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A TRILOGIA DE PASOLINI PARA COMEMORAR O DIA DO LIVRO

Em muitos lugares do planeta a 23 de abril celebra-se o Dia Mundial do Livro. Este é um evento comemorado todos os anos no dia 23 de Abril, e organizado pela UNESCO para promover o prazer da leitura, a publicação de livros e a proteção dos direitos autorais. O dia foi criado na XXVIII Conferência Geral da UNESCO que ocorreu entre 25 de Outubro e 16 de Novembro de 1995. A data de 23 de Abril foi escolhida porque nesta data do ano de 1616 morreram  Miguel de Cervantes, William Shakespeare e  Garcilaso de la Vega. Para além disto, nesta data, noutros anos, também nasceram ou morreram outros escritores importantes como Maurice Druon, Vladimir Nabokov, Josep Pla e Manuel Mejía Vallejo.

Todos os anos são organizados uma série de eventos ao redor do mundo para celebrar o dia. Além de homenagear várias obras literárias e seus autores, o Dia do Livro também busca conscientizar as pessoas sobre os prazeres da leitura. No Dia Mundial do Livro também é celebrado o dia dos Direitos de Autor. A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) criou a data do “Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor” para encorajar as pessoas, especialmente os jovens, a descobrirem os prazeres da leitura, e a conhecerem a enorme contribuição dos autores de livros através dos séculos. Uma tradição catalã ligada aos livros já existia no dia 23 de abril, e parece ter influenciado a escolha da Unesco. Na tradição catalã, no dia de São Jorge (23 de abril), é costume dar uma rosa para quem comprar um livro. Trocar flores por livros já se tornou tradição noutros países também.

O livro é um dos elementos essenciais para o desenvolvimento da cultura e da civilização humana. Sua origem perde-se na história humana, desde a época em que eram feitos de argila e escritos com caracteres cuneiformes, na Assíria, ou no Egito, escrito em papiros feitos manualmente, ou ainda em pele de animais em outras civilizações. Os primeiros livros impressos, no entanto, têm uma origem certa: foram feitos no Oriente, na China e no Japão, utilizando tipos móveis, invenção que Johanes Guttenberg aplicou na Europa, em 1438, quando conseguiu reproduzir automaticamente as páginas dos primeiros livros ocidentais. O primeiro livro impresso por Guttenberg foi a Bíblia, ainda hoje o livro mais produzido no mundo. Hoje o livro possui um importante papel na educação. É um fato constatado que todo ser humano que lê, que busca contato com a literatura desde criança, consegue desenvolver melhor suas capacidades inteletuais, aprende melhor, escreve melhor, comunica-se de forma mais coerente e conexa. A leitura faz do ser humano o que ele é na sua vida adulta, desenvolve sua criatividade e sua imaginação e, o mais importante: leva cultura a quem o lê, traz conhecimentos e valores morais a quem mergulha em suas páginas. Uma criança que aprende a ler desde a infância fica melhor preparada para a vida, conseguindo interpretar e compreender melhor o mundo que o rodeia da mesma forma como interpreta os sinais que representam a palavra. A leitura ainda desenvolve o vocabulário, tornando a pessoa mais fluente, conseguindo estabelecer conceitos mentais, ou seja, fazendo com que a mente trabalhe de uma maneira mais satisfatória, estabelecendo a compreensão da consciência. Nesse processo, podemos enfatizar que a leitura é um processo interativo, onde a mensagem do autor alcança quem o está lendo.

O dia 23 de abril é especialmente comemorado nas escolas, uma vez que a UNESCO pretende, com isso, incentivar o gosto pela leitura. As escolas, nessa data, programam diversas atividades para incentivar a leitura, como a leitura de livros em sala de aula em voz alta, grupos de alunos escrevendo uma história, trabalhos voltados para a biografia de grandes escritores do mundo ou resumo de livros indicados pelos professores, de acordo com a faixa etária dos alunos. 

pasolini-foto-do-cineastaEntre os anos 1971 e 1974 o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini realizou três lindíssimos filmes, baseados noutros três lindos livros de contos, famosos dentro da literatura universal. Os filmes foram premiados em vários festivais, com todo o merecimento. Esta trilogia fílmica de Pasolini pode servir para promover entre os jovens o prazer por ler, um tema realmente importante a que todos devemos dar prioridade, tanto os pais, como os docentes e também os meios de comunicação.

FICHAS TÉCNICAS DOS 3 FILMES DE PASOLINI:

1. O Decamerão (Il Decameron). Itália, 1971, 112 min., cor. pasolini-o-decamerao-cartaz

Roteiro: P. P. Pasolini, segundo o livro de cem contos de Giovanni Boccaccio, escrito entre 1348 e 1353. Fotografia: Tonino Delli Colli. Música: Ennio Morricone.

Prémio: Urso de Prata e Prémio especial do Júri, no Festival de Berlim de 1971.

Atores: Franco Citti, Ninetto Davoli, Pier Paolo Pasolini, Angela Luce, Patrizia Capparelli, Silvana Mangano e Guido Alberti.

Argumento: Coletânea de nove contos do Decamerão de Giovanni Boccaccio: um jovem rico é duplamente enganado; um rapaz finge ser surdo-mudo para conseguir emprego como jardineiro num convento; uma mulher tenta esconder seu amante quando o marido chega mais cedo em casa; um malandro engana um padre em seu leito de morte; irmãos que querem se vingar do amante da sua irmã; um padre astuto tenta seduzir a mulher de seu amigo; dous pilotos com medo do inferno; uma jovem dorme no telhado para encontrar o namorado à noite e um pintor em busca de inspiração para criar uma obra de arte.

A estrutura do Decamerão, obra-prima de Boccaccio, é formada por um conjunto de cem contos, divididos em dez “jornadas” – onde dez jovens narradores se revezam em torno de um tema no qual cada um deve expor uma história que seja com este relacionada. A primeira jornada começa por uma descrição dos efeitos da peste negra nas cidades, e assim justifica a razão para o encontro casual, em pleno campo, dos dez rapazes e moças de Florença, que darão voz às histórias. Eles se dirigem para um local, a duas milhas da cidade, onde encontram um palácio curiosamente vazio e arrumado, dotado de excelente adega. Ali será o palco de o Decamerão. Eleita Pampineia para dirigi-los na primeira noite de histórias, esta principia dando ordens aos criados de cada um, dividindo as tarefas para o bom andamento das jornadas. O “papel” principal de cada Rei ou Rainha é o de determinar a temática das histórias a serem narradas.

2. Os Contos de Canterbury (I racconti di Canterbury). Itália, 1972, 109 min., cor.

Roteiro de P. P. Pasolini, segundo o livro de Geoffrey Chaucer, escrito entre 1387 e 1392.pasolini-os-contos-de-canterbury-cartaz0

Fotografia: Tonino Delli Colli. Música: Vários autores.

Prémio: Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1972.

Atores: Franco Citti, Ninetto Davoli, Laura Betti, Josephine Chaplin, Pier Paolo Pasolini, J.P. Van Dyne, Derek Deadman, Hugh Griffith e Tom Baker.

Argumento: Um grupo de peregrinos viaja rumo à Catedral de Canterbury, numa longa caminhada que dura dias. Para superar as longas noites sem sono, os viajantes passam a relatar contos eróticos como forma de passar o tempo. Uma afirmação do prazer e da alegria, aliadas à celebração positiva do sexo, do corpo e das pequenas ambições e suas satisfações imediatas.

A aparente simplicidade das narrativas soltas que compõem “Os Contos de Canterbury” é a matéria dramática que Pier Paolo Pasolini usa para desenvolver um tratado de celebração da vida por meio de seus prazeres, desejos, conflitos e imperfeições. Nesse processo está presente uma contundente negação crítica do moralismo reacionário que tanto o incomodava. Assim como nas outros duas longas que compõem a “Trilogia da Vida” o cineasta italiano trabalha a poética visual, a liberdade de encenação e o sentido dos planos para enaltecer o homem em suas caraterísticas mais humanas, instintivas e elementares. Existe no filme uma afirmação do prazer e da alegria, aliadas a uma celebração positiva do sexo, do corpo e das pequenas ambições e suas satisfações imediatas. Para Pasolini, esses elementos são fundamentais para consolidação do eu; são, ao mesmo tempo, alimento para o espírito e para o corpo.

3. As Mil e Uma Noites (Il fiore delle mille e una notte). Itália, 1974, 129 min., cor.

Roteiro: P. P. Pasolini, segundo o famoso livro de contos árabes de autores anónimos.pasolini-as-mil-e-uma-noites-capa-dvd

Fotografia: Giuseppe Ruzzolini. Música: Ennio Morricone.

Prémio: Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes de 1974.

Atores: Ninetto Davoli, Franco Merli, Ines Pellegrini, Franco Citti, Tessa Bouche, Margaret Clementi, Francelise Noel, Ali Abdulla, Christian Aligny, Francesco Paolo Governale, Abadit Ghidei, Giana Idris, Alberto Argentino, Salvatore Sapienza e Fessazion Gherentiel.

Argumento: Um homem começa uma viagem à procura de sua amante, uma bela escrava chamada Zumurrud, que foi raptada por um ser de olhos azuis. No caminho de sua longa busca, seu caminho vai cruzar com uma série de outras personagens envolvidas em traições, cobiças e desejos. Nesta produção inspirada nos contos eróticos do Oriente Médio, a trama centra-se no jovem inocente Mur-el-Din, que se apaixona pela escrava Zumurrud, a preferida de seu patrão. Quando ela é raptada, o jovem parte numa longa busca. Várias outras histórias são incluídas na narrativa – oc conto do califa Harun e da rainha Zobeida, que fizeram amor sob o olhar pasmo dos soberanos do deserto; a história de Aziza e Aziz com seu romance maldito; entre outras.

As Mil e uma noites é o título de uma das mais famosas obras da Literatura árabe, reunindo uma coleção de contos escritos entre os séculos XIII e XVI. O que deixa o leitor interessado em ler todos os contos é o fato deles serem interligados, isto é, um é complemento do outro. A obra conta a história do rei Périsa, da Pérsia, que traído pela esposa mandou matá-la, desse momento em diante decidiu passar cada noite com uma mulher diferente, que era degolada na manhã seguinte. Dentre as várias mulheres que desposou, Sherazade foi a mais esperta, iniciou um conto que despertou o interesse do rei em ouvir a continuação da história na noite seguinte. Com sua esperteza, Sherazade escapou da morte e, para continuar vivendo, escreveu mil e uma noites. As Mil e uma Noites se tornou conhecida no ocidente a partir de 1704, graças ao orientalista francês Antoine Galland. O livro passou por diversas adaptações, a versão atual se baseia nas traduções de Sir Richard Burton e Andrew Lang, nessa as cenas mais “ardentes” foram eliminadas ou modificadas, ganhando um contexto menos sexual. Praticamente todas as histórias se passam na região que corresponde ao Egito e a Pérsia.

BIOGRAFIA DE PASOLINI, POR EMERSON SANTIAGO:

Pier Paolo Pasolini (Bolonha, Itália, 5 de março de 1922 –  Óstia, Itália, 1-11-1975) foi um escritor, poeta e cineasta italiano. Era filho de Carlo Alberto Pasolini, militar de carreira e Susanna, professora do primeiro grau em Casarsa della Delizia, Friuli, norte da Itália. Terminada a Segunda Guerra Mundial, Pasolini foi o inteletual mais controverso da Itália. Em 1949, em Bolonha, foi expulso do sistema educativo por sua condição de homossexual e também excluído do Partido Comunista. Antes de ficar famoso como cineasta, foi poeta e novelista. Entre suas obras mais conhecidas estão “Meninos da Vida”, “Petróleo” e “Uma Vida Violenta”, onde o tema central é o indivíduo que leva a vida à margem da sociedade.

Mais tarde, trabalhou como jornalista e roteirista para diretores como Fellini, entre outros. Seguiram-se os primeiros longas, “Accattone” (1961) e “Mamma Roma” (1962), ainda claramente influenciados pelo neorrealismo italiano, cujo foco central são histórias com personagens das classes mais humildes. Seus filmes posteriores revelaram toda a sua sensibilidade e delicadeza; alguns deles abordam também temas clássicos e antigos como por exemplo, Medéia, em 1969, com Maria Callas. Seu último e mais provocador filme foi Saló ou Os 120 dias de Sodoma (1975), onde Pasolini adaptou livremente uma obra de conteúdo semelhante do Marquês de Sade (“Les 120 journées de Sodome” or “L’école du libertinage”) ambientando-a durante o curto período de existência da República fascista de Salò, estado fantoche da Alemanha nazista. O resultado é um arrebatador conjunto de imagens, sendo um filme forte e controverso ainda nos dias de hoje, décadas depois de sua realização. O diretor filmou ainda Decamerão (1971), Contos de Canterbury (1972), que recebeu o Urso de Ouro do Festival de Berlim, e As Mil e Uma Noites (1974).

Grande ativista nos debates que movimentaram a classe artística italiana, acossada pelo conservadorismo político nos anos 1960 e 70, ele usou caneta, câmera e voz para se posicionar. Merece destaque ainda seus estudos para a promoção da língua de onde era natural, o friulano, na qual escreveu vários poemas. Pasolini distinguiu-se como um poeta, jornalista, filósofo, linguista, romancista, dramaturgo, cineasta, jornalista, colunista, ator, pintor e figura política.

Na madrugada de 2 de novembro de 1975, seu corpo é encontrado em um terreno baldio em Ostia, nos arredores de Roma. Algumas horas depois, Giuseppe Pelosi, garoto de programa de 17 anos de idade, foi preso em alta velocidade no volante do Alfa Romeo de Pasolini. Pelosi alegou que havia matado Pasolini em legítima defesa após o mesmo ter tentado sodomizá-lo com uma vara. Após um longo julgamento, Pelosi foi considerado culpado em 1976 e condenado a nove anos de prisão.

pasolini

PEQUENA PROPOSTA DE ATIVIDADES EDUCATIVAS PARA COMEMORAR A DATA:

1. Estes livros procuram leitores:

  Espaços destinados à doação, troca ou retirada de livros. 

2. Poema-Gigante:

Criação coletiva de um poema-gigante

3. Caminhos da poesia:

Poemas dispostos no chão, colados e ou adesivados.

4. Varal de minicontos:

Exposição de minicontos feitos pelos alunos

5. Sarau literário-musical:

A cargo de alunos voluntários das diferentes turmas.

6. Concurso de Poesia:

Aberto à participação de todos os escolares.

7. Concurso de frases: A Minha história inesquecível:

Frase com até 150 carateres, dizendo o significado que determinada história teve na sua vida (a ser depositada na biblioteca do colégio, escola ou liceu).

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorâmicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço, truques cinematográficos, etc.) e o fundo dos três filmes de Pasolini antes resenhados.

Organizamos no nosso estabelecimento de ensino, com a colaboração dos escolares e dos professores, uma ampla amostra monográfica dedicada ao Livro: a sua história, livros famosos, autores importantes da literatura universal os livros mais editados e traduzidos, etc. Terá que incluir, ademais de textos e trabalhos dos estudantes, fotos, desenhos, murais, frases e livros e revistas. Paralelamente podemos organizar um Certame Literário de contos, relatos e poemas, tomando o livro como tema principal.

De comum acordo entre todos, alunos e docentes do nosso estabelecimento de ensino, escolhemos para ler por todos um dos três livros em que se baseiam os filmes de Pasolini. Depois de lido, organizamos um Livro-fórum, ademais de ver o filme para poder estabelecer comparações entre a obra literária e a cinematográfica.

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