Um Conto para o Natal: A volta do Apalpador

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Por Concha Rousia

– Então o que vai ser?

– Como que então o que vai ser?! Estamos aqui para vós me ajudardes a mim, que já não aturo mais o gordo esse a me roubar…!

– É claro que sim, nós também o vemos…

A reunião estava a ter lugar no anexo da Taverna do Elias; a antiga cozinha velha na atualidade é apenas armazém de bebidas e calendários atrasados, o lume aquece apenas memórias passadas. À penumbra que os acolhe chegam as vozes dos jovens que hoje se reúnem na do Elias para o Texas hold´em, e é graças ao barulho que criam que ninguém tenha reparado ainda neles…

 

 

– Pois eu digo que o sequestremos, eu pouco posso ajudar… ora, polo menos dou a ideia –a que falara fora a Galinha-dos-dentes que já quase tem renunciado a achar dente nenhum, desde que apareceu o rato esse que os apanha todos. É claro que ela nunca apanhou muitos porque na cinza, que é onde a gente os botava, eram maus de ver… mas ela sempre fez o seu trabalho de os procurar, dente que achava, dente que papava, e por causa disso depois o novo dente que nascia no sítio desse vinha torto… – Muito mal falavam de mim, e olhai o que vos digo, eu nunca na minha vida vim tanto dente torto nem tanta gente com ferrancho nos dentes como se vê agora…

– Deixai-vos de dentes e vamos ao que temos que tratar…

– Tu não podes muito mas eu posso-lhe meter uma boa mocada na cabeça que o fodo –o que falara fora o Homem-da-moca, mais conhecido por Pedro-o-chosco nas terras por onde andam hoje.

– Vá ajudantes que me botei! Uma galinha à procura de dentes e um meio cego, estou apanhado!

– O que conta é o trabalho em equipe, vereis –continuou a Galinha-dos-dentes, era uma formosa galinha branca, como o nácar, a crista deitada mesmo a dissimular a sua olhada- eu posso ir vigiar onde é que se vai colocar o velho gordo este ano –chamavam-lhe assim porque muito respeito não lhe tinham, e também para que ninguém soubesse que se estavam a referir a ‘Santa Claus’ ou ‘Pai-Natal’ ou ‘Noel’ ou como quer que se chame a esse impostor que está a deixar sem trabalho ao Apalpador, que se queixa com razão- depois que eu saiba onde ele vai ficar vais tu –diz olhando para o Homem-da-moca- e escondes-te debaixo do alpendre, que lá sempre há de haver largueza, e quando ele se vá empoleirar sais tu e metes-lhe uma mocada na cabeça, ora tens que lhe dar com força, não como as mocadinhas para adormecer as crianças…

– Aió, que eu doutra cousa não, mas de mocadas entendo! Embora, como bem sabeis, já não impressiono ninguém, agora as crianças estão sempre olhando para a televisão ou a Play e não consigo apanhá-los com a minha moca que só funciona na penumbra… dantes nas cozinhas, como esta na que estamos hoje, quando foi cozinha, com o calor do lume e os contos dos velhos enchia-me eu de os fazer topenear com as mocadas…

– Deixai de tanta lamentadela e continuemos com o meu que já vejo que tendes meio plano feito, o que ainda não vejo é onde é que encaixo eu…

– Tu encaixas a seguir; nós tiramos o gordo da ‘Aira Central’ e…

– É ‘Área Central…’

– É que mais terá isso, eu é que sigo a pensar nas airas que aí era onde eu apanhava os dentes todos, dente que caia na lama, dente que eu papava, mesmo que me levasse dias encontrá-lo…

– Calai, que sinto vir alguém… –a porta abriu-se e entrou a Áurea arrastando os pés, com uma garrafa vazia de litro e meio de Coca-Cola na mão e o seu monólogo ao que eles já estão acostumados… A Áurea aproximou-se da pipa do vinho, colocou um funil na garrafa e encheu-a enquanto ia arranjando o mundo… Fechou a bilha do vinho, enroscou a tampa da garrafa, olhou para o recanto onde eles se encontram, em silêncio agora, e disse: ai ai ai, que iremos fazer…?! E foi-se embora.

– Penso que nos sentiu…!

– Não vos preocupeis pola velha que a ela ninguém faz já caso, vamos ao nosso… Tu –diz olhando para o Apalpador- aguardas por nós no subterrâneo da Aira-Central que eu te hei de avisar quando o caminho fique livre; depois acho que devias vestir as roupas vermelhas do gordo para te dissimular, que a gente por aqui está afeita a ele e…

O Apalpador suspirou com pesar e depois falou…

– Não é que eu goste de sequestrar gente mas é que, caralho, não me deixam outro caminho; eu enquanto tive meninhos polas aldeias não dei queixa, e até tolerei que ele se fosse metendo nas cidades, mas é que agora já não posso mais suportar…

– Deixa-te de parvoíces e sentimentalismos, ele é um impostor, e o teu dever é devolver à gente o que é dela, e eu estou certa que com o passo do tempo, quando vejam o grande que tu és, ninguém se vai lembrar do gordo… –O Apalpador esticou o seu grande corpo de gigante com rosto de felicidade-

– Não cantemos vitória ainda.

***

 

Dias depois, na Área Central, tudo foi levado a cabo como tinham planejado; esperaram a ‘Santa Claus’ detrás do alpendre, ao pé das escadinhas, e antes mesmo de que se subisse deram-lhe a mocada que o deixou desorientado. O Apalpador vestiu rapidamente as suas roupas e subiu no seu lugar. A Galinha e o Homem-da-moca foram depois correr dali o homem que ia fazer de Santa Claus, que resultou ser mais bem magro, a gordura era apenas algodão… ‘Eu digo que o metamos num destes carros do supermercado e o botemos a rouchar pola costa abaixo…’ ‘Não podemos fazer isso… eu digo que o levemos e que façamos chouriços com ele’ –riu Pedro-o-chosco…

– Deixai-me ir e eu prometo não dizer nada a ninguém –disse com tom de preocupação olhando para os seus sequestradores… sem saber com certeza se seriam reais ou efeito da sua bebedeira…

– Está bom, deixamos-te ir, mas se apareces por aqui já podes ir pensando em passar pola máquina dos chouriços…

– Dou-vos a minha palavra de que não vou dizer nada e de que não vou voltar por aqui… –ia dizendo enquanto corria a caminho de quem sabe onde…

A Galinha-dos-dentes e o Homem-da-moca voltaram com grande satisfação para lhe contar ao Apalpador o acontecido, mas eles não imaginavam o que lhes esperava…

– Não posso acreditar o que os meus olhos estão a ver!

– O que é oh? Há gente lá com ele?

– É ele…

– Já sei que é ele, mas a gente não o sabe…

– Não, não, a gente sabe-o… ele não leva o disfarce!

– O quê?! Como que não leva o disfarce, ele não está bom?!

– Temos que nos achegar e falar com ele.

– Sim, temos, mas agora ainda há muita rapaziada à espera das suas apalpadelas… devemos aguardar.

 

 

Quando o caminho ficou livre correram a ver que explicação lhes podia dar o seu amigo…

– Eu, tal como tínhamos acordado, e vós bem me vistes, mesmo que me amolava vesti as roupas essas vermelhas –diz apontando para debaixo das escadinhas onde o disfarce de Santa Calus ficava todo amachucado- eu sou homem de palavra; ora, depois passou-se algo que me fez tirar aquela falsidade e deixar de parecer o que não era…

– E o que foi que se passou? Conta, conta…

– Chegou uma meninha… foi vê-la e partir-se-me a alma, ela fez-me a lembrar todas as crianças que levo apalpado em toda a minha longa vida de Apalpador… Teria uns quatro aninhos, muito olhava para mim mas não se achegava… passou mais de três ou quatro vezes por aqui… a sua mãe perguntava-lhe se queria subir ao colo do ‘papá-noel’ mas ela recusava acenando com a cabeça enquanto olhava para mim com uma intensidade que eu mesmo me sentia despir com aquela olhada… Então decidi que se a meninha voltava por ali eu tinha que conseguir que ela se aproximasse de mim… Meu dito meu feito, ainda estava pensando naquilo quando a vejo vir lá na volta, eu, sem pensar, tirei as barbas e o casaco vermelho… Então vi como ela, já desde longe, olhava e apontava com o dedo enquanto gritava: ‘Mãe… olha, o Apalpador…! Vamos corre…! Agora posso pedir o meu desejo…!’ –Subiu ao meu colo sem a mãe ter que lhe mandar… Nos olhos da mãe brilhou uma luz que eu já não recordava ter visto desde há muito tempo…

– Que queres do Apalpador? –perguntei.

– Quero que a minha mãe volte a ser como era antes… –aí calou, fez uma pausa e continuou-  desde que eu fui para o hospital não sei o que se passa com ela… –Enquanto a meninha falava eu não parei de olhar para a mãe… A meninha despediu-se com um abraço apertado, apertado, notei que debaixo do seu gorrinho não tinha cabelo; depois olhou para a sua mãe, que naquele instante tinha no rosto um sorriso do tamanho do mundo, e de novo olhou para mim com a sua pequena carinha iluminada onde eu lia um gigantesco ‘obrigada’; eu prometi-me, por meu honor de Apalpador, nunca mais me disfarçar…

– Pois ainda bem, porque parece que só de levar o disfarce já che começava a afetar, e isso que foi apenas umas horas…!

– Porque dizes isso?

-Porque parece que isso de te vestires como o outro che começava a afetar à cabeça, parece como se mesmo che começassem a ferver os miolos… –sorriu a galinha-

– Como a ferver?

– Sim, também digo, deve ser pola Coca-Cola –riu o Homem-da-moca- estás feito um sentimental!

– Boh!

– Oi, e ninguém se estranhou ao ver que tu não eras ‘Santa Claus’?

– Pois ao pouco de eu estar aqui apareceu o representante da comissão que contratara o outro e ameaçou-me com não me pagar se não vestia corretamente, como estava estabelecido no contrato; eu disse-lhe que trato feito! E não voltou. De vez em quando aparece algum que pergunta: e logo esse quem é? Mas sempre há alguém que lhe responda: É o Apalpador.