Eugénio Outeiro – Gonçalo M. Tavares é, simplesmente, um dos autores mais promissores da literatura portuguesa na atualidade. Contando apenas 40 anos, e tendo publicado o primeiro livro em 2001, chegou já ao nada desprezível número de 27 obras publicadas, o que faz uma média de três obras por ano.
Um verdadeiro portento de produção, que chega mesmo a ser assustador quando conferimos ainda a diversidade de campos e géneros tocados (o seu último livro, Viagem à Índia, é nada menos que uma epopeia moderna), mas sobretudo a qualidade que chega a atingir, nomeadamente na narrativa.
O livro de que venho a falar, Aprender a Rezar na Era da Técnica, ganhou na França o prémio a melhor livro estrangeiro do ano 2010. Pertence à tetralogia O Reino, com que o autor pretendeu “perceber o mal, como é que ele surge, em que situações se desenvolve e manifesta”. Daí a capa negra que acompanha os quatro títulos que a compõem: Um Homem: Klaus Klump (2001), A Máquina de Joseph Walser (2003), Jerusalém (2004) eAprender a Rezar na Era da Técnica (2007).
Os livros de Gonçalo M. Tavares são de facto verdadeiras jóias de pensamento. Mesmo os enredos mais simples e aparentemente fúteis e fantasiosos definem-se por um convite à filosofia. O autor, de facto, publicou também livros de ensaio e investigação como Breves Notas sobre Ciẽncia ou Breves Notas sobre o Medo (Relógio d’Água, 2006 e 2007) que destacamos por parecer-nos especialmente relacionadas com o livro que nos ocupa.
Aprender a rezar na Era da Técnica conta a história de um homem atroz, Lenz Buchmann, médico que sente um profundo desprezo pelos pacientes, como de resto pela grande maioria do mundo. A figura de um pai autoritário e militarista, que passará aos filhos os valores aprendidos na guerra, completará a personalidade de um indivíduo, Buchmann, a quem por própria natureza era difícil sentir qualquer empatia. Curiosamente será isto que faça com que atinja um desempenho excecional de um ponto de vista profissional, que o levará a ser um homem de grande reputação na sua cidade e participar da vida política também como protagonista.
A história é-nos contada sem concessões a preciosismos nem detalhes secundários, de uma maneira direta, crua e tremendamente funcional. Esta frieza confunde-se ainda com a do próprio Buchmann e com a de uma perspectiva ‘científica’, que parece assumir por vezes, e que a própria profissão médica nos insinua. Isto apesar de a história ser contada em terceira pessoa por um narrador omnisciente, que utilizará muitas vezes o discurso indirecto para nos mostrar o pensamento do personagem. É normal, de facto, o narrador entrar nessa mente quase psicopática, para poder aprofundar no seus sistema de valores.
O resultado final é uma verdadeira jóia literária, como aliás muitas outras obras do autor. Não me atreverei a dizer ‘todas’ porque quem isto escreve ainda não leu tudo, ainda que vá a caminho. E cada vez que chego à última página de um livro de Gonçalo M. Tavares e o fecho, não posso evitar ficar a olhar para o teto e lembrar as palavras de José Saramago a respeito de Jerusalém: “Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!”. E dá mesmo, entenda-se, no melhor dos sentidos.

Eugénio Outeiro (Ilha de Arousa, 1976)
Professor da EOI de Santiago de Compostela e poeta, organizou-se desde mui jovem em diferentes colectivos: Assembleia Reintegracionista Bonaval, A.N.E.L ou o MDL. Na actualidade forma parte do Conselho de AGAL.
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