Continuamos, apesar de o ter solicitado muitas vezes, de todas as formas possíveis, sem organizar no nosso país uma magna campanha de apoio ao labor dos docentes, a cargo das instituições educativas e com a ajuda pertinente de todos os meios de comunicação. Pelo contrário, nos últimos tempos, estamos a assistir a infinidade de comentários injustos, e mesmo imorais, sobre o trabalho dos professores, a cargo de pessoas que desconhecem completamente o que significa educar, por parte de alguns meios e grupos e, o que ainda é mais grave, por pessoas neoliberais que querem acabar com o ensino e a escola públicos. Muitos são, infelizmente, os pais que acreditam em tão infames comentários, no lugar de colocar-se – como tinha que ser – ao lado dos docentes no seu labor educativo com os seus filhos. Ao final os docentes (mestres e professores) parecem «moinhos de vento» luitando contra os inimigos, por um lado as famílias, e pelo outro a administração e os meios de comunicação. E todos se esqueceram das lindas palavras de Giner e Cossío «Os mestres são a verdadeira alma da escola». Mesmo alguns docentes se esqueceram disto e atiram pedras contra o seu próprio telhado. Por tudo o que afirmo, é muito urgente iniciar uma campanha que prestigie o ofício profissional docente, a qual os primeiros que a devem apoiar são, de mãos dadas e todos a uma, os próprios docentes. E, em segundo lugar, todos os pais e mães e as associações de encarregados da educação. Mais tarde, as instituições educativas, locais, provinciais, autonómicas, estatais e comunitárias.
Antigamente, coincidindo com o dia 27 de novembro, organizava-se cada ano o «Dia do/a mestre/a». Que deveríamos continuar a celebrar. Em 1994 a Unesco proclamou o dia 5 de outubro como o Dia mundial dos docentes. Gostaria reproduzir aqui, por vir muito a propósito, uma lenda sob o título de «A difícil decisão de ser mestre». Um dia dissertava um pai com o seu filho, e este, emocionado, dizia-lhe: – Pai, chegou o momento de decidir que quero ser na vida; muito pensei ao respeito, embora seja tanto o saber humano que a minha decisão voltou-se bem difícil. O pai, ao fim, sábio por experiência, perguntou ao seu rebento da seguinte maneira: – O que é o que tanto pensaste que te faz duvidar? – Olha pai, respostou seu filho, pensei em ser médico, para curar corpos ou mentes e quando ao fim aceitei, me dei conta de que muita falta faz quem ajude a administrar justiça ao débil e desprotegido, então prefiro ser advogado. Logo, sinto a necessidade de aprender o secreto da arte da construção; de tirar da pedra bruta um lar confortável para os meus semelhantes, é quando decido ser arquiteto ou engenheiro; embora seja tanto o desenvolvimento científico que prefiro ser investigador, ou químico, ou matemático, ou me decido pela contabilidade ou a administração, pela física, pelo campo, pelos animais, pelo espaço exterior…
O pai, muito atento, esboçou um sorriso e disse com esse tom que têm os pais quando amorosamente podem aconselhar os seus filhos com a sabedoria que dão os anos vividos: «Filho: doutor, advogado, arquiteto, engenheiro, contabilista, astrofísico… tudo isso podes ser; e o vais alcançar na profissão que tu não mencionaste. Para consegui-lo deverás conhecer e saber muito; a tua mente deverá converter-se num transporte da cultura universal; ainda assim, deverás pôr todo o teu empenho no trabalho a realizar no teu campo de ação. Serás um modelador de mentes; tu forjarás o médico, o astronauta, o camponês, o construtor, o comerciante, o advogado, o músico; poderás com esta profissão criar nos corações dos indivíduos os sentimentos de amor, bondade, entusiasmo, tolerância, liberdade, igualdade e fraternidade. Mas, tem muito cuidado meu filho, pois nesta profissão não podes cometer erros, já que poderias criar deformidades que se voltariam contra os seus próprios irmãos, pela geração de uma ambição desmedida, tão só satisfeita pela sensação material do poder. Hás ter por seguidores os chamados discípulos, diante deles hás de apresentar-te como figura fiel e como imagem do exemplo mesmo. Voltar-te-ás todas e cada uma das profissões existentes. Com o tempo hás ver o teu reflexo em cada uma das figuras que tu formaste; então filho, com toda a tua entrega a esta fascinante e nobre profissão, hás poder com a mente em alto, olhar o horizonte onde admirar as tuas obras, sentindo nesse instante que cumpriste com os pensamentos que hoje enredam as tuas ideias e hás de dar-te conta que com as tuas palavras e atos fizeste férteis as sementes que semeaste em terra fértil e que se converteram, ou o vão fazer depois, em grandes, fortes e frondosas árvores, que hão acudir a dar-te sombra protetora quando te encontrares prestes a cumprir com o mandato da Mãe Terra, que exige à sua descendência regressar a ela. Hás sentir que a tua passagem por esta vida não foi uma perda de tempo. Escuita bem filho meu, se aceitares esta responsabilidade tão grande sobre os teus ombros, decide-te pela profissão que levo com orgulho e que com estas palavras aprecio tanto. Converte-te em Mestre, filho meu, e hás saber então quanto tens ganho.
O filho compreendeu qual caminho devia seguir; e com o coração a bater fortemente e embargado de grande emoção aproximou-se a seu pai, Mestre de muitas gerações, e secou as lágrimas de honra que de seus olhos tinham saído. Beijou-o na fronte e decidiu finalmente em que se ia converter: um Mestre que com o seu trabalho, possa render reconhecimento ao labor dos grandes Mestres que houvesse tido. Mestres que a ele também o houvessem formado. E a tantos grandes educadores e pedagogos que houve na história mundial.
Para apoiar tudo isto resenhado, e ilustrar o depoimento presente, escolhi dous filmes que recolhem dous tipos de mestres. Um em que os discípulos reconhecem o seu labor, e outro sobre a responsabilidade que têm os docentes perante os seus discípulos, aos quais têm que dar exemplo de conduta moral e ética.
FICHA TÉCNICA DOS DOUS FILMES:
1. Título original: Der blaue Engel (O anjo azul). 
Diretor: Josef von Sternberg (Alemanha, 1930, 109 min., preto e branco).
Roteiro: Karl Zuckmayer, Karl Vollmuller e Robert Liebmann, segundo o romance de Heinrich Mann.
Fotografia: Günter Rittau e Hans Schneeberger. Produtora: UFA.
Música: Canções por Frederick Hollander, Robert Liebmann e Richard Rillo.
Nota: Pode ser visto legendado entrando em: http://cinemalivre.net/filme_o_anjo_azul_1930.php
Atores: Marlene Dietrich (Lola-Lola, uma cabereteira), Emil Jannings (Professor Immanuel Unrath), Kurt Gerron (Kiepert), Rosa Valetti (Guste), Hans Albers (Mazeppa), Reinhold Bernt (o palhaço), Charles Puffy (Wirt, diretor do Anjo Azul), Eduard von Winterstein (o diretor da escola), Carl Balhaus (Erztum, aluno), Robert Klein-Lörk (Goldstaub, aluno), Roland Varno (Lohmann, aluno), Rolf Müller (Angst, aluno), Gerhard Bienert (O policial) e Wilhelm Diegelmann (O capitão do navio).
Argumento: Adaptação cinematográfica do romance Professor Unrath de Heinrich Mann. Conta a história trágica de um autoritário professor que uma noite vai ao «Anjo azul», um cabaré de bastante não boa fama, para conseguir tirar dali os seus alunos, que acorrem ao local seduzidos pelos encantos da cantora «Lola-Lola». Porém, o professor Unrath, que com 50 anos está ainda solteiro, termina por cair nas redes da cabareteira. A partir desse momento, a sua vida vai ser uma descida aos infernos da humilhação e degradação morais. Immanuel Rath (Emil Jannings) é um severo mas respeitado professor, que vê alguns dos alunos passando cartões postais que mostram uma sensual cantora de cabaré (Marlene Dietrich) , que se apresenta no “O Anjo Azul”, um clube local. Naquela noite, pensando em pegar alguns dos seus estudantes, Rath vai para o cabaré, mas é envolvido pela selvagem atmosfera quando a sedutora Lola Lola entra em cena como uma vamp, usando meias compridas, cinta liga, salto alto, um colete e uma cartola, que cobria parcialmente seus cabelos louros. Após a apresentação, Rath descobre onde é o camarim de Lola e imediatamente se encanta com ela. Mais tarde ela canta para ele, que bebe champanhe e no dia seguinte acorda embaraçado na cama de Lola. Rapidamente veste suas roupas antiquadas e vai para a escola. Sabendo como Rath tinha passado a noite, seus alunos fazem caricaturas obscenas e desenhos maliciosos no quadro-negro. Immanuel se choca com o que vê, pois os estudantes zombam dele, e quando o diretor do colégio fica sabendo da indiscrição de Immanuel o despede. 

Rath regressa para o clube e busca a compaixão de Lola, que fica fascinada pelo seu jeito elegante e também pelo dinheiro. Lola o conforta e rapidamente o convence a se casar com ela. As núpcias não garantiram a felicidade de Rath e logo ele se torna um criado de Lola, viajando com a companhia de artistas e vendendo fotos sensuais de sua mulher para clientes. No entanto humilhações muitos piores esperam por ele.
Curiosidades deste filme:
O Anjo Azul é a primeira longa-metragem alemã completamente sonora, e é o responsável por tornar Dietrich uma estrela internacional.
O filme foi filmado simultaneamente em alemão e inglês. Porém a versão alemã é considerada
superior em qualidade, é mais longo e não marcado por atores que luitam para pronunciar o inglês corretamente.
Emil Jannings pediu a Sternberg para dirigi-lo em seu primeiro filme sonoro, embora Sternberg e
Jannings tenham se enfrentado no set de The Last Command (1928), e Sternberg jurou nunca mais trabalhar com o ator novamente. No ano seguinte, porém, ele e Jannings se reconciliaram, e a convite do Erich Pommer, chefe da UFA, eles começaram a colaborar em um filme sobre Rasputin.
Sternberg não se interessou muito pela história de Rasputin, e como alternativa, ele sugeriu a ideia de uma adaptação da história de Heinrich Mann sobre o Professor Unrat, uma sátira sobre a hipocrisia da classe média alemã. Sternberg reestruturou a história para adequá-la aos seus gostos, simplificando temas morais e enfatizando a angústia do professor. Como resultado, a segunda metade do livro não foi muito utilizada e foi criado um final inteiramente novo.
O Anjo Azul foi o 1º dos 7 filmes em que a atriz Marlene Dietrich e o diretor Josef von Sternberg trabalharam juntos.
2. Título original: Madadayo (Ainda não). 
Diretor: Akira Kurosawa (Japão, 1993, 134 min., a cores).
Roteiro: Akira Kurosawa, segundo o livro autobiográfico de Hyakken Uchida.
Produtoras: Kurosawa Production Co. Ltd., Dentsu Inc. e Tokuma Shoten.
Fotografia: Takao Saito e Masaharu Ueda. Música: Shinichiro Ikebe.
Nota: Pode ser visto entrando em: http://filmescult.com.br/madadayo-1993/
Atores: Tatsuo Matsumura, Kyoko Kagawa, Hisashi Igawa, George Tokoro, Masayuki Yui, Akira Terao e Asei Kobayashi.
Argumento: 1943. O professor Hyakken Uchida (Tatsuo Matsumura) resolve deixar de lecionar para poder se dedicar ao ofício de escritor. O professor é uma lenda viva entre alunos e ex-alunos, pelo seu espírito brincalhão e alegre, e constantemente recebe visitas de seus antigos pupilos. Ele e sua esposa (Kyôko Kogawa) alugam uma bela casa, mas logo ela é destruída em virtude dos ataques aéreos que o Japão sofre na Segunda Guerra Mundial. A partir de então eles se mudam para um barraco, onde vivia o jardineiro de uma mansão próxima. É quando seus ex-alunos, decididos a impedir que o professor continue com uma vida de miséria, decidem se unir para bancar a construção de uma nova casa para ele. Além disto, passam a comemorar anualmente o aniversário do professor, reunindo amigos dele e ex-alunos para uma grande confraternização.
Considerado um dos melhores diretores de todos os tempos, Akira Kurosawa encerra suas realizações cinematográficas com a obra-prima perfeita: Madadayo. O filme segue as duas últimas décadas da viagem de Hyakken Uchida, um escritor e professor que se aposenta nos anos da guerra, no início dos anos 40. Seus alunos o veneram e todos os anos fazem um ritual de aniversário chamado “Mahda-kai? (Está pronto?)” para que Uchida beba um grande copo de cerveja e responda “Madadayo! (Ainda não!)”, reconhecendo que a morte pode estar próxima, mas que a vida continua.
UMA BELA METÁFORA CINEMATOGRÁFICA:
Por considerá-la muito acertada, tenho a bem reproduzir vários treitos da crítica deste filme realizada pelo brasileiro Luiz Santiago. Akira Kurosawa tinha 81 anos de idade quando iniciou o processo de filmagens de Madadayo, o seu último filme. Baseado numa série de ensaios autobiográficos de Hyakken Uchida, o filme conta a história de um professor de alemão que se aposenta no início dos anos 1940 (no decorrer da Segunda Guerra Mundial), e que além de ser amado pela sua atual geração de alunos, é tido em altíssima conta e igualmente amado pelos seus alunos mais antigos (pais dessa atual geração). Com visitas regadas a bebedeiras, conversas, piadas e cânticos, o professor e seus antigos alunos festejam a aposentadoria e dão boas-vindas a uma nova fase. Não demora muito tempo para o espectador fazer uma junção de situações e compreender que Madadayo é uma bela metáfora do preparo e caminho para o final. Mas ao mesmo tempo que essa posição bastante lúgubre pontua toda a aura do filme, temos em voga uma relação muito diferente da que temos no Ocidente sobre o que é morrer. Longe de preceitos ou doutrinas de salvação da alma, expiação de pecados e afins, o velho professor de Madadayo vive como um jovem que envelheceu sem perceber, nunca perdendo o senso de humor e a vontade de viver. No início do filme ele ainda não se tinha dado conta de sua idade, tamanha a juventude de sua alma. Isso só vai ficar claro – pelo menos ao princípio – quando a primeira cerimônia do «Maadha-Kai» for realizada, estando então o professor com 60 anos.
«Junto a esses acontecimentos bastante pessoais, Kurosawa volta ao tema da guerra de maneira muito direta, assim como fizera em sua obra anterior, Rapsódia em Agosto, que eu no seu momento comentei num depoimento desta série. É interessante observarmos que em ambas as fitas temos idosos frente a alguma situação complicada e o trauma da guerra que os rodeia. O diretor já vinha a três filmes seguidos trabalhando elementos que lhe eram muito pessoais, embora com intensidades diferentes, expondo na tela alguns de seus medos e constituindo suas personagens de emoções bastante fortes. Esses sentimentos à flor da pele, no entanto, deram um tom caricato demais para certas interpretações dos atores, o que faz com que Rapsódia e Madadayo sejam mais exemplos pessoais, morais, éticos e filosóficos de Kurosawa do que exemplos estéticos, imagéticos e narrativos de sua filmografia. Não é que não exista beleza ou boa direção nesses filmes, mas a intenção do diretor está mais voltada para a exposição de seus sentimentos em relação a algumas cousas, e desse modo, o deslumbramento estético precisa dar lugar à honestidade do ancião ante o seu futuro», escreve Luiz Santiago.
No drama da guerra, o professor perde a casa em um bombardeiro aéreo e passa a morar em um casebre minúsculo, nos arredores de Tóquio. A incursão de um narrador e uma montagem bastante sóbria e sem nenhum excesso – além do timming invejável – faz a ponte entre a vida do professor aposentado e o homem vítima da guerra. Ao passo que o professor envelhece, tudo à sua volta também muda, e nesse ponto, citamos como destaque as nuances fotográficas, que além de demarcarem as estações do ano, pintam de uma tonalidade sutilmente diferente cada fase da vida do professor. Além disso, as alterações nos figurinos e na maquiagem dos alunos e do sensei também apontam para o correr do tempo. Mas a despeito de ter uma ótima ligação entre a vida pessoal e profissional do Sr. Uchida, o roteiro de Kurosawa desaponta em um episódio específico, o do desaparecimento do gato Nora. A citação pode parecer despropositada à primeira vista, mas se o leitor bem lembrar de como é logo toda a sequência e do quão pouca coisa interessante temos nela – aqui, referimo-nos a elementos realmente importantes para a história ou para definir uma certa condição psicológica para o professor -, podendo suprimir-se este treito de filme sem perder interesse. À essa altura, já sabíamos que o sensei era um senhor com coração de criança e modo de vida de um jovem bon vivant. Também já tínhamos percebido a sua relação com a esposa e o coração de ouro de seus eternos alunos. Portanto, a lenta sequência com o desaparecimento do gato se constitui uma falha narrativa que alongou demais um momento do filme que poderia ter um grande valor, mas acabou se tornando um tropeço para o bom andamento da história.
As sequências finais de Madadayo, com o 17º (e último) «Maadha-Kai», as canções de devoção dos alunos (agora, além de pais, avós) e o fim do longo caminho percorrido pelo professor, é um dos grandes e mais pessoais momentos de Kurosawa no cinema. Embora essa reta final não seja tão bem dirigida quanto a primeira parte da fita, há muito mais sentimento, carinho e nostalgia nela do que em todo o restante do filme, o que deixa a história ainda mais emocionante e metaforicamente bela, especialmente quando ele coloca a vida e a morte como uma brincadeira de criança, que foge de seus amigos em um jogo de pega-pega, dizendo repetidamente madadayo! (ainda não!). No final das contas, todo o ocorrido nessa parte da obra serviria como um prenúncio para o próprio caminho final do diretor. Após a estreia de Madadayo e sua má receção por parte da crítica, Kurosawa já trabalhava em dois roteiros, mas acabou sofrendo um acidente que lhe quebrou a base da espinha e o confinou a uma cadeira de rodas. O diretor morreria cinco anos depois de ter finalizado Madadayo sem nunca mais pisar os pés e um set de filmagem. Ambos os roteiros finais do diretor foram terminados e filmados por outros membros de sua equipa: primeiro, Depois da Chuva (1999), e depois, Sob o Olhar do Mar (2002).
Madadayo não constitui um final apoteótico para a obra de Kurosawa, mas seria injusto não dar à obra o seu devido valor. Contextualizando o seu surgimento e o que movia o mestre naquele momento da vida, é muito natural que o filme tenha seguido por um caminho bastante distinto das colocações mais gerais e amplas – ou pessoais, mas não plenamente, como em Sonhos – que o diretor costumava nos presentar, e onde tínhamos em tela uma explosão de brilhantismo técnico. Madadayo não é um filme terrível ou mesmo ruim. É um filme muito bom, mas com uma falha bastante chateante e pequenos tropeços no decorrer da história que nos incomodam algo. De qualquer forma, trata-se do canto do cisne de um dos gigantes do cinema, portanto, um filme que deveria ser melhor conhecido, apreciado e analisado.
UM CHAMADO AO MESTRE OU DOCENTE:
Dado que os protagonistas de ambos os filmes são dous mestres, e que neste nosso depoimento aproveitamos para solicitar a todos os cidadãos que apoiem o importante labor educativo e social dos docentes, queremos escrever a seguir este chamado:
«Mestre/a…:
Ensina às crianças a acreditar nos ideais e que aquelas cousas que não se veem também são realidades. Diz-lhes que o amor não se vê, embora possa sentir-se, que a música tem uma explicação, mas que as melodias saem do coração. Ensina-lhes a ter esperanças, pois todos os dias sai o sol.
Ensina-lhes o respeito pelas cousas simples e pela natureza. Ensina-lhes a orar, a fechar os olhinhos e que imaginem o seu anjo da guarda que os protege e os guia. Ensina-lhes todos os dias a trabalhar num pequeno projeto, sempre diferente. Estimula a sua criatividade com os seus brinquedos e com outros objetos que eles mesmos possam criar.
Ensina-lhes a sorrir e acaricia-os sempre, sejam quem forem essas crianças, porque não sabes em que podem converter-se amanhã, talvez sejam eles quem te estendam a sua mão amiga ou se recusem a cumprimentar-te quando menos o esperes. Talvez sejam o teu médico, o teu amigo, o teu ladrão ou o teu juiz.
Ensina-lhes que a vida é aprender a ser feliz e que a vida nos há dar muitas alegrias, embora nós devamos dar-lhe também um sabor à vida. Ensina-lhes que devemos dar-lhe um pouco de alegria a todas as cousas e que tudo o que chegue às nossas mãos ou à nossa vida, sempre devemos deixá-lo melhor do que estava quando o encontramos.
Ensina-lhes que tudo aquilo que tome contacto connosco deve sempre melhorar. Ensina-lhes o valor do respeito, da fé, da confiança, ensina-lhes a ser inteligentes e que não subestimem os seus sentimentos. Ensina-lhes a amar e que em todo o momento saibam que têm direito a viver e serem cada um o que na sua vida quiser ser. Ensina-lhes que quando forem crescidos devem querer e respeitar as futuras crianças.
TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:
Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorâmicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço, truques cinematográficos, etc.) e o fundo dos dous filmes antes resenhados.
Organizamos nos estabelecimentos de ensino dos diferentes níveis uma magna amostra-exposição dedicada em especial ao importante labor dos docentes. A mencionada amostra há de conter fotografias, frases, aforismos, poemas, desenhos e murais e também textos livres dos escolares. Com todo o material podemos também editar ou policopiar uma monografia, seguindo a técnica didática da biblioteca do trabalho de Freinet. Podemos incluir uma lista de mestres e educadores destacados, que podem servir de exemplo e modelo para os docentes que se encontrem no ativo.
Desenvolvemos um Livro-fórum, com participação de professores e estudantes. Entre os livros, podemos escolher aqueles em que aparecem o «Decálogo do/a Mestre/a», escrito por Gabriela Mistral, e o modelo de mestre/a que propunha Tagore. Que muito bem explicitou num artigo publicado no BILE no seu dia. Também o que propunha Freinet no seu livro Conselhos aos mestres jovens. Pela sua parte, Paulo Freire escreveu um interessante livro sob o título de Professora sim, Tia não. Cartas a quem ousa ensinar, que fora publicado em 1998 pela editora brasileira Olho d´Agua, e do qual hoje existe edição digital e também em PDF. Podemos organizar o livro-fórum sobre este texto freiriano.
