Alex De Lusignan Fan Moniz é um ex-banqueiro que mais recentememente se dedica à linguística, além de poeta, autor de ficção e docente em línguas modernas. Um luso-franco-britânico, enquanto português, define-se ‘Portoguês’ pelas suas raízes no Porto. Submeteu em maio um essay para a Anglia Ruskin University, Cambridge como parte dum Mestrado em Linguística Aplicada.
Porque a Galiza se tornou o foco deste teu trabalho? E porquê, em concreto, a língua?
Por estranho que possa parecer, eu desconhecia a precaridade atual do galego e achei um tópico interessante no contexto das línguas minoritárias da Europa. A minha ‘descoberta’ do elo linguístico-cultural inegável entre Portugal e a Galiza, foi um CD da Uxia onde há mais de 20 anos ao escutar os sons autênticos galegos, senti os mesmos sons e a ‘saudade’ que definem Portugal e o ser português. Dum ponto de vista académico, pesquisar o percurso duma língua que quase foi extinta no século XX e se encontra de novo em perigo, foi um desafio irresistível.
O título não deixa margem para dúvidas ‘Galician, How to Kill a Language: Planning, Diglossia, Bi-normativism and the Internet.’
O título em si denota uma receita letal que a menos que a dinâmica atual seja alterada, só tem um fim… literalmente. O estudo mostra os personagens e eventos principais neste palco onde durante um milénio, altos e (muitos) baixos têm condicionado o que seria doutro modo, uma evolução e adaptação orgânica entre fala e falantes e vice-versa hoje.
O foco do teu trabalho é a dialética entre a oficialização do galego, que nas presentes datas soma 40 anos, e o declínio social da língua. Chamou a tua atenção esta aparente contradição?
Foi-me óbvio o declínio das ultimas décadas e essa contradição tornou-se intrigante. Durante o processo de investigação e captação de dados, os fenómenos endémicos de subjugação linguístico-social, preconceito e (auto-)discriminação institucionalizada, associados à ausência de implementação do galego pelas instituições de dever no seu habitat natural, manifestaram-se de forma desconcertante.
Durante o processo de investigação e captação de dados, os fenómenos endémicos de subjugação linguístico-social, preconceito e (auto-)discriminação institucionalizada, associados à ausência de implementação do galego pelas instituições de dever no seu habitat natural, manifestaram-se de forma desconcertante.
O teu essay recolhe vários focos do conflito linguístico galego, um deles é a dialética entre isolacionismo e reintegracionismo. Em que medida julgas que é determinante na saúde social do galego.
A meu ver, o dito galego isolacionista foi criado a partir dum corpus linguístico construído artificialmente, isto é, o galego oficial difundido hoje em dia parte do princípio que a língua autóctone mais não é que um dialeto regional do castelhano.
O galego reintegracionista, a meu ver e baseado nos factos; é a última opção viável na sobrevivência do ‘galego’. Creio também que a grafia do galego deverá incorporar singularidades da Galiza como vogais nasais (casos singular e plural) que no português se pronunciam ‘ã(o)’ e ‘ões’ ou ‘ães’ mas no galego (e certas regiões do Norte, como no Porto) mantêm os sons ‘om’ e ‘ons’ e ‘an(s). Existem também vocábulos dormentes, arcaicos ou esquecidos no português mas usados na Galiza que creio numa realidade reintegracionista, podem enriquecer e revitalizar o inventário léxical do ‘galeguês’. Porque o galego e português, É uma língua.
O galego reintegracionista, a meu ver e baseado nos factos; é a última opção viável na sobrevivência do ‘galego’.
Como lusófono não galego, como observas o galego criado polo Ilg e a Rag? Achas que é pode ser uma ferramenta eficaz para deter os processos atuais?
Vou ser totalmente honesto, sem querer deambular em imbróglios políticos:
Durante este estudo, conheci um pouco do movimento ressurgentista galego o ‘rexurdimento’ e mais recentemente pessoas visionárias como foi Carvalho Calero. Invariavelmente, todas as tentativas de libertação linguística falharam na Galiza- o governo central com entidades regionais como o ILG ou RAG, tem-se assegurado em manter o controlo e duma forma dissimulada e eficaz, dissolver o galego e o galeguismo, seja como língua ou identidade coletiva.
O galego orquestrado e disseminado (em segundo plano e a todos os níveis, passando pelo sistema educativo e meios de comunicação) pelas entidades oficiais, aceita o inaceitável – o pressuposto que o galego é uma mera curiosidade linguística ou dialeto campónio e subalterno da Galiza e d@s galeg@s.
O galego orquestrado e disseminado (em segundo plano e a todos os níveis, passando pelo sistema educativo e meios de comunicação) pelas entidades oficiais, aceita o inaceitável – o pressuposto que o galego é uma mera curiosidade linguística ou dialeto campónio e subalterno da Galiza e d@s galeg@s.
Do meu ponto de vista ainda mais sinistro, é a substituição da grafia e nalguns casos mesmo a sintaxe e léxico, por uma norma estrangeira: o espanhol.
Após os longos séculos em estado vegetativo forçado do galego ou galaico-português; o português atual é a continuação natural do galego, é a referência senão totalmente, quase total do que o galego seria, se livre do isolamento e imposição do espanhol. No vasto mundo lusófono existem variedades que entre si, e sendo a mesma língua, diferem muito mais do que por exemplo o galego de Compostela e o ‘galego’ do Porto. Portanto, o português, o galego, ou galegoportuguês, ou lusofonia, usem os rótulos que quiserem, não é estrangeirismo. O espanhol é uma língua estrangeira na Galiza, factualmente.
No vasto mundo lusófono existem variedades que entre si, e sendo a mesma língua, diferem muito mais do que por exemplo o galego de Compostela e o ‘galego’ do Porto. Portanto, o português, o galego, ou galegoportuguês, ou lusofonia, usem os rótulos que quiserem, não é estrangeirismo. O espanhol é uma língua estrangeira na Galiza, factualmente.
O galego na sua forma e uso atuais fez-me lembrar a desafortunada experiência do personagem Victor, em ‘Frankenstein’:
Recriar um ser Humano através da amputação, desmembramento e realinhamento de órgãos vitais e retalhos. O resultado foi um ser híbrido, uma aberração- o galego é essa criação hoje. Mas sob a carapaça disforme, tem ainda o palpitar e a alma dum povo e é mais que tempo de abandonar a experimentação; aceitar o galego na sua nudez, deixá-lo erguer-se com dignidade, com orgulho.
A Internet, e a globalização, costuma ser colocada como uma impulsionadora da substituição linguística em casos como o galego e, ao mesmo tempo, já não há montanhas distantes onde se refugiar. A presença no ecrã é fundamental para as gerações mais novas, e portanto, para o galego?
A presença no ecrã, nas plataformas, nas redes sociais, informativas e didáticas, é fundamental e devia ser desenvolvida com empenho, com visão face a um mundo que muda a ritmos acelerados e por vezes imprevisíveis. Como pode uma língua minoritária, subjugada e usurpada ao canto, ser um meio interativo, dinâmico e transformativo da expressão e comunicação? Como podem as gerações futuras continuar galegofalantes se tudo é numa (ou várias) fala estrangeira? Dos brinquedos, jogos, contos, séries animadas, funcionári@s da creche, transportes públicos, placards comerciais, bens de consumo no supermercado, lojas de conveniência ou estações de serviço, tudo é noutra língua? Se as gerações atuais galegas (ainda) não renegaram à língua-mãe e querem realmente salvá-la, eis a hora de agir, em união e com garra… ou tornarem-se hispanofalantes e esquecer o galego duma vez.
Após a tua pesquisa, quais foram as descobertas que mais te admiraram?
O facto de o galego não ter sido usado na forma escrita durante uns quatrocentos anos.
Como a manipulação política pode dissolver a memória coletiva e erradicar culturas, completamente.
Como uma língua ou cultura ousa crer-se superior só porque é mais numerosa.
Como em contraste, a língua dum povo não morre, luta sempre e se alça e renasce das cinzas porque essa língua materializa a alma, a identidade, a essência desse Povo.
