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A sociedade multiétnica e a integração de estudantes no filme “A turma”

Por José Paz Rodrigues (*) – Premiado com a Palma de Ouro no festival de Cannes, o filme A Turma (Entre les Murs) retrata o quotidiano de uma turma ou classe multiétnica de um liceu (instituto) francês e baseia-se num livro de François Bégaudeau, que interpreta o papel de professor, contracenando com atores não profissionais.

Amostra a realidade que hoje temos, por exemplo, no nosso país. Embora sejam as comunidades do Mediterrâneo as que acolhem a mais estudantes de diferentes nacionalidades, etnias, culturas e religiões, de uns anos para cá também na Galiza temos muitos estudantes de outros países. Na Nossa Terra existem várias comunidades de imigrantes, entre as que destacamos a senegalesa, a equatoriana, venezuelana, dominicana, colombiana, argentina, chinesa, brasileira e marroquina. É já muito normal não encontrar aulas, mesmo nas de centros de ensino concertados, em que não exista algum estudante pertencente a alguma das comunidades citadas. Isto obriga os docentes de todos os níveis a desenvolver estratégias didáticas adequadas, para que a convivência nas aulas seja positiva e se desenvolva num clima de tolerância e respeito, pola lógica diversidade étnica, cultural, religiosa, idiomática e de valores humanos.

Infelizmente, embora devesse existir, hoje em dia não há uma formação inicial dos docentes com um plano específico formativo para desempenhar bem o labor docente em aulas multiétnicas. Das quais no futuro vai haver mais e teremos estudantes de outras nacionalidades novas, nomeadamente da Ásia. O professor que aparece na aula como local da ação do filme que hoje comento, tem que desenvolver o seu labor com alunos variados, mesmo com um chinês. Utiliza a estratégia didática da língua para avançar, e não atinge no final todas as metas, com insucesso em algum aluno, da geração “parva”. No filme também vemos o difícil que hoje é ser bom docente e levar para a frente positivamente a sua turma.

 

Ficha Técnica do Filme:

Título original: Entre les murs (A Turma)

Diretor: Laurent Cantet (França, 2008, a cores, 128 minutos)

Atores: François Bégaudeau, Franck Keita, Rachel Régulier e Vincent Caire.

Argumento: François, um professor, e os seus colegas, preparam-se para um novo ano escolar no liceu de um bairro problemático da cidade de Paris. Cheios de boas intenções, estão decididos a não deixarem que o desencorajamento os impeça de tentar dar a melhor educação aos seus alunos. As culturas e as atitudes diferentes frequentemente colidem dentro da sala de aula, um microcosmo da França contemporânea. Apesar de divertidos e inspiradores, tanto quanto os adolescentes podem ser, o seu difícil comportamento pode, no entanto, pôr em causa o entusiasmo de um professor polo seu trabalho mal pago. François insiste numa atmosfera de respeito e empenho. Sem ser rabugento ou inflexível, a sua extravagante franqueza surpreende muitas vezes os alunos. Mas a ética da sua sala de aula é posta à prova quando os estudantes começam a desafiar os seus métodos.

 

 

Análise do Filme:

Convencido de que a aprendizagem da democracia pode implicar certos riscos, o filme é antes do mais a crónica da vida numa turma. Uma comunidade de 25 pessoas que não escolheram estar juntas, mas que hão de trabalhar entre quatro paredes durante um ano escolar. O jovem professor de língua francesa é docente num instituto difícil. Os seus alunos têm entre 14 e 15 anos, e não duvida em enfrentar-se a Souleymane, a Esmeralda, a Khoumba e aos demais companheiros, com estimulantes batalhas verbais, fazendo da língua um jogo e uma estratégia didática. As perguntas e as respostas, embora equívocas, servem para pôr em jogo a inteligência dos estudantes.

O filme não tenta proteger uns e atacar outros, pois todos podem ser débeis, brilhantes, graciosos e mesquinhos. Cada um pode ter momentos clarividentes, obscuros, injustos ou de lucidez. Por isso nas aulas há bons momentos e outros maus, felizes ou com desalento. São poucos os docentes que se arriscam diante dos seus alunos como o docente protagonista do filme A Turma. Não se arriscam a equivocar-se ou fracassar. É mais fácil transmitir o saber por meio de uma aula magistral, do que tentar fazer participar todos os estudantes para que possam refletir e serem conscientes das cousas e do mundo. É necessário nos docentes ter paciência e sangue frio. Uns companheiros docentes criticam-lho e outros invejam este docente. É o que acontece em todos os centros de ensino do mundo. Mas, é muito bom ter docentes que inovam o seu ensino e que, seguindo a pedagogia da Escola Nova, a sua aula é um laboratório de pedagogia prática.

 

 

Aspetos a observar:

– A metodologia didática e as estratégias que o docente principal utiliza na aula com os seus alunos. Muito similar ao método chamado socrático, que o grande Sócrates usou na Grécia antiga.

– O difícil que é desenvolver o labor docente em aulas multiétnicas, com estudantes de diferentes culturas, etnias, nacionalidades, religiões, idiomas e formas de ver a vida. Temas a que há que acrescentar os problemas normais das famílias e da educação familiar, positiva ou negativa.

– O importante que é a formação inicial dos docentes, e que deveria existir uma formação específica para ensinar a estudantes filhos de imigrantes, procedentes de nacionalidades diversas. Também o básico que é que nos centros educativos os docentes funcionem em equipa. E ter muita paciência e refletir.

 

 

(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.

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