Por Adela Figueroa Panisse
Excelentíssimo Sr.,
Com assombro escutei a entrevista que o jornalista Iñaki Gabilondo lhe fez na estreia do seu novo programa “Hoy” na cadeia CNN+, no dia 8 de Fevereiro 2010.
Escutei-lhe coisas interessantes entre as que assinalo a sua visão critica perante a atual lei eleitoral do Reino da Espanha. Disse V. Exa. que as listas fechadas não refletem a verdadeira opinião do povo face aos seus representantes. Não se mostram verdadeiramente democráticas. Explicou-o bem e fundamentou corretamente o seu julgamento. Concordo nisso com V. Exa.
Também indicou que o Estado das Autonomias foi um cozinhado “ad hoc” que salvou, há trinta anos a situação, complicada na altura, em que a restituição das liberdades e direitos democráticos tinha que ser conjugada com as forças vivas, ainda Franquistas (Forças armadas, sectores ultraconservadores etc). Explicou que estas temiam a decomposição da Espanha e não concordavam em respeitar os direitos das Nacionalidades Históricas que tinham sido adquiridos na Segunda República.
Aquele Estado de direito chumbado pelas forças fascistas comandadas pelo General Franco na Guerra de 36. Pelo que se desenhou a fórmula de (cito palavras textuais) “café para todos”, construindo o Estado das 17 Autonomias maioritariamente “inventadas”. Continuo a concordar nisso. O meu “espanto” veio pela sua citação das únicas com direitos adquiridos: Catalunha e Euskadi. Essas foram, segundo o seu parecer, as Nacionalidades Históricas reconhecidas a que havia que dar satisfação nos seus direitos.
E então a Galiza? Que é o que acontece com ela? Foi esquecimento involuntário ou consciente?
Conhecendo a sua trajectória política, não posso acreditar num despiste. Não. V. Exa. vem cá passar férias, concretamente a são Vicente do Mar, na urbanização de Pedras Negras, onde foi construída uma doca (peirão) especialmente para dar facilidade aos barcos de recreio como o que o Sr. tem e que lá abeira pelo mês de Agosto.
O Sr. tem provado as frias águas da ria de Ponte Vedra, junto com o bom vinho alvarinho das Rias Baixas e o bom marisco dessas águas. Tem-se deliciado da formosura da paisagem das Rias, das ilhas de Ons e de Oncela que a fecham protegendo os barcos; da longa e espetacular Praia da Lançada, da Enseada d’ Ogrove e a Toja e da monumental Cambados. Não pode dizer que não sabe nada da Galiza nem da sua história, antiga e recente. Ou é que o Sr apenas vai lá para lhe dar gosto aos sentidos mais prosaicos e ignora a cultura do País que lhos satisfaz?
É lástima ver incultura na pobre gente que não teve opção a outra coisa. Mas é grave na gente que teve oportunidades para ser culta e as despreza e, ainda, é-o mais quando esses elementos são responsáveis pela marcha política do País em que vivem. V. Exa. recebe um bom ordenado, gerado, em boa parte, de gente da Galiza como eu. Não pode ser um homem inculto e ignorar que o Estatuto da Galiza fora aprovado pelo povo galego em Junho 1936. Obteve a autonomia, junto com a Catalunha e Euskadi pelo artigo 151 em reconhecimento dos direitos adquiridos na 2ª República em que também foi incluída a Andaluzia.
Informações tomadas da Wikipédia, que lhe traslado, dizem assim:
O Estatuto de Autonomia da Galiza (singelamente Estatuto da Galiza), é a norma institucional básica da Galiza. No quadro da Constituição espanhola de 1978, o Estatuto da Galiza, reconhece a esta comunidade autônoma sua condição de nacionalidade histórica. Diz que os poderes nos quais se baseia são o próprio Estatuto, a Constituição e o povo galego. Estabelece um quadro democrático de solidariedade entre todos quantos integram o povo galego. Teve seu precedente no Estatuto de Autonomia da Galiza de 1936, aprovado em 28 de Junho de 1936 por maioria em referendo.
Como cidadã espanhola, que pago os meus impostos, e que respeito as leis gerais deste Estado, muito lhe agradeceria que me respeitasse como Galega documentando-se acerca da nossa história mais recente como julgo que é a sua obrigação de servidor público.
Atentamente,
Adela Figueroa Panisse
