PGL – Aurora Tasende cresceu na cidade da Corunha vindo da Laracha, o professor Gil Hernández foi uma influência importante, é partidária de atividades de educação social para promover o reintegracionismo e gosta do mundo árabe.
Por causa de os teus pais terem emigrado, já em menina, a tua avó cuidou de ti desde o três anos, na Corunha. Segundo nos contas, ela mostrava a sua autenticidade só quando se expressava em galego. Essa época foi sentida como uma fratura?
Sim, a minha infância decorreu vinculada à geração da avó. Isto unido ao fato de ter vivido até os três anos em Soandres, paróquia do concelho da Laracha, forneceu-me um profundo conhecimento da cultura rural galega e constituiu a minha primeira identidade. A mudança do campo para a cidade da Corunha dos três anos em diante aconteceu com a vivência duma rutura idiomática traumática e a das relações sociais espontâneas. Falar galego com normalidade na Corunha era um motivo de diferenciação e de exclusão social do grupo onde uma menina se pretendesse incluir: na escola, na rua, no grupo de iguais,etc.
Este contraste entre o que conhecia da forma de vida rural, tão interativa, integradora e comunicativa desde a oralidade em galego, e o experimentado na cidade, o distanciamento e a exclusão por parte do resto das pessoas ao me identificar como falante doutra língua, foi a minha primeira fratura emocional e o que anos depois, já na adolescência, me levaria a empatizar e desejar comprometer-me com movimentos de defesa da língua própria.
Quando descobriste que o galego era mais do que te ensinava a escola? Lembras os teus debates internos e externos?
Sempre achei a realidade linguística da escola uma incongruência. A mais comprometida e progressista era a que ministrava língua galega. A mensagem que interpretava era a de que havia que estar autorizada/o (ser o professor/a) ou ter um motivo de força maior que o justificasse (estar numa aula de galego) para falar galego. Como língua espontânea não tinha razão de ser. Internamente sabia que o galego era mais do que me ensinava a escola porque a minha própria experiência demonstrava-me que graças á interação cuidadora dumas pessoas predecessoras galegofalantes eu existia. Assim que a escola não refletia a realidade. Era um trâmite que havia que passar por imposição legal.
Seguiste várias vias de formação linguística. Fala-nos delas…
A primeira motivação foi a de conhecer textos escritos da literatura galega, depois de ter recebido aulas no liceu, o que faço de uma maneira autodidata.
O conflito da norma linguística correta surde-me anos mais tarde, ao receber aulas de língua castelhana veiculizadas em português. Depois de ter passado a cadeira e a seletividade decidim-me a discutir dialéticamente com o meu antigo professor de língua castelhana exprimida em português, Gil Hernández, por que dizia que o que ele empregava era galego. Assim nasceu a minha primeira atitude ativa no conflito linguístico a respeito da norma que deveria ser para a língua galega. Desde esse momento tivem a necessidade de aprofundar no conhecimento da língua portuguesa para verificar quanto representava na escrita o que na Galiza falávamos. Procurei aulas particulares de português para ter um mínimo e rápido conhecimento inicial.
Anos depois decidim continuar a descobrir uma língua em que me vejo refletida, estudei e desfrutei de três anos de português na escola de línguas. Também tirei o diploma elementar de língua portuguesa DEPLE no instituto Camões de Vigo, (aproveitando a oportunidade que oferecem de obtê-lo com um só exame).
Aurora é, quanto a formação, engenheira técnica florestal mas o presente ano vai trabalhar numa ANPA corunhesa a organizar atividades extra-escolares. Uma mudança importante.
A minha formação e vocação está vinculada ao setor primário. Tive a sorte de poder trabalhar como engenheira técnica florestal durante anos anteriores.
Atualmente devido a que as listas de substituição da Junta de Galiza estão paralisadas (não estão a chamar ninguém) e a que também não se convocam concursos, estou a trabalhar na atenção a pessoas. Isto também me motiva porque o trabalho social, dirigido a distintos coletivos, é algo que sempre realizei duma maneira voluntária.
Que linhas deve seguir a estratégia reintegracionista para avançar em direção à hegemonia social? Que se está a fazer bem? Que é melhorável?
Deveríamos fazer chegar a oportunidade de descobrir a língua portuguesa à sociedade galega ofertando atividades que façam entrar em contato com ela de diferentes maneiras: académicas, lúdicas, formais, informais, etc. Isto poderia provocar que as pessoas se identificassem e que se lhe desse prioridade a que o importante é comunicar-se num sistema linguístico semelhante, o galego-português. O importante é esse sentimento de pertença. Os convencionalismos com que se decide representar por escrito o que se fala são acordos mudáveis. Isto ajudaria-nos a superar uma das eivas que vejo ao reintegracionismo que é a sua divisão e à dispersão da sua força.
Outra estratégia a seguir é a de ofertar serviços que respondam ás necessidades da comunidade de pessoas já reintegracionistas: de encontro entre nós através de atividades formativas e/ou lúdicas (clubes de leitura em língua galego-portuguesa, por exemplo); de criação de emprego relacionado; de troca de experiências e informações úteis, etc. Em resumo: ter uma dinâmica que responda às necessidades existenciais das pessoas que já tenhem uma consciência lusista.
Que levou a demorar a te associares e porque deste finalmente o passo?
Não me associei antes pola divisão existente dentro do reintegracionismo entre a norma AGAL e a de português-padrão. Não quero contribuir a promover socialmente como unicamente válida uma e a excluir e marginalizar a outra. Preferi esperar a que as posições ideológicas se aproximassem, que é a linha de maturidade evolutiva que considerava mais natural.
Finalmente dei este passo agora por duas razões: porque as atividades que se estão a organizar na AGAL coincidem com a dinâmica de educação social que creio que é o que temos que fazer, respondendo às necessidades da comunidade galegofalante, e dando a conhecer uma visão ampla, a que nos dá a nossa pertença à Lusofonia.
A outra razão é porque analisando a realidade sociolinguística da Corunha, cidade onde moro, o panorama é desolador. Acho que associando-me, pior do que é não vai ser e melhor é possível que seja.
Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?
Gostaria que fosse a duma sociedade que se comunicasse normalmente e com desinibição na sua própria língua em todos os âmbitos. Onde se pudesse aprender e reforçar a forma correta da fala e da escrita em cada interação social. Na qual falar galego não fosse um motivo de exclusão, discriminação, surpresa, indicativo de ter qualquer problema ou de ser a “exceção” do grupo. Na Galiza de 2020 não seria necessário agrupar-se num coletivo específico de defesa da língua para se comunicar na língua própria do nosso território porque a língua estaria naturalmente em todas as partes.
Conhecendo Aurora Tasende
Um sítio web: www.sosracismo.pt
Um invento: a pílula anticoncepcional.
Uma música: “Mornas α Coladeras” de Cesárea Évora.
Um livro: “A vilela de Midaq” de Naguib Mahfouz (ed. Caminho).
Um facto histórico: O fim da Idade Média, por coincidir com o fim do esplendor da língua galega e com o começo da sua decadência.
Um prato na mesa: Grelos, em todas as suas formas.
Um desporto: a caminhada.
Um filme: A batalha de Argel.
Uma maravilha: as fragas do Eume.
Além de galego/a: árabe.

