Por Adela Figueroa Panisse (*)
No Estatuto da Galiza, recolhe-se, no Titulo II “das Competências da Galiza”, capítulo 1º (“Competências em geral”) ponto 8 :
Será competência:
8. Vias-férreas e estradas não incorporadas à rede do Estado, com itinerários que se desenvolvam integralmente no território da Comunidade Autónoma, e, nos mesmos termos, o transporte efetuado por estes meios ou por meio de cabos eletrificados.
Foi, apenas, no governo do bipartido, que se fez uma tímida intenção de corrigir esta “eiva”, com a criação, apenas no papel, do Ente Ferroviário Galego, uma figura sem qualquer dotação económica e que, sem antes ter desenvolvido o ponto 8 do estatuto, acima citado, não tinha qualquer esperança de ser realizado, pois esse seria o requisito indispensável para termos reconhecida a competência em matéria de comboios suburbanos.
A oportunidade de que o nosso país estivesse integrado por uma linha férrea “Os Caminhos de Ferro Galegos” foi sendo adiada e esquecida por todos: Governantes e cidadãos que, fascinados pelos seus carros, cada vez mais velozes, se foram lançando numa corrida perigosa para adiante, provocada por um urbanismo especulativo que derivou na borbulha que hoje conhecemos.
Temos agora uma série de consequências de impacto ambiental e social, resultado da falha da planificação global do Território:
- Dependência cada vez maior do petróleo que não produzimos;
- Fragmentação irreversível do território com mudanças nos cursos de água e na estrutura produtiva do meio e fragmentação de habitats que levam à descida e debilitação da biodiversidade;
- Esquecimento daquelas pessoas que não conduzem ou não têm carro;
- Desintegração da Galiza em nacos isolados entre si, ligados apenas por estradas do ponto inicial ao final;
- Despesas milionárias para reparação de tantas vias asfaltadas;
- Alto contributo para a poluição atmosférica como consequência das emissões difusas devidas ao transporte por estrada e à construção das mesmas. Manuel Soto Castiñeiras demonstra, num recente artigo, como a pegada ecológica da Galiza é superior à média da Espanha e uma das mais altas da Europa, (6ha/pessoa) devido às emissões do transporte e das térmicas.
Perante a emissão de gases com efeito de estufa, a estrada é a responsável por 88,2% destas emissões, enquanto o caminho-de-ferro o é por 3%. A energia consumida pelo transporte na Espanha representa mais de 40% do total, sendo esta a principal responsável pela emissão poluente e do efeito de estufa na atmosfera, ou seja, da alteração climática que já estamos a padecer.
O caminho-de-ferro já estava cá. Existe uma rede que já em seu dia fizera uma ocupação do território e uma rotura do mesmo. Mas esse tracejado não é aproveitado para ser eletrificado e modernizado. Na Galiza, o País alagado baixo mil barragens para produzir eletricidade que viaja para outros lugares!! Defendemos o caminho-de-ferro como o médio de transporte mais barato ecológico e seguro, num momento transcendental de crise económica, energética e social.
Lugo é a capital galega mais abandonada pelo caminho-de-ferro. Reclamamos uma linha Lugo-Santiago que ligue a capital da província com o aeroporto, e uma linha que a ligue também com a Marinha Cantábrica, a zona mais desenvolvida da província.
Esta linha deveria comunicar Lugo com um comboio que, de Ferrol até Irum, nos pusesse em contacto com a fronteira francesa e, através da linha Lugo-Santiago nos comunicássemos com a de Portugal e com Vigo, a vila mais vital da Galiza.
Uns transportes racionais e integradores do território têm de contemplar o caminho-de-ferro no moderno conceito da intermodalidade, que é recomendada na Estratégia Europeia pela Mobilidade Sustentável.
Nesse planeamento o AVE não é imprescindível. Bastariam comboios de velocidade alta, que pudessem alcançar os 200 km/h e que aproveitassem os antigos tracejados modernizando as vias. Isso seria mais barato que o atual dispêndio em dinheiro, ambiente e emissões de CO2 que estão a provocar as obras do AVE que se sobrepõe ao tradicional, e as auto-estradas mal planificadas.
Um serviço que unisse Ourense e Lugo de maneira eficaz, depois que a linha está já feita, ou Lugo-Monforte, vilas entre as quais se deslocam cada dia milhares de pessoas que só o podem fazer eficazmente pela estrada, seria de utilidade pública, libertando as cidades e as estradas dos numerosos carros que as invadem e a atmosfera das suas emissões. Não esqueçamos nesta proposta o perigo ligado às estradas que matam cada ano mais de 200 pessoas apenas na Espanha e também todas as que não podem guiar um automóvel por si próprias.
O Transporte Colectivo deve ser visado como um serviço público, igual que o ensino ou a sanidade, e deve estar contemplado na intermodalidade em que autocarros e comboios fiquem ligados por linhas racionais. Isto porque se gera riqueza onde exista facilidade de transporte tanto de pessoas como de mercadorias, para além do seu contributo para a redução dos gases do efeito de estufa.
Optar pelos caminhos-de-ferro suburbanos e de médias distâncias é a única maneira eficaz de lutar contra a alteração climática, visto que os humanos não deixamos de nos deslocar e que as fábricas não param.
Os portos da Galiza, os melhores da península, não têm qualquer hipótese de competir com outros mais adaptados à intermodalidade, que combinam caminho-de-ferro com serviço portuário, tal como acontece na recentemente aberta autoestrada do Mar para o porto “El Mosel” de Gijom com Nantes, e que teria que ter vindo para Vigo se esta cidade tivesse uma oferta boa em transporte intermodal.
Não devemos consentir o desarranjo das vias tradicionais que dão vida aos pequenos povos e aldeias que caracterizam esta nossa peculiar maneira de nos espalhar pelo ambiente. Os caminhos-de-ferro consomem 30 vezes menos energia que a estrada, mas emitem 313 vezes menos CO2 que esta.
Estas linhas estão hoje ameaçadas e vão ser eliminadas de jeito sorrateiro como se vê na linha Corunha-Vigo ou se suspeita no que atingem as já agora pobres de Ourense e Lugo.
Só a defesa corajosa da “Plataforma Salva o Trem do Povo” tem impedido que as vias antigas à altura de Portas e Catoira fossem levantadas enfrentando a corpo limpo as máquinas que , pela noite e pela calada iam fazer o trabalho.
Apoiamos o “Trem do Povo” como um direito solidário para nós e para o Planeta que está a reclamarmo-nos respeito e sensatez.

Consumo e produção de energia na Espanha no
horizonte de 2008 (tirado de La Voz de Galicia)
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Madrid não poderia subsistir sem o contributo energético galego, embora as linhas dos comboios na Galiza mal começam agora a eletrificar-se. Para a Galiza enviam as máquinas antigas que se desbotam na Espanha.

Viaduto do AVE no Eixo, grave impacto ambiental

Mapa das linhas do caminho-de-ferro na Galiza
(tomado do livro El Ferrocarril en Galicia, de Xose Carlos Fernández)
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(*) Conferência apresentada nas XI Jornadas Estatais dos Caminhos-de-ferro em Redondela 5, 6 e 7 de novembro de 2010
