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Carta aberta à Junta da Galiza

PGL – Reproduzimos a seguir a carta aberta do leitor Jorge M. de la Calle, dirigida à Junta. Escrita no Natal, recebeu quase 600 apoios no Facebook. Conforme o autor, «a intenção era denunciar a política galegófoba de Feijó» e demonstrar que a mocidade galega pode exprimir-se em várias línguas sem problemas, «mesmo que os resultados não sejam perfeitos, como o meu».

No PGL oferecemos-lhes a seguir a versão adaptada ao acordo ortográfico do português. Porém, no pé do artigo podem descarregar, em formato PDF, as versões em galego ILG-RAG, castelhano, francês e inglês.

Caros presidente, conselheiros, diretores gerais e subdiretores, secretários e subsecretários, delegados e subdelegados, técnicos e secretários gerais técnicos, e demais altos cargos, políticos e funcionários, em definitivo, membros do Governo galego, a Junta da Galiza,

Como este ano fui mui bom e não malfiz a ninguém, escrevo-lhes a minha carta pedindo-lhes os meus desejos para este ano 2010. Como considero que estão aí por obra e graça dos nossos votos, e quer lhes tenha votado quer não, devem governar para todos, espero que atendam como é devido os meus desejos e façam o mais possível por satisfazer os meus sonhos.

Explico-lhes: sou um moço galego, hispano e europeu (não estritamente por esta ordem, mas sim em idêntica proporção). Ao mesmo tempo, considero-me cidadão do mundo, aberto a todas as culturas e nações que promovam a aproximação entre os seres humanos. Sou galego porque sou filho de Rosália, Curros e Castelão, Dobarro e Vaamonde, hispano porque amo Lorca, Alberti ou Neruda, Serrat e Víctor Jara.

Europeu porque desço de Goethe, Shakespeare e Dante, Pessoa e Kavafis, e do mundo porque todas as pessoas e todos os povos somos em essência iguais, todos precisamos duns mínimos direitos para nos realizar, e suponho que ninguém deveria buscar subtrair direitos aos demais. Considero-me uma pessoa minimamente formada, com estudos superiores ainda que não se precisem para se ter uma educação nem para ser mais do que ninguém, mas tampouco para ser menos. Explico-me: com 2 licenciaturas, experiência profissional e competência suficiente para me desenvolver em qualquer uma das duas línguas cooficiais desta terra, e mais algumas estrangeiras, não tenho trabalho, e bem menos, possibilidades a curto ou meio prazo de me independizar. Como se concebe isto?

A minha situação extremamente precária é a de milhares e milhares de moços galegos e, por extensão, espanhóis, embora me centre nestes primeiros porque é para eles que governam, e a quem devem entregar os seus presentes. À mesma idade, meus pais já deixaram a casa familiar, há uns cantos mais que trabalhavam e ganhavam dinheiro, e, é evidente, já me tinham concebido. Hoje, com mais formação e mais competência, as nossas possibilidades ficam reduzidas à mínima expressão, e as nossas expectativas frustradas de raiz por culpa dum sistema económico que fomenta a exploração e a acumulação pessoal em vez do bem-estar social geral. Não lhes dá que pensar?

Refiro-me agora a outro direito fundamental, já que a língua e a cultura são o único imaterial e portanto nosso, insubstituível e irrenunciável: o de se exprimir na língua que nós quisermos. A minha língua materna, familiar e em que me expresso normalmente é o castelhano, mas considero o galego como próprio e uma mostra da riqueza do nosso património, polo que faço o possível para me comunicar-me nas duas. Falo e escrevo sem problema em qualquer uma das línguas cooficiais deste país, galego e castelhano, castelhano e galego, e mais francês, inglês e, mesmo, algo de português.

Nunca senti que o galego tirasse tempo a línguas como o inglês ou o francês. Vejo, ao contrário, que durante muito tempo se vulneraram os direitos duma porção imensa da população que não podia aprender desde pequenos na sua língua materna, nem sequer falá-la em nenhum dos âmbitos mais fundamentais da vida quotidiana. Creio que o atual debate é um debate interesseira fomentado por certos grupos de pressão com muito poder e um monte de votos, que não querem desprender-se de seus privilégios à custa de reduzir os direitos dos outros. Não entendo senão como não se podem destinar recursos à tradução de livros para galego, como não só não se fomenta, como ainda se reduz o uso do galego como língua veicular para o ensino nas mesmas condições e oportunidades que o castelhano, e como desta não se precisa, como se precisa do castelhano, para aceder à Administração pública e dar um serviço de qualidade ao 50% das pessoas que se expressam numa das duas línguas cooficiais deste país.

Tão-pouco me cabe na cabeça e me indigna que muitos dos meus representantes desprezem por sistema o galego e a cultura galega. Lembro-lhe, então, que vocês não estariam ai nem receberiam os seus abundantes salários se não fosse por obra e graça da língua. Também não entendo como podem desaparecer certos programas de televisão ou rádio comprometidos com a cultura própria, ou como se podem manipular até extremos infames a informação em prol dos interesses políticos ou quem sabe se doutro tipo de certos indivíduos e setores de opinião. Não responde ao meu direito a ter uns meios de comunicação públicos, democráticos e de qualidade.

Eu sou castelhanófono e nunca vi o galego como um problema; e como eu, penso que 90% dos que são como eu partilham a minha opinião. Creio sinceramente que só os renegados e os inadaptados, ou os que rejeitam radicalmente aprender, se opõem a que o galego progrida em competências e se normalize por fin como lhe corresponde por direito. Estão, então, a subestimar-me, num sistema que deveria premiar os que mais competência têm, e não ao revés. Querem o meu trabalho, o meu salário e as minhas oportunidades, e não vão parar até o conseguirem. Por que a eles se lhes baixa o nível de exigência e a mim se me faz cada vez mais quase impossível?

E agora, dirijo-me a vocês: peço, então, nesta minha carta a Vossas Excelências, que deixem de amolar com o tema do idioma, e que se cuide do que verdadeiramente interessa:

De darem uma educação de qualidade, em que o inglês não seja uma estratégia publicitaria, em que o bi-, tri e até quatrilingüismo sejam uma realidade e em que se destinem fundos suficientes aos professores para desenvolver o seu trabalho com solvência e comodidade, e assim haja inglês, galego, chinês ou a língua que for.

De oferecerem meios de comunicação social verdadeiramente públicos e de qualidade imparciais e democráticos, que escutem as demandas da cidadania, e não a linha editorial duns quantos grupos de pressão, com um pensamento único.

Também queremos um trabalho digno, estável e apropriado para me manter e para manter num futuro não mui distante uma família. Eu quero um desenvolvimento sustentável do nosso território e da nossa sociedade, uma saúde e educação públicas e de qualidade, umas infraestruturas e comunicação boas e adaptadas à nossa geografia e economia, umas pensões e uns serviços dignos para os nossos idosos, e a mesma dignidade para os moços, uma habitação e um emprego não ostentosos mas suficientes para viver. Todos estes direitos são consignados na Constituição que tanto dizem defender e de que tanto presumem. Porque não posso exercê-los?

Peço-lhes também que comecem a trabalhar para satisfazer estes direitos básicos, e peço-lhes também que não criem mais confusão e mais problemas dos que já temos. Serão capazes de concordar-se e fazê-lo? Eu deixo-lhes anis, “licor café” ou a substância espirituosa que preferirem para aturar o frio desta longa noite. Mas não me moldo com uma outra bala ou só com o sonho destes quatro anos seguintes, há muito que deixei de acreditar nos Reis Magos, na magia, e ademais sou republicano. Portanto se não se esforçarem por cumprir, reservo-me o direito de ser eu o que lhes traga carvão, não só na noite eleitoral, mas em todos os dias que restam até ao fim da legislatura.

Saudações, atenciosamente,

Jorge M. de la Calle

 

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