Por Adela Figueroa Panisse
Temos nestes momentos um conjunto de factos alarmantes que, coincidindo no tempo, têm, em aparência, uma solução lógica. Mas, para quem tem lido romances de mistério desde pequena, para quem gosta de perguntar-se para além do simplesmente aparente, estes factos despertam a nossa inquietação. Pelo menos a mim sim me despertam curiosidade.
Reparemos:
O grupo Sargadelos que, para além de ter sido uma das empresas mais saneadas da Galiza, empregava uma boa parte dos seus ganhos em desvendar a memória dos vencidos na Guerra Incivil que ganhou o fascismo em Espanha, foi-lhe arrebatada ao seu fundador Isaac Diaz Pardo. Calou-se a voz dos oprimidos, morreu a esperança de restaurar a sua dignidade. Voltam-se, de novo, invisíveis os que alastraram a vergonha de terem ideais e por isso foram culpados.
Fecha A nossa Terra: O único semanário inteiramente em Galego, que tanto trabalhinho deu para ser restabelecido, que consumiu esforços sem conto de gentes desinteressadas para trazê-lo à atualidade desde a noite dos tempos da ditadura, fecha. Ao que parece por causa de uma má administração que conduz a impressa à falência.
Fecha Vieiros, ainda que possam encontrar uma edição menor na internet, (open.vieiros) já não é uma empresa dando benefícios. Pelo que tenho ouvido também um erro de administração…
A TV, CNN+ é comprada pelo grupo de Berlusconi, uma pessoa que é capaz de fazer leis ao seu gosto e medida, que consegue safar da justiça, não por ser moral mas por saber encontrar ou fabricar os buraquinhos legais entre os que escoar. Cala a voz de Iñaqui Gabilondo e é substituída por um contínuo desse cultivo da incultura em que se vão convertendo tantas televisões: Telelixo. Neste caso pelo nojento Grande Hermano que dá gosto aos strippers mentais e pobres de espírito cultivados entre imundície televisiva fácil para ser engolida.
“Que mundo tão parvo que para ser escravo é preciso estudar!”
“Parva que eu sou!” E mesmo o serei? E não vejo uma fotografia de Rajoy num barco de um mafioso traficante de drogas e não se passa nada? E não vejo ninguém da trama Gurtel no banco dos réus, exceto o juiz que os pretendia julgar? E não vemos serem acusados os implicados como Crespo, único responsável da Special Events, empresa que organizava todos os atos do PP e que partilhou staff político com Feijoo durante o último mandato de Fraga. Feijoo também está implicado neste caso de corrução, mas ninguém o vê ou não quer vê-lo.
Ardem 500 hectares em Ourense por desídia da administração da Junta da Galiza, e não o vemos?
Parva que eu sou! Para aqueles que pertencem a “uma geração sem remuneração”é obsceno contemplar como se vai fechando o muro da diversidade e do intercâmbio de opiniões que poderia gerar novas oportunidades de vida. Como o mundo da liberdade de expressão vai sendo esganado entre as gaçoupas do capital.
E será isto tudo uma casualidade? E vai ser, apenas, uma coincidência no tempo e no espaço que fechem os meios de livre expressão ou destituam diretores de jornais atrevidos por publicar uma fotografia comprometida do Rajoy? É tudo por causa de má administração ou há algo mais que empurra esta onda de destruição do pensamento livre e alternativo?
Para manter a livre circulação das ideias que é garante da democracia (mesmo esta “tão parva”), bastará, apenas, com os novos meios como as redes geradas na internet? Continuaremos a ignorar que o colaborador mas importante de WIki Leaks Bradley Manning, está a ser torturado preso, condenado a 52 anos?
Continuaremos a não ver, seguindo a política da avestruz, até que o mundo se caia acima nossa? Ou daremos reagido a tempo?
Transcrevo aqui a letra da canção da cantora Deolinda que parece ser o hino da juventude portuguesa. Se não o é deveria sê-lo… Da portuguesa da Galega ou da Espanhola por que penso é preciso reagir. “Que esta situação dura tempo demais”
Parva que eu sou
Sou da geração sem remuneração
E não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
Já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração “casinha dos pais”,
Se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou!
Filhos, marido, estou sempre a adiar
E ainda me falta o carro pagar,
Que parva que eu sou!
E fico a pensar que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração “vou queixar-me pra quê?”
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração “eu já não posso mais!”
Que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar.
