Andrea Rico: “A escolha ortográfica isolacionista tem a ver com umha opressom”



Neste ano 2021 há 40 anos desde que o galego passou a ser considerada língua cooficial na Galiza, passando a ter um estatus legal que a permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisar este período, estamos a realizar ao longo de todo o ano, umha série de entrevistas a diferentes agentes sociais para darem-nos a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom de cara o futuro.
Desta volta entrevistamos Andrea Rico Adega, membra de Rexenerando, música em Sacha na Horta e vizinha de Ferrol.

Qual foi a melhor iniciativa nestes quarenta anos para melhorar o status do galego?

Paloma Medina

Andrea Rico retratada por Paloma Medina

No primeiro, todo o corpus legislativo de alicerce, este é o fito fundacional: a lei de normalizaçom linguística e todas as suas implicaçons.
Escalando na dimensom, e sem me forçar a procurar umha análise mais sisuda, para mim o Xabarín Club penso que trouxo cousas essenciais. É umha expresom dessas ferramentas que dispunha a legislaçom que podia acontecer: a comunicaçom de massas, o uso dos meios de comunicaçom próprios fazendo o que tenhem que fazer, ser um produto cultural próprio, a identificaçom com um porco-bravo fala de nós, orgulhoso, alicerçado nessa identidade integral, que nom dissocia o rural e o urbano — somos todo isso! O reconhecimento da mestiçagem, o rural, a aldeia, o bairro. Amais penso que ainda falta por analisar todo o impacto que tivo: toda a parte audiovisual e musical, e penso que ainda tem impacto nas criaçons atuais. Quanta gente era do club? Quanta gente ainda hoje se orgulhece de ter o cartom ou a camisola? E em particular no linguístico: a naturalizaçom de escutar os desenhos animados falando em galego; toda a gente sabia que Songoku falava galego, e fora disso era estranho, até para crianças castelhano-falantes.
Ligo este produto do Clube Xabarín com o movimento cultural do Bravú, e o mesmo penso da música e a dança para nós, que está superviva, e que pode ser umha ferramenta importante, como está a ser a regueifa para a revitalizaçom linguística, por exemplo.
Por último, baseando-me na minha experiência pessoal, destacaria também o sistema educativo. Em concreto o professorado de galego que saía da faculdade nos 70 e nos 80, com compromisso real, que vinha da ditadura e tinham um rol mui importante no empoderamento linguístico.

Se pudesses recuar no tempo, que mudarias para que a situaçom na atualidade fosse melhor?
Se pudesse volver atrás, mudaria o que penso que tivo um impacto mais transversal na língua e em todo o demais: a guerra civil e ditadura franquista; evitaria 40 anos de franquismo.
Mais no concreto: o processo da transiçom política depois da morte do ditador e todo o impacto que tivo.
Baixando mais ao específico ainda: o decreto do plurilinguismo de 2010. O ascenso do discurso do neoliberalismo linguístico que impus Feijoo, a dar-lhe suporte a gente como Galicia Bilingue, e a todo o seu discurso do ódio e menosprezo, baixando-se de todos os consensos que havia e com toda a impunidade. Isto foi umha involuçom tremenda.

O ascenso do discurso do neoliberalismo linguístico que impus Feijoo, o decreto do plurilinguismo de 2010 e dar-lhe suporte a gente como Galicia Bilingue, todo o seu discurso do ódio e menosprezo, baixando-se de todos os consensos que havia e com toda a impunidade. Isto foi umha involuçom tremenda.

_r4a8624

Andrea Rico facilitando um obradoiro.

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?
Pois, que difícil! Nom o sei, mudaria o governo, políticas e sistemas. Que se baixem os espanholistas dumha vez! Assumo que haja conservadores, mas que a questom linguística nom se ponha em questom. E, ao mesmo tempo, cumpre analisar a situaçom, escutar mais, entender como tantos milhares de galegos e galegas decidem apoiar essas propostas políticas. Há umha parte que requer análises técnicas e espertas, e precisamos mais recursos. Considero que precisamos mais investigaçom, precisamos mais recursos e pessoal experto, informes e avaliaçons sociolinguísticas que ajudem a marcar novas folhas de rota.
Também assumir que é um tema que som muitas camadas: a nível micro, penso que está bem atender ao subtil, às pequenas cousas e às experiências pessoais. O linguístico afeta as relaçons laborais, familiares, ativistas… Temos que tratar o trauma, a ferida das neofalantes, das paleofalantes.

O linguístico afeta as relaçons laborais, familiares, ativistas… Temos que tratar o trauma, a ferida das neofalantes, das paleofalantes.

A este nível, já há muita cousa que está na nossa mão: e nom por óbvio devemos deixar de dar-lhe importância. Penso que nos temos que cuidar mais, e valorizar o que faga umha profe, umha família. O pequeno é grande, todo é importante.
Acho importante também entroncar com outras lutas, cada quem no seu âmbito pode tentar. Dar-nos espaços para pensar o que pode fazer cada umha e recuperar a capacidade de sonhar, de imaginar futuros melhores.
Por outra parte, penso que é importante trabalhar as opressons internacionalizadas, parte das nossas reticências tenhem a ver com termos assumido que o nosso vale menos. Igual que na luta feminista, partir de que o feito polas mulheres vale menos, também no linguístico. Cumpre a deconstruçom dos agentes implicados. Por isso liga-lo com outras lutas é útil, desde aí, buscar as formas de trabalhar; igual que vemos que há seminários afetivo-sexuais, poderia-se trabalhar em seminários concretos de empoderamento linguístico, por exemplo. Nom fazer só atividades de divulgaçom, mas problematizar: como nos sentimos? O que passou para isto ser assim? Como se construiu esta opressom? Aí, valoraria o papel estratégico do professorado de galego, nom apenas a língua e literatura, mas sobretudo, a animar ao ativismo linguístico: tem umha parte de conhecimento da matéria que é comprometer-te, saber da injustiça e entrar em conflito.

Tendo umha cooperativa que desenvolve projetos de intervençom sociocomunitária, qual é o peso da escolha linguística no vosso trabalho?

Martín, Olga e Andrea, equipa da cooperativa Rexenerando.

Martín, Olga e Andrea, equipa da cooperativa Rexenerando.

Falar de língua é falar de muitas cousas, falar dum contexto, falar da Galiza, falar de colonialismo, e também falar da nossa intimidade, do nosso sentir.
Eu falo do que supom ser umha mulher de 38 anos, criada em Ferrol, por pessoas nascidas na aldeia, de ser universitária e fazer parte dumha cooperativa. Achego-me à língua desde o ativismo, mas transversalizando essa questom. A língua em Rexenerando é nuclear, transversal e articula o nosso trabalho, sendo também matéria específica de intervençom.
Rexenerando nasce, cresce, e exprime-se sempre em língua galega, a todos os níveis, tanto externos como internos, e assumimos um rol de compromisso, também reivindicativo: procuramos fazer o labor de exigir o direito a ser tratadas em galego, em particular com a administraçom, quando, por exemplo, nos passam algum material em castelhano, ou cousas assim. Nos nossos processos seletivos para a ampliar equipa ou trabalhar com pessoas externas, o linguístico é sempre um mínimo.
Por outra banda, geramos contextos para que a gente se sinta cómoda e muitas pessoas aproveitam isso para ter um lugar onde falar galego. Nom apenas por criar um espaço em galego, mas por criar um espaço respeitoso e articulado por valores transformadores, onde o galego é mais umha proposta emancipadora.

Geramos contextos para que a gente se sinta cómoda e muitas pessoas aproveitam isso para ter um lugar onde falar galego. Nom apenas por criar um espaço em galego, mas por criar um espaço respeitoso e articulado por valores transformadores, onde o galego é mais umha proposta emancipadora.

Achas que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, umha similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?
A estas alturas do filme penso que é possível todo. Nom sei se o binormativismo seria ou nom a melhor soluçom. Eu optaria pola norma reintegrada e já, mas, entretanto algo há que fazer.
Nós, como Rexenerando assumimos a escolha ortográfica da RAG para nom nos marcar. Porque o reintegracionismo é umha connotaçom, e já assumíamos outras marcas nos nossos posicionamentos. A nossa escolha ortográfica isolacionista tem a ver com umha opressom, mas ainda podemos atrever-nos no futuro. A maioria da equipa é reintegracionistas em âmbitos informais. E outro dos motivos foi a competência, sentimo-nos mais seguras em RAG, e, nessa altura também estamos a falar de falta de ferramentas.
É evidente que há um conflito, e acho que a gente do espaço linguístico galego deveria ser sensível e nom marginar umha das propostas. Haveria que ver qual é o medo e a animosidade cara o reintegracionismo. Mesmo cara as duas posturas, nas posiçons mais polarizadas. Acho que há umha ferida dos dous lados, também doem-me os insultos de “espanholista” cara o outro lado. Porem, a gente que está no privilégio de se alinhar com a norma admitida pola oficialidade temos que ser cientes que se está a deixar fora umha parte da comunidade linguística. O que se passa? Qual é o anelo profundo? A minha ignorância e desapego com o conflito talvez seja umha oportunidade para pensar, se voltamos começar, o que teríamos que fazer?


PUBLICIDADE

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Mais uma interessante entrevista

    Eis um excerto, onde põe preto sobre branco o que é uma realidade das cousas inabalável (o que figura entre parêntese, é cousa minha

    “O reintegracionismo é umha connotaçom, e já assumíamos outras marcas nos nossos posicionamentos. Nós, como Rexenerando assumimos a escolha ortográfica da RAG para nom nos marcar.
    A nossa escolha ortográfica isolacionista tem a ver com umha opressom, mas ainda podemos atrever-nos no futuro.

    A maioria da equipa é reintegracionistas em âmbitos informais. (Mas há outra questom, a competência, a norma Rag ao ser a do castelhano, e a nom levar nela importância a qualidade da língua) é outro dos motivos foi a competência, sentimo-nos mais seguras em RAG, (por algo nos incutiram o castelhano), e, nessa altura também estamos a falar de falta de ferramentas.”