Por Adela Figueroa
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Agora venho eu
convosco, meus amigos,
antes de que o mundo se termine.
Agora é que nós vimos,
desde o fundo imaterial das palavras
a contar-vos,
com o cantar das pedras do rio,
relatos e contos construídos
com as peças do éter transparente
de todos os falares da humana gente.
Agora venho eu, convosco
a cantar os mil sons desta alvorada
incerta
que floresce lá dentro desses mares
entre as águas profundas das lembranças.
Mistérios, medos e terrores,
amores, dores, invejas e flores
que formam os tempos das saudades.
Antes de que o Mundo , acabá-lo forem,
eles, os criminosos insaciáveis.
Traz amiga contigo
os teus sonhos de vento e de alento
a fungar entre as folhas dos pinheiros
os cantares das águas sobre as pedras do moinho,
dos espíritos sedentos.
Deixa-me levar comigo
o fogo em que a minha vida se queima.
Deixa-me lavar no rio frio
as rendas cantadeiras
que abrigam os sons de luz e água
que eu quisera ter sempre à minha beira.
Vamos juntas, voar pelo vento
que zoa insaciável entre os salgueiros.
Vamos logo caminhar pelo ar
até chegarmos à montanha esgrévia
violada por pedreiras de lousa as suas cimeiras.
Antes de se acabar o Mundo
quero, apenas, mostrar-te a sua espantosa beleza
para chorarmos juntas pelo fim,
pela morte do que cessa.
Irás tu cantar comigo, músicas feiticeiras
com palavras de arrolar meninhos
em berços feitos da madeira
de tecer os sonhos
que o lume não posa queimar à lenha.
Berços para as novas criancinhas
que entre estes tristes andaimes nasceram
das cinzas brancas
em que a humana raça, por fim se convertera.
Vem antes de que o Mundo se acabe
e termine, fatalmente,
o recendo das rosas no rebento da manhã.
Vem comigo, ver, como se deita o sol, ainda,
trás das Cies,
para abrir as longas noites de verão.
Acolhei-me agora que eu venho,
convosco,
antes de o Mundo se acabar,
mão com mão, beijo nos beijos,
a sentir o aroma destas falas,
(sem darmos por isso),
com a nossa derradeira bocejada.
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A Eira da Xoana,Natal 2012
