Por Adela Figueroa Panisse
A Casa da Peça, no Val do Neira.
Da casa, o vale abre-se até onde alcança a vista como se uma ave voasse a rentes do chão . Os nossos olhos a voar baixinho sobre os panascos, as casas, os caminhos, impulsam para remontar o voo que permite chegar até às montanhas onde se ocultam Bezerreá e as Nogais. Caminho de Castela. Um formosos lugar para fazermos uma fornada de verão.
Na véspera já Filomena preparara o fermento para que levedasse fervendo toda a noite.
O dia estava bom. Não chovia nem fazia sol. Ideal para roxear um bom forno. Manolo, um vizinho, nisso demonstrou-se experto. Mas teve que aguardar até à tarde para mostrar-nos a sua experiência. Era necessário que a farinha fosse amassada com o fermento. Água quente e farinha centeia. A se misturar na artesa que deveu ver muitas fornadas na sua vida. Artesa de madeira de castanheiro, resistente e reja. Boa para guardar a massa do pão e os bolos já cozidos.
Não é assim tão fácil prepar a massa. Filomena como uma ‘comandanta’ ia dando instruções e conselhos. De vez em quando dizia: «- vem cá e aprende como se faz. Vê? Remexe-se bem . Finca com os punhos, que não fique nada sem se misturar».
Logo que conseguiram misturar farinha e água acrescentadas à massa da noite anterior, cumpre fazer dançar aquela grande medusa branca dentro da artesa.
Finca uma mão depois da outra, com os dedos direitos, agora com o punho, mão direita, mão esquerda, dedos de uma mão dedos da outra, punho direito punho esquerdo a gramar no pão.
Como pandeireteiras do centeio ao ritmo da cadência de um passodobre. Ou quiçá de uma canção de berço. As pequenas também queriam meter as mãos na massa. Como não! Uxia, com o seu jeitinho sério e responsável de oito anos maduros; Marta, jogueteira e despreocupada; Sabelinha, com aquelas mãos de quatro aninhos mimosas. Todas aprendemos a voltar os nacos de massa que Filomena ia cortando quando o total já não se podia mover com soltura. Troço a troço, voltados e dançados foram-se apilhando no extremo da artesa. Cada um cima dos outros. Massa sobre massa. Bem misturada, bem golpeada bem torcida. Tronl-tronl duas mãos dentro da artesa até cansar ao centeio feito pasta de fartura.
Lá ficou, no escuro, guardado na caixa de castanheiro, como a crisália duma borboleta. Repousando em silêncio na soidade do dragão que não quer que o acordem antes de tempo.
Enquanto a grande ameba dormia, a gente deu um bom descanso e lazer à volta da boa mesa da Casa da Peça. Repolos e cabacinhos, tomates e leitugas, cebolas e ovos, tudo da horta. Cozinha da Montse e caldo da Filomena, que, abofé, é a sua especialidade pelo gostoso que sabia. Como dizem em Lugo: Mau!
Quatro ou cinco horas passadas , há que ir abrir a caixa dos segredos. Vamos ver aquela mistura de centeio, sal e água. Como uma ameba gigante conseguira reptar pelo fundo de madeira fazendo como uma colada de lava de alimentar. Os olhos abriam-se dentro da massa e o recendo a fartura enchia o pendelho do forno. A artesa ia ser agora acarinhada e golpeada por mãos experientes e torpes graças a ter guardado aquele tesouro odoroso. A artesa parecia diferenciar bem umas das outras. Os movimentos precisos de Filomena e da sua bem ensinada Montse e os torpes das outras.
Manolo já prendera o lume. Com uma vara longa ia o movendo dentro do forno. Há que o aquecer por toda parte igual porque as pedras que ficam em baixo do fogo não aquecem. Por isso o varal longo e comprido movia o lume de uma parte para a outra. As brasas iam caindo à fornela. Lois mediu a sua temperatura, 200ºC! A discussão era acerca do momento em que está pronto o forno para cozer. De roxo tem de passar a branco, baixo a experiente olhada de Manolo. Só quando os tijolos das paredes alcançarem essa cor é que o forno está preparado para acolher os bolos ou o que for.
Cebolas cortam-se umas poucas! E pimentos. Para fazerem de cama a liscos de toucim e chouriço, ou para atum.
Fatias de maçã cortada aguardavam na sua tina para encher outra empanada.
As meninas também trabalharam fazendo os seus bolos. Cadanseu bolo- prenhado com chouriço e toucim com nomes próprios: Uxia, Marta, Sabela…
O rolo de esticar voava. Enrolada no cilindro de madeira a massa esticada fazia de leito do amoado (liscos ou atum) ou maça cortada, ou de tapa para as empanadas. Todas aprendemos a fazer pães sob as instruções da Filomena, transformada em mestra, comandante ou monitora.
Finalmente foram 14 bolos três empanadas e quatro bolos prenhados. O forno bem varrido com a vassoira de giesta, ficou cheio. Lois calculou-lhe a temperatura, aproximadamente 400º no inicio da fornada descendo a 200º antes de fechar a porta.
Lá têm o costume de lhe dar a volta as empanadas. Eu nunca vira. Mas o resultado final ficou muito bom. Os pães de centeio, da casa, bem olhados e as empanadas ricas e gostosas. Foram mãos experientes. Com muitas fornadas ao lombo. De épocas em que não se comprava pão para a casa. Só se comia o que se cozia no lar. Tempos em que uma mulher só era capaz de fazer todo o trabalho: ir ao moinho para a farinha, amassar, roxear, varrer, fazer os pães, as empanadas, metê-las no forno, atender as crianças que andavam ao redor,e tirar a fornada quando estiver pronta. Guardar todos os bolos para que durassem o tempo entre duas fornadas… eqquanto os homens estavam fora, na Suíça ou na França, em Barcelona ou Bilbau, ganhando um dinheiro necessário para que as famílias melhorassem a suas vidas.
Hoje é um trabalho bonito. Próprio das férias , ou de um fim de semana em que os amigos se juntam para lembrarem os velhos ofícios. E para gozar com os sabores autênticos de outros tempos que agora já não há. Para que as crianças de hoje saibam como se pode sobreviver sem supermercados e aprendam o recendo e sabores que guardamos no fundo das nossas memorias e as vivências doutrora em que, como elas, fazíamos bonecos de pão para meter no forno enquanto os maiores faziam com seriedade a comida de muitos dias. Tempos em que os vizinhos se juntavam para se ajudarem os uns aos outros, porque tudo se fazia na casa e o trabalho e lazer iam juntos e eram compartidos.
Hoje sabemos que o pão vem sempre à nossa casa, mas também agradecemos um dia de convívio a partilharmos uma tarefa tão formosa como o é a de fazer uma fornada. Graças porque ainda o pudemos levar a cabo.
