Por Adela Figueroa Panisse
Arminda andava devagar pela praia das Augas Santas. A areia tem lá uma cor entre branco e cinzento quando a maré está baixa, e dá para passear por uma superfície plana que facilita o caminhar. Se o dia não está com sol, o conjunto de areia e água têm um tom de aço.
Como era hoje em que a névoa grisalha, tão típica da zona, dominava o ambiente.
O Cantábrico estava calmo naquele dia de verão. Olhou de frente para o mar imenso, que se estendia até a linha do horizonte, deixando às suas costas os muros que bordejam a praia feitos de rocha escura, entre gris e marrom, colocada em lâminas, como folhas de livros empilhados.
Sentiu vontade de tomar banho e foi-se metendo aos pouquinhos na água. Como ela gostava: Molhou os pulsos, a cara e depois mergulhou docemente naquele mar que sempre lhe parecia querer abraçá-la. Sentiu o lentor e a doçura do mar. Tinha com ele uma relação quase mística como se pressentisse que um dia qualquer iria se fundir com o líquido salgado para formar parte do plancto marinho ou vir a ser transformada em simples molécula de água salgada. Um cheirinho a sal e iodo invadiu-a. Nadou para o longe se separando da praia e dos seus cantis. Do meio do mar olhou para os arcos de pedra que a adornam e para a falésia que a borda coroada da esplanada das terras de labor de outrora. Hoje alvo de agentes urbanizadores e de serem transformadas em lotes. Já não mais iriam produzir couves nem leitugas.
Agora as novas colheitas eram moradias de verão ocupadas apenas nos meses de julho ou agosto. E as hortas iriam ser substituídas por uma nova espécie invasora: Urbanizações e passeios marítimos de concreto.
Ainda bem que o espaço estrito da praia ia-se livrando, por agora, do assalto das imobiliárias
Os bordos do rochedo estavam cobertos de verde e flores vermelhas e amarelas. Uma planta vinda de alhures chamada por cá “unha-de-gato” (carpobrotus edulis) descia do alto da falésia. Queriam-na extirpar por ser invasora e, nessa empresa tinham-na mandado arrincar em parte, deixando a pedra ao descoberto o que fora provocando a queda de inúmeros cachotes sobre o fundo da praia.
Saiu da água e passeou pela areia. Passou o primeiro dos arcos e foi mais até o fundo entre os muros de lajes que lá se encontram. Sentia uma atração especial por aquele marco de pedra que deixava estreitos passadiços e quadrando a praia gerava um espaço mágico e misterioso. Queria conhecer todos os segredos das Augas Santas .
Julgou ajeitado o nome turístico de Praia das Catedrais como agora se conhecia, embora o encontrasse algo esquisito. Era sugestivo e acaía-lhe bem. Condizia com aquela arquitetura de arcos e colunas lavradas em rocha que a bordavam. Embora ela preferisse o velho nome das Augas Santas.
Ainda tinha a lembrança viva de ter apanhado percebes a eito nas rochas das paredes que o mar cobria em cada maré.
A maré montante subia e ia comendo a praia sem que Arminda desse por isso enquanto fazia a sua caminhada sobre a areia plana e húmida. Chegou até uma murada difícil de atravessar e quis voltar. O nevoeiro do mar avançava com a maré e sentiu frio. Um tremor percorreu o seu corpo e procurou algo para se abrigar. Tentou voltar pelos seus passos, mas foi agora que percebeu que quase não ficava caminho para chegar onde tinha deixado a sua toalha e a bolsa da praia.
Experimentou um sentimento de alarme, mas procurou a tranquilidade dentro de si. Ela sabia que com o mar o único recurso é manter a calma. Antes tinha passado por baixo dum arco de pedra, mas agora a maré o tinha fechado. As águas já não davam mais para atravessar por lá. Sentiu-se apanhar pelo mar que avançava. Resolveu tentar rodear o muro de pedra nadando e mergulhou no oceano. Uma dor forte atingiu-lhe a perna direita e tinha dificuldade em movê-la. Levantara-se uma ligeira brisa e já não estava calmo como antes quando tomara banho tão gostosamente. Fortes ondas batiam agora contra as rochas e temeu bater ela também se se deixava flutuar nelas.
Uma sensação de angustia ia dominando-a a pouco e pouco. A única possibilidade era se deixar levar, o mais passivamente possível, pelas ondas.
Nadar afastando-se das rochas sem oferecer demasiada resistência (Mas aquela perna!..). Respirou fundo e com cuidado para não tragar água mantendo-se a aboiar como podia. Já começava a sentir frio e a dor na perna direita era insuportável. Uma corrente gelada subia-lhe dos dedos das mãos e dos pés e avançava até os braços e as pernas que começava a ter dificuldade em mover. Sentiu-se desesperar e faltou-lhe o ar. Um golpe de água salgada entrou-lhe na boca e a sua vontade começou a abandoná-la. Seu corpo já não lhe obedecia. Fortes sacudidas percorriam-lhe os braços e a cabeça abanava sem qualquer tónus, indo de um lado para o outro.
Finalmente fez-se a escuridão e já não sentiu mais nada. Apenas o seu corpo a flutuar.
*****
– Pois ainda teve sorte. Foi só a perna que ficou partida. O fémur e mais a tíbia. Todavia parece uma fratura limpa. Poderemos reduzir-lha facilmente. Vai ser melhor aplicar anestesia total para garantir uma completa imobilidade em quanto colocamos os ossos corretamente. Julgas que será necessário pôr uma prótese?
– Não creio. Pelas radiografias não parece que seja necessário. Mas eu ficaria mais tranquilo depois de abrirmos e ver como é que se encontram os bordos da fratura. Depois decidimos o da prótese.
*****
Acordou num quarto desconhecido entre lençóis marcados com letras em azul: “Sanatório da Virgem do Mar”. A perna direita pesava-lhe como se dela pendurasse uma bola de chumbo. À sua beira um homem sério, com bata branca pegou-lhe no pulso. Olhou para ela e sorriu.
– Por este verão já não poderás ir à praia tomar banho. Vai ser necessário repouso absoluto para curar essa perna. E ainda tiveste muita sorte. O camião que bateu contra a tua mota pôde ter passado por cima tua.
– Diabo de motas e diabo de chuva de verão que volta às estradas tão escorregadiças! A voz da mãe ouviu-se do fundo da sala.
Ainda sob o efeito da anestesia conseguiu devolver o sorriso ao doutor que lhe tinha pegado na mão. E, ainda, o seu limitado grau de consciência dava-lhe para valorar que era um homem muito bonito. Mesmo lindo.
Iria ficar-lhe todo o mês de agosto para ler, ouvir a rádio e, se calhar, pensar naquele doutor de olhos aveludados e voz agarimosa.
O seu atribulado passeio pelas Augas Santas fora, apenas, produto do delírio da anestesia. Aquele seria o seu derradeiro banho para este verão.
