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Eduardo Maragoto: “O reintegracionismo é difícil de vencer”

A Associaçom Galega da Língua nasceu em 19 dezembro de 1981 (data da assembleia constituinte) com o objetivo de promover a língua e a cultura da Galiza, empreendendo para tal uma planificação de carácter reintegracionista.

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Eduardo Maragoto | foto de Álvaro Sempere -Boh fotografia.

O aparecimento da AGAL permitiu às reintegracionistas da altura, geralmente ligadas ao ensino, ter uma rede de apoio e referência no seu agir, convertendo a ação individual de muitas pessoas numa grande ação coletiva em defesa da língua (inter)nacional. Em 2015 a única candidatura apresentada às eleições presidenciais da AGAL colocou no centro do seu programa uma iniciativa de confluência normativa que acabasse com os conflitos ortográficos internos do reintegracionismo organizado.
Resultado daquele processo foi a eleição do Eduardo Maragoto para presidente. Maragoto nasceu no Ortegal em 1976, é docente de português na Escola Oficial de Idiomas de Compostela e conta por dúzias os anos da sua dedicação à Associaçom, como também os seus contributos académicos ao reintegracionismo, em forma de livros e artigos. Acompanhando o 40 aniversário da AGAL, conversamos com ele sobre o percurso do reintegracionismo nas últimas décadas, a proposta do binormativismo, cismas, desentendimentos… e ainda de futuro.

Após 40 anos de percurso, qual a situação global da AGAL e do reintegracionismo no espaço social galego?
Como movimento é de moderado, mas progressivo, crescimento, como é normal que seja ao tratar-se de um movimento apenas ou principalmente linguístico, ainda que em determinados âmbitos muito concretos, como o Twitter, detetamos um ritmo de crescimento já considerável. Não obstante, acho que se multiplicou a compreensão das propostas do lusismo por parte da sociedade em geral (à margem de posições ideológicas ou linguísticas) e a sensação de que se trata de uma ideia de longo percurso, mas que cedo ou tarde será tida em conta e aproveitada de algum modo.

Os estudiosos assinalam que o reintegracionismo ao longo da década de 80 assumiu o seu papel de contra-elite e deixou de pugnar pela legitimidade linguística na Galiza. É isto hoje assim? Qual o alvo estratégico da AGAL?
Nos anos 80 e 90, com a AGAL funcionando como uma espécie de para-academia e com alguns dos filólogos mais importantes do mundo assistindo aos nossos congressos internacionais, era atrativo observar o reintegracionismo como uma espécie de contra-elite cultural, que queria substituir a elite dominante, mas hoje compreende-se que isso é improvável. As duas posturas que existem em relação à codificação idiomática estão aqui para ficar e vamos ter que geri-las conjuntamente. Aliás, eu não creio que haja uma postura mais legítima do que as outras. Qualquer debate colocado nesses termos nunca teria solução. Havendo uma tradição estável de uso, que mais legitimidade queres? O que a AGAL pretende é mostrar à sociedade que as suas propostas lhe podem ser úteis e que a política linguística, bem gerida, não tem porque ser um lastro a carregar, senão uma mais-valia a aproveitar em benefício de toda a sociedade.

Nos anos 80 e 90, com a AGAL funcionando como uma espécie de para-academia e com alguns dos filólogos mais importantes do mundo assistindo aos nossos congressos internacionais, era atrativo observar o reintegracionismo como uma espécie de contra-elite cultural, que queria substituir a elite dominante, mas hoje compreende-se que isso é improvável.

Quando a primeira geração de galegas escolarizadas com a matéria de língua galega cresceu, surgiu na Galiza uma densa rede de Grupos Reintegracionistas de Base, fazendo perder peso relativo à AGAL no conjunto do movimento. Qual a situação atual? Melhor ou pior?
Creio que houve uma época em que algumas estratégias concretas da AGAL apresentaram alguns sintomas de esgotamento, principalmente a estratégia de pretender apresentar-se como alternativa científica ao isolacionismo imperante. Aquela ideia de “nós temos razão porque assim o demonstram os nossos congressos, a nossa revista e a nossa comissão linguística” deixou de fazer sentido. Não quer dizer que não fosse importante nos seus tempos: não só foi importante, como também foi a base do que hoje temos, mas com a viragem do século vai surgindo uma nova AGAL, empurrada por esses movimentos de que falas e não só. É uma AGAL mais pedagógica, que ouve mais, que está mais disposta a compreender a sociedade e mesmo os seus adversários. A AGAL atual sente-se orgulhosa de toda a sua história, mas herda principalmente esta segunda tradição.

Como avalias a costumeira ligação que o imaginário coletivo galego faz entre o reintegracionismo e o independentismo de esquerdas? (Como) condiciona isto o agir da agal?
Numa imagem aproximada, é uma ligação lógica. Por um lado, durante os anos 80 e 90, como falamos, o reintegracionismo e o independentismo encontraram-se nas mesmas margens. O primeiro era cultural e o segundo político, mas eram os dois programas derrotados na Transição, porquanto era normal que convivessem e as pessoas os relacionassem. Por outro lado, muitos independentistas eram reintegracionistas por razões óbvias, pois tinham mais capacidade para entender a importância dos estados na preservação das línguas. Digamos que raciocinavam, com razão “os estados são vitais para as línguas: já que nós não temos, aliemo-nos a outros”. Ora, que um independentista chegue mais fácil a essa conclusão, não quer dizer que outros não possam chegar a outras que o levem igualmente ao reintegracionismo, mesmo partindo do extremo contrário. Por exemplo, pode-se pensar “é absurdo defender uma língua minoritária, prefiro que pelo menos sirva para fora da Galiza”.
Recentemente foste convidado para participar num simpósio do ILG sobre padronização e num da RAG sobre Carvalho Calero. Como interpretas esta inusual abertura de portas de parte da oficialidade (cristalizada, até, num artigo em NormAGAL no Boletín da RAG)?
É o início de uma atitude que continuará, dum lado e doutro; obviamente com passos atrás e adiante. Não lhe dou categoria de decisão estratégica, mas de abertura que vem com os tempos. Neste debate há uma distância sideral entre as novas e as velhas gerações. Certos vetos que hoje ainda se entendem daqui a uns anos vão ser incompreendidos.

A propósito: em 2008 entrevistavas Xosé Ramón Barreiro, na altura presidente da RAG, e interrogava-lo sobre a existência duma outra Academia (Galega da Língua Portuguesa). Ele respondeu que preferia falar em cousas sérias. Como presidente da AGAL, sabes que há uma outra Associaçom?
A Associaçom de Estudos Galegos?

É. Num recente artigo no seu site, o Carlos Garrido oferece um relato sobre a dissolução da Comissão Linguística da AGAL. Qual a tua opinião sobre esse relato e em que medida coincide com o teu?
Não tenho fresco esse artigo, que lembro que era bastante longo, mas posso dar-te a minha. A AGAL, numa decisão que vejo cada vez mais acertada, decidiu que era o momento de explicar melhor o que queríamos à sociedade, como um único movimento, e para isso era necessário integrar todas as estratégias numa só, mas sem fazer desaparecer os matizes que cada pessoa ou grupo pudesse defender. Para isso era preciso elaborar uma proposta normativa que desse cabimento a todas as soluções gráficas usadas por reintegracionistas: a norma padrão portuguesa e a velha norma da AGAL passaram a estar compreendidas por uma única norma, que chamamos Ortografia Galega Moderna (OGM).
O reintegracionismo no seu conjunto compreendeu que era um passo necessário (a votação a favor foi esmagadora: 101 votos a favor, 7 contra), mas a maioria da Comissão Linguística só reconhecia a velha Norma da AGAL, desvinculada do português, o que punha muitos obstáculos ao convívio interno e à formulação de propostas realistas à sociedade. Por isso, a assembleia teve que tomar uma determinação, mudando os estatutos e dando outro carácter à Comissão Linguística, que deixou de ser um órgão académico autónomo para ser mais uma área da AGAL que também devia respeitar os acordos assembleares.

Era preciso elaborar uma proposta normativa que desse cabimento a todas as soluções gráficas usadas por reintegracionistas: a norma padrão portuguesa e a velha norma da AGAL passaram a estar compreendidas por uma única norma, que chamamos Ortografia Galega Moderna (OGM). O reintegracionismo no seu conjunto compreendeu que era um passo necessário.

Era assim tão necessário?
Quem queria defender a todo o custo uma norma galega, no fundo estava a matá-la, porque ao desvinculá-la do português perdia todo o seu valor político e prático. Passados os anos, vemos que as terminações -om, -am são tão usadas como antes na AGAL (ao lado de -ão, convivendo muitas vezes numa mesma pessoa), mas agora estão menos conotadas, pois estão protegidas por uma entidade e uma norma que também abrange as opções plenamente coincidentes com o português. São parte do português galego.
Até a OGM, havia reintegracionistas com mais interesse em derrotar outros reintegracionistas do que em se comunicar com o resto da sociedade. Isso mudou. Que eu saiba, nunca voltou a haver nem um só conflito normativo dentro da AGAL. Ninguém questiona agora os usos gráficos das outras pessoas.

A OGM tem sido criticada fundamentalmente pela sua amplitude. Isto não é um problema para as pessoas com formação linguística/filológica, mas pode dificultar as funções pedagógicas que tem qualquer padrão. Como encaixa isto a AGAL?
Às vezes é o contrário e essa amplitude é só um problema para as pessoas com formação filológica, que costumam ser as que mais tendência têm a limitar o repertório linguístico das pessoas (isso é incorreto, isso não se diz…). A principal funcionalidade da OGM, como qualquer outra norma, não é ensinar língua, mas resolver dúvidas e orientar. É como o nosso bilhete de identidade linguístico, que diz “Nós somos isto”. Neste caso diz “Nós usamos o português, que é galego; e ao mesmo tempo usamos o galego, que é português”. As anteriores normas da AGAL diziam “Nós não usamos o português, mas galego reintegrado, e algum dia terá que ser admitido na Lusofonia em paridade com as outras normas”. É diferente, como vês. Agora as pessoas sabem que, sabendo português, já podem ser reintegracionistas e isso multiplica a nossa incidência.

A principal funcionalidade da OGM, como qualquer outra norma, não é ensinar língua, mas resolver dúvidas e orientar. É como o nosso bilhete de identidade linguístico, que diz “Nós somos isto”. Neste caso diz “Nós usamos o português, que é galego; e ao mesmo tempo usamos o galego, que é português”.

Mas então como adquirem o reintegrado as pessoas?
As pessoas não necessitam deste código nem de nenhum outro para aprenderem a escrever. As línguas aprendem-se de múltiplas formas: manuais didáticos, leituras, consultas, em definitivo através do contacto com elas. No nosso caso, a maioria das pessoas que chegam a usar a norma reintegrada, fazem-no através da aprendizagem direta do português como língua estrangeira. Antigamente fazia-se no âmbito associativo, mas atualmente não, o qual já explica muitas coisas.

Mais adiante na mesma publicação acusa-se-te de, no teu relatório para a RAG,  obviar a existência da “histórica e ainda produtiva” comissão linguística da AGAL, e de reinterpretar a ideologia de carvalho. Como recebes esta crítica?
O principal contributo que o reintegracionismo tem para oferecer à sociedade é fornecer autonomia às pessoas, não retirar-lha. Convencer as pessoas que adiram a ele de que não precisam de tutelas para usarem a própria língua, porque tivemos a fortuna histórica de que ela se tornou estatal fora do nosso território. Ao lado dessa evidência, qualquer contributo pessoal, associativo ou académico à construção da língua comum vai ser muito importante e devemos agradecê-lo, mas não pode pôr empecilhos ao objetivo final do reintegracionismo. Carvalho compreendeu e explicou isso com mestria desde 1975.

Com a passagem dos anos, agentes contrários à centralidade da díade ILG-RAG acabaram assimilados discursiva e praticamente naquela elite beneficiada/privilegiada pelo sistema cultural galego, desaparecendo todas as formas de mínimos reintegracionistas. A aposta no binormativismo é de algum modo uma forma de resistir à assimilação?
O reintegracionismo é muito difícil de assimilar e de vencer, pois o modelo de língua que está na base é muito estável. Apesar disso, o binormativismo é uma proposta feita com humildade. Nós temos toda a nossa razão, mas outros têm toda a sua razão também. Simplesmente cada quem quer o idioma para coisas diferentes. O dia em que todo o mundo tenha claro isto, o problema acabará. Ajudando-nos uns aos outros estaremos ajudando o galego também.

[Esta entrevista foi publicada originariamente no Novas da Galiza]

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