Antes de se acabar o mundo

Partilhar

Por Adela Figueroa

_________________________________________________________

Agora venho eu

convosco, meus amigos,

antes de que o mundo se termine.

 

Agora é que nós vimos,

desde o fundo imaterial das palavras

a contar-vos,

com o cantar das pedras do rio,

relatos e contos construídos

com as peças do éter transparente

de todos os falares da humana gente.

 

Agora venho eu, convosco

a cantar os mil sons desta alvorada

incerta

que floresce lá dentro desses mares

entre as águas profundas das lembranças.

 

Mistérios, medos e terrores,

amores, dores, invejas e flores

que formam os tempos das saudades.

 

Antes de que o Mundo , acabá-lo forem,

eles, os criminosos insaciáveis.

 

Traz amiga contigo

os teus sonhos de vento e de alento

a fungar entre as folhas dos pinheiros

os cantares das águas sobre as pedras do moinho,

dos espíritos sedentos.

 

Deixa-me levar comigo

o fogo em que a minha vida se queima.

Deixa-me lavar no rio frio

as rendas cantadeiras

que abrigam os sons de luz e água

que eu quisera ter sempre à minha beira.

 

Vamos juntas, voar pelo vento

que zoa insaciável entre os salgueiros.

Vamos logo caminhar pelo ar

até chegarmos à montanha esgrévia

violada por pedreiras de lousa as suas cimeiras.

 

Antes de se acabar o Mundo

quero, apenas, mostrar-te a sua espantosa beleza

para chorarmos juntas pelo fim,

pela morte do que cessa.

 

Irás tu cantar comigo, músicas feiticeiras

com palavras de arrolar meninhos

em berços feitos da madeira

de tecer os sonhos

que o lume não posa queimar à lenha.

 

Berços para as novas criancinhas

que entre estes tristes andaimes nasceram

das cinzas brancas

em que a humana raça, por fim se convertera.

 

Vem antes de que o Mundo se acabe

e termine, fatalmente,

o recendo das rosas no rebento da manhã.

Vem comigo, ver, como se deita o sol, ainda,

trás das Cies,

para abrir as longas noites de verão.

 

Acolhei-me agora que eu venho,

convosco,

antes de o Mundo se acabar,

mão com mão, beijo nos beijos,

a sentir o aroma destas falas,

(sem darmos por isso),

com a nossa derradeira bocejada.

_________________________________________________________

A Eira da Xoana,Natal 2012