Eduardo Maragoto – Antón Reixa nom tem nostalgia da música em directo, embora guarde excelentes amizades nesse mundo. Voltaria, sim, a escrever letras para cançons, e de facto nunca abandonou a poesia que o deu a conhecer como artista no grupo Rompente.
Com o passar dos anos, o multifacetado autor foi penetrando mais e mais no mundo ‘audiovisual’. Para além de realizador e produtor de cinema, dirige umha cheia de projectos vinculados à indústria do sector, como o Clúster Audiovisual Galego (CLAG).
O efémero Reixa opinador em castelhano deixou alguns resentidos entre as pessoas que o incluíam com paixom no santoral do galeguismo contemporáneo e às quais também custa digerir os coqueteios com o cinema em espanhol. Sobre isso e mais fomos conversar com ele.
Que é o CLAV e porque é interessante para o audiovisual galego?
É um organismo privado sem ánimo de lucro que persegue a cooperaçom empresarial. No caso galego é especialmente interessante, já que a produçom ausiovisual está mui atomizada. Para além dessa cooperaçom transversal, dado que o tamanho das empresas galegas nom lhes permite contarem com um departamente próprio de I+D, o CLAV funcionaria como o macrodepartamento de I+D das associadas.
É o mesmo «audiovisual galego» que «audiovisual em galego»?
É um debate que existe nom tanto no ámbito da produçom como sim no da realizaçom. A minha posiçom é que na Galiza é umha indústria cultural importante, e todo o que se figer em prol de se realizarem produçons directamente em galego é importante. Porém, cumpre dizer que o problema de normalizaçom lingüística nom é exactamente transponível ao ‘audiovisual’. Quanto à língua de rodagem, o galego encontra-se numha situaçom relativamente normal, parecida à de muitos países europeus. Nos países nórdicos, na Alemanha… existe também esse debate: o mercado globalizado impom que as produçons que tenhem um percurso comercial mais longo sejam as rodadas em versom original inglesa. O universo lingüístico castelhanófono, ao contrário, é mui fechado: tem o vício de aceder a toda a informaçom só em castelhano e há umha tradiçom desconhecida noutros sítios que consiste em que o cinema é distribuído sempre dobrado. Eu penso que no cinema seria desejável que se fomentassem as versons legendadas.
No caso da tua primeira longametragem [O Lápis do Carpinteiro], o facto de ter saído primeiro em castelhano e mais tarde dobrada ao galego foi desencorajador para as pessoas defensoras da língua…
Nom, saiu simultaneamente em castelhano e dobrada ao galego. Havia umha discussom com o distribuidor, da Warner, que distribuiu muitíssimas menos cópias em galego que em castelhano. A mobilizaçom que isso provocou serviu para que entrasse em razom e disponibilizasse mais cópias em galego.
Mesmo assim, as pessoas ficam com a ideia de que quando se fam filmes a sério, nom subsidiados nem para a televisom local, o galego tem pouco a dizer…
Independentemente de que seja subsidiado, é umha questom de mercado. Aconteceu com O Lápis do Carpinteiro. O capital galego do filme era de 15/20% e o resto era dinheiro de produtores de fora e televisons como Antena 3, Tele Madrid e Canal +, que nom tenhem especial sensibilidade para o galego.
Para contornar esse problema, nom seria positivo olhar para a Lusofonia? Da mesma maneira que se fam co-produçons com a Catalunha…
É umha pequena parte do caminho a percorrer. Porém, sempre que se fala disso obvia-se que também depende da outra parte, que tem umha sensibilidade nula para a unidade lingüística com o galego.
Foste chamado para assessorar a reforma da CRTVG. A TVG realizou algumha coproduçom com Portugal. É mais fácil este caminho no caso das televisons?
Deveria ser mais fácil, nomeadamente no caso das públicas. Figérom-se séries, algum documentário e um programa de homenagem ao Zeca Afonso. Quanto à reforma, eu participei no relatório que fai referência a que a televisom poda participar em coproduçons europeias e latinoamericanas.
Mas nom se fai especial mençom da Lusofonia?
Nom.
Como viguês e neo-falante desde os 18 anos, que pensas de Galicia Bilingüe (GB)?
O facto de que apareçam colectivos mui organizados contra o conceito que a maioria temos de normalizaçom do galego, por minoritários que sejam, é mui grave e deve ser resolvida com inteligência. GB parte de umha obcecaçom ideológica que tem a ver com contingências políticas. Eles próprios reconhecem que o castelhano nom está em perigo. Quanto a nós, defensores da normalizaçom, devemos reinventar o nosso discurso ideológico. No mundo nacionalista vivia-se num esquema em que parecia que o único horizonte possível para a sobrevivência do galego era umha sociedade monolingüe em galego, e isso, para bem ou para mal, nom vai ocorrer. Sem renunciarmos aos princípios de promoçom do galego na Administraçom e no ensino, deveríamos ter em conta que o nosso horizonte lingüístico nom vai ser necessariamente esse, como tampouco será o monolingüismo em espanhol. Nom devemos decalcar o que acontece no mundo hispano em que todo vem dado na mesma língua. A alfabetizaçom das pessoas que nasçam na Galiza, em galego, que socialmente vam entrar em contacto com o castelhano, deve complementar-se com a aprendizagem de línguas estrangeiras; os indivíduos poliglotas vam ser melhores defensores do idioma.
Esta posiçom tem a ver com o facto de que publiques em castelhano no El País?
Bom, publiquei em castelhano no El País até que deixei de escrever para o El País.
Porque toma essa decisom umha pessoa tam significativa da cultura galega?
Naquele momento avaliei a oferta que se me fazia de escrever num meio de comunicaçom que tem releváncia e tinha que valorizá-la basicamente porque nom tinha outras ofertas. Manifestei o meu profundo desacordo com ter de escrever em castelhano; segundo eles tratava-se de um critério de empresa, coerente com a política que tinham noutras zonas de Estado. Evidentemente, eu nom compartilho isso, mas um escritor independente sabe que dificilmente vai compartilhar todos os critérios das publicaçons em que publica. Isso sim, mal tivem oportunidade, ao aparecer o Xornal de Galicia, deixei o El País.
(*) Entrevista publicada originalmente no n.º 75 do Novas da Galiza.
