PGL – Alonso de Caxade é mestre de infantil no concelho d´Avanha, descobriu que os velhos na Espanha nom falavam galego numa viagem a Leom sendo miúdo, acha que umha parte fundamental da estratégia reintegracionista é o carinho e é músico em vários grupos e com vários estilos.
Alonso Caxade é mestre de infantil. Na Agal temos um ateliê para primário em que a cantora Aline Frazão mostra a África que fala galego, no seu galego de Luanda. É comum as/os docentes deste nível escolar mostrarem os seus alunos o galego mundial?
Nom é cousa frequente em nenhum nível educativo. Fica dependente da vontade pessoal da docência e é surpreendente que a administraçom educativa nom o promova e fomente, aliás dumha questom ética e estética, por umha ánsia estratégica: sermos quem de falar com fluência com milhons de pessoas, sempre é umha melhora social.
Alonso é mestre na unitária de Lanhas, no concelho d´Avanha. Qual é a língua dos teus alunos e alunas? E qual a dos seus pais?
O galego em ambos os casos, pois é-o para a imensa maioria de habitantes d’Avanha. De todos os jeitos é importante atender a que o jogo simbólico e dramático (quando jogam a recriar realidades, profissons…) fam-nos na maioria das vezes em castelhano. Como também acontece no resto da sociedade, a fraseologia, o léxico e a pronúncia das nenas e nenos que tenhem o galego como língua mae, mudou de maneira incrível e pasmosa. Por exemplo, é surpreendente, e frequente, o uso e tempos compostos e dos pronomes mal colocados. Som nenas e nenos do rural, que tenhem o galego por língua mae, mesmo vivem com os seus avós, e para os que, é este idioma, o que escutam por boca da maioria das pessoas com as que se relacionam. Infelizmente nom acontece o mesmo com os meios de comunicaçom e brinquedos que consomem.
Como se viveu no quadro docente a nova legislaçom sobre o uso das línguas nas aulas?
No nosso contexto, umha escola unitária onde estou eu mais a mestra de inglês itinerante, nom mudou nada. A mestra de inglês fala em inglês e eu no meu idioma natural que é o mesmo que as famílias indicárom, através do questionário em que se lhes pergunta pola língua materna das suas filhas e filhos, o galego.
Em que momento descobriste que o guiom sobre o galego que receberas, umha língua só presente na Galiza, era pouco interessante?
Além de descobrir que era pouco interessante esse guiom, foi mais bem que compreendi que nom era verdadeiro nem real. Suponho que, como a maioria dos galegos e galegas, ir de miúdo a Portugal foi a maneira de perceber que lá falavam um galego estranho. Eram as mesmas palavras, mais esmagadas na boca doutra maneira.
Além disso, também recordo quando descobri que o castelhano era a única língua presente na Espanha. Nom sei que anos teria, mas recordo que numha viagem com os meus pais e uns amigos deles a Leom, dixem-lhes mui surpreendido que acabava de ouvir falar a umha senhora em castelhano. Sorrírom e tentárom explicar-mo, mas eu nom o entendim até tempo depois. Nunca ouvira falar a um velhote em castelhano e surpreendeu-me.
Como pensas que é a melhor forma de divulgar a estratégia reintegracionista?
Primeiro através da educaçom (como se está a fazer nalguns centros de ensino). Ainda assim, infelizmente só se pode aprender aquilo que um precisa, que lhe é útil e que lhe pode dar sentido. É decisivo que o galego-português forme parte do sistema educativo galego, senom pode ser inicialmente como umha matéria, que o seja como parte do currículo do que atualmente se entende por galego. Assim, quando as pessoas fossem realmente conscientes de que, com apenas umhas mínimas pautas, som quem de falar e escrever em galego-português, tornaria-se-lhes mais amável. É importante que inicialmente a gente o tome como algo “familiar” ou habitual. Muitos/as galegos/as que vem escrito “Barça” leem “Barsa”, nom duvidam. Mais quando vem escrito “dança” leem “danca”. Faltam essas mínimas pautas de “descodificaçom” para entender que “Joám” se lê “Xoám” e nom “Lloám”.
O receio que algumhas pessoas tenhem hoje em dia ao galego-português vem dumha questom educativa. É o mesmo receio que tinham as pessoas escolarizadas exclusivamente em espanhol, quando nos anos 70/80 começárom a ler em galego. Faltavam-lhes pautas para descodificar.
Agora bem, o aprendido tem que se pôr em prática, tem que haver umha utilidade. Se nom há utilidade o convencimento nom é avondo. Para isso é também preciso contar com meios de comunicaçom em português: prensa, rádio, TV. Daquela quando pesquisemos algo no Google, usaremos o idioma que mais nos convenha, e nom só o espanhol como fam a maioria de galeg@s.
Além do anterior, parte fundamental da “estratégia reintegracionista” é o carinho. A estratégia deve ser firme, mas também carinhosa com a gente mais reticente. Confio em que a maioria das pessoas que rejeitam o reintegracionismo é por desconhecimento ou por ter umha visom deturpada do mesmo. Os que já conhecemos a liçom, acostumamos pensar que o resto também, e isso é um erro: cria oposiçom e fai que nos dediquemos à convicçom do pequeno grupo já convencido.
Outro dos inconvenientes para divulgar o reintegracionismo é a pronúncia, a fonética. Realmente é um tanto extravagante ouvir a umha pessoa fazer um “ç” como se fosse um “z”, mais ainda quando o -”om”/”-ão” final tem pronúncia castelhana. É bom diferenciar o código escrito do oral, nom tem porque ser idêntico, e se o é, que seja a favor da fónética e fraseologia galega, nom da castelhana, porque acho que assim ainda cria mais oposiçom ao reintegracionismo, há gente que pensa que é um construto, como o que falam na TVG.
É frequente considerar que defender o galego mundial vai na contra do interesse global do idioma galego, mas mesmo umha visom ortográfica mais próxima á ILG-RAG tem cabimento no reintegracionismo, ainda que só seja como estratégia comum. É importante estar juntos nisso.
Afinal, acho também importante dar-lhe a entender às pessoas menos convencidas, que o galego é ao português o que o castelhano ao espanhol. Nos mesmos termos. A muita gente galego-falante bota-a para atrás o da “assimilaçom lusófona”. Talvez devesse ser um objetivo secundário, ou simétrico: “asimilaçom galegófona”. É bom que as pessoas entendam que o “galego mundial” nom tem nada a ver com isso.
Alonso é também músico, nos grupos PELdeNOZ , Orquestra Os Modernos, Cuarteto Caramuxo ou Cabaret. Umha boa forma de mudar esquemas seria que as orquestras galegas tocassem músicas lusófonas. Seria factível?
Ainda que as orquestras de baile nom é um ámbito que eu domine, podo dizer que seria boa cousa e também factível. À Galiza nom interessa que cheguem as músicas de dança lusófonas (no caminho inverso é o mesmo). Nom há nenhuma razom para que entrando um merengue, salsa ou cúmbia nom se toque um xote, forró ou maxixe. O mesmo acontece com a música mais atual: é muito mais habitual poder ouvir no rádio ou locais um reggaetón que quizomba, por exemplo. Se até o baião que se ouve é em espanhol!
Fora das orquestras, para qualquer grupo de música também seria mui importante conseguir levar as músicas galegas e os próprios grupos galegos a países lusófonos. É o que falávamos antes sobre a educaçom, para ter a necessidade de fazer (ou aprender), é preciso ver umha utilidade. É importante que os músicos galegos, além de fazer música no país, também tenham oportunidade de gozar dumha situaçom normalizada e poder estender a sua música na lusofonia. Fazer umha troca real e nom só estética.
Que visom tinhas da AGAL e porque te tornaste sócio? Que esperas da associaçom?
O meu idioma materno é o mesmo que continuo a falar hoje, o galego. Concordo com a estratégia reintegracionista desde que a conhecim no primeiro curso do liceu, há disso uns 16 ou 17 anos. Tenho o prontuário desde aquela… O que nom sei é como esperei tanto tempo para fazer-me sócio.
Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?
Sendo idealista (pois se fosse pessimista nom estaria fazendo esta entrevista): é umha fotografia na que só sai gente que gosta da sua identidade e do seu idioma, que é carinhosa, cuidadosa e amável com o galego. Nessa foto já nom sai o auto-ódio, nem coveiros em vida do idioma.
Conhecendo Alonso Caxade
Um sítio web: youtube
Um invento: os instrumentos musicais
Umha música: 4’33” de John Cage
Um livro: Cancioneiro Popular Galego, de Dorothe Schubarth.
Um facto histórico: os contados pola gente comum
Um prato na mesa: melhor se foi feito à brasa
Um desporto: matraquilho
Um filme: Le fabuleux destin d’Amélie Poulain
Umha maravilha: descansar
Além de galego/a: mundial!


