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As utopias educativas de maio do 68, segundo o filme “Jonás que terá 25 anos no ano 2000”

José Paz Rodrigues (*) – A crise social, económica e cultural que na atualidade está a sofrer o mundo, especialmente em Ocidente, obriga-nos a refletir sobre aquilo que tivemos que ter feito de maneira equivocada a respeito da educação e formação que ministramos aos nossos filhos e estudantes desde a década dos anos sessenta.

É muito difícil explicar porque se chegou a esta situação, em que a nossa sociedade e os nossos cidadãos perderam todos os valores humanos positivos. Os valores éticos, os valores solidários, os valores da solidariedade e irmandade entre todos, os valores da alegria, da generosidade, da bondade, do altruísmo, da amizade, da honra, de manter a palavra dada, da retitude, da paz, da ajuda aos que mais o necessitam, os valores democráticos… Infelizmente na nossa sociedade têm entrado de forma maçadora os contravalores: o egoísmo, a insolidariedade, a falta de ética, a inveja, a violência física e verbal, o querer ter mais que os demais, a infelicidade e tristeza e o não saber desfrutar da vida de maneira harmónica. Cada dia aparecem mais pessoas, empresas e instituições que roubam com descaramento. É muito difícil encontrar alguém ou alguma entidade que não se aproprie do que não é seu e que é dos demais, como uma corrida sem controlo.

A nefasta ânsia de acumular dinheiro de maneira desmedida levou-nos a uma sociedade em que só se valora o ter e não o ser. Todos os conflitos económicos e sociais que temos diariamente nos últimos tempos, foram provocados por aqueles que mais têm. Os que não estão contentes e querem mais, sem saber desfrutar do que têm, e fazendo infelizes muitos cidadãos, nomeadamente os que têm pouco ou não têm nada. Perante tal panorama, uma pessoa interroga-se, sem encontrar muitas respostas, em que falhou a educação que durante décadas desenvolvemos nos lares, nas escolas infantis, primárias, secundárias e universidades, e mesmo através dos meios de comunicação, para encontrar-nos agora com tantos cidadãos em que brilham pela sua ausência os valores positivos. Formamos realmente em valores em aulas e escolas, durante estas últimas décadas? Preocupámo-nos de verdade por formar pessoas com retitude de consciência e valores éticos? Ou reduzimos em grande parte o nosso ensino a transmitir conhecimentos sem tom nem som, comprovados depois pelos funestos exames, tão estendidos a todos os níveis, que consideram que os estudantes são papagaios e não seres humanos com as suas virtudes e as suas limitações? Realmente, o que é que fizemos a nível educativo para chegar a esta horrível situação, com uma crise tão profunda em todos os âmbitos? Onde ficaram aqueles valores, aquelas esperanças, aqueles desejos de alcançar uma sociedade mais justa, que tinham os jovens do famoso maio do ano 1968, com as suas utopias sociais e pedagógicas? Têm tanto poder o asqueroso capital com as suas máfias, das armas, das drogas, dos medicamentos, do tráfico de pessoas, das tabaqueiras, do petróleo, da banca, das empresas sem escrúpulos, como para chegar a conseguir uma sociedade, a atual, com tanta ausência de valores, e com tanta ânsia de acumular riquezas e dinheiro, sem importar como e a quem prejudique? Serão capazes os movimentos de base e a sociedade civil de dar um giro de 180 graus a esta triste situação em que nos encontramos? Que é o que temos de fazer para consegui-lo, quais alternativas, quais caminhos a andar, quais modelos planear? Existe realmente alguma saída à atual situação da nossa sociedade tão em crise? Podemos ter esperanças?

Esperanças e entusiasmo eram o que tinham os protagonistas do filme que escolhi desta vez para o meu comentário, dentro da série de As Aulas no Cinema. Realizado em 1976 pelo diretor suíço Alain Tanner, sob o título de Jonás que terá 25 anos no ano 2000, o rapaz protagonista teria hoje 38 anos, a ponto de fazer os 39, sem saber o que agora teria pensado sobre a sociedade e o mundo em que vivemos neste preciso momento.

 

Ficha técnica do filme:

Título original: Jonas qui aura 25 ans en l´an 2000 (Jonás que terá 25 anos no ano 2000).

Diretor: Alain Tanner (Suíça-França, 1976, 115 min., a cores).

Roteiro: John Berger e A. Tanner. Música: Jean-Marie Sénia. Fotografia: Renato Berta.

Montagem: Marc Blavet e Brigitte Sousselie. Produtores: Yves Gasser e Yves Peyrot.

Atores: Jean-Luc Bideau (Max Stigny), Myriam Boyer (Mathilde), Jacques Denis (Marco), Roger Jendly (Marcel), Dominique Labourier (Marguerite), Myriam Mézières (Madeleine), Miou-Miou (Marie), Rufus (Mathieu).

Argumento: As manifestações revolucionárias de 1968 sacodem a Europa e conduzem o mundo a significativas transformações sociais. Um grupo de oito pessoas, entre seus 20 e 30 anos, acredita que finalmente o idealismo dos protestos da sua geração vai trazer bons frutos, bastando que a chama não se apague. Uma dessas pessoas tem um filho, Jonás, que terá 25 anos no ano 2000. O filme, escrito por Alain Tanner, em parceria com o crítico de arte John Berger, tornou-se um clássico do idealismo e da esperança num futuro utópico, mas melhor. Uma cornucópia de utopias.

O professor de liceu Marco, que cortava uma longa salsicha com um cutelo na aula para explicar melhor aos alunos os períodos da História, apaixona-se por Marie, a caixa de um supermercado que registava menos compras aos reformados e acabou por ser despedida. Max, o sindicalista revisor de textos que se desiludiu com os jornais, encanta-se por Madeleine, secretária de uma multinacional deslumbrada pelo sexo tântrico e demais orientalismos. Mathieu, o operário desempregado que vai trabalhar no campo, é acompanhado pela mulher Mathilde, a mãe de Jonás. Todos se juntam na quinta de Marcel, um agricultor com preocupações sobre as baleias, casado com Dominique, que faz amor com os imigrantes para eles se não sentirem tão desprotegidos. Na ressaca do Maio de 68, a mesa campesina das refeições é o espaço onde se critica o projeto de transformar aqueles campos férteis num complexo imobiliário ou se ensaia a contestação ao ensino oficial (os miúdos passam a ter aulas com Mathieu numa estufa que vai sendo colorida).

Eis, pois, um filme de interrogações, em consonância com a época em que foi criado – tempo do medo nuclear, de novas preocupações ecologistas, da busca de vias alternativas, mas com uma nostalgia desencantada relativamente à década anterior, em que se julgava ser tudo possível, e uma melancolia amargurada de já não se acreditar em melhores amanhãs. Naquele grupo chocavam-se filosofias de vida, frustrações individuais, certas fantasias. Mas, se revirmos Jonas (e sorrirmos com as ingenuidades que o tempo terá sublinhado), a questão que se coloca é simples: que utopias pode agora perseguir esse Jonás, que já terá feito 38 anos? Talvez esteja na altura de ir ver um outro filme de Tanner. Política, questionamentos e muitas dúvidas são os elementos básicos que envolvem os oito personagens do filme.

 

 

Refletir sobre a escola e o ensino na sociedade atual:

O diretor Alain Tanner é um dos fundadores do “Groupe Cinque”, que reuniu jovens cineastas suíços no início dos anos 60, influenciados pela Nouvelle Vague francesa. Realizador de vários filmes consagrados pela crítica, em 1976 ele realizou “Jonás” revelando a expectativa de uma geração desiludida com o seu passado e que não sabia o que esperar de um novo século que se aproximava. Política, questionamentos e muitas dúvidas são os elementos básicos das oito personagens deste filme que foi eleito um dos melhores daquele ano. Saído do ventre da “baleia história”, segundo a canção, Jonás era como o último rebento da utopia de maio de 68. Esta obra-prima do cineasta suíço, fazia-se assim uma espécie de correlato cinematográfico do romance de Cortázar “O Livro de Manuel”.

A personagem que melhor traduzia o espírito do filme de 1976 era Max, um jornalista que, desiludido com os rumos tomados pela revolução estudantil de 68, dizia já não acreditar na política, mas continuava aferrado à ideia de que era preciso subverter o presente para fabricar o futuro. O fogo-fátuo de 68 estava lá. Ele era toda a beleza crepuscular daquele filme. Nos pequenos atos de resistência que uniam todos os “pais” de Jonás em torno de uma última e já improvável comunidade, eram os estertores do espírito romântico-revolucionário de 60 que vislumbrávamos.

Tanner já no 2000 realiza outra bela continuação, “Jonás e Lila, Até Amanhã”, na que não poderia deixar de fazer as mais tristes constatações. A sua primeira atitude é ouvir as reclamações de Jonás, o agora jovem personagem, tornado um estudante de cinema: “Vocês tiraram o nosso chão. Não há mais utopia, nem horizonte político”. Representado pela personagem de um velho e desiludido cineasta, Tanner é o primeiro a reconhecer: os inimigos, hoje, são bem mais difíceis de ser identificados. O que resta a fazer num mundo em que, como dizia Pessoa, a incapacidade de pensar, a amoralidade e a superexcitação reinam. Denunciar as mentiras que explodem por todo o lado: eis a resposta que Jonás ouve do velho cineasta, quando este lhe dá uma câmara digital. Com a câmara nos punhos, Jonás e os amigos poderão retomar os pequenos atos de resistência do filme de 1976.

As questões da esquerda europeia, no entanto, são outras agora. Assim a luita por uma nova educação, pela liberdade sexual e contra a expropriação capitalista cedem aqui lugar às questões dos imigrantes (“A mistura Europa-África salvará o mundo”, diz o velho cineasta a Jonás, cuja namorada, Lila, é de origem africana) e da desigualdade entre os povos. Enfim, à questão das fronteiras, já esboçada no filme anterior. Os grandes temas não existem mais. Morta a utopia, a verdade dos dous filmes de Tanner se revela na remanência das personagens perdedoras. “A verdadeira felicidade é perder tudo”, já dizia Max, no 76. Aqui, Tanner nos reafirma: a derradeira resistência é, mais do que nunca, ser um perdedor na vida, até o fim.

O filme de 1976 é uma comédia de humor e de amor, de ternura e crueldade… Também é uma comédia política, aberta à esperança. As oito personagens principais iam ter entre 50 e 60 anos no ano 2000, ano em que Jonás, que nasce ao longo do filme, terá 25 anos… Chama-se-lhes “os pequenos profetas” porque as suas profecias são pequenas e porque não estão conscientes de serem profetas no senso tradicional do termo: não anunciam nunca as suas profecias. Alguns deles nem sequer estão conscientes de que exista alguma profecia que lhes compita, simplesmente a vivem, no seu plano mais quotidiano e simples, num nível existencial e individual. Isto não significa que lhes falte generosidade ou que não sejam capazes de assumir os riscos das escolhas que fazem. Não são nem militantes, nem hippies, nem partidários da vida comunitária, são antes o que se poderia chamar gente comum e corrente. Por isto mesmo são também um pouco absurdos, como podem ser os clowns, ao qual eles respostariam, e não lhes faltaria razão, que o que é absurdo é o mundo que os rodeia.

Muitas vezes os filmes utópicos são, embora não seja o seu propósito, os mais essencialmente violentos na mensagem e nos diálogos, não só na história em si mesma, nem só porque se atreveram a desafiar o senso comum a todo o custo, é algo mais, um estilo… um modo de fazer os filmes para provocar uma reação, qualquer reação no espetador. Estamos perante um filme diferente, um filme utópico até o absurdo, mas, sem dúvida, que não tem nada de violento na utopia que propõe. Um filme doce e que, por esta razão, permanece na boca como o sabor de um alimento delicado que deixa o desejo de o degustar por mais uma vez. É fácil, muito fácil e muito agradável permitir ao sabor deste filme, ao sabor da utopia e da esperança, de que te permaneça no coração, e é também fácil compartilhar com laços pessoais o ideal de um mundo melhor.

As personagens são tão ingénuas, tão fáceis, abertas e indefensas, que é impossível não adorá-las, não sustê-las como se fossem crianças feridas, e consolá-las, contando-lhes um conto em que todos os seus sonhos se realizaram. O filme não tem uma história real, é só o conto de um grupo de pessoas que viveram “o maio do 68″ e tratam de conjugar a utopia com a realidade da vida diária. Vivem “com a cabeça na utopia e os pés na realidade”… e esperam, simplesmente, que o futuro de Jonás será melhor, que Jonás conhecerá um mundo diferente, o que eles sonham, e que tratam de manter vivo. Desta maneira todos os seus gestos assumem um significado que é algo particular só para eles: por exemplo está a caixa que paga pessoalmente para os clientes pobres e agradáveis; o professor que explica a história com a ajuda de uma salchicha; e Mathieus e Mathilde, que decidiram ter um filho na esperança desta nova sociedade que sonham. Eles e os demais estão conscientes de serem e de viverem fora da realidade, não fazem uma bandeira desse modo de viver, nem procuram prosélitos: simplesmente continuam, caladamente, silenciosamente e teimosamente a batalha para os seus sonhos, dia após dia. Personagens cujos nomes começavam todos por “M” no meio de uma época pós-maio do 68 que levou muitos dos que participaram naquela histórica revolta a vacilar na sua convicção pela realidade do conseguido. Como é que há de ser a vida 25 anos depois? Jonás terá de o ver, e agora já passámos esse momento.

É este realmente um filme para sonhadores, mas, passado o tempo, aqueles sonhos já não o são, nem se cumpriram. A realidade não é a ficção.

 

 

Temas para refletir e elaborar:

Utilizando a técnica do Cinema-fórum, as dinâmicas de grupos oportunas, os debates-papo e tertúlias, comentar entre todos os temas que aparecem no filme do diretor suíço, e também a linguagem cinematográfica que é utilizada (planos, uso do tempo, do espaço e do movimento). Também as diferentes atitudes, posturas e opiniões com que contribuem as diferentes personagens, os seus sonhos e as suas utopias.

Debater entre todos o seguinte texto, que poderia responder perfeitamente à utopia educativa apresentada no filme Jonás: “Na Escola da Ponte, as crianças decidem. Em vez de aulas, grupos de estudo. Independentemente da idade, o que as une é a vontade de estar juntas e de juntas aprenderem. Novos grupos surgem a cada projeto ou tema de estudo. Os alunos gerem, quase em total autonomia, os tempos e os espaços educativos. Escolhem o que querem estudar e com quem, por isso há dous espaços: “Tenho necessidade de ajuda em” e “Posso ajudar em”, em que as crianças escrevem pequenos anúncios à procura de ajuda para dificuldades nas suas pesquisas. …É uma escola muito engraçada, não tem salas de aula, não tem turmas divididas por faixa etária, não tem testes, não tem nada. Tem seres humanos e pessoas”.

Em grupos de alunos realizar trabalhos por equipas, seguindo o modelo de Freinet, sobre o Maio do 68, as suas propostas e utopias, os modelos educativos e o que a seguir aconteceu, até o momento atual, e a grave crise económica, política e social que nesta altura estamos a sofrer. Paralelamente poderiam organizar-se amostras de trabalhos, fotos, cartazes, livros e murais alusivos, poemas, contos, etc., elaborados pelos próprios alunos.

 

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