ditador, entendendo que o Uganda só pertence aos pretos africanos, decreta a imediata expulsão do país de todos os asiáticos, especialmente indianos. Entre eles encontra-se a família indiana de Joy, que se vê obrigada a abandonar o país onde nascera e a perda de todos os seus bens, entre os que está a casa, especialmente estimada pelo cabeça-de-família e pela sua pequena filha Mina. Muito arraigada na África e nos seus próprios costumes culturais, inicia uma longa viagem até instalar-se numa cidade estado-unidense do Mississípi. A situação provoca o ódio pelos pretos em Joy, pois considera-se roubado pelo novo governo ugandês, e continuamente faz reclamações por escrito do que considera ser da sua propriedade. A história, passados uns dezoito anos, pula então para 1990, quando a filha Mina começa a namorar o jovem afro-americano Demetrius, de raça preta. O relacionamento é afetado pelo preconceito racial sofrido pelos dous lados: o pai de Mina, Joy, que se sente prejudicado pelos negros, e Demetrius, que se sente prejudicado pelos brancos indianos. Os dous, Mina e Demetrius, terão que contornar os problemas pelos quais passaram e mudar os seus comportamentos. Ao princípio a família de Mina, com o apoio da comunidade indiana existente na cidade, opõe-se a aceitar o moço negro, porque se trata de uma pessoa de outra raça e cultura. Ao final têm que aceitar a realidade, pois o amor acaba por derrubar qualquer barragem.
Um amor inter-racial, superador do racismo e a xenofobia:
A situação da família de Mina, introduz-nos na complexidade das relações multirraciais. A sua dupla identidade indiana e africana permite supor uma harmonia entre os elementos heterogéneos das duas culturas, mas a nova situação do exílio a Mississípi revelará a debilidade desta relação. A nova situação pouco a pouco irá transformando a sua vida familiar e o idílico modelo de convivência com o país de adoção fundir-se-á no momento que a filha proponha uma relação afetiva fora dos cânones previstos pelos seus progenitores. É então quando se põe em evidência as limitações da sua reserva permanente frente ao novo país de adoção e o senso da sua automarginalização abertamente ao serviço da manutenção da sua identidade como indiano-africanos e como exilados, por outro lado, o único que se lhes permite. O filme, a meio caminho entre comédia e melodrama, percorre uma série de situações que desvelam os conflitos aparentemente escondidos trás da estratégia de sobrevivência. O racismo e o classismo opor-se-ão ao amor num múltiplo e nada esquemático jogo dramático que há permitir pôr em cena a complexidade com que se vive em sociedades multirraciais e multiculturais. É provável que seja o tom desenfadado com que a diretora constrói as personagens protagonistas o que faz deste filme um material idóneo para poder refletir sobre o significado da diferença e sobre a problemática em que vivem determinadas comunidades em países afastados da sua origem. Mas, também é certo que detrás desta aparente ligeireza com que se apresentam os problemas no filme, há uma reivindicação explícita de reconhecer e dar importância às consequências que os grandes factos da política e da economia provocam no desenvolvimento quotidiano das pessoas que participam em cada problemática. Desta maneira, este formoso filme termina por ser uma magnífica tradução a escala doméstica de um dos problemas mais importantes da nossa época, como é o desarraigo. E também é uma boa reflexão de como se produz a sobrevivência diante das limitações, dando ao amor a capacidade de redenção e o seu valor superador de etnocídios xenófobos, que também começa a fazer falta reivindicar, no mundo atual em que vivemos.
Embora seja o racismo o tema central deste filme, o mesmo trata outros temas de interesse socioeducativo. A protagonista, Mina, quando menina, vive um importante desarraigo, sendo exilada do paraíso, das cores e os odores do seu saudoso Uganda onde nascera, das flores do jardim da sua casa e das montanhas que observava nas suas brincadeiras de criança. A sua aprendizagem vai consistir em viver esta perda como irrecuperável e reconstruir a realidade das suas lembranças desde o próprio presente que agora vive noutro país longínquo. Com os normais problemas de identidade que se geram quando as lembranças impedem viver o presente. Apresenta-se também na fita o exílio interior, ao ilustrar a problemática da imigração dum ponto de vista antropológico e vivencial, mostrando duas formas de adquirir ou afirmar a identidade como etnia e como indivíduo. Mina representa a aceitação da nova situação, agora nos EUA, sem esquecer as suas experiências anteriores. A saudade da sua querida África, da gente que teve que deixar e das suas paisagens exuberantes, não lhe impede encontrar novas ligações afetivas, nem perceber a beleza das áridas cores do Mississípi. Pelo contrário, Joy, seu pai, nega constantemente o seu presente mandando cartas de apelação ao governo ugandês para poder voltar ao seu país. A sua identidade ficou ancorada no passado pelo peso das lembranças, e o tempo da sua vida quotidiana ficou parado pela esperança do regresso. De facto, o seu exílio mais trágico é o interior, aquele que vive em relação ao seu meio mais próximo. Através da atitude de Mina e a de seu pai, exemplifica-se a função positiva e negativa da memória na construção da própria identidade. Uma excessiva vinculação ao passado pode impedir viver o presente, e à vez, se esquecemos o passado não poderemos situar-nos no presente que nos toca viver.
Temas para refletir e elaborar:
Depois de ver o filme, utilizando a técnica de dinâmica de grupos do “cinema-fórum”, debater sobre os aspetos fílmicos do mesmo, o roteiro e a linguagem cinematográfica utilizada pela diretora indiana Mira Nair, os planos, os movimentos de câmara, os “travellings”, os “flashbacks”, o uso do tempo e do espaço e outros recursos fílmicos que aparecem nesta interessante obra cinematográfica. Também sobre as interpretações dos diferentes protagonistas, femininos e masculinos, as suas atitudes e a psicologia dos mesmos, as cenas mais conseguidas e o uso dos recursos fílmicos em cada momento.
Elaborar um plano de atividades didáticas ao redor deste formoso filme em que não poderiam faltar as seguintes: procurar informação em livros e na internet sobre a realizadora Mira Nair e a sua filmografia; valorizar o que o filme contém de inovador sobre o tema do racismo, tendo em conta a origem étnica e cultural dos seus protagonistas; analisar os significados da palavra indiana “masala” (mistura de especiarias picantes de diferentes cores) em relação aos valores que o filme transmite; identificar as diversas atitudes das personagens a respeito da aceitação ou não das diferenças raciais e culturais; compreender os valores e atitudes das duas famílias, a de Mina e a de Demetrius, a partir das reações que têm diante do relacionamento sentimental dos seus filhos e avaliar as diferenças entre Mina e os seus pais em relação ao tipo de vida da nova sociedade onde moram.
A escolher por estudantes e professores, para celebrar a Semana contra o Racismo, podem elaborar-se os seguintes recursos didáticos, tomando como tema central o racismo e consultando livros, revistas, jornais e a internet: um Diário de Bordo, uma monografia que depois pode editar-se e/ou policopiar-se, uma revista e um grande mural coletivo. Se se conta com os meios oportunos, também se podia realizar um documentário. Nos mesmos não poderiam faltar textos, poemas e desenhos elaborados pelos estudantes. E também fotografias, autocolantes, etiquetas com frases alusivas, retalhos de revistas e jornais, cartazes e postais. Escolhido e elaborado o recurso didático, este teria que ser exposto no estabelecimento educativo, para ser olhado por estudantes, docentes, mães e pais e público da localidade do estabelecimento.
(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.



