José Paz Rodrigues (*) – No Festival Internacional de Donóstia de 2007, a diretora iraniana Hana Makhmalbaf, com tão só 18 anos de idade, com o seu filme “Buda explodiu de vergonha”, surpreendeu agradavelmente todos. No mesmo, os protagonistas são meninos e meninas. Que, como afegãos que são, não conhecem outra realidade que a guerra e todas as maldades que esta provoca entre os seres humanos que a padecem: morte, violência, insolidariedade, pobreza, fome, injustiça e tristura.
Filme magistral que mostra claramente o que todos os educadores sabemos: que as crianças copiam o que veem os adultos fazer. Por isso é tão importante que os educadores de todos os níveis, começando polos pais e as mães, tenham uma conduta exemplar no seu relacionamento com as crianças, filhos ou alunos. Que sejam verdadeiros modelos que possam ser imitados no seu positivo comportamento. Pois as crianças aprendem muito mais do que veem fazer que do que lhes falem os adultos. Por isso também, que grande responsabilidade têm os que programam a televisão! Infelizmente com todo o tipo de programas inadequados, e de verdadeiro lixo, para serem vistos polas nossas crianças.
No filme que comento, como os protagonistas infantis vivem num ambiente bélico desde que nasceram, os seus jogos são bélicos e terríveis. E mesmo copiam tristemente o trato inumano que se dá às mulheres no mundo muçulmano fundamentalista. Até o ponto de querer lapidar com pedras a menina protagonista de seis anos. É este um filme muito adequado para celebrar a Declaração Universal dos Direitos das crianças. Que nos obriga a refletir sobre muitos temas educativos e as realidades em que moram as crianças de diferentes lugares do mundo.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Buddha collapsed out of shame (Buda explodiu de vergonha/Buda explotó por vergüenza)
Diretora: Hana Makhmalbaf (Irão-França, 2007, a cores, 81 minutos)
Atores: as crianças Nikbakht Noruz (menina Baktay), Abbas Alijome (menino Abbas), Abdolali Hoseinali (rapaz talibã) e outras crianças.
Argumento: No Afeganistão, com os escombros da estátua de Buda de Bamiyam destruída polos talibãs como cenário, Baktay, uma menina de seis ou sete anos, decide estudar. Ela quer ir à escola, com o seu amigo Abbas, “para aprender histórias divertidas”, e a sua odisseia começa com uma verdadeira luta para comprar um caderno e um lápis, que depois há de ter que defender no caminho à escola para meninas, que fica “do outro lado do rio”.
No longo caminho que a leva à escola sonhada, a rapariga passará por muitas provocações. A principal delas: fugir dos meninos que brincam ora de talibãs ora de americanos, reproduzindo e satirizando o comportamento, bélico, machista e cruel, dos adultos. Mas Baktay está determinada, de forma muito tenaz e pola sua força de espírito, ingenuidade e ternura, a conseguir o que pretende. As cenas em que vai ao mercado vender ovos são fantásticas, assim como as da sua tumultuada chegada à escola.
Análise do Filme:
Sob a estátua de Buda, destruída polos talibãs, ainda vivem milhares de famílias. A menina afegã de seis anos, Baktay, é instada a ir à escola polo filho de um vizinho seu, sendo assediada por um grupo de rapazes, reflexo da sociedade violenta que os rodeia, e que a querem lapidar, destruí-la como o Buda ou disparar sobre ela, como os americanos. O filme coloca a questão de até que ponto conseguirá a rapariga ultrapassar estes obstáculos, ir à escola e aprender o alfabeto na sua língua materna.
Belíssima a abordagem com que a diretora conta a história protagonizada por um excelente grupo de crianças que brincam, de forma por vezes cruel, às guerras, aos talibãs e aos americanos, não deixando de ser dado, de forma muito bem conseguida, o retrato da condição da mulher nas sociedades mais marcadas polo fundamentalismo islâmico. Na cidade em que se desenvolve a ação do filme houve um grande massacre e muitas crianças viram matar os pais diante dos seus olhos. A comunidade intentou ser salva primeiro polos russos, depois polos talibãs muçulmanos e agora polos americanos e seus sócios.
Tudo foi destruído e não houve tempo para reconstruir. A violência desencadeada por todos os invasores provocou um grande impacto nos habitantes e, especialmente, nas crianças. Que não são como as ocidentais, que descobrem a violência através do cinema e os telejornais, pois as afegãs ou iraquianas experimentam-na na realidade. Violência que destruiu a sua cultura, mais do que o país, como se a Cultura tivesse sido bombardeada.
Aspetos a observar:
– Comparar o entusiasmo e profunda determinação da protagonista por ir à escola e o que é triste obrigação para as crianças ocidentais privilegiadas, que moram num mundo de prosperidade material sem a mínima consciência desse facto. Quem explica às nossas crianças mimadas de agora a importância de refletir, agradecer e valorizar o que têm?
– A menina afegã quer estudar, aprender e superar-se, melhorar a sua vida e enchê-la de sentido, mas no seu mundo existem obstáculos sexistas, materiais, sociais, culturais e/ou políticos, difíceis de superar.
– O direito que têm as mulheres a receber educação, e o importante que é escolarizá-las nestes países.
– A forma como o mestre e a mestra reagem quando a menina chega às suas escolas ao ar livre. E a felicidade que mostra a rapariga quando pode sentar-se na cadeira da escola para meninas.
– Estar conscientes do importante que é ajudar as crianças de países do terceiro mundo ou em guerra.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



