Carlos Calvo começa o ano com um novo projeto. Um novo blogue, Aldeias de Ordes, no que vai ir publicando artigos cada semana sobre toponímia de Ordes e mais.Publicamos hoje no PGL o Primeiro dos textos e iremos publicando conforme vaiam aparecendo:

“… ali mesmo ao pé de Lagos”
Abundam por todo o país os topónimos do tipo Lago ou Lagoa, que quase sempre fam referência, antes do que a um lago propriamente dito, a um terreno mui húmido onde apoça a água com facilidade, funcionando como topónimos metafóricos. Tal deve ser o caso dos lugares dos Lagos (Barbeiros, Ordes), da Lagoa (Queijas, Cerzeda) e do Lago (Castro, Messia). Ainda há um lugar de Lagares, na freguesia de Boado (Messia), que pode ser um topónimo deste tipo ou também um que se refira a uns lagares reais, para fazer vinho ou sidra, dos que noutras comarcas da Galiza se encontrárom restos arqueológicos de tempos castrejos. Seja como for, o topónimo de Lagares deu pé a um apelido bastante corrente na comarca de Ordes e outras. Um Pedro Lagares tivo a sua própria gabela de bandoleiros em Messia a começos do século XIX, com a que se assaltou o 4 de março de 1824 a reitoral de Vilasantar, maltratando gravemente ao cura, ao ponto de que morreu aos poucos dias[1].
Em Portugal, o mesmo topónimo que temos em Barbeiros dá nome a umha vila e a toda umha baía do estremo Sul do país, lá onde o galego-português se fala com sotaque andaluz. Trás a Revoluçom dos Cravos a vizinhança mais pobre de Lagos nom esperou por capitáns de Abril nem por ordens ministeriais para atalhar o seu gravíssimo problema habitacional, botando-se a autoconstruir as suas próprias casas à margem da especulaçom imobiliária. José Afonso imortalizou aquela experiência autogestionária numha das suas cançons mais formosas, “Os Índios da Meia-Praia”. O cineasta António da Cunha Telhes, por sua parte, filmou Continuar a Viver ou os Índios da Meia-Praia.
Ainda chegou mais longe o topónimo galego-português de Lagos –infelizmente da mao do imperialismo luso-, dando nome à que hoje é umha das grandes cidades de África: Lagos, a capital da República Federal de Nigéria. Gomes Eanes de Zurara, cronista de Dom Henrique o Navegante, descrevia na sua Crónica da Guiné (1460) a dantesca imagem dos escravistas separando a maes e filhos para vendê-los no mercado de escravoz de Lagos. Visom dolorosa porque perdiam a liberdade dos seus corpos, mas quando menos –ou isso achava Gomes- poderiam salvar as suas almas através do baptiço.
Voltando ao nosso Lagos de Barbeiros, encontramos um vizinho destacado durante a II República: José Nouche Maceiras, quem estivo a piques de ser alcalde de Ordes pola Fronte Popular, de nom serem suspendidas as eleiçons municipais[2]. Sim foi, finalmente, noemado 3º tenente de alcalde, pola Izquierda Republicana, da corporaçom municipal ordense formada em março de 1936. Nouche também aparece, junto com José Raña, assinando em nome da Sociedad de Obreros de Barbeiros o manifesto “A los trabajadores y electores en general del Ayuntamiento de Órdenes”, defendendo às classes trabalhadoras e reivindicando a democratizaçom do concelho. O manifesto foi lido num ato republicano realizado no 3 de fevereiro de 1936, no Teatro Troche, onde participou como orador o galeguista Ramón Suárez Picallo, entre outros destacados políticos.
[1] Beatriz López Morán, El bandolerismo gallego en la primera mitad del siglo XIX, Sada, Ediciós do Castro, 1995, págs.. 104 e 113-114.
[2] Manuel Pazos Gómez, Achegamento à Segunda República em Ordes. Documentos, Ordes, Obradoiro da HIstória, 2001.
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