Por Adela Figueroa Panisse
«Galiza é uma pedra deitada no mar, no meio do Atlântico Norte»
Assim começava Xurxo Souto o seu Programa de rádio Mil Ribeiras aos domingos ou sábados de manhã. Magnífico programa que visava colocar a Galiza no lugar que lhe correspondia no mapa.
Como o nariz da Europa, e não como aquela ‘região periférica’ em que nos localizam os espanhóis. O admirado Xurxo Souto lançava através das ondas da rádio pontes transoceânicas que cruzavam as ondas líquidas do mar mediante a cultura e a galeguidade que nunca soube de limites terrestres.
Agora, com o Programa de transportes da União Europeia, aquela localização que tão bem colocava o meu amigo Xurxo fica de primeira importância. No Livro Branco dos Transportes da Comissão Europeia definem-se as grandes linhas marítimas dotando-as de interesse preferencial. Estas linhas são chamadas de Autoestradas do Mar (Short Sea Shiping em inglês) e procuram a comunicação de Portugal e o ‘Noroeste Peninsular’, a Galiza, com o mar do Norte entre outras vias.
Faz-se imprescindível promover outras vias alternativas às estradas para garantir o intercâmbio de pessoas e mercadorias na Europa e no Mundo, sobretudo desde que se confirma a transcendência da poluição da atmosfera pelos chamados gases com efeito estufa, provocadores da mudança climatérica (aquecimento global) e que no horizonte aparece a crise do Petróleo.
Os transportes por mar mostram ser mais económicos, seguros e ecológicos que os transportes por estrada. Deveriam ir ligados à intermodalidade, ligando portos com caminhos-de-ferro, como o é na Europa além Pirinéus, e isso é uma forte eiva que apresentam os portos galegos. Sendo os melhores do Atlântico Norte, apresentam uma deficiente planificação quanto à sua comunicação com terra pela falta de previsão dos diferentes governos da Junta da Galiza. Estes dirigiram os seus investimentos para a construção de autoestradas de terra seguindo o PEIT (Plano Estratégico das Infraestruturas e Transportes da Espanha), no lugar de planificarem como galegos, pondo em valor as nossas vantagens, como o são os Portos e a nossa favorável posição no mundo.
Por diante das nossas costas passam todas as mercadorias que vão do Norte Europeu para o resto do mundo. Seria de inteligentes termos tirado proveito disso. Mas por agora só soubemos de desastres como o Prestige e outros que lhe precederam.
O Clube Financeiro de Vigo, nas suas petições ao Governo galego de Núñez Feijóo, põe esta história das autoestradas do mar em destaque (eu já lhe fiz a crítica ao seu comunicado, desde estas mesmas págs.). Para serem implementadas terão que ser demandadas pelos governos. E Haverá fortes ajudas económicas para isso. Vigo é um lugar preferente, pois já tem consolidado tráfico com diferentes portos franceses (Nantes, etc.), ingleses e dos Países Baixos. Estas linhas iriam definir as autoestradas do mar para a Galiza dentro do Programa Marco Polo II . Também Figueira da Foz e Leixões seriam portos implicados neste programa das autoestradas do Atlântico Norte.
Do ponto de vista ecológico as Autoestradas do Mar são aconselháveis, desde que a segurança marítima seja garantida. Os gases poluentes da atmosfera devidos à emissão difusa procedem sobretudo do transporte por estrada. O Caminho-de-ferro e o transporte por mar som mais seguros, económicos e ecológicos que o que se faz por estrada.
Por agora o Governo da Espanha estabeleceu um convénio com a Itália, no mês de Julho, para implementar as autoestradas do Mar Mediterrâneo. Já se está candidatando Bilbau, Xixón e Algeciras. Dependerá muito da pressão que o Governo Galego faça para pôr em andamento quanto antes, o Programa Marco Polo II que ligaria Vigo com Antuérpia, com os portos ingleses e com Nantes como é previsto pelo Livro Branco do Transporte da União Europeia. Isso iria exigir uma forte melhoria das linhas dos caminhos-de-ferro como vias para o transporte de mercadorias.
E beneficiaria à comunicação interna da Galiza como muita gente leva tempo reclamando. Questão esta necessária, se se quer fazer uma compensação intraterritorial entre a Galiza do interior (Lugo e Ourense) mais deprimida, e a Galiza costeira, muito mais rica e desenvolvida. As autoestradas do mar pode que nos tragam o caminho-de-ferro galego, longamente reclamado, ou pode que voltem ser outra mais de tantas oportunidades perdidas.
Quando um governo despreza o idioma do seu próprio país e a própria cultura, não dá muitas esperanças para que pense no seu progresso livre da dependência do seu Partido em Madrid. Espanha nunca entendeu o mar. Por isso também tem tanta dificuldade em nos compreender como País. Pena que tantos galegos se vejam a si próprios pelo espelho em que nos veem os espanhóis.
Quando aprendamos a olharmo-nos no nosso próprio espelho, estaremos em posição de planificarmos o nosso presente e futuro. As autoestradas do mar ficam incluídas nele.
