Ao redor da bandeira azul e branca



lavoz-digitalUltimamente tenho de consultar com freqüência o periódico La Voz de Galicia. Com mais freqüência, de facto, da que eu gostaria. O portal de LVDG vem por defeito em castelhano, mas permete mudar para galego com clicar em um botão na parte superior-direita do ecrã. Normalmente vou direto para a hemeroteca, mas hoje quis provar a ver o que ocorria se clicar no botão.

O botão é, digamos, normal, o esperável: diz “En Galego” e tem um ícone pequeno com a bandeira galega sem escudo (nem estrela nem sereia nem mortas nem escravas): uma faixa azul de arriba para abaixo e de esquerda para direita. Fiz clique no botão e a página mudou de castelhano simples para galego-castelhano (“Subscríbeche [sic]”) e o mesmo botão que antes dizia “En Galego; bandeirinha” passou, claro, a oferecer a consulta da página na versão original em castelhano. O curioso foi que o botão novo só dizia “En Castellano”, sem o adorno já típico das máscaras. La Voz de Galicia, de todas as opções que tinha, escolheu (entende-se) a que achou menos contraditória.

Chamar “Español” à língua oficial do Estado seria excluínte desde que também são línguas espanholas a catalã, a asturiana, a basca, a ocitana, a aragonesa e, de certeza, a galega. Além do mais, essa denominação fica ligada a setores ideológicos que, precisamente, não consideram todas estas línguas como espanholas. Devém necessário, pois, o glotônimo “Castellano”.

Chamar “Español” à língua oficial do Estado seria excluínte desde que também são línguas espanholas a catalã, a asturiana, a basca, a ocitana, a aragonesa e, de certeza, a galega. Além do mais, essa denominação fica ligada a setores ideológicos que, precisamente, não consideram todas estas línguas como espanholas. Devém necessário, pois, o glotônimo “Castellano”.

Mas se a língua é castelhana, que não espanhola, como vamos colocar a bandeira de todas as espanholas junto com o gentilício de apenas uma parte de elas? Não é possível sair do dilema sem cair em uma dialética densa e sobretudo visível. A solução é, como nas perguntas dos testes, a menos má: fora a bandeira.espanhol

Embora eu próprio reconheça que é engraçado imaginar as desenhadoras do site do LVDG a debaterem estas questões, o certo é que parece haver um outro problema de fundo: um de simbologias.

O colocamento da bandeira galega, espoliada ao nacionalismo com o começo da Autonomia, não é mais objeto de debate: deve ser colocada como símbolo de enxebreza, mesmo que vá a carão de um cabeçalho em castelhano. Mas, a espanhola? Inclusive em LVDG deram em reconhecer na bandeira espanhola um símbolo político incrivelmente connotado, ligado a uma série de ideias ou de praxes com que alguém não quer relacionar o seu periódico.

Ainda mais: quando um periódico é um negócio, sobretudo se é um negócio como o LVDG, a prioridade são sempre as subscrições, muito por acima de traçar uma linha coerente, mesmo muito por acima de traçar uma linha. Tudo se faz com esse prisma. Quer dizer, que há no LVDG consciência de que se mostrassem a bandeira espanhola no seu site iam baixar as subscrições, e ainda de que mostrar a galega (lisa) contribui para as subscrições subirem.

Seguimos sem viver em uma Terra livre e seguimos a ter periódicos como La Voz de Galicia, mas acho que é de parabenizar termos um país que não quer diante a bandeira espanhola mesmo que seja por incomodidade, um país que não se identifica com ela e, sobretudo, que consegue que o capital o saiba.

Jota Rodrigues

Jota Rodrigues

Nado na Crunha em outono de 1998. Atualmente estuda o grau em língua e literatura galegas na USC, em Compostela. Milita na Mocidade pola Independência (MpI) e tem partilhado os seus artigos no Novas da Galiza e no Galiza Livre.
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